terça-feira, 26 de maio de 2020

O COSMOS DE ANN DRUYAN


Saiu há dias em português, quase ao mesmo tempo que a edição original, o livro “Cosmos. Mundos possíveis”, de Ann Druyan (National Geographic e Gradiva, 2020),  numa altura em que está a passar a série televisiva, com 13 episódios,  com o mesmo título no National Geographic Channel. Druyan, viúva de Carl Sagan, tinha ajudado a escrever a série  “Cosmos” original, transmitida na PBS – Public Braoadcasting Service também com 13 episódios, que teve no original o subtítulo “Uma viagem pessoal.” Também escreveu e produziu a sequela, “Cosmos. Uma Odisseia no Espaço-Tempo”, ainda com 13 episódios, em 2014 (34 anos depois da primeira série e 18 anos após a morte de Sagan!), que passou na Fox e na National Geographic, apresentada por Neil deGrasse Tyson, o director do Planetário Hayden no Museu de História Natural de Nova Iorque, que conheceu Sagan em adolescente. Não houve livro dessa vez. Na segunda sequela (40 anos depois da primeira série e 24 anos após a morte de Sagan!) “Cosmos. Mundos Possíveis” volta a ser apresentado por DeGrasse Tyson, mas, tal como no “Cosmos” original, há um livro que acompanha a série. E o livro é, todo ele, de Ann.

Ann Druyan (n. 1949), que casou com Carl Sagan (1934-1996 ) em 1981, um ano após a estreia de “Cosmos”,  tem sido a figura de maior destaque na salvaguarda da memória do grande astrofísico e divulgador de ciência norte-americano. Os dois conheceram-se em 1974 em Nova Iorque no escritório de uma produtora novaiorquina. Apaixonaram-se três anos depois, em 1977, quando trabalhavam no projecto do disco a bordo das duas sondas Voyager, um disco que devia deixar uma mensagem para eventuais extraterrestres. Ann já contou como foi: ela tinha descoberto uma música chinesa antiga para incluir no disco, telefonou para Carl que estava no Arizona para dar uma palestra e parece que se deu um coup de foudre.  Ali mesmo, à distância. Mesmo sem uma date tradicional, ter-se-ão nessa altura comprometido. Após o seu trabalho conjunto na série “Cosmos”,  que alcançou um tremendo impacto mediático, não demoraram a casar. 

Sagan divorciou-se em 1981 da sua segunda mulher, Linda Salzman (n. 1940), uma escritora e artista (foi, com Ann  Druyan, coautora do livro “Murmurs of the Earth,” traduzido em português do Brasil, uma obra que apresenta os sons do planeta Terra enviados para o espaço). A primeira mulher de Sagan tinha sido uma cientista, Lynn Margulis (1938-2011), proponente do conceito de simbiose na evolução e autora de livros publicados em português (“Microcosmos” e “As Origens do Sexo”, os dois nas Edições 70). Sagan teve teve dois filhos de Margulis, cujo nome de família era Alexander (Margulis foi o nome do segundo marido): Dorion (que é escritor de ciência, quem sai aos seus não degenera) e Jeremy. Teve um filho de Linda Salzman, de seu nome Nick (autor de livros de ficção científica; Sagan escreveu um livro, “Contacto,” desse género). E teve, finalmente,  dois filhos de Druyan, Alexandra (“Sasha”, que já escreveu com a mãe um livro contando histórias do pai) e Samuel (“Sam”, que sofreu uma hemorragia cerebral, contada no cap. V de “Cosmos. Mundos possíveis”). 

Desde a morte do seu marido, apanhado por um cancro raro, em 20 de Dezembro de 1996 (quando só tinha 62 anos), que Druyan tem feito tudo para continuar a obra de Sagan. Natural de Nova Iorque, filha dos proprietários de uma fábrica de lãs, Ann não terminou uma educação formal num college. É, por isso, uma drop-out.  Ela já contou que, antes de conhecer Sagan, teve uma relação algo difícil com a ciência, acreditando nalgumas coisas inacreditáveis (como a vinda de astronautas extraterrestres à Terra). A vida conjunta com Sagan tornou-a uma comunicadora de ciência profissional. Tyson que me desculpe, mas ela é talvez a melhor herdeira de Sagan, apesar de não ter um background científico formal. Tem evidente talento para a escrita, sabe contar muito bem histórias, sabe ligar as histórias com imagens.

Em co-autoria com Sagan, Druyan escreveu vários livros “Cometa” (bela edição ilustrada da Gradiva, 1986, julgo que está esgotado), “Sombras de antepassados esquecidos: em busca do que somos” (Gradiva, 1996, está acessível) e organizou “As variedades da experiência científica (Gradiva, 2007).  Fez a introdução para a edição portuguesa de “Cosmos” ilustrada (Gradiva, 2001) e  também para “As ligações cósmicas. Uma perspectiva extraterrestre” (Gradiva, 2001), co-escreveu com Sagan quatro capítulos de “Um mundo infestado de demónios. A ciência como uma vela na escuridão” (Gradiva, 1997) e  escreveu o epílogo de “Biliões e Biliões. Pensamentos sobre a vida e a morte no limiar do milénio,” (Gradiva, 1998) e um capítulo do livro de homenagem “O Universo de Carl Sagan” (Gradiva, 1998). Portanto, ela como minguém conhece o estilo inigualável de Sagan. O dela é uma boa aproximação: Second best, na impossibilidade de the best. Em 2000 Druyan fundou os Estúdios Cosmos, cujo nome é elucidativo sobre a intenção: continuar a série que deu fama global a Sagan. Co-escreveu e coproduziu o filme “Contacto”, que teve como guião o romance de ficção científica de Sagan, que ficou filho-único. O filme, com Jodie Foster no principal papel, já não pôde ser visto por Sagan.

A história de amor entre Carl e Ann é muito intensa e julgo que está a aguardar tratamento cinematográfico, na sequência aliás da história de amor entre  Stephen Hawking e a sua primeira mulher Jane (“Teoria de tudo,” filme de 2014). O livro “Cosmos” é dedicado a Ann, com uma formulação muito bonita: “na vastidão do espaço e na imensidade do tempo, é minha alegria e privilégio partilhar um planeta e uma época com a Annie." Mas o símbolo maior (literalmente) do amor dos dois é a designação de um par asteróides em honra de Carl  (2708 Sagan, descoberto em 1982) e de Ann (4790 Druyan, descoberto em 1987), que estão em órbitas “de anel de casamento,”  na cintura de asteroides, entre a Terra e Marte.

O livro “Cosmos – Mundos possíveis” – tem uma bela execução gráfica que causa forte impacto à vista logo que se folheia. Pude acompanhar a sua produção como revisor científico (infelizmente, mea culpa, deixei passar, nem sei como, uma gralha aborrecida no calendário cósmico inicial: Onde está  “1 semana = 265 mil milhões de anos” deve ser “1 semana = 265 milhões de anos” e onde está “1 dia = 37,86 mil milhões de anos” deve ser “1 dia = 37,86 milhões de anos”). O resto julgo estar bem: encontrei gralhas no original norte-americano, por exemplo a temperatura das nuvens mais frias do sistema solar, que estão em Úrano, um “gigante de gelo”: abaixo de 200 graus Celsius negativos. Se alguém souber de mais gralhas que me diga, mas conto não receber mensagens.

O prólogo começa  com a Feira Mundial de Nova Iorque de 1939 que Sagan visitou quando era miúdo (tinha  cinco anos) e em cuja inauguração Einstein desempenhou papel proeminente ao fazer um discurso laudatório da ciência. Para se ver a qualidade do pensamento de Ann e da sua escrita leia-se  este trecho do prólogo, antes dos 13 capítulos, cada um associado a um episódio (p. 27):

“(…) A ciência ama a Natureza. Esta ausência de destino final, uma verdade absoluta, é o que faz da ciência o método certo de uma busca sagrada. É uma lição de humildade sem fim. A vastidão do Universo – e do amor, aquilo que torna essa vastidão suportável - está fora do alcance dos arrogantes. O cosmos só aceita de forma plena os que ouvem com atenção a voz íntima que lhes sussurra que podem não ter razão. A realidade tem de importar mais que aquilo em que queremos acreditar.”

A leitura é facilitada pela boa tradução de Isabel Pedrome, cujo nome merece estar na capa.

O livro, com a espessura de 420 páginas, tem um índice remissivo, ao contrário do que infelizmente hoje é norma.  Não está no índice remissivo, mas Portugal aparece uma vez quando se fala dos judeus de Amesterdão, entre os quais se inclui Espinosa. E há uma citação de Fernando Pessoa (de facto, devia vir Alberto Caeiro, pois é Caeiro puro, oops outra gralha, mas não há mais nenhuma), a abrir um dos capítulos,  o onze (“A graça efémera da zona habitável”), que não está no original:

“Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.”

Com Caeiro, o livro em português ainda ficou melhor do que o original.

Os capítulos do livro de Ann incluem novidades científicas que não estão  porque não podiam estar no “Cosmos” original: por exemplo, a preocupação com as alterações climáticas,  a descoberta das ondas gravitacionais originadas pela espectacular junção de dois buracos negros, os exoplanetas, alguns dos quais poderão albergar vida, os progressos das neurociências (no capítulo V, sobre o cérebro, aparece a história clínica do filho Sam; o médico colombiano que o tratou quando se apercebeu de quem era filho disse-lhe que tinha seguido uma carreira científica por causa do pai, um dos seus heróis de juventude!), etc. Não devo roubar o prazer da novidade na leitura. As histórias são atraentes, assim como as grandes metáforas, como a da comparação das navegações de povos primitivos no oceano Pacífico, fixando-se em ilhas longínquas, com as futuras viagens interestelares com que Ann sonha.

A autora deixa algumas notas pessoais. Fala da sua adolescência, que classifica como irresponsável.  Comenta do seguinte modo o seu namoro com Sagan (o livro exibe duas fotografias do casal, uma durante a produção de Cosmos, antes do casamento, e outra mais tardia, quando Ann fez 40 anos):

“Quando nos apaixonámos para mim foi como descobrir um mundo novo… Um mundo que eu tivera esperança de existir, mas nunca tivera oportunidade de ver.  Neste novo mundo, a realidade excedia  a fantasia em todos os sentidos. Acima de tudo o que mais importava era o que era verdadeiro”. Acrescenta: “Dediquei o resto da minha vida a continuar o trabalho que tínhamos feito juntos”. Foi, entre os dois, um admirável “Contacto”.

Tenho uma história pessoal passada com Ann Druyan. Carl Sagan desejava ter vindo a Portugal, onde as suas obras, graças não só ao autor mas também ao editor Guilherme Valente, se venderam muito bem, mas a doença impediu-o. Veio, depois da morte, Ann sua substituição. Depois da best, a second best. Houve uma homenagem a Sagan na Universidade de Aveiro, onde eu disse algumas palavras. No fim, como ela não sabia português, apressei-me a traduzir-lhe o que tinha dito. Ela respondeu-me: “I got everything”. Não é que ela tinha mesmo apanhado pelo tom de voz e pela linguagem gestual o que eu que eu disse? É um dos feitos em comunicação de que hoje mais me posso orgulhar.

Ann conta alguns episódios da história da ciência de um modo que seduz, mostrando que a ciência é humana, podendo nela haver tanto comédia como tragédia. Uma das histórias que preenche todo um capítulo (o quarto) diz respeito ao cientista agrário soviético Nikolai Vavilov, uma das muitas vítimas do regime de Estaline, que morreu num campo de trabalhos forçados. No lugar de direcção científica que devia ser dele alcandorou-se um dos maiores charlatães científicos de todos os tempos – Trofim Lysenko, o qual,  ao recusar as ideias darwinistas, foi o responsável pela morte de milhões de cidadãos da União Soviética. Tal como o partido educava o povo, ele propunha “educar” as sementes, preparando-as para o Inverno, através do arrefecimento prévio. Mas elas, encolhidas logo à partida, não germinavam. E, por falta de colheitas, as pessoas não tinham pão para comer. A recusa da ciência pode significar a morte.

Ann também  escreve sobre um tema infelizmente muito, os vírus. Uma imagem do vírus da raiva ocupa toda a p. 75. Escreve a autora: “Os micro-organismos ligados as doenças são caçadores diabolicamente hábeis – capazes de derrotar os seus hospedeiros depois de os terem explorado como transmissores da doença.” Apesar do advérbio “diabolicamente,” não são uma obra do demónio, como se julgava antigamente. São vírus, um parasita à procura de abrigo para sobreviver, e apenas isso. E também neste caso dos vírus a recusa da ciência pode significar a morte, como está a acontecer nos países de Trump e Bolsonaro.

Tal como o “Cosmos” original, este “Cosmos. Mundos possíveis” é o guião de uma série televisiva. E, tal como na série de Sagan, o livro e o filme valiam por si, reforçando-se no seu conjunto, também agora o livro e o filme valem por si, nenhum prejudicando o outro, antes pelo contrário. O leitor pode ler o livro ou ver o filme, ou as duas coisas. Se viu o filme vai gostar de ler o livro e, se leu o livro, vai gostar de ver o filme. Nestes tempos de crise do livro – o livro saiu em Portugal em plena pandemia, com as livrarias fechadas - o impresso e o audiovisual não têm que ser inimigos. Ann é não só porta-voz de Carl, mas uma voz ela própria, no livro e no filme.

Consta que Ann Druyan já está a pensar na terceira sequela. Mesmo que o consiga faltar-lhe-á ainda muito, nesta enorme obra de divulgação das estrelas e dos filhos delas (não somos mais do que “poeira das estrelas”), para chegar às nove sequelas de “A Guerra das Estrelas”, de George Lucas, que começou em 1977, quando Ann e Carl se apaixonaram, e o episódio IX  e último, que só chegou ao grande ecrã em 2019. Foram, no total, 42 anos de “Guerra das Estrelas”: eu vi o primeiro episódio quando era estudante de Física e vi no ano passado o último. Eu li e vi o “Cosmos” original quando era estudante de doutoramento em 1980, li e vi o “Cosmos“ de Ann agora e conto estar cá, provavelmente já reformado, para ver a terceira continuação. Sagan, graças a Ann, continua a brilhar. E ela própria brilha.

- Ann Druyan. “Cosmos. Mundos Possíveis”. Lisboa:  National Geographic e Gradiva, 2020

1 comentário:

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