sexta-feira, 26 de junho de 2015

Manuel Bandeira: Teadoro, Poesia






 
 
 
 
 
A estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama
Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade

 
Enquanto eu gritava seu nome três vezes
Dois grandes botões de rosa murcharam

 
E o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo

Insatisfeito de Deus.

A realidade e a imagem

O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
e desce refletido na poça de lama do pátio.

Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,

quatro pombas passeiam.


A Lua

A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira

Do luar sobre as águas mansas.


O mar jaz como um céu tombado
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,

A só, silente louca emerge

Das ondas-nuvens toda nua.

 
Lua Nova

Meu novo quarto
virado para o nascente:

meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.


Depois de dez anos de pátio
volto a tomar conhecimento da aurora.

Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.


Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.


Hei de aprender com ele
a partir de uma vez

— sem medo,
sem remorso,

sem saudade.

 
Não pensem que estou aguardando a lua cheia
— esse sol da demência

vaga e noctâmbula.
O que mais quero,

o de que preciso
é de lua nova.


Onda

a onda anda
aonde anda

          a onda?
a onda ainda

 ainda onda
ainda anda

          aonde?
aonde?

 a onda a onda

 
Satélite

Fim de tarde.
No céu plúmbeo

A lua baça
Paira.

Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,

Desmitificada,

Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,

O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão-somente

Satélite.


 Ah! Lua deste fim de tarde,
 Demissionária de atribuições românticas;

Sem show para as disponibilidades sentimentais!


Fatigado de mais-valia,
gosto de ti, assim:

 Coisa em si,
—Satélite.

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