quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Visto deste lado.

Estou a escrever estas palavras na véspera da manifestação porque considero que a manifestação é uma forma de protesto das pessoas que se sentem prejudicadas e, do sentimento da pessoas, não tenho que opinar. Nem quero que a leitura destas palavras seja feita na emoção de cada caso pessoal que, obviamente, são problemas concretos de pessoas concretas. Sobre cada caso pessoal, já escrevi aquele que é o meu sentimento e do que acho de se levar pessoas até aos 34/36 anos para um buraco negro económico. O que vão ler abaixo são as palavras frias de como vejo "deste lado", visão de gestor de recursos e só serão publicadas após a manifestação.

A empresa à qual entreguei a minha vida há mais de 8 anos sempre empregou doutorados. Quase desde a sua origem, a empresa empregou doutorados em Física e não empregou mais porque não teve capacidade financeira para o fazer. É muito difícil conseguir pagar de ordenado líquido o mesmo que a FCT entregava aos doutorados a titulo de 'bolsa', metalinguagem para 'rendimento limpo de impostos que não são pagos por ninguém'. Um doutorado na minha empresa só pode levar para casa aquilo que, depois de deduzido IVA, IRC, TSU, IRS e SS  daquilo que o cliente paga e descontados de todos os 'overheads' relativos ao esforço comercial, gestão, etc; sobra. Admitindo que o produto gerado pela pessoa é o mesmo nos dois ambientes, um doutorado na minha empresa tem que trabalhar o triplo do que trabalha um doutorado pago por 'bolsa' da FCT, para levar para casa o mesmo dinheiro.

O facto da empresa conseguir hoje empregar pessoas com formação científica passou, em muito, pelo investimento pessoal das pessoas e da empresa. Não só em termos monetários mas, também, nos recursos que alocou para conseguir integrar essa pessoas, que estão habituadas a métodos de trabalho muito diferentes, num ambiente produtivo em que os clientes não são obrigados a comprar.  Um post-doc tem um valor económico residual ao sair do ambiente científico puro, pelo que o esforço de o fazer um profissional, noutra coisa que não 'papers', é um investimento considerável. E quanto mais avançado, do ponto de vista académico, está a pessoa maior o investimento que tem que ser feito nessa adaptação.

Portanto, a FCT é, objectivamente, um mecanismo de extracção de pessoas com formação científica da "economia privada" para a "economia pública"(vamos designar desta forma em favor da clareza). Agravada pelo facto do dinheiro que a FCT usa também ser dinheiro que foi extraído aos privados. Mais, quando os privados como a minha empresa tentaram recorrer ao mesmo apoio, são imediatamente expulsos do "convívio das pessoas de bem". A FCT é, para quem paga a festa no fim do dia, um concorrente desleal com um peso económico gigantesco porque, além dos custos directos, aloca aqueles que são à partida os melhores recursos humanos do país a actividades de valia económica altamente discutível . E é por aqui que devemos justificar a existência das bolsas ou não.

Então, a bem clareza, seja demonstrada a valia económica das bolsas que estão a ser atribuídas. Mas que sejam apresentados argumentos válidos e não a conversa mole do investimento na ciência como chave do futuro, porque investimento na ciência faço eu. O triplo do investimento que faria se a FCT não existisse. A mim, a explicação que deve ser dada tem que ser bem mais concreta que isso. Eu tenho que procurar aplicações, clientes que paguem e investigadores que o façam. E como eu há mais uma centena de pessoas neste país que também o fazem, não sou nenhuma beleza de hortaliça. A desculpa de serem ciências sociais ou não também não serve. Quase toda a investigação que acabo por vender tem por objecto a sociedade.

Logo, visto daqui, e depois de ler comovido os apelos das figuras da ciência que no passado fim de semana tanto clamaram pelo dinheiro do contribuinte fiquei sem perceber de que se queixam. Porque para além da previsão de um conjunto alargado de catástrofes genéricas, não consegui entender, em concreto, quais são as perdas. Eu consigo dizer com clareza e de forma quantitativa o que, deste lado, se perde com as bolsas da FCT. Está descrito nos parágrafos de cima. Agora, dos grandes nomes da ciência nacional que foram citados, talvez incorrectamente, extrai-se zero de consequências económicas. Perde-se o quê, exactamente, se não houver bolsas da FCT? Imigram? Pois, é um maçada, mas tenho outra fornada a sair da universidade. Estão a usar esse argumento para que se deixe de formar as pessoas? E vão sair para as empresas? Ainda bem, não é? Cabe a quem condena as novas orientações relativas a financiamento contestar aquilo que eu designei por "actividades de valia económica altamente discutível" e não vir com conversas catastrofistas, até porque já lá estivemos e não foi morte de homem.

Visto deste lado, e atendendo que seria simplesmente uma resposta a quem mete o dinheiro na coisa, seria interessante ouvir qualquer coisa de concreto sobre as perdas que as novas "políticas" da FCT trazem para o país. Porque, visto deste lado, só vejo vantagens.

Antes de publicar vi o post do Carlos sobre o laser e a Bell. A empresa onde trabalho está várias ordens de grandeza abaixo da Bell em termos de recursos. E fazemos e investimos em teoria. Porque precisamos de teoria. A IBM recebeu dois (que me lembre) Nobel da Física e aloja(va) nomes como Benoit Mandelbroth ou Greg Chaitin (que a academia rejeitava!). Não há qualquer correlação entre progresso teórico e investimento público. E, mesmo que houvesse, a Teórica(seja lá o que isso for) não pode ser feito por quem é professor e tem uma valia económica estabelecida?


29 comentários:

  1. Galois

    A questão que está subjacente ao argumento do ministro da economia, pelos vistos apoiada pelo ministro da educação e ciência prende-se com utilidade/investigação científica.

    A ciência é movida pela curiosidade e pelo acto profundamente humano de querer saber mais através do que chamamos «processo científico». Eu apostaria que mais de 90% dos episódios científicos mais importantes da história da humanidade foram movidos pela CURIOSIDADE.

    A utilidade da ciência deve ser vista como um corolário. Muitas vezes, boa ciência gera coisas úteis (na medida em que conhecimento profundo sobre as coisas aponta caminhos). Como Fiolhais disse com toda a razão, muitas vezes a utilidade da ciência só se percebe anos (quando não décadas ou séculos mais tarde). Este é o funcionamento da ciência; é a sua natureza profunda.

    Há cientistas preguiçosos e incompetentes; há cientistas brilhantes e dedicados. É assim em tudo na vida. Mas uma coisa é certa, por vezes a ciência precisa de falhar 100 vezes para acertar 1 vez. Mas nós precisamos de tentar as 101 para chegar ao graal. É assim, não há volta a dar. A ciência não é movida a garrafas de cerveja ou a outros do género.

    Portugal tem de optar. Queremos ficar apenas com os serviços e os fura-vidas no País ou queremos manter massa crítica. Não temos dinheiro para massa crítica, é isso?

    Parece que o País está a optar. Queremos mandar a massa crítica embora. Ok, assuma-se. Mas que não se tente criar uma «conversa de empresas» ou «este e o outro lado» para camuflar. A ciência não funciona como se anda para aí a dizer (e o ministro Crato é culto e sabe isso muito bem). Se se quiser deixar de ter ciência a sério no País, assuma-se e defenda-se a posição. É isso que têm de fazer.

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    1. Pelos vistos já falamos na questão que está subjacente ao que disse o ministro da economia....
      Eu não falo pelo ministro da economia. Quanto à massa crítica, a opção não é minha. Não sou eu que estou a pedir dinheiro para investigar, eu faço-o recorrendo a recursos próprios. Quem está a pedir o dinheiro que faça as suas opções livremente, como faria em qualquer circunstância.

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  2. Simples: o investimento que as emrpesas fazem é quase todo direcionado para produtos. Para escolher onde investem, têm que saber para onde direcionar. E isso vem das inúmeras tentativas e inúmeros erros feitos a montante - pela investigação paga pelo erário público. Retira a investigação pública, e a investigação privada morre 5 anos depois, quando se esgotarem as ideias que saem da pública.

    Não há um único exemplo, no mundo inteiro, do contrário: ou seja, de investigação puramente privada, que nada tenho ido beber à pública. Não há um único produto tecnológico que não encerre um manancial de conhecimento produzido pelo público. Nem que seja os 100 becos sem saída aonde foi preciso ir para descobrir que o 101º caminho era o certo.

    Depois, há investigação sem nenhum objectivo de ter relevância económica - como a astrofísica, cosmologia, ou em geral física de altas energias. O CERN não foi feito para servir para nada nem para dar dinheiro a ninguém nem para ter relevância económica, e não tem que provar nem demostrar que tem relevância económica. Isso de lá ter sido inventada a internet é coisa de somenos, e não está em discussão: podia nunca ter saído de lá nada com relevância para o resto do mundo, e teria sido feito à mesma. E não tem que dar justificações a esse lado daí.

    No fundo, este artigo resume-se a um gestor que quer pagar salário mínimo a investigadores, e não gosta da concorrência que o obriga a pagar mais. É normal, os gestores portugueses vivem disso mesmo - salários baixos e ambientes protegidos, sem competição. Pão, vinho, e GNR é o tudo o que acham que chega ao povo.

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    1. E sabes isso tudo porque?...És uma empresa? Perguntaste às empresas? Sabes porque foste vender os teus serviços a x empresas? Porque te consideras acima de qualquer escrutínio de valor? Porque achas que é preferível pagarem-te a ti que alimentarem outra pessoa? Porque sabes o que a expressão "valor económico" significa?
      Meu, sem mais comentários...

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    2. não leste nada do que eu disse, pois não? Mas noto que não contrapões nada ao que é óbvio - que não há investigação privada sem haver a pública; e que muita investigação não tem objectivo económico nem é avaliada de forma económica (apesar de ter quase sempre um retorno económico muito superior ao investimento, ver aqui http://dererummundi.blogspot.pt/2014/01/carta-aberta-ao-sr-ministro.html)

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    3. Não, foi tipo maluco a conduzir no passeio. Parei quando as asneiras à minha frente já eram tantas que não conseguia andar mais.

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  3. Galois

    Não sei essa resposta era para o 1º ou 2º comentário.
    Se foi para mim, não percebeu bem o meu ponto.

    O que digo é que a ciência tem o seu modo e escrutínio próprios. Não sou em nada contra escrutínio. Mas o escrutínio deve ser científico e não empresarial. Se, após sério escrutínio científico, determinado investigador subsidiado pelo Estado se relevar incompetente e em falta, deve ser naturalmente penalizado.

    Mas, percebe? Uma coisa é «empreendedorismo» outra coisa é ciência. São coisas diferentes. Muito diferentes.

    A posição de acabar com a ciência no País é uma posição possível. E é essa que o MEC deve defender. Debatamos isso.

    O meu ponto resume-se a isto «não nos mandem areia para os olhos; não falem de futebol como se fosse ténis». Apenas isso.

    O João está legitimamente no seu direito a tentar contratar cientistas pelos seus preços, pedindo-lhes para que pensem nas suas coisas. Está no seu direito, como é óbvio.

    O que não está é no direito de dizer que é isso que deve ser a ciência. Isso já não. Se disser isso, estará apenas a falar do que não sabe.

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  4. Galois

    Peço desculpa. Já vi que era resposta ao 2º comentário.

    Acrescento uma coisa. O interesse de empresas por cientistas só valoriza os cientistas e vejo isso com bons olhos. Não sou contra, pelo contrário (não vejo como se possa ser contra). Também é natural que as empresas queiram pagar pouco. Faz parte da vida. O meu ponto não é esse...

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    1. O ministro da Economia está repleto de razão. Porque eu fiz um post sobre valor económico e estou a ler (aqui e no FB) respostas sobre aplicações, investigação fundamental, papers, escrutínios, etc.
      Cá vai uma de Finanças da primeira página: valor económico é o valor esperado obtido com o investimento, deduzido do risco de não o obter. O que é que isto tem a ver com empresas, empreendorismo, escrutínio, ...?

      Aquilo que é pedido a quem recebe QUALQUER investimento é:
      a) diga o que valor espera obter;
      b) quando o espera obter;
      c) qual é o risco de não o obter.

      É pedir muito a quem EXIGE o meu dinheiro que me explique o a), o b) e o c) para eu poder compor a minha carteira de investimentos? Se isto é um conceito exótico para os investigadores portugueses, eh pá, estamos mesmo a precisar de "podar", como diz o outro...

      Papers e coisas do género (eu tb tenho os meus) podem servir para validar, podem ser importantes, mas não podem ser um objectivo.

      Quanto ao pagar menos pelos doutorados, vai reparar que no meu post eu nem sequer falei no que pago. Falei no que o cliente paga e no que a pessoa leva para casa. Nem sequer me referi à minha posição que, para o problema em causa, é instrumental.

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  5. João, eu não acredito em coincidências, nem tão pouco que tudo acontece por acaso. Estive hoje de manhã a ouvir uma entrevista/conversa com uma personalidade que quando fala é para abanar com a amnésia de que padece o mundo, porque esta dá imenso jeito para que se esqueçam os principios fundamentais que devem ser da existencia da Humanidade.

    Eu não sou economista, não tenho uma empresa mas tenho algum grau de inteligencia. Não consigo debater contigo ou com outra pessoa da área, com uma linguagem técnica e por isso peço desculpa se entenderes a minha contribuição menos válida.
    Eu sinto, vejo e analiso grande parte das questões e problemas com que nos debatemos hoje, independentemente da nacionalidade etc de uma forma mais humana e menos técnica. As pessoas independentemente da sua profissão ou estatuto, não são numeros. Antes de serem consideradas mais um numero, mais um digito, mais uma percentagem para estatisticas são, Gente.
    Não sou uma pessoa religiosa e se falo no Frei Fernando Ventura, é unicamente porque hoje ao ouvir essa entrevista/debate ele repetiu, aquilo que há muitos anos eu ouvi um prof da Faculdade dizer : O valor que um individuo tem, é sempre e erradamente
    avaliado pelo salário minimo, pelo valor mais baixo, por um valor que dê lucro a quem lhe paga. Ao contrário do que realmente e dignamente deveria ser, pelo seu valor e contributo perante si a sociedade.
    Este problema só se resolve na minha opinião com uma total mudança de mentalidades e formas de estar na vida. De conseguir que cada um de nós entenda que estamos interligados, que dependemos uns dos outros e que o equilibrio só é possivel, no momento em que ao contrário do que acontece hoje em dia, soubermos prescindir de esquemas e margens de lucro, onde só alguns têm proveito.
    Visualiso sempre que debato estes e outros assuntos, o globo em forma de balança, em que o hemisfério norte vive à custa do hemisfério sul. As consequências têm sido desastrosas a todos os niveis e em todos os campos,e no entanto insiste-se em mais do mesmo....

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    1. Joana,

      Como comecei por referir, eu sei que são pessoas, eu sei que há problemas grandes arranjados por falsas espectativas criadas pelos mesmos que hoje gritam. Eu sei que são pessoas. Mas as pessoas têm que ouvir a perspectiva de quem, no fim do dia, vai decidir. Ou porque paga, ou porque vota.

      A empresa onde trabalho tem mais de 100 pessoas e tem ZERO pessoas a ganhar salário mínimo. Não consigo entender a visão desse Frei, certamente feita num contexto diferente, mas uma coisa que podes estar razoavelmente certa é que conheço muito pouca gente que ganhe menos do que aquilo que produz. Só eu :).

      E como já sabes, não partilho essa tua visão de que o mundo piora, não piora, melhora todos os dias.

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    2. João eu sinto e vejo que em muitos aspectos o mundo piorou. Independentemente de toda a evolução técnica, das melhorias que tu mencionas em todos os campos. Ou tu achas que esta contestação, que não é só nossa, (portuguesa), que é global ou quase global, que este levantar de vozes e manifestações com todo o tipo de formatos, é porque sim ?
      Algo está muito mal João e algo afecta-nos de uma forma quase que esmagadora, Porém não perco a esperança nunca, mais que não seja porque acredito nas minhas filhas e nas suas capacidades que mais estabilidade e mais dignidade, é possivel. Julgo ser um pouco mais velha do que tu e posso-te dizer que já recomecei do ZERO (olha um numero João ;) ) muitas vezes. Levantei-me sempre e segui em frente, mas evito dar os mesmos passos que me deitaram ao chão.

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    3. Joana, eu acredito que no longo prazo, para além de estarmos todos mortos como dizia o outro, caminhamos sempre para melhor. E se hoje estamos a falar contra a porcaria de um écran...

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  6. Galois

    Não sei sinceramente por que razão não diz que é a favor de que não temos dinheiro para o luxo de ter ciência. Diga apenas isso. É muito mais claro.

    Essas coisas de que fala nada têm a ver com a ciência. Pode, legitimamente, ser da opinião de que não está para gastar o seu dinheiro para investir em pessoas para fazerem ciência (com os procedimentos científicos bem estabelecidos).

    Dizer isso é uma coisa. Outra coisa é querer fazer da ciência uma coisa que não é e nunca foi em nenhuma zona do mundo. A ciência não funciona assim... Precisa de tempo, de direito ao erro, de persistência... Tem bons e maus executantes. Mas não segue os moldes que defende neste seu comentário. As coisas têm a sua natureza. A natureza da ciência não é essa.

    E, sinceramente, a sua produção e quem o financia não são, a meu ver, chamadas para esta discussão. Também não estou com conversa sobre a minha. A discussão prende-se com a opção nacional de querer ou não querer ciência. Concordo quando diz que a sua posição é instrumental. A minha também é e deve continuar assim para bondade da discussão. E o que o João paga também é instrumental. É opção sua (como já disse antes) e também não interessa para aqui.

    Os ministros estão lá em missão nacional. Aceitaram os cargos para o fazer e devemos algum respeito aos governantes por colocar a mão na massa. Mas eles têm de nos respeitar e de clarificar as opções. Estamos numa crise profunda. É preciso seriedade e clarificação total de prioridades. No entanto, fala-se de coisas ao lado, fazem-se opções sem estratégia e executa-se arremesso de areia para os olhos das pessoas.

    A estratégia seguida consiste em considerar a ciência um luxo. Eles optam, executam, mas não o dizem abertamente (inventaram esta coisas das empresas para desviar a conversa). Eu acho que ganharíamos todos com mais honestidade quanto às opções tomadas neste período em que vivemos.

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    1. Sócio, se quer que eu diga aquilo que você quer, veio ao sítio errado.

      Essa coisas de que eu falo não têm a ver com ciência, têm a ver com investimento. Se você quer falar de investimento em ciência, vai falar destas coisas, sim. Se não quer falar destas coisas, fica a falar de ciência, mas sem investimento...

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  7. Galois

    Não, não quero mesmo que diga alguma coisa em particular. Não teria graça nenhuma se fosse assim.

    Se tivéssemos algum ponto em comum nas nossas visões sobre o que é a ciência, podia ser que desse uma boa discussão.

    Quando uma pessoa diz preto e outra diz branco, fica a coisa boa de se esclarecer um ponto de vista, mas não vale a pena ir mais além.

    A visão do João sobre a ciência não tem nada em comum com a minha. No meu modo de ver, alguns dos nossos governantes partilham a minha visão sobre a ciência (em particular o MEC) mas acham que não há dinheiro para isso. E inventam um discurso, dizendo uma coisa diferente. É contra isso que estou contra e é esse o meu ponto de vista.

    Pelo que me é dado a ver, o João tem mesmo uma opinião vincada sobre o que deve ser a política científica. Tudo bem, para mim é contraditória com a natureza da ciência, mas é a sua leitura. Deixe-me palpitar que a sua visão deve ser diferente da genuína visão (não a que dizem publicamente) dos nossos governantes.

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    1. Não imagina qual a visão que os nossos políticos têm da investigação científica portuguesa. Livremo-nos do dia em que alguns daqueles que hoje aparecem solidários de chegarem a poder decidir sobre isso.

      E como já lhe disse, eu não tenho uma visão diferente da ciência. Papers, citações,etc. são coisas o valorizam a si, eu não ganho nada com isso. E por isso, fico feliz, mas não preciso.
      Aquilo que tenho diferente é a visão de investimento na ciência. É diferente.

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  8. Galois

    Estamos a conseguir isolar o ponto da discordância. Para si, ciência e investimento em ciência podem desligar-se. E fala em formas de o fazer.

    Para mim não. Os meus, os seus e os papers de todos os cientistas (isso só para falar desse output) não têm como finalidade valorizar a mim, a si ou quem quer que seja. É por isso que discordo de si. É nessa visão do assunto. Para mim, embora uma grande parte dos papers não faça avançar nada e, muito menos, possibilite a feitura de uma fantástica garrafa para o Pires de Lima, o investimento na ciência tem de permitir a sua escrita. O nascimento de um paper fantástico capaz de mudar um paradigma só acontece se o investimento na ciência de que fala permitir a feitura de bom e mau output. É simplesmente a lei dos grandes números a funcionar.

    É nisto que está a nossa discordância. Para si, o investimento na ciência pode esclarecer à partida regras muito rígidas quanto ao output. para mim, dada a natureza científica, o investimento na ciência tem forçosamente de levar o pacote todo. Erros, falhanços, tempo, etc. Para mim é um preço a pagar devido à natureza do que estamos a falar.

    É opção dizermos que não queremos gastar dinheiro. Mas, a meu ver, o que diz ser possível fazer-se choca com algo mais vital.

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    1. Não. Eu nunca disse que as regras eram rígidas. Eu falei a) valor esperado b) horizonte temporal c) risco associado. Mais flexível que isto, não imagino. E TODO o investimento é visto assim, não é só o científico. Papers e citações são subprodutos na minha perspectiva de investidor, lá terão a sua importância na perspectiva do investigador. Aquilo que eu falei neste post foi "visto deste lado"

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  9. A perspetiva de investimento do João em ciência é tão legítima como a perspetiva de investimento de outra pessoa, em ciência ou noutra matéria lícita qualquer, mas quando se fala em investimento do Estado e, sobretudo, em investimento do Estado em investigação científica, tudo muda de figura.
    O investimento do João em ciência, como empresário, é um projeto cujo objetivo principal, senão o único, é o valor ou o proveito. Embora o investimento seja em ciência, no fim de contas, não o foi nem é, porque era um projeto de investimento e não um projeto de investigação científica.
    Se, por acaso, desse investimento resultasse uma descoberta científica extaordinária, mas que nada trouxesse ao investimento do João, tanto em termos de resultado esperado, quanto ao de risco associado, seria um falhanço completo, um péssimo investimento.
    E nada haveria de necessariamente errado ou acertado na decisão de investir.
    O investimento, quando se fala de ciência, é um mau conselheiro. Contrariamente, quando se fala de investimento ou de outra coisa, a ciência é sempre boa conselheira.
    Assim sendo, investir não tem o mesmo significado, nem os mesmos objetivos, quando seja investimento do João ou do Estado. A avaliação que se faça do valor esperado, do horizonte temporal e do risco associado, não pode ignorar que o Estado não investe em ciência, nem em educação, nem em transportes, nem em saúde, nem em justiça, nem em segurança, etc., à espera de um rácio de rendibilidade empresarial. Investimento público e investimento privado empresarial (distingo de meramente privado) são realidades que têm em comum apenas a ideia força de "frutificar". No empresarial nem todos os frutos servem e, no público, os melhores e mais importantes frutos do investimento (na perspetiva do coletivo) são, não raro, desprezíveis aos olhos daquele.
    No exemplo que dei acima, o facto de o investimento ter resultado numa descoberta científica importante poderia ser bem melhor do que o incremento financeiro das contas.
    O João como empresário pode ter perspetivas logicamente inatacáveis (boas ou más é outra questão), mas as perspetivas do Estado sobre matérias económicas, sociais e financeiras têm significados e alcance diferentes.
    E não adiantamos nada se pusermos todo o nosso esforço em tentarmos não perceber ou não concordar.

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    1. Repare, Carlos, que em lado nenhum eu disse que o estado deveria ter rendibilidade. E também não disse que na empresa se espera o sucesso em todos os projetos de investigação. Se um empresa alguma vez lhe disser isso está a mentir. Em tudo o que disse, falei em valor económico, o que é válido para a empresa ou para o estado e que envolve o proveito esperado, o risco associado a esse proveito e o horizonte temporal. E nenhum projecto é visto indidualmente, é vista toda a carteira e as decisões são tomadas pela carteira e não por cada um dos projectos. Acredite que não há assim uma diferença tão grande. Também na empresa se considera o know how obtido dos projetos que falham , os sub produtos, etc.

      Há uma diferença grande sim. Enquanto na empresa estamos a falar de dinheiro dos acionistas, no estado estamos a falar de dinheiro dos pobres. Por esta razão, não posso aceitar a leveza com que não se admite o escrutínio económico da investigação.

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  10. Julgo ter entendido o que escreveu e onde coloco a tónica é no papel da ciência/investigador, muito diferentes consoante estejam nas "mãos" do empresário, ou nas políticas do Estado.
    Por exemplo, o empresário não paga "para fazer investigação", nem "para fazer investigação que o investigador entender". O empresário, que pode até ser o mais ignorante dos homens, mas que tem dinheiro, é quem dirá ao cientista o que quer e este, se pretender receber o dinheiro, vai trabalhar naquilo que lhe pedem e não naquilo que ele, enquanto cientista, optaria por fazer. Um Governo também pode fazer isto, mas normalmente são abominados se o fizerem sem respeitarem a autonomia e a idoneidade científica da comunidade. O empresário é que, normalmente, não pode fazer de outro modo. Um Governo tenderá, em consonância com o que é razoável, aceitável e desejável, para não dizer imprescindível à boa governação democrática e plural, a reconhecer e a respeitar uma esfera de competências da comunidade científica que são, não apenas, científicas mas também e concomitantemente matriz da liberdade de investigar. É isto um luxo? Esta questão já é de ordem diferente. É como perguntar se o Estado deve fazer um escrutínio económico da investigação. Na minha opinião, reconhecer aquela liberdade e aquelas competências não corresponde a prescindir ou abdicar desse escrutínio e, politicamente, seria errado que o Estado o não fizesse.
    O que, às vezes, parece ressaltar das opiniões do João é que acredita que se esse escrutínio fosse feito as conclusões seriam pouco abonatórias.

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    1. Não foi isso que eu disse e olhar para a investigação como um "negocio" de carteira é não negar à partida nada a não ser pelo retorno esperado e a probabilidade de obter esse retorno. Por exemplo se quiser investigar a poesia medieval do vale do Eufrates e me disser que vai vender livros como pãezinhos quentes só tenho que perceber a probabilidade disso acontecer. E na investigação portuguesa há centenas de casos de grande potencial de retorno, Centenas. É certo que vão dar? Claro que não. Uns vão, outros não. É assim que o "negocio" funciona. E no retorno podemos estar a falar de um processo social que acelere adoções, ou novas formas de diagnóstico, não é necessariamente um semicondutor.
      Aquilo que me deixa desconfortável é a forma como se reagiu ao ministro da economia quando ele disse essencialmente aquilo que eu disse aqui. Pior, o ministro da economia não tem a noção dos prejuízos que as bolsas trazem à investigação no sector privado e é claramente um dos políticos mais moderados que ouvi sobre o assunto. Se os ilustres investigadores que se indignaram nos últimos dias ouvissem o que já ouvi a muitos políticos, certamente teriam estado calados, porque à primeira oportunidade que esses políticos tenham...

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  11. Eu até gostei de alguém defender "o outro lado", até porque já estive dos dois e já tive de justificar o meu próprio valor como doutorado em física na minha própria empresa, e não é nada fácil.

    Concordo que tem havido muita gente a fazer mestrados e doutoramentos, muitas vezes de valor duvidoso tanto do ponto de vista científico como económico, em vez de ir para as empresas, mas a principal causa disso é a falta de empresas suficientes capazes e dispostas a contratar essas pessoas.

    Se a FCT é 'um mecanismo de extracção de pessoas com formação científica da "economia privada" para a "economia pública"', então agora vamos ver a "economia privada" portuguesa a absorver toda a gente que não teve bolsa, certo?

    A verdade é que há poucas pessoas e instituições capazes de fazer investigação fundamental relevante (e essas devem ser apoiadas incondicionalmente, sem qualquer expectativa de retorno económico), e há poucas pessoas e instituições capazes de extrair valor económico da investigação aplicada (e essas só precisam de um empurrão, depois são auto-sustentáveis).

    Quanto às outras (nas quais eu me incluo), há que ajustar expectativas (até porque as universidades e laboratórios não podem absorver toda a gente que faz ou fez investigação) e procurar tirar partido da formação e experiência de investigação noutras actividades tanto ou mais respeitáveis, úteis e realizadoras.

    Isto é tudo uma questão de *quanto* as pessoas, as empresas e o estado querem e podem investir em cada uma destas coisas, não *se*. Nunca vi, e espero que não exista, ninguém a dizer que o estado deve esperar retorno económico de todo o investimento que faz em ciência. Mas também não vejo problema nenhum em que espere algum, e principalmente mais do que se vê actualmente. Mas aí as empresas também vão ter de estar à altura.

    My two (sing)cents.

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    1. Depende do que estiver a ver como retorno económico, Miguel. E, aparentemente, há uma indignação neste mundo todo porque os senhores investigadores nem sabem o que a expressão significa. Um projecto com um retorno esperado de 10 com uma probabilidade de ,2 daqui a um ano tem (não fiz as contas) o mesmo valor económico de um projecto com um retorno errado de 1000 com um probabilidade de ,5 daqui a 100 anos.. Investigação fundamento tem retorno, não podemos é montar uma carteira com demasiada concentração em fundamental. E aposto que a FCT nunca fez isso e nunca os ilustres investigadores o vão entender.

      Quanto à capacidade de absorção, não ouvi nenhum dos megailustres cientistas falar no que foram dizer aos putos que enfiaram no laboratório deles como se aquilo fosse para a vida... Só meteram a culpa nos outros.

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    2. Não disse que a investigação fundamental não tem retorno económico (longe disso), mas sim que não é necessário (nem desejável) *esperar* obter retorno económico de toda a investigação.

      Mas concordo perfeitamente na ideia de uma carteira diversificada de investigação, assumindo com naturalidade que a fundamental pode ser a fundo perdido em qualquer métrica ou prazo previsível. Os investigadores que eu conheço, ilustres ou não, compreenderiam isso perfeitamente (bem como calcular valores actualizados líquidos, probabilidades e descontar o valor temporal do dinheiro).

      Quanto às expectativas criadas nos "putos", é verdade que a academia é cada vez mais uma pirâmide que só alguns vão subir (alguns até lhe chamam um esquema de Ponzi), mas e as consultoras, escritórios de advogados, etc., não? A diferença que vejo na ciẽncia é que de facto as pessoas entram com uma ideia de uma actividade intrinsicamente boa e "pura" e depois descobrem que, como todas as outras, é feita por pessoas, que também há mesquinhices e injustiças e, pasme-se, também é um negócio (que o digam as editoras).

      Eu li o seu post como uma provacação útil para mostrar que há outros aspectos a considerar e que não é verdade que quanto mais investimento em ciência, de qualquer forma, melhor. Mas se é para polarizar ainda mais as opiniões, demonizando os "megailustres cientistas" divorciados da "vida real", então não valeu a pena. A vida real também está cheia de actividades concentradas em justificar a sua própria existência, e com resultados muito menos interessantes ou perénes que os da ciência.

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    3. Não é bem assim. Os escritórios de advogados ou as consultoras são actividades cuja sobrevivência está ligada à sua valia económica. É verdade que, de um dia para o outro, podemos deixar de precisar de advogados, mas a carreira não está dependente da vontade de um financiador. No caso dos "putos", a carreira também não está dependente de um financiador se pensarmos em termos globais, mas em termos nacionais é condená-los. E sem as garantias sociais que têm os advogados e consultores.

      E não queria demonizar ninguém, muito menos cair naquilo que estava a criticar. O seu comentário sobre a capacidade de absorção dos recursos humanos fez-me ver que não é claro para mim que os putos tenham sido atraídos para esta vida com total conhecimento dos factos e que o esclarecimento desses factos caberia, em primeira mão, aos mesmos agentes que hoje reclamam. Mas sim, tem razão, não era esse o tema.

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  12. Acho que há que distinguir bem o que se pretende com a investigação em ciência, em primeiro lugar. Apostar na ciência não vai trazer lucro directo ao Estado, mas como já foi referido, não para isso que o Estado existe. Senão, deixava-se de investir em Educação e Saúde.

    A sua visão como empresário permite observar esta questão "do outro lado" como referiu. Mas será que faz sentido esperar uma ciência de produto real de valor acrescentado imediato? Para um empresário sim, pois está a investir. Para o Estado não, no meu entender. Ainda poucos dias vi uma post no facebook onde foi referido o investimento do EUA no programa espacial para por o homem na lua foi de 25 mil milhões de dólares. ROI? 14 dolares por cada dolar investido. Ou seja, o investimento de algo que pareceu megalómano foi um retorno fenomenal. Foi imediato? Claro que não. Mas rendeu. E o mesmo se passa com muitos outros avanços - como o laser que referiu.

    No meu entender o Estado tem obrigação de investir em Ciência. E se calhar, para melhor a absorção dos doutorados no mundo empresarial, como já foi sugerido pelo José Manuel Fernandes na sua crónica no Publico, remover os entraves à criação de empresas (startups) como muitos outros países. Se calhar já não eram precisas tantas bolsas...

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    1. Dash, como todos os outros, está a misturar lucro e valor económico. Educação e saúde têm valor económico porque uma preenche a inflação dos recursos, a outra mantem os agentes a trabalhar por mais tempo. Mas não têm um valor económico infinito senão não haveria problema nenhum em pagar 100000000 de euros mensais a cada médico e cada professor. Teríamos um estado falido.... como temos.

      Não duvide que quando os US investiram na ida à lua sabiam exatamente os proveitos económicos associados, a começar pelo militar.

      O que o meu post quer dizer, e que o Jose Manuel Fernandes não sabe porque está a falar de catedra, é aquilo que referi. É que um doutorado numa empresa tem que trabalhar o triplo para levar a mesma coisa para casa porque as bolsas de posto-doc são líquidas de todos os impostos e isentas de riscos económicos. Enquanto tal se mantivesse, esse objectivo estaria sempre comprometido e traz um prejuízo relevante e concreto a quem tenta integrar as pessoas numa atividade de valia económica relevante. Por isso eu refiro que, se é isso que se está a fazer de um lado, mostrem-me que estou a receber esse beneficio do outro lado. Incluindo, obviamente, os doutorados formados que também serei daqui a um par de meses. Não me venham é dizer que tem um beneficio infinito em tudo porque é uma enorme mentira. E se não tenho, escolhas tem que ser feitas.

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