quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O ENSINO PROFISSIONAL NA ORDEM DO DIA


Meu artigo de opinião saído hoje no Público:

O Ministério da Educação está a preparar cursos vocacionais para o básico para a aprendizagem de ofícios. Logo, aqui, como de costume, surgiu a controvérsia num país em que “a mediocridade é a lei” (João Lobo Antunes) e em que, consequentemente, qualquer tentativa de mudança, mesmo que sob a forma de projecto-piloto, é vista como um atentado a conquistas revolucionárias decretadas em nome de uma sociedade sem classes para que todos os portugueses pudessem ter o “direito” de se licenciarem,ainda que em estabelecimentos de ensino superior privado, para serem cruelmente lançados no desemprego, excepcionando aqueles que fazem ( fizeram ou venham a fazer) parte de algum governo ou se tornem políticos profissionais.

Por acreditar, por experiência docente em início de carreira na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, num ensino técnico exigente e devidamente dignificado (não considerado parente pobre do antigo ensino liceal) repudio algumas vozes que tentam convencer a opinião pública da bondade do boom operado no actual sistema educativo que se traduziu em aumentos exponenciais de cidadãos, de posse de diplomas de ensino superior, que pouco sabem de teoria e muito escasseiam emknow-how.

Reporto-me, portanto, a um ensino técnico capaz de forjar cidadãos que muito se orgulham da escola que os diplomou e do respectivo corpo docente (vindo muitos a diplomarem-se pelos antigos Institutos Industriais e alguns a obterem licenciaturas em Engenharia em Faculdades do Estado), conforme o atestado num agradecimento público - em “site” de antigos alunos da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, de Lourenço Marques - pondo em destaque de gratidão a formação recebida. Transcrevo desse agradecimento:

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca.(…) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

Hoje, o ensino secundário realiza-se em escolas em que se amalgamam alunos das vias científico-humanística, artística e profissionalizante, a partir do 9.º ano de escolaridade, esta, a maior parte das vezes, não como uma opção, mas como forma de dar um novo e tardio rumo a uma vida escolar fracassada e de desilusão em contraste com um tempo de décadas atrás em que os estudantes do ensino técnico tinham verdadeiro orgulho na sua condição que não era melhor nem pior do que a dos discentes do ensino liceal, apenas diferente. Isto,em contraste com os dias de hoje em que alunos do ensino politécnico há que, em busca de um falso prestígio de quem o alheio veste, se referem às escolas e institutos que frequentam dando-lhes o nome de faculdade!

Mas aprofundemos esta temática com a transcrição de Howard Gardner, professor de Cognição e Educação naUniversidade de Harvard e autor da “Teoria das Inteligências Múltiplas” (1983):

“Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis,onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo comesse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, muitas capacidades que nos ajudarão a lá chegar”.

Daí eu encontrar fundamento para que esse ensino passe a ser feito em escolas técnicas independentes, com estatuto e programas específicos e docentes devidamente habilitados para um ensino de componente teórica e outra essencialmente prática a ser ministrada em oficinas convenientemente apetrechadas que se encontram, actualmente, ao abandono em antigas escolas técnicas dum país que se dá ao luxo de ser perdulário em época de declarada crise económica e financeira. Como legou para a posteridade Séneca, “a educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”! Esta, como tal, uma lição a reter e a seguir!

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