sábado, 11 de agosto de 2012

Entrevista a Alexandra Nobre sobre "A Espiral da Vida"


Entrevista a Alexandra Nobre (Professora Auxiliar do Departamento deBiologia da Universidade do Minho), tradutora e revisora científica da edição portuguesa de "A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução", livro premiado do Bioquímico Nick Lane, publicado agora em Julho na Colecção "Ciência Aberta" da Editora Gradiva. 





Alexandra Nobre



António Piedade - O livro surpreendeu-a? De que forma?
Alexandra Nobre - Paradoxalmente, sim e não. Sim, porque o livro é uma surpresa a cada esquina, que é como quem diz, a cada virar de página. Não, porque já tinha tido acesso ao “Power, Sex, Suicide: Mitochondria and the Meaning of Life” do mesmo autor, editado há uns anos e, se bem que os livros não se repitam, há algumas temáticas que se imiscuem (aliás, em “Life Ascending” Nick Lane remete para este por diversas vezes) e um estilo comum muito próprio de nos prender.

António Piedade - Este livro mudou algo na forma como olha agora para a evolução da vida no Universo?
Alexandra Nobre - Inevitável e irremediavelmente. Ao longo destes meses, por diversas vezes me questionei se eu elencaria estas dez invenções como as mais notáveis da evolução. “...Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência...” Se bem que algumas me pareçam incontornáveis como o ADN, a fotossíntese e o sexo, outras como o sangue quente, a visão ou mesmo o movimento, à partida já não me parecem tão óbvias e consensuais. É natural que assim seja. Aliás, Nick Lane teve conselhos noutros sentidos. Por exemplo, refere “No início discuti esta lista com um amigo que me propôs o tubo digestivo como emblemático nos animais em substituição do movimento”. Mas Nick Lane, logo na introdução refere os quatro critérios que o levaram a seleccionar estas dez invenções, e legitima deste modo a sua escolha.
Inevitável e irremediavelmente, dizia eu. Mas não de modo fixo e para todo o sempre. A cada dia somos confrontados com novas “evidências”, que põem em causa verdades ainda na véspera consideradas inabaláveis. Haja curiosidade e “Curiosity” e a história da evolução da vida no Universo não terá um ponto final, e muito menos um ponto final parágrafo.

António Piedade - Quais as dificuldades que encontrou na tradução?
Alexandra Nobre - Por um lado, as comparações constantes ao longo do texto que tornam claros, mesmo para leigos no assunto, intrincados mecanismos bioquímicos e/ou fisiológicos, não me tornaram a vida nada fácil. Por outro, o estilo de Nick Lane, muito metafórico, rico em imagens/ figuras de estilo, pejado de duplos e de triplos sentidos que dão todo um colorido e lufada de ar fresco à escrita, também foram, por vezes, nós difíceis de desatar. Mas o osso mesmo duro de roer, o que me deixou por vezes uma mulher à beira de um ataque de nervos, foi sem dúvida arranjar paralelo para algumas expressões idiomáticas ou mesmo provérbios com que tropecei frequentemente. Tentei sempre manter o cariz humorístico, irónico e mesmo sarcástico de Nick Lane e ser o mais fiel possível ao fluir do raciocínio e das ideias. Não sei se consegui. E em simultâneo, acumulei também as funções de revisão técnica e científica. Eram muitas “antenas” sintonizadas ao mesmo tempo...

António Piedade - Quais são os aspectos mais conseguidos e menos conseguidos, na sua perspectiva, pelo Nick Lane, ao abordar as 10 "invenções da evolução"?
Alexandra Nobre - O mais conseguido foi o modo como a história foi sendo desenrolada, capítulo a capítulo, numa lógica coerente, com uma linguagem rica, ora mais poética, ora mais brejeira, de forma clara, agradável e com uns laivos de romance policial à mistura, que nos deixavam expectantes e mesmo em suspense, de um parágrafo para o outro. Também me agradou que, sem prejuízo desta lógica, cada capítulo se bastasse e si próprio e fizesse sentido só por si. Quero com isto dizer que, na minha óptica, podemos encarar cada um dos capítulos como um “mini-livro independente” e escolher a ordem por que os lemos, sem desvirtuar o sentido de toda a obra.
A meu ver, menos conseguido talvez seja o modo como, em todos os capítulos, mais nuns do que noutros, a dada altura começamos a andar em círculos e a repetir as mesmas ideias por outras palavras. É como se Nick Lane nos quisesse ajudar a mastigar muito bem todos os ingredientes que vai apresentando. E às tantas, é também como se já os tivéssemos engolido e fossemos obrigados a regurgitar novamente para mais uma “mastigadela”.

António Piedade - Pode contar-nos como experienciou, do ponto de vista racional e emocional, a tradução do livro?
Alexandra Nobre - O que é que posso dizer? Que foi uma tarefa ciclópica porque: nunca tinha feito nada de minimamente semelhante; o livro é, literalmente, de peso; tive que me multiplicar (ou dividir, sei lá...) em diversas tarefas e a responsabilidade me pesava nos ombros a cada segundo. Mas também que, não obstante tudo isto, voltava a aceitar a empreitada.
Neste momento ainda estou demasiado envolvida em todo este processo para poder responder de modo racional e isento de emoções. Quer fazer-me esta pergunta novamente daqui a uns tempos, António?

4 comentários:

  1. Consiste a sabedoria
    sumariamente, no fundo,
    em reduzir cada dia
    nossa ignorância do mundo!

    JCN

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  2. José Batista da Ascenção13 de agosto de 2012 às 23:44

    Terminei anteontem a leitura do livro, em que peguei e não larguei mais. Sublinhei-o e anotei-o nas margens e fundo das páginas, a vermelho, modo muito meu de "estragar" todos os livros que compro e leio.
    O livro é muito bom e entusiasma, pese embora a autoconfiança do autor que, às vezes, o leva por aí fora até ao limite em que o que afirma me parece questionável. Por isso, na página 450, abaixo do período onde escreve: ..."a principal lição que podemos tirar destes estudos genéticos é que o envelhecimento é curável", anotei ao lado: "Será?...". E mais à frente, nas páginas 468/69, onde escreve ..."se despendermos uma fracção do tempo e do esforço que dedicamos à investigação médica dos mecanismos subjacentes ao envelhecimento, eu ficaria muito surpreendido se não tivéssemos uma resposta dentro das próximas duas décadas. Uma resposta que curasse todas as doenças do envelhecimento de uma assentada". Aí, anotei ao lado: "Isto é que é ter fé, por vários motivos:
    - o se inicial é como aquele « se a minha avó não tivesse morrido...»;
    - a definição de um tempo para obter uma tal resposta...;
    - conseguir a cura de todas as doenças do envelhecimento.
    É obra!".
    Mas, repito, o livro é muito bom.
    Falta-me agora reler os (meus) sublinhados e as (minhas) notas para "depurar" o que mais me impressionou.

    Sobre a tradução:

    Não conhecendo (nem sendo capaz de ler escorreitamente) o original, a tradução parece-me muito boa. Um português solto, preciso, rico, variado, numa linguagem fluida e muito apropriada. Foi um grande gosto. Só quem escreve bem pode traduzir bem. O objetivo foi conseguido. Assinalei pequenas gralhas, aqui e ali, mas poucas e sem importância. É claro que eu sou de um tempo em que há palavras agora correntes que me soam pouco bem, por exemplo "focalizar" (por que não "focar"?), parecido com o "experienciar" (por que não "experimentar"? e na linha do "vivenciar" (não chega "viver"?) e do inenarrável "inicializar" (não é mais fácil "iniciar"?). Mas enfim, os anos passam e há quem se habitue a certas formas de expressão e de escrita... também sofro dessa limitação. Outra coisinha deste tipo que me chamou a atenção foi ver sempre usada a forma "porque", quando, em várias ocasiões, devia ter sido usado "por que" [por que razão, por que motivo, gostei tanto deste livro? - Porque ele aborda assuntos que me interessam e porque gosto muito da escrita da tradutora]. Durante a leitura, cheguei mesmo a pensar, será que o novo acordo (de quem com quem?) ortográfico baniu o "por que"? Acordo que a Doutora Alexandra Nobre não seguiu na tradução deste livro. Como me apetece felicitá-la, também por isso! Cheio de inveja, aliás, por não me ser permitido fugir a tal acordo, com que não concordo.
    Bem haja pelo livro e pelo modo como está escrito.

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  3. Aos meus noventa de idade
    com lucidez e saúde
    estou na proximidade
    de alcançar a juventude!

    JCN

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  4. PARABÉNS à Alexandra Nobre pela competente Tradução + Revisão Técnica e Científica para Português
    e à Gradiva por continuar a presentear os leitores lusos com pérolas de leitura C&T.

    BEM HAJAM !

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