segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Eduquês visto por Nuno Crato


O matemático e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática Nuno Crato (NC) deu uma longa e muito interessante entrevista ao "Jornal de Negócios" (JN) de 25 de Julho passado intitulada "Caso dos exames de matemática foi gravíssimo". Transcrevo um pequeno extracto que retrata o nosso sistema educativo dominado desde há anos pelo chamado "eduquês":

"JN - É um atestado de menoridade ou de falta de confiança em quem gere as escolas?

NC - Felizmente tenho bastante liberdade porque estou no ensino superior. Se estivesse no ensino secundário sentir-me-ia bastante diminuído pela falta de liberdade. Acho que as pessoas sempre pensaram que o Ministério devia definir o programa, o horário... Nem sequer se questionam. O nosso país é muito dependente do Estado. Não é nada de inovador o que estou a dizer. Mas as pessoas, quando pensam em qualquer coisa, dizem logo: "devia legislar-se sobre isto ou sobre aquilo". Instalou-se uma simbiose - entre técnicos superiores do Ministério da Educação e departamentos da educação das universidades e escolas superiores de educação de pessoas que têm "a verdade". Têm a verdade que aprenderam há 30 ou 40 anos, aquilo a que chamo a pedagogia romântica e construtivista, uma sobrevalorização do Piaget, dos aspectos lúdicos e um menosprezo pela avaliação dos estudantes... Essa ideologia instalou-se e não há debate. Esta opinião, que é quase monolítica em Portugal, e que tenta dominar a educação a partir da 5 de Outubro, não existe nos EUA. Aquele livro que escrevi sobre o eduquês teve aquele impacto porque dentro do meio educativo muita gente não ousa discordar. Muita gente falou comigo e disse-mo, que pensava assim mas nunca tinha tido a coragem de escrever. Diziam-me "sabe, isto aqui é muito complicado", outra frase típica portuguesa. Agora, porque foi esta a ideologia que dominou e não outra?... Não sei explicar.

JN- Qual é o papel do professor no quadro dessa ideologia, que é uma ideologia "anti-racionalista"...

NC- Estou completamente de acordo com isso. Muita gente olha para esta ideologia romântica e construtivista como sendo uma ideologia de esquerda. Acho que não é, é uma ideologia transversal e existem exemplos de nichos de direita ou pessoas que foram levadas pela direita para o governo que fazem exactamente a mesma coisa.

JN- O Prof. Roberto Carneiro, por exemplo?

NC- Por exemplo. Há uma grande confluência entre o pensamento de Roberto Carneiro e pensamento de Ana Benavente, que vêm de quadros partidários completamente diferentes. Não pensemos que isto é a direita contra a esquerda. É um determinado pensamento pedagógico, que na minha opinião está completamente ultrapassado, que sempre foi irracionalista e que foi abarcado por muita gente por causa deste país pequenino em que é bom dar-mo-nos todos bem em em que começa toda a gente a pensar mais ou menos da mesma maneira quando surgem estas ideias. E os que estão contra são ostracizados.

JN- E como é que se sente o professor?

NC- O professor sente-se mal. A maioria dos professores, com quem eu tenho falado sobre isto, diz-me que se sentiu, durante muito tempo, oprimido. Porque lhe diziam para fazer uma série de coisas que ele não percebia nem achava realista fazer. E que agora está a perceber que não fazem mesmo sentido.

JN- Quer dar um exemplo?

NC- Por exemplo, diziam-lhe que se os alunos não gostavam de Matemática a culpa era dele porque não a tornava motivante. E o professor sentia-se mal. O problema é muito mais complexa do que torná-la motivante, isso só por si não resolve o problema. Mas, na realidade, acho que esta ideologia nunca foi aplicada na sala de aula. Ela faz o professor sentir-se mal, muitos professores tentam aplicá-la mas nunca foi realmente aplicada. Mas isso não interessa, porque conseguiu desorganizar o ensino. Porque conseguiu retirar objectivos de exigência ao ensino, introduzir nos programas uma série de erros pedagógicos graves, acabar com os exames, com a avaliação. E conseguiu desorganizar a actividade dos professores.

JN- Isto não faz com que estejamos a entrar na sociedade do conhecimento às arrecuas?

NC- Penso que sim. Estamos a entrar no século XXI em marcha atrás. (...) O quadro recente dos exames fáceis de Matemática enquadra-se nisto. Daqui a dez anos somos capazes de olhar para o que se passou nos exames este ano e pensar que foi das coisas mais negativas que aconteceu na educação nas últimas décadas. O que aconteceu este ano nos exames é potencialmente uma das coisas mais negativas na educação em décadas."

Vale a pena ler o resto...

4 comentários:

  1. Entrevista demasiado vaga para o meu gosto...

    E então, ninguém faz um post à Elvira Fortunato, a chavala ganhou um prémio de primeira e vocês não dizem nada? Será que ela tem um blogue?

    Já agora, aqui vai um link para um blogue espanhol que faz divulgação de ciência, e não só, com muita pinta, muito nível e pouca formalidade:
    http://www.microsiervos.com/
    Boas postadas, mais à espanhola, se for possível.

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  2. Há de facto um desnivelamento entre a visão da matemática no séc. XXI e a da transição do séc.XVIII-XIX.

    Para se avaliar o olhar crítico vamos reportarmo-nos só e apenas a dois normativos, para se avaliar em que termos era considerada a matemática:

    Carta de Lei de 10.10.1772 - Decretando que as Sciencias Mathematicas fundão os solidos principios para as instrucções das outras disciplinas; e prohibindo o ensino della no Collegio dos Nobres, por se ter estabelecido em a Universidade.

    Alvará de 09.06.1801 - Determinando que os Mathematicos graduados, ou formados na Universidade de Coimbra, preferem a quaesquer outros nos officios, e empregos; e que tem um lugar nos Conselhos da Fazenda, Ultramar, Almirantado, e Junta do Commercio, sendo Mestres na Universidade. E a elles se incumbem quaesquer obras públicas, encanamentos, e outros.

    Conclusões não tiro.
    Ficam bem patentes as diferenças entre o que se pensava sobre a Matemática, a nível da Monarquia, e o que se pensa a nível da República Democrática.

    A atracção paradigmática do português para o atraso sistemático, como um estigma hereditário, se pensarmos que as conquistas e descobertas constituiram um acidente do percurso lusitano.

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  3. O Professor Nuno Crato põe o dedo na ferida (ou diria mesmo, na chaga) quando atribui a Roberto Carneiro responsabilidades no estado a que chegou o ensino. Deve-se a Roberto Carneiro um estatuto da carreira docente que eu tive como um a versão actualizada do "Leito de Procusta" (aliás título de um dos meus livros, Outubro 2005) "em que se esticaram os professores menos ilustrados e se cortaram as pernas aos mais habilitados para nele caberem todos os docentes com parca distinção das respectivas estaturas científica, técnica e pedagógica". Para ser levado para a frente este estatuto chegou-se ao desplante de fazer retroceder os professores licenciados então no topo da carreira letra A (o topo para os bacharéis era a letra B e para os professores do ensino primário e trabalhos manuais sem habilitação superior a letra C) para o 8.º escalão de uma carreira em que o topo passou a ser o 10.º escalão. Ora isto foi conseguido através da pressão que alguns sindicatos fizeram na altura. Ontem como hoje.

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  4. Pergunta o Nuno Crato : porque foi esta a ideologia que dominou e não outra?...

    E logo a seguir conjectura : Muita gente olha para esta ideologia romântica e construtivista como sendo uma ideologia de esquerda. Acho que não é, é uma ideologia transversal e existem exemplos de nichos de direita ou pessoas que foram levadas pela direita para o governo que fazem exactamente a mesma coisa.

    Eu arrisco uma explicação. A ideologia que tem predominado na Educação tem a ver com o enraízado receio das famílias que desde há séculos têm dominado o país, de uma ascensão generalizada dos filhos das famílias mais pobres.

    As famílias que dominam o país não admitem a possibilidade de ver os seus filhos confrontados com a competição dos filhos das famílias “coitadinhas” que, na perspectiva de quem tem usufruído das vantagens do domínio, nasceram para os servir.

    As famílias dominantes sabem que num ambiente de igualdade de oportunidades os seus filhos, não obstante as vantagens de que usufruem à partida, fruto de um meio social mais apetrechado, não têm lugar assegurado, pelo menos os lugares mais interessantes e bem remunerados.

    Para as famílias dominantes há que fazer tudo o que for possível para impedir que se desenvolvam as condições que podem levar à igualdade de oportunidades entre os seus filhos e os filhos da “plebe”.

    Na medida em que se torna cada vez mais difícil contrariar o desenvolvimento e a habilidade física dos filhos da plebe (é possível meter uma cunha para o filho ser apresentador de televisão, mas não para ser titular de uma grande equipa de futebol) a melhor forma de travar os jovens das famílias de mias baixo extracto social é dificultar-lhes o desenvolvimento intelectual, travando o mais possível a aquisição de conhecimentos significativos na escola pública.

    O Ministério da Educação não tem feito outra coisa desde o 25 de Abril. Com ministros de “esquerda” ou de “direita”, o objectivo é o mesmo : tornar o ensino público cada vez mais ineficaz. Os filhos das famílias dominantes têm a opção dos colégios particulares.

    Talvez seja coincidência, mas não deixa de ser curioso que Mário Soares, um badalado “pai” fundador da democracia portuguesa, que desde o 25 de Abril tem estado sempre ligado ao poder em Portugal, quer como Primeiro Ministro, quer como Presidente da República, seja proprietário de um importante colégio particular. Os governos que dirigiu, ou influenciou, nada fizeram pelo ensino público.

    Assim, com consciência ou não do que têm vindo a fazer, os ministros da Educação em Portugal, desde o 25 de Abril, não passam de executores de políticas deliberadas de desvalorização do ensino público.

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