quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ninguém sabe ao certo em que dose.

A propósito da seguinte frase de um leitor: “Não se deve atribuir à guerra a maldade dos homens. Ela é uma consequência inelutavél de fenómenos que nada tem a ver com a psiquiatria.”

Meu caro Ildefonso Dias

Todas as frases têm um contexto e a maior parte das vezes só integradas nele devem ser interpretadas.

Dificilmente se pode dar razão total a uma frase sem ver o contexto, ou o texto, em que ela está. Não quero dizer que não haja frases lapidares que estabelecem verdade evidentes e regras da maior utilidade ou sabedoria, mas é preciso sempre muito cuidado da parte de quem as usa, para não as desvirtuar, e de quem as lê, para não ver nelas o que lá não está, mas sim o que está na sua própria cabeça.

Não conheço o texto nem a circunstância em que a frase que cita se integra, mas basicamente de acordo come ela. A guerra pode entender-se como a pior de todas as coisas, mas é feita por pessoas e é preparada por uma infinidade de fatores, forças e circunstâncias que, em certas condições, se potenciam umas às outras num processo muitas vezes inconsciente, leviano e que a certa altura já ninguém consegue controlar. A guerra é muitas vezes a condição e o meio em que os psicopatas se manifestam e onde proliferam.

Veja que assim que aparece uma calamidade ou uma desordem aparecem logo os ladrões, os assassinos os atiradores furtivos, que matam por matar, como aconteceu na Jugoslávia, ou em morticínios como no Ruanda, etc., etc.

A guerra não se pode atribuir à maldade dos homens, a guerra (e outras situações) cria as condições onde o mal prolifera como epidemias sem controlo. Garantir, porém, que nunca têm a ver com a psiquiatria, já acho exagerado, porque, desencadeados os mecanismos da guerra, a psicopatia de muitos não deixará de se manifestar e proliferar.

Os desvios de comportamento são demasiado complexos e por muito que se investigue no sentido de os compreender, estamos longe de os entender convenientemente. Vejam-se, por exemplo, alguns artigos do livro referido anteriormente e que deu origem dos anteriores artigos que desencadearam a sua interrogação (A maldade humana – fatalidade ou educação?).

Portanto, estamos de acordo quando pensamos que os contextos é que formam os assassinos e as guerras, mas não podemos garantir que a psiquiatria não tem nada que ver com muitas das calamidades sociais a que a humanidade tem sido submetida. Certamente que sim, e não só necessariamente na guerra. E há muitas guerras, desde as que destroem milhões de pessoas, até às que nos grupos, nas famílias, nas fações futebolísticas se armam a toda a hora e onde a maldade a perversidade e psicopatia não estão de modo nenhum ausentes. Mas ninguém sabe ao certo em quer dose.

João Boavida

1 comentário:

  1. Professor João Boavida;

    Devo em primeiro lugar agradecer-lhe o comentário acerca da frase.

    Essa frase encontrei-a escrita no livro de Miguel Carvalho da Editora Campo das Letras, cujo titulo é Álvaro Cunhal, Intimo e Pessoal; o livro é um dicionário de citações, e esta frase apresenta-se isolada (é retirada de um artigo publicado no «Diabo» de 9 de Marco de 1940.). Na verdade, porque a escrevi quase toda de memória, não a escrevi com os acentos nos lugares corretos, exatamente como ela se apresenta que é “Não se deve atribuir a guerra à maldade dos homens.” erro meu, que não lhe retira nada do seu significado preciso, como se confirma no texto do seu 'post'.

    Omiti a autoria da frase porque considerei que ela devia ser, aqui, (e neste caso) desprendida de uma “carga política”, qualquer que fosse a sua origem, sobretudo pela importância do tema que o Senhor Professor nos coloca. Fiz bem, fiz mal?...

    Contudo o que escreve só me resta concordar.

    Aceite os meus cumprimentos cordiais,

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