quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Nelson Goodman

Pensar que a ciência é em última análise motivada por fins práticos, avaliada e justificada por pontes, bombas e o controlo da natureza, é confundir ciência com tecnologia. A ciência procura o conhecimento sem atender a consequências práticas, ocupando-se da previsão enquanto teste da verdade e não enquanto guia do comportamento. A investigação desinteressada compreende simultaneamente a experiência científica e a estética.

19 comentários:

  1. Um assunto muito interessante por estes dias onde o aproveitamento tecnológico vem primeiro do que a ciência (experiência científica e a estética).

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  2. Pois mas hoje a ciência tem uma vertente de enorme peso no que concerne o lado "prático", para que serve afinal a ciência?!
    E o pouco ou muito que aprendemos na escola sobre a ciência não me convence.

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  3. A distinção tem toda a pertinência, mas uma vez aceite há uma questão que se coloca: ainda se faz ciência ?

    Explico-me: tendo os cientistas de comer, vestir e ter tecto, quem é que nos dias de hoje está disponivel para lhes financiar a existência recebendo em troca apenas a procura desinteressada do conhecimento ?

    Manuel Rocha

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  4. A ciência procura a compreensão da natureza, ou melhor, da sua parte material, que é mensurável e quantificável. Esse conhecimento é posteriormente aplicado na tecnologia. Embora no passado muitas vezes a procura do conhecimento pudesse ser efectuado, aparentemente sem preocupações práticas claras, hoje a actividade científica é fortemente controlada pelas finalidades práticas (que têm a ver com a utilização desse conhecimento), uma vez que o financiamento da actividade científica é avaliada pelos financiadores (o estado ou as empresas privadas).

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  5. O padre Desidério continua a sua cruzada anti-ciência. Coitado, ainda não percebeu que se está toda a gente a cagar para as suas opiniões de grande filósofo da treta.

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    1. O comentário, além de deselegante, é pouco tolerante.
      Não concordo com muito do que leio neste blogue do professor Desidério, principalmente com o relativismo inerente e menorização da ciência. Mas quero continuar a ler o que escreve o professor Desidério. Como aprendiz de cientista e constatando a minha profunda ignorância e espanto perante o mundo que só a ciência me dá, quero que coloquem em causa aquilo em que penso; me façam reflectir e aprofundar sobre o que pensava que sabia.
      Sei que não é favor mas, por favor professor Desidério, continue a pensar e a escrever. Até o anónimo não pratica aquilo que escreveu pois, com certeza, espera afanosamente pelos seus posts para destilar o seu ejaculatório alívio no teclado.

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    2. José: eu não sou relativista, e não menorizo a ciência. Há algumas confusões que as pessoas fazem porque têm ideias, com as quais discordo, que as fazem pensar que sou relativista. Se me escrever pessoalmente (eu raramente venho ver os comentários, estou muito ocupado), explico-lhe por que não sou relativista (ou pode ler os meus livros, nomeadamente o Pensar Outra Vez) e por que não menorizo a ciência.

      Deixe-me antecipar-me, e se não é por isso que você pensa que sou relativista e menorizo a ciência, peço-lhe desde já desculpa.

      1) Defendo que as pessoas têm o direito de errar, escolhendo, por exemplo, a homeopatia ou a crença em bruxas. E penso que um corolário político disto é que esse direito não pode ser vazio, que é o que defende o David Marçal: vazio no sentido em que se elas quiserem organizar-se e ver-se reflectidas na legislação, não poderão fazê-lo. Eu penso que as pessoas têm o direito de ser tolas e acreditar em tolices e prejudicar-se a si mesmas, devendo o estado reconhecê-la e integrá-las legislativamente. Tudo o que o estado deve fazer é proteger terceiros das suas tolices e o máximo de paternalismo aceitável é informar as pessoas de que aquelas coisas são tolices (mas não impedi-las). Isto é confundido com relativismo porque quem é intolerante pensa que só devemos tolerar o que consideramos verdadeiro, e por isso, para tolerar tolices, temos de ser relativistas e dizer que são verdadeiras para quem acredita nelas. Isto é não compreender a tolerância. Dê-me um relativista, pós-modernaço ou não, José, e eu dou-lhe um intolerante disfarçado de tolerante. Isto porque essa pessoa aceita esta condicional: se houvesse verdades não relativas, seria legítimo proibir as pessoas de crer em falsidades. Ora esta é precisamente a condicional que nego. Eu afirmo que há verdades não relativas, sim senhor, mas mesmo assim as pessoas têm o direito de crer em falsidades.

      2) Pela mesma razão, parece que menorizo a ciência. Não o faço. O que não quero é ver a ciência enfiada pelas goelas abaixo das pessoas, queiram-no ou não. Divulgar, oferecer e convidar é muito diferente de usar a máquina do estado para obrigar as pessoas a aceitar a ciência. Uma vez mais o que se passa é uma confusão conceptual. As pessoas que olham para o passado e condenam o tempo em que o estado enfiava o cristianismo pelas goelas abaixo das pessoas, pensam que isso só estava errado porque o cristianismo não era ciência, e como tal não é uma verdade científica. Ora, eu penso que o que estava errado era o enfiar algo pelas goelas abaixo, sendo completamente indiferente se o que se enfia é verdadeiro ou falso.

      Penso que é por confusões conceptuais elementares que muitos leitores deste blog me acusam de ser relativista e anticiência. Mas estão enganados.

      A subtileza, refinamento, cuidado com os pormenores, rigor máximo não são exclusivos da ciência. A filosofia, correctamente feita, tem todas essas coisas também. O que acontece é que quem não tem formação filosófica adequada (e nem tem o dever de a ter, pois é cientista -- mas não perderia em tê-la, pelo contrário) não entende qualquer pensamento filosófico que tenha um mínimo de rigor e subtileza que colida com o senso comum abrutalhado. Infelizmente, muitos cientistas, fora da ciência, têm a mesmíssima falta de rigor, subtileza e sofisticação a pensar que tem qualquer outra pessoa comum. É o preço a pagar pelo gueto em que a história educativa meteu a filosofia, por considerar que era apenas ciência mal feita.

      Uma vez mais, peço-lhe desculpa se as suas razões para pensar o que pensa são diferentes.

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    3. Obrigada caro Desidério por existir. É com enorme agrado que aqui venho ler o que aqui escreve, principalmente em português. São do melhor que se coloca aqui no Rerum. Continue por favor, pois isto sem si murcha, literalmente.

      Quanto à ciência eu deixei de acreditar nela e não tenho visto grande utilidade nela. A natureza, o universo nos mostram de forma clara e inequívoca o que existe. Nós é que temos andado de olhos vendados, surdos como uma porta, sem querer cheirar a realidade sem ser aquilo que os média, estados e governos nos querem mostrar.
      Aguardo então por uma nova ciência, a velha não vai deixar saudades.

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  6. Nunca é de mais concentrar o foco em minudências conceituais. O amor à verdade, próprio da filosofia, não digere bem, a pretensão de "verdade" da ciência. No entanto, para a ciência a "verdade" é diferente da "verdade" que a filosofia ama. A verdade da ciência não é o conhecimento da realidade. Porque a ciência não aceita a realidade, não aceita as coisas como elas são. Aliás, a ciência age sempre como se as coisas não fossem o que são, ou parecem ser. Perante as rochas, a ciência não se limita a medir e a pesar e a analisar. Isto é muito importante, porque sem isto não é possível o passo seguinte, que é transformar aquilo noutra "realidade". E assim sucessivamente. Perante o cancro, o cientista diz "é doença", não diz simplesmente "é cancro" e não se limita a conhecer os factos. O filósofo, por exemplo, no seu amor à verdade, impõe a si mesmo a disciplina da abstração sobre o que são as coisas e o que se pode fazer com elas. Pode-se encontrar uma relevância prática ou paradigmática das questões e uma relevância teórico-filosófica que nos desconcertam pela distância entre si no que respeita aos efeitos. É possível, por exemplo, desenvolver uma teoria monumental sobre um problema que está resolvido há muito tempo. Cada vez me convenço mais de que falar em ciência é falar num certo modelo e paradigma de acção sobre a realidade e não apenas, ou tão pouco, por amor ao conhecimento. Não estou a pensar só na ciência, em abstracto, naquela ciência que fornece os elementos para fazer a bomba, como fornece os elementos para curar as feridas, porque ciência é ciência e a utilização que lhe é dada não. Estou a pensar também na ciência, em concreto, que faz a bomba e os curativos.

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    1. Ainda que a ciência tenha muitas limitações e que no estudo da realidade pela ciência se efectuem muitas simplificações os conhecimentos que temos vindo a obter através da ciência, permitiram feitos extraordinários.

      Com efeito a vida das pessoas, no nosso planeta mudou muitíssimo, em grande parte devido aos avanços da ciência (nomeadamente na saúde e na agricultura), e a esse respeito não podemos considerar apenas os habitantes dos países ricos, mas também nos países tradicionalmente mais pobres.

      Apesar da turbulência política e das guerras no século XX houve um progresso extraordinário e nunca a humanidade gozou de um bem estar como o que se vive hoje em dia (apesar de todos os cenários apocalípticos que surgem periodicamente).

      Mas ainda relativamente à ciência, e a algum descrédito que esta parece estar a adquirir (por aqui e não só), gostaria de acrescentar que convém fazer uma distinção entre o que é a ciência (que não precisa de se por em bicos de pés a clamar «aqui está a verdade!») e a perspectiva religiosa que algumas pessoas têm da "ciência" (que as leva a distribuir certificados de credibilidade).

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    2. Aí começa o problema da ciência velha e caduca, em vez de se concentrar simplesmente e naturalmente na saúde e sua manutenção, cinge-se apenas ao cancro. Perda de tempo e energia isso sim. Sem futuro.
      Ciência que produz bombas não é ciência, é o diabo em figura de "gente", não serve mais os tempos actuais da humanidade.
      A velha ciência tem um problema crónico canceroso, sofre de ceguice há demasiado tempo pois só segue o rasto do dono, ou seja o dono do dinheiro, i.e. de quem lhe dá a sopa, a formata, a condiciona e lhe impõe regras.
      E não me venham com a treta da TV, rádio, CP e portáteis, celulares e todas essas coisadas, consigo viver muito bem sem elas.
      Aliás, em casa meus pais e avós, aboliram já a TV, rádio, jornais, celulares começam a estar todo tempo desligados e se calhar em breve até a ciberrede......e até o carro começa a ser trocado pelas bicicletas.

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  7. "Algo que aprendi em uma longa vida: toda nossa ciência, medida contra a realidade, é primitiva e infantil - e ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos". (Albert Einstein)

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    1. Discordo totalmente, ainda que ele tenha sido apelidado de génio, a coisa mais preciosa que podemos ter é a vida. A seguir o ar puro, de seguida a água pura e logo a seguir alimentos puros.

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  8. Galois

    O comentário de Nelson G, na minha opinião, é quase 100% certeiro. Eu só não gosto muito da última frase «A investigação desinteressada compreende simultaneamente a experiência científica e a estética.». A razão de não gostar vem da «estética». É verdade que a ciência tem aspectos estéticos incríveis. Por exemplo, há aspectos na matemática que são tão elegantes que faz com que o matemático tenho um sentimento do tipo «Maravilhoso! Não podia ser de uma outra forma mais cristalina!» acompanhado de arrepios na espinha (os arrepios na espinha é a minha definição pessoal de sentimento estético). O que eu digo é que aspectos estéticos aparecem em quase todas actividades quando levadas com brio; sendo o texto uma distinção (bem feita!) entre ciência e tecnologia, devo dizer que um engenheiro também pode chorar com emoção estética perante uma obra. Em suma, «o caracter estético» está presente mas não é a chave da distinção. A chave é a curiosidade. O cientista quer compreender e é quase sempre movido por uma curiosidade avassaladora. Quando exerce a sua investigação, pode não ser movido pela cenoura da aplicação nem pela ideia da estética (embora estética e aplicação possam surgir e surgem muitas vezes); é movido pela curiosidade. A tecnologia, ao contrário da ciência que é algo mais vasto, tem em 100% dos casos, o pano de fundo da finalidade. Boa tecnologia pode conter elementos altamente estéticos e ser movida por curiosidade, mas a finalidade e aplicação têm de estar sempre presente (ou, devido ao significado que atribuimos à palavra, não seria tecnologia.

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  9. Caro Galois,

    Não me surpreende a sua reacção e julgo-a coerente, contando que v. admita que a crença segundo a qual a ciência é exclusivamente movida pela pura curiosidade, não tem outro fundamento do que um acto de fé.

    Repare que a crença inversa, segundo a qual ha uma certa ingenuidade na maneira de ver do autor da frase citada, também não tem um fundamento muito diferente.

    No outro dia procuravamos, salvo erro, o que distingue a ciência da filosofia.

    Ora bem, quanto a mim, a filosofia é (também) a arte de conviver com a impossibilidade de conciliar as duas crenças acima, pelo menos de maneira logica.

    Boas

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    1. A ciência não é apenas movida pela curiosidade, mas, sem qualquer dúvida, a curiosidade tem um papel central na actividade científica.

      A racionalidade humana, faz com que o homem tenha um apelo institivo pela compreensão do que o rodeia, seja esse homem cientista ou não. A não compreensão da realidade é muito mais do que incómoda, é, de certa maneira, dolorosa e, para a sua própria tranquilidade, o homem tem de procurar compreender a natureza e encontrar uma explicação satisfatória para o que observa.

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    2. Caro Vasco Gama,

      Que a racionalidade seja uma resposta a um apelo "instintivo" é mais ou menos o que eu estou a dizer.

      Que ela possa ser (também) mais do que isso é o que o texto sugere (tanto quanto julgo perceber), com o que tendo a concordar.

      Que no entanto, admitindo que ela seja um pouco mais do que isso, é-o sem deixar de ser isso também, corresponde àquilo em que acredito, mas esta crença ja não cabe no texto...

      Boas

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  10. Galois

    Percebo o que estão a dizer. Estou a ser um bocado preguiçoso em colocar a tónico apenas na curiosidade.

    O que digo (e realmente é uma espécie de acto de fé o que estou a dizer) é que acredito que a grande maioria dos feitos e descobertas científicas foram movidas pela curiosidade (que não é mais do que a simbiose entre forte desejo de compreensão e enorme prazer natural que isso dá). Acredito mesmo que foi a curiosidade e nenhuma outra «cenoura». Mas dou de barato ser um acto de fé.

    Na medida em que, para mim, o tema do post é a distinção dentre ciência e tecnologia e eu acho que a principal diferença reside no «motor», que no caso da tecnologia, por definição, é a sua aplicação última (coisa que pode ser dispensável quando falamos de ciência em geral), quis dizer que a última frase, embora com bons contornos, não chama exactamente a atenção para a chave da distinção.

    É claro que estou a ser pouco profundo nesta conversa. Quis só dar uma ideia.

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  11. Como diz alguém que conheço e sabe muito da vida por estar quase com 100 anos,a racionalidade só tem dado em predação de tudo o que de belo existe neste fabuloso planeta e a humanidade tem ficado na fossa.
    Precisamos então mais de coração e menos racionalidade, até porque racionalidade nunca foi sinónimo de capacidade de pensar sequer de modo sensato.

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