quarta-feira, 3 de outubro de 2012

AS CIÊNCIAS DA TERRA NA ANTIGUIDADE (1)

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, que será publicado em três partes. Eis a primeira parte (a segunda pode ser encontrada aqui e a terceira aqui)


                     Academia de Atenas, numa pintura de Rafael. Ao fundo e ao centro Platão e Aristóteles

Limitando-nos às ciências da Terra, nas suas múltiplas disciplinas, e ao mundo mediterrâneo, berço da nossa civilização, foi na Grécia antiga que surgiram os primeiros textos envolvendo temas desta importante área do conhecimento, incluídos na chamada Filosofia Natural.

A grande influência dos filósofos e poetas gregos no pensamento da Europa cristã (através das suas obras originais ou das traduções destas, feitas, mais tarde, por judeus e árabes), também se fez sentir nalguns temas incluídos nas ciências da Terra. Ao tempo, a chamada Filosofia Natural especulava acerca da natureza, ou seja, do universo físico. De início, não dava grande ênfase à descrição dos objectos e dos fenómenos naturais, procurando, sobretudo, chegar à essência dos entes (que possuem corpo), e ao conhecimento das primeiras causas e dos “princípios” (constituintes) do mundo material.

Na linha do pensamento platónico, era uma disciplina mais de elaboração mental do que de observação ou de experimentação. Filósofos gregos pré-socráticos deixaram-nos obra escrita no âmbito da Filosofia Natural, com destaque para Demócrito de Abdera (460-379 a C) e o seu pensamento sobre o atomismo. Para Platão (429-347 a C), o inovador do idealismo e do inatismo, a verdadeira realidade estava no mundo das ideias, das formas inteligíveis, apenas acessíveis através da razão.

Para este discípulo de Sócrates (469-399 a.C), as ideias começavam por ser formuladas no pensamento, sendo o raciocínio e a indução as principais vias para atingir o conhecimento. Interessou-se pelo vulcanismo, uma realidade geológica do seu tempo bem à vista no Mediterrâneo. Admitia a existência de um rio subterrâneo de lama fervente e lava, o “pirofiláceo”, que serpenteava pelo globo terrestre e alimentava os vulcões. Esta mesma ideia já fora divulgada na obra poética do seu conterrâneo Píndaro (518-438 a C), na qual se fala da existência de um canal ardente, o “typhone”, que, em profundidade, ligava a região de Nápoles à Sicília, com ramificações subterrâneas, explicando assim as erupções do Etna e das ilhas Lipari.

Frequentador de Academia de Platão, o astrónomo e matemático Eudóxio de Cnido (390 – 338 a C), foi o autor do primeiro modelo do Sistema Solar, que concebeu como um conjunto de esferas centradas na Terra. Esta hipótese cosmológica geocêntrica, que causou grande impacto sobre a filosofia natural grega, antecipou-se, cerca de cinco séculos, à de Cláudio Ptolomeu.

Ao contrário de seu mestre, Aristóteles (384 - 322 a C) introduziu o pensamento realista, sendo por isso considerado um precursor do empirismo. Para este discípulo de Platão as ideias chegam-nos através dos sentidos, observando, pelo que dava muita importância ao mundo exterior entendido como principal fonte do conhecimento e aperfeiçoamento das capacidades intelectuais. Para ele, o único mundo é o sensível, que é também o mundo inteligível. Este, que foi o fundador do Liceu de Atenas, introduziu o termo “física” (do grego antigo, physis, sinónimo de natureza) em substituição de filosofia natural, e destacou-se pelas suas especulações e investigações no âmbito desta disciplina, tendo influenciado profundamente o cenário intelectual europeu.

Aristóteles foi um notável e influente apoiante do modelo geocêntrico de Eudóxio. Segundo ele, a Terra permanecia estática, com uma geografia imutável, e era, também, o centro do Universo, que considerava praticamente eterno. Atribuía grande estabilidade ao mundo terrestre e, tendo em conta a efemeridade da vida do ser humano, defendia que certas acções naturais, extremamente lentas e imperceptíveis no dia-a-dia, teriam grande expressão com o acumular do tempo, que tinha por incomensurável.

Com este pensamento, o Estagirita (assim chamado por ter nascido em Estagira, hoje Stavro, na Macedónia) antecipou de mais de dois milénios a ideia do cúmulo de um tempo imenso sobre os processos naturais, a que James Hutton, no século XVIII, deu grande visibilidade, a ponto de ser visto por muitos como o pai desta ideia.

Continua.

Galopim de Carvalho 

1 comentário:

Cláudia da Silva Tomazi disse...

Querida Filosofia Natural instrumento da ciência!

"POR UMA IA AO SERVIÇO DO POVO!"

Segunda parte do muitíssimo esclarecedor artigo de André Carmo, recentemente publicado no Maio , jornal online ( aqui ). A primeira parte po...