segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ONDE CRESCE O PERIGO SURGE TAMBÉM A SALVAÇÃO


Transcrição do PRÓLOGO do ultimo livro de Hubert Reeves, saído na colecção Ciência Aberta da Gradiva, cujo título - acima - provém de um verso de Hoelderlin:

«O mundo é, afinal, uma coisa bem estranha»
ARAGON

Sinto-me próximo de todos aqueles que albergam um sentimento de espanto, de perplexidade, ou mesmo de ansiedade, perante o mundo em que vivemos e no qual se joga o nosso destino.

Estamos constantemente a ser confrontados com informações que nos interpelam e nos inquietam, às quais, muitas vezes, não sabemos reagir ou, mais exactamente, não sabemos como integrar numa «visão do mundo», que é tão necessária à organização da nossa vida.

Temos um banco, no nosso jardim de Malicorne, situado diante de um lago, ao qual chamamos «banco do tempo que passa». Às vezes, sento-me nele e sinto que, juntamente com as libelinhas, as carpas, as alvéolas brancas pousadas nos nenúfares e no grande salgueiro, faço parte do cosmos.

Se ali estou e posso reflectir é porque habitamos um universo no qual se desenvolveu um processo extraordinário, uma saga épica à qual chamamos o «crescimento da complexidade». As descobertas científicas não cessam de nos revelar a nossa origem cósmica.

Que caminho percorremos nós, seres humanos, para estar aqui, agora? A nossa existência está ligada a fenómenos que se desenrolaram ao longo de milhares de milhões de anos, se desenvolveram num espaço de milhões de anos-luz e incluem o aparecimento das galáxias, das estrelas e dos planetas. É aquilo a que eu gosto de chamar a «bela história».

Nos dois primeiros capítulos deste livro reuni alguns elementos, do corpo do nosso conhecimento científico, que nos ligam, mais ou menos directamente, ao cosmos.

Esses elementos desempenharam papéis relevantes no crescimento da complexidade cósmica e no desenvolvimento dessa «bela história». Merecem que se lhes preste a maior atenção.

No fim de uma conferência minha, um paralítico, sentado numa cadeira de rodas, disse-me: «Gosto de ouvir essa história. É a única coisa que me mantém vivo...» E acrescentou, um pouco mais tarde: «Tomo consciência do facto de que, para além do desespero ou de uma religiosidade primária, há lugar para uma outra coisa diferente.»

Mas, por outro lado, todos os dias os jornais, a televisão e a internet nos dão notícias deprimentes sobre o comportamento da nossa espécie. Revelam-nos o «saque» que tem vindo a ser feito ao planeta pela actividade humana, apoiada pela capacidade tecnológica que a nossa inteligência nos permitiu atingir. Essa mesma capacidade lançou-nos na actual crise ecológica, que é extraordinariamente ameaçadora. É a «história menos bela». É bem aí que cresce o perigo...

Nós temos que coexistir com a realidade destas duas histórias, apesar de elas serem, aparentemente, tão contraditórias. Que relação existe entre elas? Como é que a primeira conduziu à segunda? E, sobretudo, como é que devemos encarar estas duas realidades e qual é a melhor maneira de as tentar reconciliar? É esse o tema deste livro.

Os capítulos 3 e 4 tratam mais pormenorizadamente o tema da «história menos bela». Ela começa com o aparecimento da inteligência sobre o nosso planeta, de acordo com a evolução biológica, por vezes motivada pelo acaso. Esta «faculdade» atinge a sua maior eficácia com um mamífero, o Homo sapiens, que surgiu em África, há pouco menos de duzentos mil anos. Graças aos progressos da tecnologia, já nos é possível acompanhar as peripécias da sua interacção litigiosa com o meio envolvente.

No momento em que esta coabitação se torna mais problemática, dá-se uma reacção positiva: O «Despertar Verde», cujos elementos são tratados no capítulo  5. O último capítulo propõe-nos uma reflexão sobre as modalidades de concretização do «Despertar Verde». Em especial sobre a necessidade de se desenvolver uma ética que dilate a responsabilidade humana e a faça abranger toda a natureza. Só uma tal ética é susceptível de nos trazer alguma esperança para o futuro.

«Onde cresce o perigo também surge a salvação.» Esta adaptação do belo verso do poeta alemão Hölderlin
exprime bem o duplo aspecto da situação à qual chegámos hoje. Foi por isso que a escolhi para título a obra.

O juízo reservado «É preciso ter a coragem de enfrentar a realidade, toda a realidade, em todas as suas vertentes, até à angústia» — escreveu Martin Heidegger. Convido cada leitor a participar nesta reflexão, sem qualquer dogmatismo e com a maior liberdade de espírito possível.

Proponho uma atitude de «juízo reservado». Podemos explicitá-la através da seguinte frase: «Observo o fenómeno e reservo-me o direito de o apreciar no fim. A observação de todo e qualquer fenómeno natural é potencialmente portadora de uma mensagem sobre a natureza da realidade. Uma interpretação apressada e insuficientemente ponderada pode dificultar a compreensão.

Estar aberto ao espanto. Não recusar os factos, mesmo que pareçam incompreensíveis, incómodos ou angustiantes. Apenas a este título, o respectivo conhecimento pode vir a ajudar-nos. É esse o desafio que nos propomos aqui fazer em comum."

Hubert Reeves

3 comentários:

  1. Meu caro Carlos Fiolhais, se me permite este tratamento um pouco livre.

    Sou seguidor do "De Rerum Natura". Li este texto com grande emoção (vou comprar o livro), de um autor que admiro há muitos anos, quando o conheci através da edição de 1981, na colecção science ouverte da Seuil, de um livro que me deslumbrou, "Patience dans l'azur", mais tarde traduzido para a Gradiva. Na mesma colecção da Seuil li em 1986 "L'heure de s'enivrer" e recentemente, já na 'nossa' Gradiva, "Já não terei tempo. Memórias".
    Tendo vindo do Técnico para a Economia por influência do Professor Francisco Pereira de Moura - era o sonho de mudar o mundo, apaixonado pela biologia por causa de Jacques Monod e pela astronomia por influência de Carl Sagan, encontrei na Gradiva o alimento do meu interesse de sempre pela ciência.

    Devo muito à Gradiva e ao Guilherme Valente, e também a si, que nunca deixaram morrer a minha curiosidade 'aberta' e colocaram à disposição de todos portugueses, em condições acessíveis, livros magníficos que nos abrem para a compreensão do mundo que nos rodeia, o qual felizmente não se reduz à economia.

    Com estima e admiração.

    Manuel Fazenda Lourenço



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  2. Peço desculpa, mas agora reparo que, inadvertidamente, utilizei a conta do blog da minha mulher, Graça Pires.

    Manuel Fazenda Lourenço

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  3. Que delicada compreensão!

    Digo-vós:Delicada compreensão de temas largamente estudados.



    Cláudia da Silva Tomazi

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