terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

TESTE DE FÍSICA?!

O Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação não pára de nos espantar. Agora resolveram, num teste intermédio do 11.º ano de Física e Química A, repito do 11.º ano, fazer uma transcrição de um texto de um livro meu, com apenas quatro linhas e adaptado (adaptado? faz algum sentido?), pedindo aos alunos para "transcrever" (sic) uma informação trivial que está no texto. Pede-se apenas uma transcrição de uma transcrição. Já só falta assinar o nome para ser aprovado.

Não posso por isso deixar de concordar em absoluto com o comentário de Carlos Portela, responsável da Divisão Técnica de Educação da Sociedade Portuguesa de Física sobre aquela prova:

"A questão 1 do Grupo I na qual o aluno deve transcrever a parte de um texto, de apenas 4 linhas, que refere o que Oersted observou, não é admissível neste ano de escolaridade. Esta questão pode ser respondida por um aluno do 2º ciclo do ensino básico que nunca tenha estudado o assunto abordado, não permitindo avaliar se o aluno consegue distinguir entre observação e interpretação (...)

Conclui-se que este teste intermédio dá indicações erradas aos alunos sobre as suas aprendizagens e não os estimula ao esforço que é necessário para que sejam atingidos os objectivos de aprendizagem da disciplina. Constitui-se, desse modo, como um elemento que perturba o trabalho desenvolvido pelos professores na escolas, já que desincentiva a criação de hábitos de trabalho dos alunos para que possam ser atingidos os objectivos da disciplina ao dar a ideia de que é possível atingir resultados positivos sem que seja necessário investir no estudo."

Para que o leitor julgue por si próprio, deixo o excerto da prova:

"GRUPO I

Durante algum tempo o magnetismo e a electricidade ignoraram-se mutuamente. Foi só no início do século XIX que um dinamarquês, Hans Christian Oersted, reparou que uma agulha magnética sofria um desvio quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de um íman. Existia pois uma relação entre electricidade e magnetismo.


C. Fiolhais, Física Divertida, Gradiva, 1991 (adaptado)

1. Transcreva a parte do texto que refere o que Oersted observou."

Carlos Fiolhais

17 comentários:

  1. O problema principal, a meu ver, é que situações deste tipo se tenham vindo a repetir cada vez mais frequentemente nos últimos anos, obra da incompetência sem limites do GAVE com a conivência (e incentivo) do Ministério da Educação.

    A avaliação do ensino secundário tornou-se numa autêntica fraude, em que o bom aluno acaba não raramente prejudicado face ao mau aluno, dado o desprezo generalizado ao raciocínio próprio que as provas vêm evidenciando. Em particular, as diferenças verificadas nas notas mais altas são cada vez mais um resultado de critérios de correcção duvidosos e não de disparidade no nível conhecimentos dos alunos em exame.

    Qualquer um pode confirmar tudo que disse acima relativamente às disciplinas de Matemática, Física e Biologia, cujas provas de exame nacionais venho acompanhando de perto desde 2005.

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  2. or muito bons que sejam os professores das escolas públicas, não têm qualquer hipótese de fazer alguma coisa de útil pelos seus alunos. Bem podem dizer aos alunos que o trabalho compensa, que é necessário estudar, que a preguiça é algo contra o qual devem lutar, que a disciplina é fundamental na organização e no estudo. Podem discursar assim todos os dias, em todas as aulas que nada conseguirão, porque em seguida aparece o Ministério da Educação a exigir que os alunos "transcrevam".

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  3. E estava eu aflita, porque, cada vez mais, tenho a sensação que eu e os alunos falamos línguas diferentes, pois eles consideram que um powerpoint feito numa hora é um trabalho de pesquisa, não entendem a necessidade de escrever frases completas e ignoram completamente a influência da leitura num bom desempenho escolar e não conseguem realizar o que se pede numa pergunta que exige que relacionem factores diferentes...O que é aflitivo é que não estamos a falar de uma recusa perante o esforço, mas de uma incompreensão total da necessidade de esforço no trabalho escolar. Agora devo esclarecer que sou professora de 3º ciclo.
    Estou à espera dos testes intermédios (que surgem este ano para a minha disciplina, no 9º ano) para compreender o grau de exigência que o Ministério considera adequado. Mas não sei se conseguirei suportar tal 'evidência'!

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  4. José Batista da Ascenção15 de fevereiro de 2011 às 19:43

    Talvez o GAVE devesse passar a chamar-se G(R)AVE? Sem o parêntesis, e significando qualquer coisa como:
    Grupo Repetente (em) Asneiras (que) Vêm (nos) Exames.
    Até quando vamos estar sujeitos a exames que são vexames, para professores, para alunos e para o país?!
    Não há quem tenha mão nisto?
    Quem avalia os inspiradores, os mentores, os decisores e os autores de tais programas, de tais orientações curriculares e metodológicas, de tais exames e respectivos critérios de correcção? Então, não inventam um "simplex avaliativo", ao menos para dar umas estatísticas mais conformes? Ó senhores, se não encontram mais ninguém recorram aos ex-ministros e seus ajudantes. Eles andam por aí. E nem sequer estão calados...
    Aproveitem-nos..., que eles também aproveitariam...
    Uma vez que os resultados (verdadeiros) não são coisa que os incomode por aí além.

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  5. O problema é que a sociedade, na generalidade, nem sequer quer saber porque se discutem estes assuntos. O desinteresse pelo tema "Educação" é total.
    Quando há dívida pública, deficit, desemprego, cortes em apoios sociais, cortes de salários, futebol e notícias escandalosas todas as semanas, de que interessa se o nível de exigência na escola é cada vez menor, maior ou igual?
    Aliás, corrijo, o nível de exigência tem que ser maior sim, mas para os professores, em termos de tarefas burocráticas e administrativas, de forma a dar credibilidade a um sistema que a sociedade quer, a todo o custo, descredibilizar ou tornar numa coisa completamente diferente do que outrora foi mas que, curiosamente, se continua a chamar escola.
    Palavras para quê? É Portugal no seu melhor.

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  6. Hoje há a ideia que na internet está tudo e que já não é preciso aprender nada. Eu pergunto a esses "pedagogos" se o aluno não aprendeu nada como pode seleccionar a informação? Fazendo como os meus alunos do CEF, abrem e copiam só do 1º site que encontram? Òptimo meio de fazer escravos com 9/12 anos de escolarização

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  7. Resposta à questão colocada no dito teste:
    Oersted observou que o sistema português de ensino é actualmente a maior farsa que pode existir, por única e exclusiva culpa dos políticos intelectualmente medíocres que temos.

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  8. Julgo que foi num Prós e Contras recente que Nuno Crato questionou a Ministra da Educação sobre uma pergunta num exame de Matemática de grau de dificuldade também ridiculamente baixo.

    A resposta, se bem me recordo, é que era uma pergunta de "controlo", com o objectivo de determinar o quão baixo era de facto o nível de conhecimento dos alunos. E a pergunta teria um valor muito baixo para a nota do exame.

    A meu ver isto coloca dois problemas, dado que a maioria das pessoas não parece ter conhecimento da existência deste tipo de perguntas.

    O primeiro e mais óbvio é relativamente às consequências para a motivação dos alunos para o estudo, que Carlos Portela já refere no post original.

    O segundo é a má imagem que passa do trabalho do ministério da educação e o tempo que se perde a discutir isto quando há tanto para resolver na educação.

    Naturalmente que cabe a quem cria este tipo de perguntas informar quem de direito da sua existência para prevenir as consequências de não o fazer. Diga-se a verdade, as consequências eram bastante previsíveis.

    P.Santos

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  9. Aposto que foi preciso explicar o que significa "transcreva".

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  10. Continuam os Professores a remar para um lado e o misnistério da Educação para o outro. Uma disciplina que requer por parte dos alunos grande empenho e concentração, desenvolvendo o raciocinio abstrato reduzida, por parte do ministério, a competências demasiado básicas. No meio disto pergunto: Qual o papel do professor?

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  11. O papel do professor? Boa pergunta...
    Todos os dias me faço essa pergunta sobretudo com turmas do Ensino Básico...
    Façamos de conta que isto é um país e que somos professores e que trabalhamos em escolas e que damos aulas a alunos...

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  12. Cada instituição tem as suas funções bem definidas:

    A escola ensina e resulta

    O Ministério burocratiza e não resulta

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  13. Ora bem, aqui está o problema do país: o descrédito das instituições.
    O que pode fazer em relação a isso?

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  14. Pagam a alguém para fazer estes testes?Quantas pessoas formaram esta equipa e fazem mais alguma coisa sem ser "testes" deste tipo?? É preciso existir GAVE para se estupidificar de tal forma o ensino??

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  15. Cá para mim no GAVE trabalha algum boy do partido do Governo com o 12.º ano completo e pagam-lhe 5000€ para fazer as provas.

    Sugiro a melhoria do nome GAVE para GAVE UP.

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  16. Num Prós e Contras recente, a senhora ministra justificou a inclusão de uma pergunta em que se perguntava qual era o resultado de oito a dividir por quatro, numa prova de aferição do 6.º ano, com a necessidade de verificar se os alunos sabiam fazer essa operação. Portanto, a resposta é simples: aqui é para verificar se os alunos de Física e Química A do 11.º ano sabem interpretar um texto.
    Espero sinceramente que a moda pegue e, da mesma forma que temos perguntas de Português num teste de Física, passemos a ter perguntas sobre o magnetismo e a electricidade nas provas de Português.

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  17. Bem...até tenho vergonha de dizer isto mas eu sou uma aluno do 11º de Ciências e realizei essa prova e confesso que me enganei nessa primeira pergunta. A verdade é que eu sou muito boa a física e quimica e sabia a matéria mas li a pergunta e pensei que era uma rasteira. nunca acreditei que um intermedio tivesse uma pergunta tão obvia que simplesmente transcrevi a parte errada...
    Outra coisa que achei incrivel nesta pergunta são igualmente os criterios de avaliação, sei de colegas meus que transcreveram o correcto mas igualmente a ultima frase "Existia pois uma relação entre electricidade e magnetismo.
    " e com isto têm a conotação 0. Incrivel!

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