domingo, 11 de janeiro de 2009
Brincadeira ou Delito?
Julgo que a opinião da directora da DREN, Margarida Moreira, segundo a qual a ameaça a uma professora com uma arma de plástico foi uma brincadeira de mau gosto, é uma brincadeira de mau gosto. Mais uma vez se prova que a crítica de cinema é extremamente subjectiva. Eu também vi o filme no YouTube e não dei pela brincadeira de mau gosto. Vi dois ou três encapuzados rodearem uma professora e, enquanto um ergue os punhos e saltita junto dela, imitando um pugilista em combate, outro aponta-lhe uma arma e pergunta: «E agora, vai dar-me positiva ou não?» Na qualidade de apreciador de brincadeiras de mau gosto, fiquei bastante desapontado por não ter detectado esta antes da ajuda de Margarida Moreira.
Vejo-me então forçado a dizer, em defesa das brincadeiras de mau gosto, que, no meu entendimento, as brincadeiras de mau gosto têm duas características encantadoras: primeiro, são brincadeiras; segundo, são de mau gosto. Brincar é saudável, e o mau gosto tem sido muito subvalorizado. No entanto, aquilo que o filme captado na escola do Cerco mostra aproxima-se mais do crime do que da brincadeira. E os crimes, pensava eu, não são de bom-gosto nem de mau gosto. Para mim, estavam um pouco para além disso – o que é, aliás, uma das características encantadoras dos crimes. Se, como diz Margarida Moreira, o que se vê no vídeo se enquadra no âmbito da brincadeira de mau gosto, creio que acaba de se abrir todo um novo domínio de actividade para milhares de brincalhões que, até hoje, estavam convencidos, tal como eu, que o resultado de uma brincadeira é ligeiramente diferente do efeito que puxar de uma arma, mesmo falsa, no Bairro do Cerco, produz.
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Trata-se da mesma directora que suspendeu o professor Fernando Charrua por, numa conversa privada, ele ter feito um comentário desagradável, ou até insultuoso, sobre o primeiro-ministro. Ora, eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o primeiro-ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos.
A disputa de Boltzmann com Ostwald e Mach
A existência dos átomos foi “pressentida” por filósofos e poetas da Antiguidade Clássica como Demócrito, Epicuro e Leucipo. Foi preciso porém esperar até ao século XIX para que o conceito de átomo passasse pelo crivo da verificação experimental. O autor das primeiras verificações foi o químico inglês John Dalton (1766-1844). O nome de Dalton invoca imediatamente o daltonismo, um defeito de visão que consiste na confusão de algumas cores e que afecta quase dez por cento da população masculina incluindo-me a mim (a população feminina transmite o defeito geneticamente, mas só o possui em grau muito inferior). De facto, Dalton e um seu irmão eram daltónicos!
Dalton estudou o ar. Sabia que o ar não era um elemento químico único, como supunham os antigos gregos, mas antes uma mistura de vários elementos, como o oxigénio e o azoto. E supôs que o ar era formado por pequenas partículas, os tais átomos (palavra que significa entidades indivisíveis, em grego). Para Dalton os átomos do mesmo elemento eram todos iguais no peso, no tamanho e na forma, isto é, os elementos distinguiam-se pelos seus átomos. A partir da observação de várias amostras de ar, concluiu que cada transformação química era o resultado da combinação de átomos, chegando mesmo a alguns resultados quantitativos. Claro que a junção de átomos dá origem a moléculas, mas a ideia de moléculas era estranha ao pensamento de Dalton.
Em 1828, quando Dalton tinha 62 anos, um botânico escocês sem qualquer relação nem com ele nem sequer com o estudo dos átomos, efectuou uma observação que haveria, muito mais tarde, de vir a confirmar as ideias atomistas. Robert Brown (1773-1858) reparou que minúsculos grãos de pólen, colocados em água, se moviam de um modo muito desordenado. Na altura pensava-se que o pólen teria vida própria, mas o problema da explicação do movimento browniano persistiu durante quase um século.
Através de numerosas e variadas observações físico-químicas a hipótese atómica de Dalton foi-se consolidando. Um dos seus maiores defensores foi o físico austríaco Ludwig Boltzmann (1844-1906), que estudou o movimento caótico dos átomos ou moléculas de gases (a palavra “gás” surgiu a partir da palavra “caos”). Mas houve fortes opositores: os mais famosos foram o alemão Wilhelm Ostwald (1853-1932) e o austríaco Ernst Mach (1838-1916), que defendiam o primado da energia sobre a matéria - por isso foram chamados energeticistas – e do contínuo sobre o discreto.
A correcta interpretação do movimento browniano efectuada por Einstein (1879-1955) no “annus mirabilis” de 1905 veio confirmar a hipótese atómica. A partir de então os átomos deixaram de ser uma mera hipótese. O jovem Einstein descreveu e interpretou o movimento browniano, concluindo que os grandes grãos de pólen tinham um movimento errático devido ao embate de moléculas de água muito menores. Era o movimento irregular e incessante das moléculas de água que originava o movimento, visível apenas ao microscópio, dos grãos de pólen. Os cálculos de Einstein seriam confirmados por experiências do físico francês Jean Perrin (1870-1942), alguns anos mais tarde, que lhe valeram o Prémio Nobel da Física. Até hoje e já passou bastante tempo, a descoberta do movimento browniano foi, sem dúvida nenhuma, a maior contribuição que a botânica deu à física!
Quanto aos detractores do atomismo, Ostwald acabou por se convencer da justeza do atomismo devido à influência de Boltzmann e, obviamente, à clareza dos resultados experimentais. Contudo, Mach conservou até ao fim da sua vida a sua ilusão na continuidade da matéria. Apesar do triunfo do atomismo, Boltzmann teve um fim trágico: suicidou-se por enforcamento em 1906, quando estava em Trieste, havendo algum mistério sobre as causas da sua morte. Há quem diga que teria sido desespero pela incompreensão de que foi vítima nos meios científicos; nesse caso, bem podia ter esperado um bocadinho...
Piaget I: Ensinar pode impedir a compreensão?
“Cada vez que se ensina prematuramente a uma criança algo que ela poderia ter descoberto por si, ela fica impedida de a inventar e, por isso, de a compreender completamente” (Jean Piaget, 1937).Esta foi a frase do biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, Jean Piaget (1896-1980), constante sua obra La construction du réel chez l'enfant, datada de 1937, que Nuno Crato recordou e discutiu na sua crónica do Semanário Expresso, de 20 de Dezembro do ano passado.
Trata-se duma frase que é frequentemente invocada como argumento de autoridade por académicos e responsáveis por políticas educativas: se Piaget escreveu o que escreveu, então, é verdade. E o que é que é verdade?
É verdade que a criança não deve ser ensinada, ou seja, direccionada para determinada aprendizagem pelo professor, porque, quando se encontra no momento apropriado para a fazer, é capaz de a fazer autónoma e criativamente (por si só e em colaboração com outras crianças) sendo que (só) desta maneira, atinge a compreensão.

Esta ideia de Piaget aparece reforçada numa outra obra de 1969 - Psychologie et Pedagogie -, que foi apresentada como “A resposta do grande psicólogo aos problemas do ensino”. No tópico dedicado aos métodos activos, este autor adverte para o facto de as actividades educativas proporcionadas à criança não deverem ser entendidas apenas como manipulação de objectos, mas também e, principalmente, como reflexão, abstracção e exploração verbal. Terão, no entanto, de ser espontâneas, e não impostas, sob o risco de permanecerem parcialmente incompreendidas (página 102).
Como Nuno Crato notou, temos hoje suficientes dados científicos para afirmar que, no essencial, esta ideia de Piaget está errada: as crianças precisam de ser ensinadas (ou seja, ajudadas pelo professor) para compreenderem e criarem.
Sabemos, portanto, com grande certeza, que os processos de compreensão e de criação não despontam naturalmente: requerem uma estimulação direccionada, que é, no presente, em grande medida, da responsabilidade das escolas e, claro, dos professores, seguida de um trabalho necessário por parte do aluno.
Acontece que os investigadores, mesmo os maiores, enganam-se e, neste particular, como, certamente, noutros, Piaget enganou-se. Mas, como já tive oportunidade de dizer a Nuno Crato, o mais grave não foi ele ter-se enganado; o mais grave é dispormos de observações empíricas credíveis que evidenciam o erro e continuarmos a persistir nele. Mais: afirmarmos o erro como um princípio pedagógico inquestionável, invocado-o para justificar medidas educativas que vão no sentido de deixar as crianças mais ou menos entregues a si própria ou entregues umas às outras, na esperança de que, assim, atinjam a verdadeira compreensão e se tornem criativas.
O dever de formar para educar
Prosseguindo o raciocínio da última sessão, dedicada ao dever de educar do professor, mas avançando nele, discute-se, agora, a formação de quem ensina, para poder assumir tal dever com responsabilidade. Questiona-se, em particular, que princípios devem nortear essa formação? Como se deve concretizar? Quem a deve assumir?...
É convidado Rui Marques Veloso, professor aposentado da Escola Superior de Educação de Coimbra que colaborou na formação de várias gerações de professores, mantendo o seu interesse e trabalho nesta área.
Local: Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra
As sessões deste ciclo são quinzenais e estão abertas ao público
sábado, 10 de janeiro de 2009
Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
Museu da Ciência revela segredos dos brinquedos: Sessão de 18 de Janeiro é orientada por físico da Universidade de Cantabria, Espanha
Será que o caminho mais rápido para o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) é o caminho mais curto? Pequenos e graúdos podem descobrir em conjunto a solução deste problema já no próximo dia 18 de Janeiro (domingo). Mais depressa ou mais devagar, basta inscreverem-se em mais uma sessão da Ciência em Família do Museu da Ciência da UC, desta feita dedicada aos mistérios dos brinquedos.
Que ciência podemos aprender a partir das brincadeiras do dia-a-dia? Por que é que um cientista e filósofo famoso como Descartes se deu ao trabalho de inventar um brinquedo? Que segredos guardará? E que mistérios esconde um objecto de decoração que foi originalmente criado pelo próprio Galileu Galilei? Estas e outras perguntas dão o mote à primeira edição da Ciência em Família de 2009.
O físico e professor da Universidade de Cantabria (Espanha) Julio Güémez é o primeiro convidado do ano do Museu da Ciência da UC, que dará a conhecer às famílias instrumentos “mágicos” como o mergulhador de Descartes e o termómetro de Galileu.
A sessão de 18 de Janeiro decorre das 11h às 12h no Museu da Ciência, instalado no antigo Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra, perto da Sé Nova (Largo Marquês de Pombal).
A participação nas sessões da Ciência em Família requer inscrição prévia, que pode ser formalizada através do número de telefone 239 85 43 50 ou do fax 239 85 43 59. O custo, que se reporta apenas à entrada no Museu, é de três euros por pessoa (1,50 euros para estudantes, professores, titulares de cartão jovem ou adultos a partir dos 66 anos; gratuito para docentes, alunos e funcionários da UC, crianças até aos 5 anos, sócios do ICOM – Conselho Internacional de Museus, MC2P – Associação de Museus e Centros de Ciência de Portugal e da APOM – Associação Portuguesa de Museologia).
Depois dos brinquedos, o Museu da Ciência irá promover a 15 de Fevereiro mais uma sessão para adultos e crianças, dedicada ao mundo da electricidade.
"A DIFERENÇA É PROFUNDA"
"Cristo propôs-se regenerar um ente miserável, decaído do seu primitivo esplendor por causa dos seus pecados; Darwin estimula a humanidade na senda dum progresso incessante partindo, ao contrário, duma origem obscura e bestial. A diferença é profunda."Francisco de Arruda Furtado, "Carlos Darwin", O Século, 2 (433) 9 de Junho de 1882, ano da morte de Darwin.
Ofensa, insulto e discussão de ideias
Dick Cavett elogia o insulto no New York Times de ontem. Eu nunca elogiei o insulto nos meus artigos recentes sobre o tema, mas parece que alguns leitores me compreenderam desse modo. Eu preferiria um mundo sem insultos, onde as pessoas pudessem discutir ideias tranquilamente, com interesse genuíno pelas ideias e não pela luta simiesca pelo poder ou com preocupações igualmente simiescas com a “dignidade”, entendida como hierarquia social. Por outro lado, é de uma espantosa hipocrisia defender o insulto como limite legítimo da liberdade de expressão, ao mesmo tempo que se insulta veladamente os outros. Os insultos velados têm a desvantagem, relativamente aos explícitos, de acrescentarem a hipocrisia à falta de educação. Se temos de escolher entre dois males, é preferível o insulto claro e directo. Mas, claro, melhor ainda é não insultar as pessoas.
Contudo, nada há praticamente que se possa dizer que outra pessoa não possa sentir como insultuoso, mesmo que a intenção não tenha sido essa. Eu parei de falar de filosofia continental, por exemplo, porque apesar de esta não ser uma expressão insultuosa e apesar de estar academicamente consagrada — havendo inúmeros livros
Claro que as pessoas têm uma imensa dificuldade em compreender o que pode ofender ou não os outros. Algumas pessoas religiosas não se apercebem que as ideias do papa sobre os homossexuais são ofensivas para alguns homossexuais, tal como para alguns ateus é ofensivo que alguém declare rezar por eles, esperando assim que eles acabem por ver a Luz. É fácil ver o que nos ofende, mas menos fácil ver o que ofende os outros. Isto coloca o livre-pensador numa desvantagem histórica injusta, pois há uma tendência para aceitar prontamente que é ofensivo afirmar que o papa acredita que o vinho se transforma em sangue, se isso for dito num certo tom, mas não é visto como ofensivo usar o termo “Homem”, com maiúscula e tudo, para falar da humanidade. Compare-se a ofensa que seria para alguns homens que usam roupas parecidas com vestidos de mulher, como o papa, usar o termo “Mulher” para falar da humanidade, incluindo-os a eles.
Historicamente, a acusação de insulto (sendo a blasfémia um tipo de insulto religioso) sempre foi usada para impedir a discussão livre. E hoje o politicamente correcto desempenha essa mesmíssima função: em vez de expressarem a sua discordância perante uma dada opinião, as pessoas manifestam a sua ira e ofensa pelo facto de tal opinião ter sido expressa. Ora, protestar pela expressão de uma opinião é uma coisa muito — muitíssimo — diferente de discordar clara e firmemente dessa opinião, explicando porquê.
Não devemos proibir o insulto. Não devemos também insultar os outros. Mas se nos sentirmos insultados com algo, devemos fazer duas coisas. Primeiro, fazer uma introspecção para saber por que razão tal coisa nos ofende. A probabilidade elevada é que nos ofende porque queremos esconder de nós mesmos uma verdade desagradável. Segundo, devemos explicar claramente e sem ofensas por que razão discordamos de tal ideia, sublinhando ao mesmo tempo que defendemos a liberdade do outro para a exprimir e defender publicamente.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Teoria e observação na SEP
O problema filosófico fundamental é saber qual é exactamente a relação entre a observação e a teoria, em ciências como a física ou a biologia. Ao contrário do verificacionismo ingénuo que muitas pessoas sustentam, não há uma relação directa, pois praticamente qualquer teoria pode ser sustentada face a quaisquer observações que aparentemente a refutam, mudando ligeiramente certos aspectos inessenciais da teoria.
Esta banalidade lógica gera muita parvoíce, como a que constantemente nos infecta este blog: o nosso criacionista de serviço, que raia a loucura e cujos comentários tenho tido o gozo de apagar nos últimos dias, argumenta sistematicamente com base na ideia de que é possível compatibilizar o criacionismo judaico-medieval com as observações aparentemente recalcitrantes. E é. Só que isso não basta para ser racional sustentar uma dada teoria. Saber o que basta ou não é o tema do artigo.
O senhor é que é filho de Deus!
Uma perspectiva pouco usual sobre o insulto, mas esclarecedora.
Em primeiro lugar, porque poucas pessoas religiosas se apercebem que dizer a um ateu que rezam por ele ou que ele também é filho de Deus ou qualquer coisa desse género é por vezes sentido como insultuoso pelo ateu.
Em segundo lugar, porque muitas vezes essa pretensa reza é uma forma velada, mas ainda assim visível, de insulto. E nestas coisas, como noutras, mais vale ser sincero e insultar a pessoa abertamente. É como aquela tolice de se dizer "oiça, meu caro amigo, ..." quando na verdade se quer dizer "oiça, minha besta..." -- tendo esta última a vantagem de não emporcalhar a semântica e de ser mais honesta.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
AINDA MAIS HUMOR CIENTÍFICO

Outra peça do David Marçal publicada no "Inimigo Público" de hoje:
Investigação criminal: o ADN que é torturado e forçado a confessar, em vez dos suspeitos
Com a nova base de dados de ADN, que será inaugurada em 2009, muda o paradigma da investigação criminal em Portugal. No entanto, a confissão, o método em que tradicionalmente se baseia todo o trabalho de polícia em Portugal, mantém-se. Mas é o ADN que bufa.
Maneiras de torturar o ADN:
- Ameaças com enzimas de restrição, que cortam o ADN em bocados.
- Álcool etílico boarding. O álcool etílico faz o ADN desnaturar e aglomerar em grandes novelos brancos, uma espécie de mumificação.
- Hibridação com o ADN de Pacheco Pereira.
- Aquecimento a 95º. Abre a cadeia dupla, deixando o ADN numa situação humilhante.
- CD de André Sardet
- Mutações pontuais. Pequenas mutilações da sequência de bases, praticamente imperceptíveis mas que podem provocar doenças graves.
- Naked fingering. Consiste em tocar no ADN sem luvas.
David Marçal
MAIS HUMOR CIENTÍFICO DO DAVID MARÇAL

Mais uma peça do humor científico do David Marçal no "Inimigo Público" (atenção que este suplemento do "Público" passou da sexta para a quinta-feira):
Alterações climáticas passam a chamar-se variações curiosas do clima
Depois da expressão "aquecimento global" ter caído em desuso, é a vez de a ainda melodramática "alterações climáticas" dar lugar a designações mais suaves. O "Inimigo Público" faz a história e perspectivas da terminologia climática global.
1999 - Aquecimento global
2004 - Alterações climáticas
2009 - Variações curiosas do clima
2011 - Instabilidades meteorológicas locais
2012 - Efeito Carlos Pimenta
2013 - Pequenas diferenças na calibração dos termómetros
2014 - Alucinação colectiva
2015 - Cabala involuntária
2016 - Cabala voluntária
2017 - Terrorismo
David Marçal
Espólios Digitais
Foi hoje inaugurada a Biblioteca Digital Camões, onde os visitantes dispõem de aproximadamente 1200 registos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos, entre textos literários, pautas musicais, ensaios, poesia e publicações científicas. Dentro em breve estará ainda disponível o acervo da Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses.
Também o Museu Ernest Hemingway em Finca Vigia, Cuba, vai tornar público o seu espólio (armazenado na cave da casa onde Hemingway viveu 21 anos e escreveu algumas das suas obras mais marcantes). O arquivo do autor estará disponível em breve e contará com fotografias, cartas e manuscritos, além do epílogo, nunca publicado, do romance «Por quem os sinos dobram».Como explicou Ada Rosa Alfonso, directora do Museu, «Estamos a falar de 3,194 páginas de documentos, mais de 2 mil documentos, alguns já digitalizado» que permitirão aos estudiosos «debruçar-se sobre documentos que lançam luz sobre o período cubano de Hemingway, que foi muito importante e pouco conhecido pelos seus biógrafos».
UM "CARTOON" DO FRIO NORTE

Todos estarão lembrados da polémica em torno dos "cartoons" de Maomé publicados por um jornal dinamarquês. Agora chegou à minha caixa do correio, também do frio Norte da agora tão fria Europa, um "cartoon" que, embora noutra escala, pode provocar polémica. Não sei mesmo se não será considerado blasfemo por alguns...
Aqui no "De Rerum Natura" gostamos da polémica. Não, não pensem que eu penso que não haja aquecimento global. Já escrevi que há, embora não porque o Al Gore diga que haja. E também não pensem que sou a favor da queima de livros, até porque dirijo uma grande biblioteca e sou absolutamente contra todos os "Fahrenheits 451". Os livros, mesmos os que alguns declaram mentirosos, são para preservar. Sou a favor da liberdade de expressão, incluindo a liberdade de expressão dos "cartoonistas".
Qual relógio de sol em tempo brusco.

Informação recebida de Fernando Correia de Oliveira:
2009 – "qual relógio de sol em tempo brusco"
Respigando os dados para Almanaques do Observatório Astronómico de Lisboa, e tomando como referência o calendário gregoriano, o dia 14 de Janeiro corresponde ao dia 1 de Janeiro do calendário juliano. O ano 2009 da era vulgar, ou de Cristo, é o 9.º do século XXI e corresponde ao ano 6722 do período juliano, contendo os dias 2 454 833 a 2 455 197. O ano 7518 da era bizantina começa no dia 14 de Setembro. O ano 5770 da era israelita começa ao pôr do Sol do dia 18 de Setembro. O ano 4646 da era chinesa (ano do búfalo) começa no dia 26 de Janeiro. O ano 2785 das Olimpíadas (ou 1º da 697ª), começa no dia 14 de Setembro, ao uso bizantino. O ano 2762 da Fundação de Roma "ab urbe condita", segundo Varrão, começa no dia 14 de Janeiro. O ano 2758 da era Nabonassar começa no dia 21 de Abril. O ano 2669 da era japonesa, ou 21 do período Heisei (que se seguiu ao período Xô-Uá), começa no dia 1 de Janeiro. O ano 2321 da era grega (ou dos Seleucidas) começa, segundo os usos actuais dos sírios, no dia 14 de Setembro ou no dia 14 de Outubro, conforme as seitas religiosas. O ano 2047 da era de César (ou hispânica), usada em Portugal até 1422, começa no dia 14 de Janeiro. O ano 1931 da era Saka, no calendário indiano reformado, começa no dia 22 de Março. O ano 1726 da era de Diocleciano começa no dia 11 de Setembro. O ano 1431 da era islâmica (ou Hégira) começa ao pôr do Sol do dia 17 de Dezembro.
Já se quiser ver o próximo eclipse total do sol, a 21-22 de Julho, terá que estar nessa altura na Índia, Nepal, China ou algures no Pacífico onde a sua "faixa de totalidade" passe. Isso faz-nos lembrar breu, penumbra sombra, luz, relógios de sol.
Em tempo de crise, nada melhor do que citar Joaquim Fortunato de Valadares Gamboa, poeta menor português que em 1791 dava à estampa em Lisboa o seguinte poema:
Que relógio de sol, que serventia
Ter não pode de alguma utilidade
Quando o dia está brusco, e na verdade
Ninguém faz dele caso nesse dia:
Assim se da pobreza a mão sombria
Faz no homem qualquer escuridade
Em lhe faltando do ouro a claridade
É dos outros desprezo e zombaria:
Dos planetas mais nobre é o sol louro;
O ouro dos metais; e está mais fusco,
Que relógio sem sol, homem sem ouro:
Disto exemplos alheios eu não busco;
pois me vejo que estou, com vil desdouro,
Qual relógio de sol em tempo brusco.
Pois que 2009 não seja um eclipse total e que a luz do sol volte depressa, dizemos nós.
allaworldontime@gmail.com
http://sites.google.com/site/fernandocorreiadeoliveira/ (english) http://allaworldontime.blogspot.com (english)
www.fernandocorreiadeoliveira.com (portuguese)
Eu, tu ele, nós, vós, eles
BONIFRATES ESTREIA PEÇA DE SÉRGIO GODINHO
Por esta peça recebeu o autor, em 1982, o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura.
Segundo Eurídice Rocha, "num mundo virado do avesso, onde às crianças é 'proibido" brincar e conviver, Eu, tu, ele, nós, vós, eles é uma história repleta de movimento, partilha, tolerância e amizade, na relação entre cinco personagens". Na construção deste espectáculo, "através da descoberta das diversas partes do corpo do outro, as personagens vão buscar memórias aos afectos e devolvê-las ao grupo, que adere sempre ao jogo". Assim "o outro é o encontro e o desencontro com o que vai passando por qualquer um de nós na vida e nos deixa mais ricos".
O projecto Bonifrates-Júnior, com início há três anos, já proporcionou a estreia de dois espectáculos: Bonecos e Bonecas, de Luis Coquard, e O Palhaço Arco-Íris, de Ricardo Rodriguez, ambos com encenação de João Maria André.
A estreia será a 9 de Janeiro , pelas 21h45 e o espectáculo estará em cena, no mês de Janeiro, nos dias 16, e 30 às 21h45 e nos dias 10, 17, 24 e 31 às 16h30. Será também com ele que se comemorá a 29 de Janeiro, às 21.45 horas, o 29.º aniversário da Bonifrates. No mês de Fevereiro, estará em cena nos dias 6 e 13 às 21.45 e 7 e 14 às 16.30, no Teatro-Estúdio Bonifrates, na Casa Municipal da Cultura.
O espectáculo conta com Assistência de encenação de Cândida Ferreira, Desenho de luz e de cartaz de Nuno Patinho, Cenografia de Cristina Janicas e João Paulo Janicas, Figurinos de Alexandra Silva, Adereços de Helena Marques, Andreia Pena e Miguel Carvalho e Coreografia de Bárbara Janicas e Mariana Alves. O elenco é constituído por: André Pereira, Artur Providência, Bárbara Janicas, João Afonso Cardoso, João Diogo, João Fragoso, João Portugal, Mafalda Marques, Maria Cardantas, Mariana Alves, Mariana Eufrásio e Mariana Silva.
Reservas de bilhetes através do telefone 239716095. Bilhetes à venda no local uma horas antes do espectáculo. Os preços dos bilhetes são os seguintes: Normal – 5 €; Estudante e entidades parceiras – 4 €; Clube de Amigos e Jovens (até aos 16 anos) – 3 €.
Para outras informações é favor contactar a Cooperativa Bonifrates pelos telefones 966335976, 965292434 ou 239716095.
Com as nossas saudações teatrais,
A Bonifrates
CIÊNCIA LUSO-BRASILEIRA NA ÉPOCA DAS LUZES

Relações Científicas entre Portugal e o Brasil após a Reforma Pombalina
PALESTRA 14 JANEIRO 2009 | 14H00
ENTRADA LIVRE
Há dois séculos, pela primeira e única vez na História, uma Corte europeia mudava-se para o continente americano. Iniciava-se dessa forma um período de grande vitalidade no desenvolvimento da Ciência tanto em Portugal como no Brasil.
Neste colóquio, iremos conhecer de perto algumas figuras chave desse período, nomeadamente Domingos Vandelli (1735-1816), figura fundamental no desenvolvimento da História Natural e da Química em Portugal, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), que na Universidade de Coimbra ocupou a cátedra de Metalurgia, e finalmente o naturalista luso-brasileiro Alexandre Antonio Vandelli (1784-1859), filho de Domingos Vandelli e genro de Andrada e Silva, que foi Mestre de “Botânica e Princípios de Ciências Naturais” junto do Imperador D. Pedro II e da família Imperial.
Programa:
Os brasileiros na Reforma Pombalina da Universidade
por Décio Martins
Dep. de Física, FCTUC
O Laboratório Chimico e o Colégio de Jesus: Espaços de Ensino e Divulgação da Ciência (aguarda confirmação)
por Catarina Pires
Universidade de Coimbra
Sobre a vida e a obra de José Bonifácio de Andrada e Silva
por Martim Portugal
Dep. de Ciências da Terra, FCTUC
Domingos Vandelli e a Ciência das "Utopias" científicas
por António Amorim da Costa
Dep. de Química, FCTUC
Vida e Obra do naturalista Alexandre Antonio Vandelli
por Adílio Jorge Marques
Dep. de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Durante o colóquio, terá ainda lugar uma visita guiada às colecções de Mineralogia e de Zoologia da Universidade de Coimbra.
Gentlemen, place your bets

Ou melhor ainda, votem.
Estão abertas as votações para os melhores blogs de Ciência em 2008. Os nomeados são:
Pharyngula (PZ Myers)
Improbable Research
Climate Audit
Bad Astronomy
Real Climate
NASA Watch
Watt's Up with That
NeuroLogica Blog
60-Second Science
Greg Laden
À parte a questão mais ou menos folclórica da votação (que vale o que vale - é uma espécie de concurso de popularidade) a verdade é que todos eles têm qualidade extraordinária e provavelmente merecem ser seguidos com atenção pelos leitores do DRN. Pessoalmente, recomendo vivamente pelo menos uma visita a cada um.
Já agora, a votação não se restringe à Ciência - há cerca de 50 categorias nos Weblog Awards, algumas das quais verdadeiras pérolas (gosto particularmente dos cartoons). Vale a pena dar uma vista de olhos. E, até dia 13 de Janeiro, votar.
Blasfémias
Com o advento do cristianismo, ambas as palavras evoluíram, assumindo significados exclusivamente dirigidos para a religião cristã, isto é, heresia passou a ser uma declaração contra a fé cristã como interpretada pela hierarquia da Igreja e blasfémia perdeu a sua dimensão humana. A conjunção de ambas as palavras foi considerada especialmente grave, isto é, uma blasfémia herética, como dizer que Deus é um produto dos homens ou negar a natureza divina do Cristo, era (e aparentemente continua a ser) um «pecado» mortal dos mais graves (com isto significando durante muito tempo merecedor de morte).
É assim curioso o Desidério ter referido a palavra blasfémia no contexto do que tem acendido o De Rerum Natura, o artigo que escreveu para o Público de 24 de Dezembro sobre as observações «ecológicas» de Bento XVI. É curioso porque o artigo foi escrito ao mesmo tempo que a Assembleia Geral da ONU votava pelo quarto ano consecutivo uma resolução condenando a blasfémia, ou antes, a «difamação» da religião - a boa notícia nesta história é que o apoio à resolução tem diminuido consideravelmente ao longo dos anos, não obstante este ano a China e a Rússia terem decidido apoiar os estados islâmicos seus proponentes.
Mas é mais curioso porque nessa mesma edição, o meu pequeno parágrafo perdido no meio de duas páginas de respostas à pergunta que o Público colocou a 18 pessoas, sobre o que faria/como seria Jesus se viesse hoje à Terra:
Se é que existiu alguém chamado Jesus, seria uma pessoa normalíssima. Seria igualzinho a nós, em nada seria diferente. Tenho muita curiosidade sobre o assunto e já li muitos autores que divergem quanto à existência histórica de Jesus. Tenho sérias dúvidas que tivesse existido.causou reacções semelhantes, não nas cartas de leitores mas nas minhas caixas de mail. Mais concretamente, tive um entupimento de mensagens de pessoas que se sentiram insultadas/incomodadas com a minha resposta e se deram ao trabalho de me procurar no Google para informarem enfaticamente - a maioria no meio de imensas considerações sobre a minha mãe, a minha vida sexual, a minha integridade física e mental e quejandos -, que eu não tinha o direito de pensar uma heresia blasfema destas, muito menos tinha direito de a dizer publicamente.
Achei especialmente divertido um mui indignado senhor, que, de dedo virtual em riste, me admoestava dizendo, entre outras tolices, que uma professora universitária tinha «responsabilidades» sociais e não podia arrogar-se ao escândalo de se afirmar ateia nem dizer «blasfémias» destas já que poderia influenciar os mais «vulneráveis» intelectualmente.
Não me estou nem a vitimizar nem a queixar do teor dos mails, embora discordando de alguns pontos do texto subscrevo o Desidério, não só quando este diz que« as pessoas devem ter direito às suas tolices» mas também quando noutra crónica constatou que muitos pensam que liberdade de expressão significa que «cada qual pode dizer o que quiser, desde que não me insulte nem me ofenda nem ponha em causa as minhas causas mais queridas nem chame nomes feios à minha gata». Apenas acho espantoso que aqueles que exercem tão vigorosamente o seu direito às liberdades de opinião e expressão as neguem a mim apenas porque o que penso e digo é diverso daquilo em que creêm.
Não posso deixar de considerar igualmente espantoso que alguns acusem (também virtualmente) ser «cristianofobia» o facto de pensar como penso. Isto é, não consigo perceber os processos mentais de alguém que acha que sou ateia de propósito para chatear os cristãos e para perseguir a fé. Devem ser mistérios da dita que me ultrapassam ... mas me preocupam exactamente pelas razões que preocupam os que criticaram a resolução da ONU (felizmente não vinculativa), que considera numa das cláusulas que as liberdades de expressão e opinião «carries with it special duties and responsibilities and may therefore be subject to limitations».
As liberdades de expressão e de opinião são fundamentais na nossa sociedade democrática e livre. Foram opiniões fora do baralho que sensibilizaram consciências e conduziram à abolição da escravatura, à instituição da democracia, à igualdade de direitos para todos, independentemente de cor da epiderme, credo, sexo ou opção sexual. Pretender que apenas as ortodoxias religiosas de todas as cores têm direito pleno a elas e que todos os outros estão limitados à concordância - ou pelo menos abstenção de críticas - com essa ortodoxia é o caminho certo para a reversão da sociedade que construímos. Por estas razões, este hate mail incomodou-me, não pelo conteúdo ou pelos insultos, mas apenas pelo espírito totalitário que lhe está subjacente.
Salman Rushdie
O conceito de blasfémia sempre foi uma arma com que os ortodoxos procuraram silenciar os não ortodoxos. Os julgamentos de Galileu, Sócrates e de Jesus Cristo basearam-se em acusações de prática do crime de blasfémia, e todos os veredictos confirmaram as suas condenações. E, no entanto, foram essas «blasfémias» que lançaram os fundamentos da ciência, da filosofia e da religião europeias.
Porque morrem os pelicanos?

Em 1948, Paul Müller ganhou o Nobel da medicina pela descoberta das propriedades insecticidas do DDT, em particular em relação aos vectores de doenças como a febre amarela e a malária. O DDT foi assim um dos primeiros insecticidas a ser usado extensivamente, não só na erradicação da malária como na agricultura. Mas o DDT é igualmente um poluente organoclorado persistente e bioacumulável, nomeadamente o DDT utilizado na agricultura é lixiviado dos campos para os cursos de água e posteriormente para zonas costeiras, afectando peixes e os seus predadores. Este desregulador endócrino que se acumula nos tecidos adiposos afecta especialmente os sistemas reprodutivo e nervoso. Em particular, o DDT e um dos seus produtos de degradação, o DDE, interferem na regulação hormonal de certos pássaros, provocando o enfraquecimento da casca do ovo e comprometendo a reprodução da espécie.
Em 1962, foi publicado o livro Silent Spring, de Rachel Carson, considerado uma das obras mais influentes do século e que despertou a consciência ecológica do mundo. O livro alertava para os efeitos ambientais do DDT, em particular para o facto de o DDT estar a causar a extinção de algumas espécies, entre as quais aquela que é o símbolo dos EUA, a águia careca, mas também o falcão peregrino e o pelicano castanho da Califórnia. O livro esteve várias semanas na lista de best-sellers no New York Times e causou tantos protestos públicos que o DDT, após uma acirrada disputa judicial e política, foi banido nos EUA e pouco depois na maioria dos países industrializados. Actualmente a sua utilização é controlada pela Convenção de Estocolmo sobre POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes).
Os pelicanos castanhos da Califórnia, depois de terem recuperado dos efeitos nocivos do DDT, parecem estar de novo ameaçados, pelo menos é o que indicam as notícias que nos chegam da Baja California. Um número pouco habitual de pássaros mortos ou gravemente doentes têm aparecido na costa oeste dos Estados Unidos, do Oregão a San Diego, e os peritos em vida marinha não sabem bem porquê. De acordo com o International Bird Rescue Research Center em Fairfield, Califórnia, mais de 74 pássaros doentes foram trazidos para o centro nos últimos dias e receberam centenas de chamadas informando a descoberta de pelicanos mortos ou doentes e confusos. O director executivo do centro, Jay Holcomb, indica que os pelicanos estão exaustos, desorientados e apresentam as patas e a bolsa do pescoço descolorida.
«The ones that are captured are very thin, emaciated birds — these are animals who know how to care for themselves that don’t know where they are,» informou Holcomb. «The starvation is secondary, so something is going on that's making them not able to hunt.»
As autoridades norte-americanas estão a tentar descobrir a causa primária da morte dos pelicanos. Embora se especule se esta poderá ser o ácido domóico que causa a intoxicação amnésica de que falei a propósito do filme «Os pássaros» de Hitchtcock, os sintomas apresentados e o facto de apenas pelicanos serem afectados parecem excluir a hipótese. Mas poderá ser uma toxina ainda desconhecida produzida por outra alga que se acumule nos peixes de que se alimentam os pelicanos. Outra possível causa poderá ser um vírus como o vírus do Nilo que em 2007 ameaçou a colónia de pelicanos brancos no Medicine Lake National Wildlife Refuge no Montana.
Qualquer que seja o culpado encontrado, este é mais um alerta para a urgência de salvarmos os nossos oceanos e os seus frágeis ecossistemas.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Liberdade de expressão e comentários
Um leitor deste blog levantou a questão muito comum de saber se apagar comentários num blog, ou mesmo pedir que as pessoas se identifiquem, é um atentado à liberdade de expressão. É efectivamente muito comum pensar que o é, mas eu não concordo. Desde que uma pessoa possa fazer outros blogs, não é uma ameaça à liberdade de expressão que os autores de um blog apaguem comentários. Pode revelar estupidez e falta de capacidade para lidar com objecções ou opiniões contraditórias; mas não é um atentado à liberdade de expressão. A situação é análoga a uma pessoa que tem uma editora: ela não está eo ipso obrigada a publicar tudo o que lhe enviam. Uma vez mais, as suas aceitações e recusas podem revelar estupidez e falta de capacidade para lidar com a diferença; mas não é um atentado à liberdade de expressão, desde que existam outros editores.
A única razão pela qual eu não faço moderação de todos os comentários deste blog, apagando o muito lixo que aparece, é que isso consumiria demasiado tempo e tenho melhores coisas para fazer. Mas o facto de os comentários serem livres significa uma coisa desagradável: dado que uma parte significativa dos comentários são meras bocas, as pessoas que estariam dispostas a desenvolver comentários mais articulados e melhor pensados afastam-se. O que significa que se perde uma boa oportunidade de se ter um espaço de debate, e fica-se com mais uma taberna, igual a tantos blogs. Esta é a razão pela qual os melhores espaços de debate continuam a ser as revistas académicas e não os jornais, nem os blogs, cujas caixas de comentários são uma mera extensão da conversa de taberna.
Na verdade, quem pensa que apagar lixo é um atentado à liberdade de expressão está a ver as coisas ao contrário: o atentado à liberdade de expressão é a boca tola, porque impede a discussão articulada, inibindo quem teria coisas verdadeiramente interessantes para dizer. É como uma pessoa ir a um debate público e desatar a gritar o tempo todo dizendo tolices atrás umas das outras. É óbvio que a consequência disso é acabar com o debate.
A verdade desagradável e que a maior parte das pessoas não está disposta a admitir é que quase ninguém tem qualquer tipo de interesse em no debate genuíno de ideias; tudo o que muitas pessoas que abundam na Internet querem é 1) ajudar a passar o tempo, porque a Internet é vista como entretenimento e 2) fazer valer os seus pontos de vista, que serão sempre iguais e sempre os mesmos e que não se baseiam em mais estudo do que o que se lê na sanita, de vez em quando. Evidentemente, quem gosta realmente de estudar e de discutir ideias não tem qualquer interesse neste exercício de futilidade narcísica.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
A recepção de Darwin em Portugal: Resposta a Maria Filomena Mónica
Darwin em PortugalAgradecendo o comentário por parte de uma autora que leio sempre com muito agrado, gostaria de citar o Prof. Germano Sacarrão, da Universidade de Lisboa, infelizmente já falecido (que falta ele nos faz neste ano Darwin...), que afirmou de um modo bem claro:
Carlos Fiolhais teve o mérito de ter sido o primeiro a chamar a atenção, logo a 2 de Janeiro, para o duplo centenário de Darwin: do nascimento em 1809 e da publicação de A Origem das Espécies em 1859. Mas falha no que diz respeito ao carácter obsoleto da Universidade de Coimbra no século XIX. Longe de mim vir a público defender o mérito científico da instituição. O que acontece é ter ela sido pintada com cores demasiado escuras pelos mais famosos dos seus alunos. Fiolhais defende que as ideias de Darwin chegaram a Portugal com "demora". Não é verdade. Como o não é a tese de que a obra de Darwin tenha sido abafada.
Em 1865, ou seja, seis anos apenas após a publicação da sua mais polémica obra, um professor de Botânica, Júlio Augusto Henriques, doutorava-se com uma tese sobre Darwin. No In Memoriam sobre Antero, Eça de Queiroz, que chegara a Coimbra em 1861, escrevia: "Cada manhã trazia a sua revelação como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico e Proudhon; (...) e Poe, e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros". Mais tarde, quando Arruda Furtado publicou O Homem e o Macaco não achou nada melhor do que enviar o livro a um dos maiores proprietários açorianos, José do Canto - de quem aliás fora guarda-livros -, sem pensar um segundo que o poderia chocar. Em suma, o que aconteceu foi que, num país onde ninguém lia a Bíblia, poucos se interessaram pelo darwinismo.
Maria Filomena Mónica, Lisboa
"Em Portugal nunca se deu importância à realidade fundamental da evolução biológica, nunca se tomou a sério o facto de que nada em biologia faz sentido a não ser à luz da história evolutiva, de uma problemática de mudança e adaptação" ("O darwinismo em Portugal", Prelo, 7, Abr.-Jun. 1985).O que eu disse, lembro, foi:
"(...) se hoje os cientistas são todos darwinistas, há 150 anos, quando foi divulgada a revolucionária teoria de Darwin, não havia entre nós quase ninguém interessado nas ideias do inglês. (...) A demora com que as ideias de Darwin chegaram até nós é sintomática do nosso atraso científico no século XIX. "Julgo que é incontestável que em 1859 e anos próximos quase ninguém em Portugal se interessou pelas ideias de Darwin. Claro que o botânico Júlio Henriques (passo todos os dias na Alameda com o seu nome ao lado do Jardim Botânico de Coimbra) falou dele em 1865, mas foi só passados seis anos e foi uma voz quase isolada (Jaime Batalha Reis também refere Darwin em 1866). Uma andorinha não faz a Primavera e muito menos o faz quando voa no Verão. Preferi falar de Arruda Furtado, até porque, que eu saiba, Darwin não escreveu a Júlio Henriques.
E julgo que o nosso atraso científico no século XIX é incontestável, o próprio Antero, cuja filosofia está permeada pelas ideias de Darwin, falou desse atraso nas suas "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares". Talvez um dos melhores indicadores do nosso atraso tenha sido os 54 anos de demora da tradução em português da "Origem das Espécies". Não era um livro técnico e de difícil leitura e sucederam-se de imediato as traduções em várias línguas. Mas só houve edição portuguesa, pasme-se, em 1913, quando já havia cerca de 150 edições inglesas, 20 alemãs e 12 francesas (a língua portuguesa foi a 15ª, vindo até depois do japonês, sendo o Japão nessa altura um país muito atrasado). Ver a este respeito o interessante livro "Darwin em Portugal" de Ana Leonor Pereira (Almedina, 2001).
A ciência da felicidade
A expressão “ciência da felicidade” não é muito feliz, mas designa o que por vezes se chama, mais apropriadamente, “psicologia positiva”. Pensemos no que todos sabemos ainda que vagamente sobre a psicologia: basicamente, trata-se uma área que intervém na nossa saúde mental apenas quando temos problemas relativamente graves: quando estamos deprimidos, por exemplo. Se tivermos uma vida relativamente normal, não vamos à psicóloga, vamos antes ao futebol — ainda que algumas pessoas possam com alguma pertinência perguntar-se até que ponto essa é uma actividade que demonstra alguma sandice.
É aqui que entra o movimento da psicologia positiva. A ideia é estudar como se pode viver a vida para se ser feliz, em vez de sermos apenas normais. É um pouco como a diferença entre receitar um comprimido para a dor de cabeça e dizer às pessoas o que podem fazer para serem mais saudáveis. No caso da psicologia positiva, trata-se de estudar o que faz os seres humanos mais felizes para depois lhes dizer o que podem fazer se quiserem ter uma vida mais feliz.
Em Portugal está traduzido um bom livro sobre o tema, que é acessível e tem muita informação empírica interessante: A Conquista da Felicidade, de Jonathan Haidt (Sinais de Fogo).
Claro que definir “felicidade” é em si difícil, mas é perfeitamente possível estudar empiricamente o que faz os seres humanos mais ou menos felizes, quer usemos uma noção mais ou menos robusta de felicidade. Para surpresa de muita gente, uma parte das descobertas empíricas nesta área coincide com o que muitos filósofos defenderam ao longo de muito tempo: que a verdadeira felicidade, no sentido da eudemonia aristotélica, não se encontra nas tolices efémeras e superficiais, mas na “entrega activa a projectos de valor”, para usar a expressão de Susan Wolf. Ou, como escreveu John Stuart Mill, “mais vale ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito” (mas note-se que no caso ele não tinha em mente primeiros-ministros, caso em que a vida do porco ganharia outros contornos).
O meu interesse lateral por esta área da ciência resulta do meu interesse pelo problema filosófico do sentido da vida, tema acerca do qual preparei uma antologia com uma introdução substancial para a Dinalivro. Espero que saia este ano. Chama-se Viver Para Quê? Ensaios sobre o Sentido da Vida.
DARWIN NA GULBENKIAN

Informação recebida da Fundação Gulbenkian sobre as comemorações do ano Darwin, dirigidas pelo Professor José A. Feijó da Universidade de Lisboa e do Instituto Gulbenkian de Ciência:
A Fundação Calouste Gulbenkian iniciou há anos as comemorações deste ano Darwin, através do seu serviço de Ciência. O projecto tem já o seu website (www.gulbenkian.pt/darwin/). Um dos colaboradores do projecto mantém um blog informal sob Darwin e Evolução em http://a-evolucao-de-darwin.
Estão planeadas as seguintes realizações:
A. Programa de conferências "No Caminho da Evolução", pensada para um público jovem, estudante, com jovens cientistas oradores nacionais. Iniciou-se em Outubro e terminará em Janeiro com intervenção de Eugénia Cunha, antropóloga da Universidade de Coimbra. Tem havido sistematicamente casa cheia (700-1000 pessoas) e vários milhares em live broadcast (http://live.fccn.pt/fcg/).
B. Concurso "De Regresso às Galápagos" para alunos do secundário e 3º ciclo (até 5 de Janeiro, ver webpage).
C. Programa de conferências "Darwin's Evolution". Série internacional (com tradução simultânea), com alguns dos maiores nomes mundiais em Darwin da evolução. Decorrerá entre Fevereiro e Maio, concomitantemente com a exposição.
D. Exposição "A Evolução de Darwin" (Galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian, 12 de Fevereiro a 24 de Maio 2009). Trata-se de uma exposição internacional com cerca de 1000 m2, incluindo uma colaboração com o American Museum of Natural History (que produzirá cerca de 30% da área da exposição replicando dois módulos da sua aclamada exposição "Darwin"- presentemente no Natural History Museum de Londres, Milão e Buenos Aires), e em que recriará todo o ambiente naturalista dos séculos XVIII e XIX, as etapas iniciais da vida deDarwin, a viagem do Beagle e a sua estadia em Londres, o longo período que viveu em Downe até à sua morte, incluindo a polémica da publicação da "Origem". Haverá uma ponte para o Evolucionismo actual, cobrindo as contribuições de Mendel, Morgan e os descobridores da estrutura do DNA e código genético, e em pano de fundo os fundadores da "síntese" que hoje se aceita e ensina (Fischer, Haldane e Sewall-Wright) bem como dos cientistas que fizeram a sua ponte unificadora com toda a Biologia (Dobzhansky, Mayr, Stebbins e Simpson). A exposição terminará com uma secção de "cartas a Darwin" escritas por cientistas contemporâneos e uma galeria final de evolução.
Ao longo deste traçado haverá elementos expositivos completamente originais, nomeadamente:
- A entrada será decorada com as gravuras originais de Albertus Seba e objectos naturais originais da época.
- Far-se-á a reconstrução do gabinete de curiosidades naturais de Ole Worm, executado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, e recheada com exemplares de muitos museus portugueses.
- Todo o período pré-Darwin será ilustrado incluindo objectos originais provenientes de vários museus em Portugal,Espanha e França, e inclui um exemplar original do Systemae Naturae de Lineu, a colecção de conchas originais de Lamarck, um esqueleto de Ibis original de Cuvier, uma múmia egípcia de Ibis do Museu de Arqueologia de Lisboa, e objectos contemporâneos, como um módulo interactivo que trata a sucessão geológica, o tempo da Terra e a sucessão de fósseis, bem como outro módulo interactivo com videos tipo "morph" que tratam a questão das homologias primeiro propostas por Cuvier de grande impacto visual.
- Na ilustração do jovem Darwin haverá duas peças únicas no mundo: uma reconstrução de Darwin jovem (16-18 anos) feita pelo atelier Daynes (www.daynes.com), talvez o mais reputado atelier de reconstruções anatómicas-cientificas do mundo e uma reconstrução do Beagle feita no Museu da Marinha em Lisboa, que deve ser a melhor e mais realista já feita desta barco (cerca de dois metros de comprido).
- 5. Será montada uma galeria externa no jardim, onde o Zoo de Lisboa fará a recriação física de alguns ambientes que Darwin visitou na viagem do Beagle, com animais e plantas vivas, acompanhadas de citações do diário de viagem de Darwin.
- Conjunto de mapas originais de Fitzroy, cedidos pelo almirantado do Reino Unido; haverá ainda o empréstimo de um livro de notas original de Darwin, o primeiro da viagem no Beagle, aberto em Cabo Verde.
- Os módulos do Beagle e Londres foram produzidos fisicamente sob a supervisão do American Museum of Natural History, e serão idênticos, embora de melhor qualidade, dos que equipam a exposição americana, actualmente no Natural History Museum em Londres. Detalhes destes módulos nos sites dos respectivos museus (www.amnh.org ou www.nhm.ac.uk).
- O módulo de Downe incluirá instalações e peças artísticas únicas sobre algumas das obras originais de Darwin, e um módulo com toda a correspondência original de Darwin com o naturalista português Arruda Furtado (incluindo o livro de Wallace sobre biogeografia que Darwin ofereceu e dedicou a Furtado), bem como os videos originais do American Museum of Natural History sobre a vida de Darwin e Evolução. Incluirá ainda uma reinterpretação expositiva do laboratório de Darwin, que misturará videos, pontos interactivos, com orquídeas e trepadeiras vivas.
- Os módulos sobre Mendel (com as linhas de ervilha originais vivas) e Morgan (com moscas vivas) serão completamente originais. Inclui um projecto arquitectónico que representará o DNA como escada, um projecto do arquitecto britânico Geoffrey Packer, que incluirá pela primeira vez um "escorrega" de RNA.
- Os módulos dos "sintese" contarão com icones diversos e jogos de computador que utilizam as equações originais de selecção e "drifting" de Haldane e Sewall-Wright, bem como alguns princípios estatísticos de Fischer.
- Esta parte terminará com uma zona de "cartas a Darwin" escritas por cientistas contemporâneos.
- O módulo final incluirá três "time-lines", com as diferentes escalas do tempo, incluindo uma linha de evolução biológica iludstrada com alguns dos melhores fósseis existentes em museus nacionais, a evolução humana, com réplicas dos crâneos mais representativos, e outra "premiere" mundial, produzida juntamente com Londres, um vídeo sobre a árvore da vida, feito pelo Welcome Trust e narrado por Sir David Attenborough.
E. Programa Educativo
Foi estabelecido um protocolo com o Ministério de Educação. Para além de divulgar todas estas iniciativas, com o resultado prático de, a mais de um mês da abertura, a maior parte das 600 visitas programadas estarem praticamente esgotadas, é divulgado um "pacote educativo" que será distribuído a todos os professores que visitem a exposição ou o solicitem, incluindo uma biografia da autoria de Janet Browne, um livro sobre evolução do artista canadiano Daniel Loxton, manuais de visita adaptados aos vários níveis de ensino, uma tradução do artigo original do Dobzhansky no "Biology Teacher" sobre a relevância da evolução para a biologia bem como uma separata recentemente editada pela "Nature" sobre vinte preciosidades da evolução.
Responsável: Prof. José A. Feijó, Dep. Biologia Vegetal, Fac. Ciências, Universidade de Lisboa
1749-016 Lisboa e Instituto Gulbenkian Ciência, 2780-156 Oeiras
Contacto para conteúdos e questões científicas: darwin@igc.gulbenkian.pt
Contacto para visitas e logística: darwin@gulbenkian.pt
Website: www.gulbenkian.pt/darwin/
Copyright da imagem: "Copyright 2009 Photo : S.Plailly / Eurelios – Reconstitution Atelie Daynès Paris"
ANO INTERNACIONAL DA ASTRONOMIA
Informação recebida da organização do Ano Internacional da Astronomia:
O ano 2009 começa em grande com o arranque do Ano Internacional de Astronomia (AIA2009). Subordinada ao tema “Descobre o teu Universo”, a iniciativa decorre durante todo o ano em Portugal e no mundo inteiro. Fruto de uma incrível colaboração entre 135 países, que formam a maior rede mundial de astronomia, o projecto promete aproximar o Universo da Terra. Eventos e actividades vão ter lugar durante os próximos 365 dias, e ainda depois disso, a nível mundial, nacional, regional e local, num espectáculo de proporções cósmicas.
O Ano Internacional da Astronomia 2009 (AIA2009) é lançado pela União Astronómica Internacional (UAI), - entidade, fundada em 1919, que reúne perto de 10 000 astrónomos de todas as nações, e é, entre outros, responsável pela designação dos novos corpos celestes - , e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
Desenvolvida com o duplo objectivo de tornar a astronomia acessível a todos e de fazer perceber o contributo dessa ciência na nossa cultura e sociedade, a iniciativa assinala o aniversário da primeira observação astronómica realizada por Galileu há 400 anos.
Em Portugal, a organização do AIA2009 está a cargo da Sociedade Portuguesa de Astronomia (SPA) que nomeou uma Comissão Nacional para coordenar as diferentes actividades que vão decorrer no país. Entre observações e exposições, vão acontecer em Portugal milhares de eventos, anunciados em vários websites nacionais e também no site internacional oficial do AIA 2009 (www.astronomy2009.org), que disponibiliza uma lista de projectos globais.
Tanto a nível internacional como nacional, estão já previstas inúmeras actividades, muitas delas tendo já começado. Não é portanto de estranhar se encontrar telescópios nas ruas nos primeiros dias do Ano Novo um pouco por todo o mundo.
MAIS INFORMAÇÕES:
http://www.ideiasconcertadas.
LINKS:
AIA2009 website oficial: http://www.astronomy2009.org
AIA2009 website nacional: http://www.astronomia2009.org
CONTACTO:
Ponto de Contacto para o AIA2009 em Portugal. João Fernandes Departamento de Matemática e Observatório Astronómico, Universidade de Coimbra, E-mail: jmfernan@mat.uc.pt
domingo, 4 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
As dez descobertas do ano
Painel do Inimigo Público elege o Fim do Mundo como a descoberta de 2008
Hoje não foi descoberto nada de especial. 26 de Dezembro é o tradicional dia de descanso, mas os restantes dias do ano são pródigos em novidades e avanços da ciência, fins de semana incluídos. Estas são as escolhas do painel do Inimigo, reunido antes da partida para a habitual viagem de observação da migração do ganso-patola, que decorre num motel de beira de estrada entre Badajoz e Madrid.
1. O fim do mundo
Foi finalmente inaugurado o acelerador de partículas que vai criar mini-buracos negros capazes de engolir o sistema solar e provocar-lhe uma sensação horrível, semelhante a um anti-orgasmo. Infelizmente avariou, mas o fim do mundo representa um grande avanço para a ciência e o fim da crise mundial.
2. Sonda Phenix encontrou uma pastilha elástica
E outros sinais de que houve vida em Marte, como duas pontas de cigarro e um preservativo usado.
3. O desaparecimento da caixa multibanco do Tribunal de Cascais explicado pela mecânica quântica
Segundo a mecânica quântica quando uma partícula faz uma trajectória entre um ponto e outro não se sabe muito bem o que aconteceu no caminho. Uma caixa multibanco pode estar perfeitamente num momento dentro do tribunal e no seguinte integrada na colecção Berardo no CCB, de onde já não sai por menos de dois milhões de euros.
4. O mundo foi criado em apenas 5,6 dias
Deus pode ter sido mais rápido do que se pensava. Tal como o físico João Magueijo propôs que a velocidade da luz não é constante, questionando um dos paradigmas da relatividade de Einstein, também a velocidade de Deus pode ser variável. Segundo a teoria VGS (Varying God Speed, na sigla inglesa) nos tempos primordiais (até ao sétimo dia) a velocidade de Deus poderá ter sido mais elevada. Uma das consequências é que Deus não descansou o sétimo dia inteiro, o que poderá permitir a abertura dos hipermercados ao domingo.
5. Fungo que produz dinheiro em vez de penicilina
Tal como o bolor Penicillium chrysogenum produz penicilina, o Guitus pastelis excreta dinheiro. A descoberta foi acidental e promete fazer pela pobreza o que a penicilina fez pelo tratamento da gonorreia.
6. São as árvores que provocam o efeito de estufa
A Corrente Tá Tudo Bem (TTB) é a nova tendência das alterações climáticas, com uma profusão de artigos nos jornais que tranquilizam o cidadão angustiado: o aquecimento global não só não existe como vai passar depressa.
7. Encontrado fóssil de costela muito semelhante a uma mulher e um dente de lobo vegetariano do Jardim do Éden
O registo fóssil finalmente apoia a ciência criacionista: um igual e Deus desempata com voto de qualidade.
8. Asteróide idoso, perdido e em sentido contrário à volta do Sol
O 2008 KV42 foi encontrado perdido na cintura de Kuiper e à volta do Sol em sentido contrário. Provavelmente fugiu da Nuvem de Oort, uma espécie de lar da terceira idade para asteróides.
9. Barreira de contentores em Alcântara vai criar um microclima semelhante ao de Sintra
Haverá mais humidade atmosférica que será arrastada para o mar pelo vento Norte, deixando Lisboa a salvo das trombas de água e criando um microclima específico que alimenta um exotismo romântico na paisagem.
10. Genoma da mulher é como uma cozinha do Ikea
O ADN do homem tem os genes espalhados por todos os cromossomas, mais ou menos aleatoriamente e rodeados de ADN-tralha (não contém genes), como uma arrecadação apinhada onde não se encontra nada. No genoma da mulher os genes estão agrupados por assuntos e arrumados de modo que se sabe sempre onde encontrar determinado gene, o ADN que não contem genes está no fundo dos cromossomas e só não é deitado fora porque pode ser preciso para fins de investigação criminal.
David Marçal
O ANO DE GALILEU E DARWIN

Minha crónica no último número do semanário "Sol" (na imagem antevisão da sonda Kepler):
Neste ano de 2009 festejamos Galileu e Darwin. Por um lado, comemoramos os 400 anos das primeiras observações astronómicas feitas com o telescópio pelo italiano Galileu Galilei (que seriam descritas em “O Mensageiro das Estrelas”, um livrinho publicado em 1610). Por outro lado, comemoramos os 200 anos do nascimento do inglês Charles Darwin (e também os 150 anos da publicação da sua obra maior, “A Origem das Espécies”).
Galileu e Darwin têm em comum o protagonismo de momentos de rotura não só nas ciências mas também, mais em geral, na sociedade. Por exemplo, a Igreja Católica e a Igreja Anglicana reagiram de forma algo violenta às novidades que esses cientistas trouxeram, tendo só há pouco tempo emendado a mão (a Igreja Anglicana ainda não completamente).
No ano de Darwin, apesar do triunfo da teoria da evolução, ainda haverá uma grande discussão em torno dela. Uma das dificuldades que lhe apontam é o facto de hoje ainda não sabermos ao certo como se originou a vida, apesar de fazermos uma boa ideia do modo como ela se multiplicou e desenvolveu. Terá tido origem apenas na Terra, onde a conhecemos abundante e diversa? Ou teve antes origem fora da Terra, tendo vindo aqui parar por mero acaso? Ou, ainda, o que para muitos cientistas é bem provável, a vida, nas formas que conhecemos aqui ou noutras formas, teve também origem em tempos díspares noutros planetas do nosso vasto Universo?
Pois em Março deste ano a NASA vai lançar o satélite “Kepler” (do nome do astrónomo alemão Johannes Kepler, o contemporâneo de Galileu que escreveu, em 1609, também há 400 anos, “Astronomia Nova”), que irá procurar com a ajuda de um telescópio adequado planetas extrasolares semelhantes à Terra. Acontece que os planetas extrasolares que conhecemos hoje são mais parecidos com Júpiter, para onde Galileu dirigiu a sua primitiva luneta, do que com a Terra. Haverá decerto outros planetas semelhantes ao nosso. Seria o acontecimento não apenas do ano mas do milénio se, neste ano ou nos seguintes, se descobrisse vida num planeta desses. Galileu e Darwin ficariam contentes...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Avaliações e implicações

A avaliação dos centros de investigação pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, por painéis de professores estrangeiros, virá por certo dar um empurrão à ciência em Portugal e tornar mais dinâmicas e competitivas as universidades e os centros de investigação. Os avaliadores estrangeiros têm bitolas internacionais, estão livres dos vícios da nossa cultura, não têm amigos nem inimigos e, portanto, podem dar-nos uma imagem do que valemos e apontar caminhos de recuperação e desenvolvimento. De acordo.
Imagem retirada de:
FELIZ ANO DARWIN!

Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem Darwin com 31 anos):
Quando há poucos anos se perguntou a um conjunto de professores da Universidade de Coimbra quais foram os dez livros que mais mudaram o mundo, não foi sem surpresa que se apurou em primeiro lugar a “Origem das Espécies” do naturalista inglês Charles Darwin e só depois a Bíblia. Mas, ao querer organizar uma exposição sobre esse “top-ten”, a surpresa foi ainda maior quando se verificou que não havia no rico acervo das bibliotecas da universidade nenhuma primeira edição da obra maior de Darwin, publicada em 1859, ao passo que havia várias centenas de edições, algumas bastante antigas e preciosas, do livro sagrado dos cristãos.
Este facto chegará para mostrar que, se hoje os cientistas são todos darwinistas, há 150 anos, quando foi divulgada a revolucionária teoria de Darwin, não havia entre nós quase ninguém interessado nas ideias do inglês. Graças à sua pródiga confirmação pela observação e pela experiência, a teoria da evolução alcançou desde então uma aceitação que, na sua origem, dificilmente se poderia prever. Hoje, pode dizer-se que não existe nenhuma teoria científica que esteja em competição com o evolucionismo (o criacionismo não é ciência!).
A demora com que as ideias de Darwin chegaram até nós é sintomática do nosso atraso científico no século XIX. Apesar de Darwin ter ficado em pouco tempo mundialmente famoso e de ter trocado milhares de cartas com naturalistas de todo o mundo, o único português a corresponder-se com ele foi um jovem de 26 anos, residente nos Açores, completamente isolado dos círculos científicos. Francisco de Arruda Furtado dirigiu-se, em 1881, ao velho sábio do seguinte modo: “Nasci e vivo nestas ilhas vulcânicas onde os factos de distribuição geográfica dos moluscos terrestres são uma interessante prova da teoria a que deu o seu nome mil vezes célebre e respeitado.” Darwin, que tinha visitado os Açores durante a sua viagem à volta do mundo no “Beagle”, respondeu, quase na volta do correio, com palavras gentis e encorajadoras: “Admiro-o por trabalhar nas circunstâncias mais difíceis, nomeadamente pela falta de compreensão dos seus vizinhos”.
É bem conhecida a polémica que as ideias darwinistas logo suscitaram, nomeadamente a forte oposição que teve por parte da Igreja de Inglaterra. A esse confronto não terá sido alheio o progressivo afastamento de Darwin da sua fé da juventude – ele que tinha estudado teologia em Cambridge – para assumir, no fim da vida, quando respondia ao português, uma posição agnóstica. O mecanismo da selecção natural permitia defender a evolução das espécies como um “design” sem “designer” (algo que os criacionistas ainda hoje se recusam a aceitar). O mais perturbador para alguns crentes era a eventual “descendência humana do macaco”, tendo ficado célebre a afirmação de um anti-darwinista segundo a qual “não era verdade mas, se fosse verdade, o melhor era que não se soubesse”.
A oposição com base na Bíblia ao evolucionismo conheceu também alguns episódios curiosos em Portugal. No mesmo ano em que escrevia a Darwin, Furtado publicou em Ponta Delgada um folheto intitulado “O Homem e o Macaco”, em resposta a um padre que tinha pregado nessa cidade: “E ainda há sábios que acreditam que o homem descende do macaco!... Nós somos todos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...” O açoriano esclareceu que “não há sábios que acreditam que o homem descende do macaco (...) mas que ambos deveriam ter sido produzidos pela transformação de um animal perdido e mais caracterizado como macaco do que como homem. Eis o que se disse e o que se diz e, se isto não se prova, o contrário também não”.
Hoje, passados 150 anos sobre a “Origem das Espécies” e 200 anos sobre o nascimento de Darwin, a teoria que o tornou famoso está bem e recomenda-se, não só devido à ajuda da paleontologia mas também e principalmente devido à corroboração pela moderna genética. Conforme afirmou o geneticista Theodosius Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido a não ser à luz da evolução”. Feliz ano Darwin!
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
"Ano Novo"
Ano Novo
Foi-se esgotando a taça do festim.
Sorvo a sorvo, no espelho do cristal
Fica apenas a baba natural,
O melaço do fim.
Ah, não haver coragem verdadeira
De se quebrar o copo antes da hora
Em que se acaba o vinho, e a bebedeira
de repente melhora!
Miguel Torga, Diário IV, Coimbra, página 144.
PENSAR E VIVER SEM TRINCHEIRA
Texto do meu colega e amigo Andrés Palma Valenzuela, professor na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Foi recent...
-
A falácia do espantalho , uma das mais utilizadas pelos que que não conseguem sequer compreender os temas em debate, basicamente consiste em...
-
A contribuição do Desidério é importantíssima. É curioso como um dos ramos filosóficos e matemáticos aparentemente mais afastados do dia-a-d...
-
Ludwig Krippahl é professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e membro do centro de investigação em intel...
