sábado, 23 de maio de 2020

“EINSTEIN, EDDINGTON E O ECLIPSE,” UMA BD MUITO ORIGINAL



Tenho uma boa colecção de banda desenhada e ela ficou há semanas enriquecida com a  adição de uma obra muito original. Intitula-se  “Einstein, Eddington e o Eclipse  Impressões de Viagem,” são suas autoras Ana Simões e Ana Matilde Sousa e a editora é a Associação Chili com Carne, uma cooperativa de jovens artistas fundada em 1995.

 A maior originalidade está no tipo de obra: Não é uma mera banda desenhada, pois inclui um ensaio de história da ciência, de Ana Simões, estando tanto o texto da banda desenhada como o do ensaio em português e em inglês (o  que lhe amplia bastante o potencial público leitor). A banda desenhada, de Ana Matilde Sousa, está inserida entre o ensaio em português e a sua tradução em inglês: vai da p. 63 à 194 de um total de 247 páginas. O ensaio e a competente ilustração aos quadradinhos descrevem um dos eventos mais emblemáticos da ciência do século XX: o eclipse total do Sol que ocorreu a 29 de Maio de 1919, observado por uma expedição de astrónomos britânicos com uma equipa na ilha do Príncipe, no Golfo da Guiné, que nessa época era um território colonial português, e outra equipa no Sobral, Ceará, no Nordeste brasileiro, do outro lado do Atlântico. Essas observações permitiram confirmar a teoria da relatividade geral de Albert Einstein,  elevando-o ao patamar de Isaac Newton, um físico cuja mecânica só em parte se encaixava na mecânica relativista, falhando no domínio das grandes velocidades e dos campos gravitacionais muito intensos. Segundo Newton, os raios de luz de estrelas por detrás do Sol, encurvar-se-ia ao passarem perto da superfície do Sol de um certo valor, mas segundo Einstein o valor correcto deveria ser o dobro. Só com o Sol tapado se poderia observar tal encurvamento.

Foi com o apagamento do Sol observado pelos astrónomos ingleses – com o famoso Arthur Stanley Eddington na equipa do Príncipe - que Einstein ganhou as luzes da ribalta no mundo científico e não só. Como já alguém disse, o Príncipe foi o princípio de Princeton, a Universidade norte-americano onde Einstein haveria de ser professor. O Nobel seguir-se-ia logo em 1921, embora não tenha sido atribuído por aquela sua teoria. Mas logo depois do anúncio público dos resultados da expedição britânica, em Novembro de 1919, o físico suíço (nascido na Alemanha) ganhou um enorme reconhecimento mediático, que é exemplificado pela escolha da revista “Time” no ano 2000 como a “pessoa do século.” Quis a fortuna dos astros que um feito maior da Física do século XX tivesse sido verificado em terras de expressão portuguesa.  Einstein, quando visitou o Brasil em Março de 1925 (passando, embora despercebido, por Portugal), afirmou a um repórter brasileiro, esquecendo o Príncipe, talvez por simpatia para com o seu interlocutor: "O problema que a minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil."

O livro tanto pode ser visto como um ensaio científico com um longo apêndice que mostra o texto integral de fontes históricas ilustrados com um estilo impressionista moderno (a palavra “impressões” do subtítulo foi bem agarrado pela artista) como pode ser visto como uma bela obra de arte, salpicada de cores fortes, que é complementada em prefácio e posfácio por uma explanação do “enredo.” Ana Matilde de Sousa apenas usa nos seus “balões” (de facto não são redondos, mas rectangulares, amarelados à laia de post-its) textos escritos pelos intervenientes, incluindo algumas cartas de Eddington à sua mãe. Por fezes não são precisas palavras, como no ápice que é a representação do eclipse nas páginas 160-161. Einstein, cujo nome abre o título, só aparece - e de costas – nas páginas  175 e 188. A capa, em tons azuis, negros e brancos é magnífica: uma tartaruga – elas vêm desovar às praias do arquipélago de S. Tomé e Príncipe – busca a claridade, como que uma lua que se interpõe diante do Sol.

A dupla das duas Anas contrasta pela idade, indicada na pormenorizada ficha técnica. Não é apenas um encontro de ciência e arte, mas um encontro de duas gerações. Enquanto Ana Simões é catedrática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e, desde 2018, presidente da Sociedade Europeia de História das Ciências, a outra Ana é doutoranda na Faculdade de Belas artes da mesma Universidade, estando a estudar um tema do moderno design japonês.  A talentosa artista não é a primeira vez que ilustra obras de história da ciência: embora com distribuição restrita já tinha feito um livro para um público infanto-juvenil sobre o médico português Garcia de Orta, que foi distribuído pelas criança do Hospital Garcia de Orta (Ana Matilde de Sousa; Maria Paula Diogo e Palmira Fontes da Costa, consultoras científicas, “As Aventuras de Garcia de Orta”, Lisboa: Colibri, 2014).

Além da notável originalidade da junção de dois registos – um científico e outro artístico, neste caso  a história da ciência casa-se com a “nona arte”, que costumam andar apartados, - a obra é também original pela sua  rara qualidade. O ensaio, que foi pensado tendo em conta leitores desconhecedores da matéria, sendo claro,  é absolutamente rigoroso, indicando as fontes para os factos relatados (não tem notas de rodapé, mas sete páginas de notas finais). Na banda desenhada,  delimitada pelos registos epistolares ou diarísticos, a imaginação já voa, mas o registo não deixa de ser rigoroso: vê-se que a artista se procurou documentar sobre os cenários que descreve visualmente, tendo consultado o material fotográfico disponível. Fugindo ao realismo, faz-nos entrar na atmosfera da época.

 O volume é original pela qualidade da produção. A Chili com Carne, beneficiando dos patrocínios recebidos, esmerou-se. Não é só a capa, mas todo o miolo que atrai a vista e o tacto. O papel é bom,  assim como o design geral e a impressão. Eu já tinha alguns dos livros da colecção de viagens “Low Cccost”, assim mesmo com c triplo, da Chili com Carne (destaco os dois últimos “Deserto/Nuvem,” sobre a Cartuxa de Évora, e “Berlim, Cidade sem sombras”, respectivamente de  Francisco Sousa Lobo e de Tiago Baptista; pena que  que a editora no final, na p. 247, não tivesse indicado os nomes dos autores). O formato de obra em apreço é especial, maior do que as outras, o que valoriza sobremaneira as ilustrações.  Não me admirou nada que tivesse atribuído o Prémio de Melhor Publicação Nacional com Distribuição Comercial, uma das categorias dos Prémios Banda Desenhada 2019, atribuídos pelo site português “Bandas Desenhadas”. Bem merecido, mas a obra merece decerto uma distinção internacional. Bons olhos a vejam…

O livro saiu pela altura do centenário do eclipse, estando relacionado com uma exposição que Ana Simões organizou no Museu Nacional da História Natural e da Ciência, na Rua da Escola Politécnica, no centro de Lisboa. Vários livros saíram em todo o mundo por ocasião desta efeméride, não só porque o tema é aliciante, mas porque há sempre novas contribuições a dar: como irrompe uma prova de uma previsão científica? No caso a comunidade científica quis ter redundância (observações simultâneas no Príncipe e no Sobral, o que se revelou útil dado o surgimento de uma chuvada tropical no primeiro sítio à hora do eclipse que quase impediu o registo fotográfico), mas que confiança deve dar uma prova, baseada em observações singulares? Que papel desempenham as convicções dos protagonistas? No caso parece evidente que Eddington pendia à partida para o lado de Einstein. Há aqui aspectos humanos muitos curiosos, que aliás costumam estar presentes nos grandes momentos da história da ciência. Por exemplo, pode o preconceito conduzir a erros?

Ana Simões, que aborda tanto o Príncipe como o Sobral (a mesma expedição dividiu-se na ilha da Madeira), mas enfatiza o que se passou na ilha do Príncipe, uma vez que parte dos relatos de Eddington e este é tomado como personagem principal (era, de resto, o mais categorizado dos astrónomos expedicionários). Não se esquece de referir as ideias quakerianas de Eddington, que lhe valeram a não participação na Primeira Guerra Mundial, mas também o “cacau escravo” do Príncipe (isto é, o cultivo de cacau nas roças, aproveitando de modo  indigno mão de obra negra). Sobre a realidade colonial portuguesa, Eddington faz prudente silêncio: não quereria decerto desagradar aos seus hospedeiros. Há aspectos muito pitorescos: nas cartas à mãe, o astrónomo inglês fala das suas experiências gastronómicas na ilha da Madeira (incluindo a ingestão de bananas, uma dúzia ao dia, e de nêsperas, fruta que ele nunca tinha provado), da ida ao casino no Funchal para ver o jogo de roleta, que era ilegal, do jogo de ténis e da caça aos macacos na ilha do Príncipe, etc. Eddington escreveu à mãe, após o eclipse: “Mas a placa melhor que medi deu um resultado em concordância com Einstein e acho que consegui uma pequena confirmação de uma segunda placa.” Einstein, por seu vez,  também escreveu à mãe, todo contente, logo que soube da boa nova da confirmação da sua teoria:  “Boas notícias hoje… as expedições britânicas provaram de facto a deflecção da luz nas proximidades do Sol.” Assim se vê como as mães dos cientistas podem ser testemunhas relevantes: nos dois casos foram as duas as primeiras interlocutoras.

Einstein usava muita vez Deus como sinónimo de harmonia do Universo. Há quem diga que professava uma “!religião cósmica”, da qual ele seria o único fiel.  Ana Simões não o refere, mas Einstein terá respondido a uma doutoranda em Berlim,  Ilse Rosenthal-Schneider, quando ela lhe perguntou o que diria se os resultados das observações tivessem sido negativos:  “Nesse caso teria tido pena do Bom Deus. A teoria está correcta de qualquer modo.”

Ana Simões já escreveu vários artigos o evento que celebrizou Einstein. Em 2009, publicou um em que falava da participação portuguesa. Essa participação, como fica agora mais uma vez claro, não passou de uma assistência logística. Neste novo ensaio, a autora faz notar que  os expedicionários do Príncipe fazem agradecimentos mais pessoais que institucionais, como se as autoridades científicas portuguesas estivessem ausentes (há correspondência anterior, de preparação, mas não parece haver correspondência posterior, partilhando a experiência).  A mim sempre me preocupou o eclipse da ciência portuguesa que o eclipse solar de algum modo simboliza. Não só Einstein não foi reconhecido em Lisboa, mesmo após ter já recebido o Nobel, como, ao contrário do que aconteceu no Brasil, não houve cientistas portugueses que tenham acompanhado a expedição á colónia portuguesa. Eram muito poucos os cientistas nacionais na época, assim como eram muito poucas as suas publicações (basta consultar as bases de dados internacionais para perceber que a ciência portuguesa pedia meças às da maioria dos países europeus). Pelo contrário, no Brasil houve uma forte presença institucional. Os expedicionários britânicos no Sobral beneficiaram bastante da ajuda de um astrónomo de origem francesa, Henrique Morize, que era director do Observatório Nacional e Presidente da Academia das Ciências do Brasil (nascido em França, Morize, engenheiro de formação, naturalizou-se brasileiro aos 24 anos, após se ter fixado em terras de Vera Cruz). A professora de História da Ciência não elabora muito sobre o quadro científico português da época. A ciência estava relativamente apagada nesses tempos difíceis após o assassinato de Sidónio Pais (que era professor de Matemática em Coimbra e amigo de Egas Moniz, que chamou para cargos diplomáticos).

Uma nota final de elogio, para um tom que a historiadora assume: a de história global. Como se pode ver pelo mapa que vem na badana da capa, este foi um evento que teve lugar em três continentes. Lisboa e o Funchal estiveram no caminho entre a Inglaterra e os dois lados do Atlântico, o Príncipe e o Sobral. O papel português teve muito a ver com o seu posicionamento no globo. Não era a primeira vez que isso acontecia: no século XIX, quando a globalização se deu através do telégrafo eléctrico, a Madeira, Cabo Verde e os Açores foram importantes nós de tráfego de dados no Atlântico (como Ana Simões de resto refere; é bem conhecido, que Lord Kelvin andava a instalar cabos no Atlântico e 1873 quando encontrou no Funchal a que viria a ser Lady Kelvin). E, no século XX, foi a localização privilegiada dos Açores para a previsão meteorológica na Europa que permitiu à criação de uma Estação Meteorológica Internacional no Faial, em 1929, a pedido das instâncias meteorológicas europeias. Para já não falar do facto de ter sido pela Madeira que passaram as duas expedições pioneiras ao pólo Sul em 1910, as do inglês Robert Scott e do norueguês Roald Amundsen, este último vencedor. 

Portugal pode estar na periferia da Europa, mas em certas ocasiões foi central para a ciência mundial.
Em resumo.  Se o leitor não tiver este livro não saberá o que perde. Mas eu sei: perde conhecimento precioso do que é para muitos o evento mais notável da história da ciência no século e perde também uma obra de arte da BD nacional. Parabéns às duas Anas!

- Ana Simões e Ana Matilde Sousa, “Einstein, Eddington e o Eclipse  Impressões de Viagem”. Lisboa: Chili com Carne, 2019.

1 comentário:

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