sábado, 4 de outubro de 2014

Que horror: há aulas por essa Europa onde não se usam as TIC!

Foi notícia destacada nos jornais da passada semana a publicação de um relatório cujo título é The NMC Horizon Report Europe: 2014 Schools Edition. Tem a chancela da União Europeia, contou com a contribuição de cinquenta e três especialistas, e agrega de três entidades (European Commission’s Directorate General for Education and Culture; European Commission’s Joint Research Centre – Institute for Prospective Technological Studies; e Media Consortium). A análise, apresentada ao longo de meia centena de páginas, recaiu em vinte e oito países do espaço europeu; a pretensão foi proporcionar orientações para a educação escolar nos próximos cinco anos. São dezoito os artigos. As instituições, académicas afiguram-se respeitáveis.

Se o leitor se interessa pela educação escolar (a educação escolar interessa, afinal, a todos), sugiro-lhe que o abra (aqui) e o "folheie", mas sem os pré-conceitos que se apoderam de qualquer um quando se depara com tão esmagadora apresentação, tendendo logo a pensar que se trata de um documento inquestionável.

Começo pela ideia central, destacada num esquema inicial, Innovative pedagogical practices ou, em português, Práticas pedagógicas inovadoras (página 2).

Propõe-se a inovação, que, afinal, não o é: ideia antiquíssima, que se tornou, nas últimas décadas, gasta e vazia. Mas, para quem nunca pensou no historial e no significado de inovação, nas relações que estabelece com a tradição, nem na sua pertinência, nem em coisa nenhum, esta é daquelas palavras encantatórias que gera, de imediato, concordância, e se isso não acontecer, faz-se saber ao dissidente que está desalinhado, fora do contexto, que tem de se reconverter.

Estas considerações são válidas para o resto do esquema: empreendedorismo, redes sociais, redes com o mundo real, estilos de aprendizagem, aprendizagem formal e não formal, inclusão social e equidade... Tudo segundo o estilo clássico de uma certa linha de conceber a escolaridade.

Detenho-me em três aspectos que me são caros: currículo, aprendizagem e ensino. No currículo leio (tinha de ser!) inteligência emocional; de seguida, multi e transdisciplinaridade, recursos abertos e actividades significativas. Quanto às práticas de aprendizagem, leio: aprender através da exploração, da criatividade, auto-regulação, colaboração entre pares, aprendizagem personalizada; e quanto às práticas de ensino Competências transversais, potencialidades individuais, modos de pensar múltiplos, estilos de aprendizagem múltiplos.

Juntando as diversas partes do esquema, adivinhe o leitor: a inovação pedagógica traduz-se nessas palavras e concretiza-se através das novas, das novíssimas TIC (por extenso tecnologias de informação e comunicação) que mais se aproximam da realidade das crianças e dos jovens. Têm de entrar na escola e na sala de aula telemóveis, tablets, etc.; de se usar Google, Skype, Dropbox, Facebook, Twitter; de se recorrer a jogos, a laboratórios virtuais... E tudo isto urge porque, imagine-se, há muitas salas de aulas por essa Europa fora onde os estudantes ainda não usam o computador!

Até aqui, só (belas) declarações; não se pode ficar por elas, é preciso estratégia. A estratégia é tudo! A sociedade  está convencida (é isto que acha bem e que quer para a educação dos seus filhos, netos e sobrinhos) mas tem se insistir junto de quem tem poder, para que... mande; e manipular (perdão, formar) os professores. Não sou eu que o digo, está lá...
“... este relatório proporciona informações valiosas e orientação para os responsáveis políticos e dirigentes escolares sobre a necessidade de recorrer a recursos digitais e abertos... É fundamental trabalharmos para a melhoria das competências digitais e o acesso aos recursos digitais abertos, para reforçar a qualidade do ensino e para criar modelos educativos flexíveis, tornando assim mais fácil a aprendizagem ao longo da vida", disse a Comissária Europeia da Educação, Cultura, Multilinguismo e Juventude.
Tudo isto deve ficar caríssimo. Pois fica, mas, não nos preocupemos, será financiado por programas e fundos europeus. Uma parte substancial é, já se sabe, para "formar" os professores... online, claro!

Portugal, cujo sistema educativo está como está, destacou, pela voz de representantes da Comissão Europeia, a palavra "premência" na adopção destas medidas. Reconheceu as nossas limitações, mas declarou-as "solucionáveis”. Ficámos descansados!

A avaliar pelas notícias de jornal, ficámos mesmo descansados; nenhum sobressalto transparece nelas. Não há entre os nossos jornalistas quem desmonte este tipo de discurso e do que ele implica na aprendizagem dos nossos alunos!?

Nota. Além do documento citado, para escrever este texto, usei duas notícias de jornal: aqui e aqui.

6 comentários:

  1. Pois é... só que, com a tendência para o exagero, estamos a caminhar para um ensino do "não saber pensar". Estes estudos têm esse defeito, levam os governos a pensar que a educação é só isso, que as tecnologias resolvem tudo. E o raciocínio? E a reflexão? Caminhamos assim para um ensino em que o professor ajuda o aluno a usar todas essas tecnologias, mas não o ensina a usar a tecnologia mais importante: o cérebro. Ligados à máquina para tudo acabamos por criar uma sociedade desumanizada, onde o contacto com o outro, a discussão "olhos nos olhos", a observação das emoções, já não têm valor, porque à distância nada disso se vê.

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  2. Os nossos antepassados usaram o cérebro e foi por causa disso que chegámos à tecnologia.

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  3. O horror é que realmente me sinto excluído, estou excluído no meio de tanta inclusão.

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  4. O horror é tanta inclusão.

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  5. Pergunta a Srª se não haverá "entre os nossos jornalistas quem desmonte este tipo de discurso e do que ele implica na aprendizagem dos nossos alunos". Pois, se calhar, o(s) jornalista(s) que poderia(m) fazer esse trabalho, já deve(m) ser uma espécie em extinção ... dado o tipo de ensino que tiveram, rolando sempre em rampa descendente produzindo formados sem capacidade própria de pensar.

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  6. Recentemente, no concurso de TV “Quem quer ser milionário?”, foi efetuada uma pergunta do género “Em que década do séc XX se deu a grande fome na Ucrânia, conhecida por Holodomor?” (Hipóteses de resposta – 30, 40, 50, 60)

    O concorrente decidiu utilizar a ajuda telefónica.
    Quando estava a meio da leitura da pergunta ao telefone, a sua “ajuda” pede-lhe para ler mais devagar (certamente para poder digitar no google palavra por palavra, que é o que todos fazem hoje em dia, sem pensar em mais nada).
    O concorrente lá foi lendo, palavra por palavra, mas é óbvio que, quando se acabou o tempo limite (30s), nem sequer tinha acabado de ler toda a pergunta!...

    O que mostra este exemplo? Várias coisas:

    1 - Mostra que o concorrente não era muito versado em história recente (embora, em função da questão em causa, isso pudesse não ser considerado particularmente grave);

    2 - Mostra que a “ajuda” padecia da mesma condição do concorrente;

    (a partir de agora é mais grave)

    3 - Mostra que a “ajuda” era analfabeta funcional, pois não era capaz de reproduzir em escrita uma frase completa que tinha acabado de ouvir, necessitando que lha ditassem palavra por palavra!;

    4 - Mostra que a “ajuda” não sabia fazer pesquisas na net, dado que, em vez de escrever frases completas, devia procurar por palavras o mais especificas possíveis (neste caso concreto, a palavra “Holodomor” dar-lhe-ia de imediato a chave para o que procurava…mas seria um problema – teria de se ditar a palavra letra por letra!…);

    5 - Mostra que a “ajuda” deposita a responsabilidade pela supressão da sua ignorância numa tecnologia que nem sequer domina, o que é natural: Se não se esforçou para eliminar a primeira, é natural que não se esforce para dominar a segunda;

    6 - Mostra que a “ajuda”, ao contrário de Sócrates (do original), nem sabe que nada sabe…

    O concorrente acabou por escolher a hipótese “60” (ainda por cima) e perdeu…

    Outro exemplo recente, no mesmo concurso, foi a pergunta “Em que estado americano se localiza a cidade de Corpus Christi?”

    Como explicar em 30s à ajuda telefónica como se escreve “Corpus Christi”? O que é “latim”?! O que é “Corpo”?! O que é “Cristo”?!...

    Enfim, todo um mundo por descobrir, mas a Comissária Europeia diz que não há problema porque existe toda uma “aprendizagem ao longo da vida”…esperemos que a vida seja longa, porque o atraso é muito!

    Recursos digitais abertos – mentes cada vez mais fechadas!

    Dervich

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