sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ainda os três quartos de século da Escola Secundária de José Falcão

“ A insatisfação é o primeiro passo para o progresso de um homem e de uma nação” (Oscar Wilde, 1854-1900).

Os três comentários dos professores José Batista da Ascenção e Fartinho da Silva ao meu último post, “Os três quartos de século da Escola Secundária de José Falcão de Coimbra” (24/02/2011), em minha justiça, merecem ser meditados publicamente pelas questões neles levantadas. Que me seja permitido, no entanto, acrescentar estas duas outras questões:

- O quer dizer de antigos professores de trabalhos manuais (a maioria deles de posse de cursos secundários incompletos) que são presidentes de conselhos directivos, até de Escolas Secundárias?

- E de cursos de escolas (ditas) superiores que, em meia dúzia de meses, lhes venderam uma licenciatura dando-lhes acesso ao 10.º escalão?

É este Portugal do século XXI que Eça, já no século XIX, dizia ser vítima da bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem”.

Ou seja, um retrato a papel químico do que se passa (e continua a passar, infelizmente) num ensino que despreza a memória dos seus melhores professores e castiga com o látego da prepotência todo o docente que se sacrifica para alterar o estado actual de coisas de uma profissão merecedora,nas palavras de Pierre Bourdieu, de ser “o primeiro dos ofícios”.

Mas, para isso, há que exigir como condição sine qua non do seu exercício o domínio básico do idioma pátrio, escrito e falado. Porque tristezas não pagam dívidas, conto que circulou, anos atrás, ao que se dizia com o cunho de verdade, a história picaresca do docente que chega à sala dos professores, com o ar de domador de feras em que a porta da rua se faz chicote, dizendo: “Hoje, durante uma aula minha, um aluno portou-se mal e eu ‘puze-o’ na rua”. Por comiseração, um professor que assistiu a esta ‘bravata pedagógica’ não teve coragem de logo aí o emendar. Mas, no dia seguinte, muito diplomaticamente, como quem não quer a coisa, e principalmente para que ele não continuasse a servir de correia de transmissão de uma crassa ignorância perante os alunos, disse-lhe: “Tem graça, hoje um aluno portou-se também mal na minha aula e eu pu-lo na rua”. Logo teve como resposta: “Pulos? Eu admitia lá que alunos meus dessem pulos nas minhas aulas!”.

Tudo isto acontece pela indulgência de um sistema de avaliação interpares (?), em que uns tantos mais não são do que oportunistas que tudo fazem para subir na vida profissional e económica com a varinha mágica que anteriormente lhes atribuiu licenciaturas pouco mais valiosas do que o honrado exame da antiga 4.ª classe com a diferença que este exigia aos seus portadores que tivessem os conhecimentos que aí se atestavam. Era uma época de exigência, uma época em que se não tomava gato por lebre!

Infelizmente, não têm encontrado eco no seio da actividade docente palavras avisadas de António Nóvoa (1987): “O exercício de uma profissão faz apelos a normas e comportamentos éticos que orientem a prática profissional e as relações tanto entre os próprios práticos como entre estes e os outros actores sociais”.

Entretanto, continuam a cair em saco roto palavras por mim proferidas com transcrição num jornal de grande tiragem: “O Estado, ao mostrar-se incapaz de tutelar devidamente os múltiplos problemas da actividade docente e dos seus profissionais, cedendo demasiado a exigências sindicais, interesses de alguns dos seus profissionais e a pressões estudantis, deverá delegar numa Ordem dos Professores algumas das suas funções, a exemplo do que fez com outras profissões de idêntica, ou até menor, exigência de formação académica” (Jornal de Notícias, 06/06/1996).

Como diz o povo, “quem cala consente”, consente que a docência não exija uma cédula profissional, consente que se titulem como professores todos aqueles que ministrem aulas. Claro que uma Ordem dos Professores não resolveria os inúmeros problemas da Educação mas seria um passo importante para o seu progresso. Esta é uma discussão sempre em aberto, sem vislumbre de solução à vista, e que, revisitando Eça, com o prazer e o proveito com que sempre o faço, “estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem"!

3 comentários:

  1. O quer dizer de antigos professores de trabalhos manuais (a maioria deles de posse de cursos secundários incompletos) que são presidentes de conselhos directivos, até de Escolas Secundárias?

    1ºDiz-se Direcções na nova terminologia
    há um director e vários sub-directores

    que eram os mesmos dos antigos conselhos executivos

    e o facto de serem professores com ensino secundário ou doutoramento tanto faz

    alguns até são melhores por não terem peneiras

    e de resto estão à beira da reforma

    os filhos do ministério que se licenciaram em Évoras Algarves e Bejas por esse país fora
    e agora são indiciados como pináculos da educação
    e se assenhoraram das escolas como seus coutos privados
    de que põem e dispõem

    preocupam-me mais
    pois ainda vão durar uns 25 anos a mais que os outros

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  2. Caro KRISTUS ANDA Nagazoza:

    Dois esclarecimentos, e não só:

    1. Na verdade, no meu post reportava-me ao tempo em que existiam presidentes dos conselhos directivos, depois presidentes dos conselhos executivos, agora, como diz, denominados directores de escolas na vertigem actual de crismar “as coisas” e que só encontra motivo na diferença existente no caso dos directores nomeados pelo ministério da Educação (mas isto seria uma discussão que nos levaria para terreno movediço, embora acrescente, desde já,e “a latere”, que nada, ou pouco, tenho a opor a esta última medida).


    2.Escreve, com transcrição da minha parte: “e o facto de serem professores com ensino secundário ou doutoramento tanto faz”.


    Se reparar, e reparou com certeza, eu próprio sou o primeiro a assumir a desconfiança sobre o valor de certas e determinadas licenciaturas, sem as especificar com o esmero com que o fez, por desconhecimento de causa, como vindas de “Évoras Algarves e Bejas por esse país fora” (sic.). Mas não passo, “ipso facto”, por elas, vindo donde vierem, “como cão por vinha vindimada”. Faço prova, com o que escrevi no meu post: “ (…) em que uns tantos mais não são do que oportunistas que tudo fazem para subir na vida profissional e económica com a varinha mágica que anteriormente lhes atribuiu licenciaturas pouco mais valiosas do que o honrado exame da antiga 4.ª classe com a diferença que este exigia aos seus portadores que tivessem os conhecimentos que aí se atestavam. Era uma época de exigência, uma época em que se não tomava gato por lebre!”


    (CONTINUA)

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  3. (CONTINUAÇÃO)


    Vou voltar a uma citação feita em alguns dos meus post’s deste blogue (pelo valor que lhe dei e volto a dar) de Gustave Le Bon: “Grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guia, na vida, senão um alma de bárbaros”. Se tivermos em conta a nossa actualidade, as palavras deste psicólogo social francês (1841-1931) assumem aspecto premonitório do que se passa na política portuguesa, por exemplo, com diplomas de políticos que não valem um caracol furado.


    Curiosamente, os nossos pontos de vista não são tão divergentes como isso. Apenas, perdoe-me a franqueza, no seu caso podem correr o risco de generalizar casos particulares. Esta crítica, assumo-a eu também para mim.


    Se reparar, a arma que as ordens profissionais têm (ou seja, as já existentes) de só admitirem como membros indivíduos com diplomas por si reconhecidos (ainda deve estar presente na memória colectiva da nossa gente, o facto do não reconhecimento das licenciaturas de engenharia da extinta Universidade Independente) foi retirada das ordens a criar no futuro, como seja uma futura Ordem dos Professores sempre adiada e contrariada frontal e publicamente pela Fenprof.


    Ainda que amputada da sua maior valia em pôr cobro aos desmandos, arbitrariedades e mesmo compadrio do poder instituído que a Democracia não deixa (ou não deve deixar) cristalizar esta medida não pode assumir o papel de inamovível Rochedo de Gibraltar! Ou será que os professores portuguesesse sentem bem no seu papel actual de escravos gregos (antigos pedagogos) ao serviço cego e de mãos manietadas dos senhores de Roma? Ou será que esses mesmos docentes se sentem devidamente representados por sindicatos em que lhes são cometidas por lei questões meramente do foro laboral, como sejam vencimentos e horários de trabalho?


    Os dados estão lançados! Que venham opiniões a favor ou contra que retirem a Educação da paz podre a que o silêncio dos que sobre estas questões se deviam pronunciar e o não fazem. Como escreveu alguém, não fazer é deixar que os outros façam por nós!

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