quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

POLÉMICA: O MAGALA

Resposta de Guilherme Valente ao artigo de Aires Antunes Dinis no jornal "As Beiras" (transcrito abaixo):

Toda a gente tem o direito de emitir as suas opiniões, do mesmo modo que todos temos o direito de nos pronunciarmos sobre as opiniões publicadas dos outros. Respondo, por isso, ao Senhor Professor Aires Antunes Dinis, que a mim se referiu, de um modo que considero ínvio, num artigo publicado na edição do dia 11 do Diário das Beiras. Um texto de escrita deficiente, caracterizado por aquilo que me parece ser uma iletrada confusão de ideias.

De facto, para provar a sua «tese» - que, aliás, só se adivinha (será que o próprio autor a percebe?) - o Senhor Professor transcreve um texto que, se tiver alguma coisa a ver com a «tese», provará exactamente o contrário. Tal como na velha anedota do magala, o Senhor Professor escreve mal, mas lê ainda pior.

Faço apenas duas observações, sem esperança, claro, que inquietem o espírito do doutoral autor: Qual foi o resultado da aplicação durante mais de trinta anos e com dinheiro a rodos, das ideias que o Senhor Professor, na sua inocente ignorância, julga ter apresentado e defendido? Quem, por exemplo, tirou a grande literatura dos programas, trocando-a por textos banais ou mesmo idiotas? E tem o Senhor Professor a "lata", que é, afinal, iletrada inconsciência, de falar em "visão cultural da escola"!? Claro que eu sei o que a expressão significa no léxico de idiotização do «eduquês». E o Senhor Professor, saberá mesmo?

A experiência da grande literatura enriquece todas as outras experiências humanas. Quem não tiver acesso a essa experiência viverá uma vida que ficará aquém da que poderia viver. E a escola é a única oportunidade para as crianças pobres poderem aceder a essa experiência criadora. E o Senhor Professor também falará em «inclusão», claro... inclusão na mediocridade geral que andaram a promover durante todos estes anos devastadores. Devastação de que, pressinto, o Senhor Professor terá sido vitima. De facto, o que poderemos pensar da formação de um professor que escreve e pensa como o seu texto revela?

Quanto às sentenças de autoridade que emite, vou retribuir no mesmo registo, para que experimente a receita: o Senhor Professor é um ignorante em História, Filosofia, Antropologia, Educação, Literatura… com um domínio muito insuficiente da língua portuguesa. Pela leitura do seu texto, não consigo, sinceramente, imaginar o que o Senhor Professor saberá. Mas esclarecerei esta minha dúvida se estiver disponível para um debate de ideias, cara a cara, em local, dia e hora à sua escolha. Aconselho-o a aproveitar esta minha generosa disponibilidade.

(NB – Podem pensar e dizer o que quiserem das minhas ideias e de mim próprio. Se alguma vez for caso disso, responderão em tribunal, até ao meu último tostão). Compreensivos cumprimentos,

Guilherme Valente

Os matemáticos e a cultura, por Aires Antunes Diniz, Professor.

Muitos pensarão que esta sanha de Nuno Crato contra os professores decorre da sua formação matemática. Pensam que esta o faz desprezar a cultura como resultado da luta da Humanidade por uma melhor compreensão das crianças e dos jovens como Homens em Formação. Contudo, Agostinho de Campos, um pedagogo da área da direita, tinha uma correta perceção do papel da matemática na Cultura pois escreveu: 

"A este atestado eloquente do grande Humboldt juntase hoje outro: é o importante trabalho que o professor de matemática, dr. Luciano Pereira da Silva, inseriu na Revista da Universidade de Coimbra e agora foi publicada em volume, sob o título A astronomia dos Lusíadas. Aí se mostra que a cosmografia de Camões não só não é fantástica, mas se encontra, por todas as suas minúcias, de acordo com a teoria de Ptolomeu, que foi no seu tempo a verdadeira teoria científica, admiravelmente adaptada aos cálculos astronómicos e mantida sem inconveniente, enquanto esteve em concordância com os resultados da observação".  *

De facto, Nuno Crato não tem uma visão cultural e histórica da Escola como organização humana. Não a pensa por isso como conquista resultante da Utopia, constantemente renovada pela prática da correção persistente de erros presentes e passados, que levam a um melhor entendimento da formação possível das crianças, jovens e adultos. Acompanha-o ou condiciona-o nesta sua deriva o Editor da Gradiva, Guilherme Valente, que se farta de editar livros sobre o eduquês que pensa como "Utopia" abstrusa. Trata-se de alguém que sabe quase nada do processo histórico que construiu a Escola como organização assente na Pedagogia e na formação pedagógica dos professores. Pondo o problema só na falta de cultura geral básica dos professores (Público, 31 de Dezembro de 2013, p. 47), esquece o outro vértice do triângulo educativo, o poder político a quem falta, persistentemente, a cultura necessária para saber propor/ordenar novas linhas de desenvolvimento da educação e de dar formação aos professores, como temos assistido. 

Na verdade, desprezando as leis da física, o Ministro Crato tenta poupar em professores acumulando alunos em salas de aula. Despreza também as leis da sociologia, em particular da sociometria e da psicologia. Fá-lo ao somar alunos com características diferenciadas e a precisar por isso de atendimento pedagógico diferenciado. Antes dele estiveram no poder Ministros como David Justino, cuja inabilidade foi patente na colocação de professores em 2014 e Lurdes Rodrigues que criou a figura do professor titular, onde valorizou a carreira burocrática, para com base nela avaliar professores com prática pedagógica ativa assente numa empenhada cultura escolar. Infelizmente, nada mais são e foram do que elefantes numa loja de porcelanas, partindo tudo nas escolas por de educação nada mais saberem do que dizer eduquês, que é só um blablá sem sentido.

Aires Antunes Diniz

* Agostinho de Campos - Ler & Tresler, Livrarias Aillaud e Bertrand, Porto e Rio de Janeiro, 1924, p. 97.

3 comentários:

  1. Pergunta o senhor Guilherme Valente: «Qual foi o resultado da aplicação durante mais de trinta anos e com dinheiro a rodos, [na Educação]…»?
    O resultado não foi a fantasia da ignorância que o senhor propaga sob o nome de «eduquês», ignorância sempre houve, muito mais do que hoje, os números aterradores do analfabetismo que nos acompanharam ao longo da história atestam-no:
    1890: 75,9%;
    1900: 74,5%;
    1911: 70,3%;
    1920: 66,2%;
    1930: 61,8%;
    1940: 49%;
    1950: 40,4%;
    1960: 30,3%;
    1970: 25,7%;
    1981: 18,6%;
    1991: 11%;
    2001: 9%;
    2011: 5,2%.
    (Fontes: até 1960 in António Nóvoa, Nova História de Portugal – Portugal e o Estado Novo (coord. Fernando Rosas), p. 475; de 1970 a 2011 in Pordata).
    Portanto, o dinheiro gasto serviu para baixar drasticamente o analfabetismo.
    Serviu ainda para dar a escolaridade obrigatória (hoje até ao 9.º ano) à generalidade dos jovens em idade escolar e para dar o ensino secundário a grande número de jovens que o podem frequentar (apesar de ainda não ser obrigatório).
    Serviu também para permitir que, em 2010/11, houvesse 403.455 estudantes no ensino superior, quando em 1965 tínhamos apenas cerca de 25.000 e em 1980 cerca de 80.000.
    Serviu, portanto, e nas palavras do Prof. Carlos Fiolhais (último Prós e Contras) e de outros conceituados universitários e especialistas na matéria, para formar «a geração mais bem preparada de sempre em Portugal».
    Esta afirmação do Prof. Fiolhais prova-se pela quantidade de diplomados e investigadores que nas mais diversas áreas trabalham nos mais variados países do mundo, especialmente nos da UE (Alemanha, Inglaterra, Dinamarca, Luxemburgo, Suécia, França, etc. etc., e também na Suíça e na Noruega: este país há anos que tem o Programa do 1000 Engenheiros, que recruta em Portugal, ou ainda nos EUA, no Brasil e noutros países).
    Finalmente, serviu para construir uma rede de infraestruturas educativas (escolas, institutos politécnicos, universidades) com suficiente qualidade e que cobre a totalidade do país.
    Hoje não é preciso que os jovens como eu, nos anos de 1960, para irem estudar para os liceus (que só existiam nas capitais de distrito), no meu caso apenas a 29 km da residência, tenham de se alojar com pensão completa nas localidades desses liceus. Nós não só não tínhamos escolas perto como não havia rede de transportes que assegurasse a ida e vinda diária para casa, com todo o dispêndio que isso significava e o desincentivo (por impossibilidade) para estudar.
    Foi para todo este progresso educativo, ímpar na nossa história, que o senhor G. Valente teima em ignorar, que serviu os cerca de 5,4% do PIB que gastámos na Educação durante alguns (poucos anos).
    Agora estamos a caminho dos 3%, portanto, está tudo a caminhar no bom sentido: não haverá nem desperdício de recursos financeiros nem de potencialidades do chamado «capital humano».
    Salazar tinha a célebre frase «está tudo bem assim e não podia ser de outra forma».
    Parece que, tanto a frase como a mentalidade que lhe subjaz resistiram bem a 40 anos de democracia e impregnaram muitas mentes, incluindo algumas de quem se diz nos antípodas do político».
    Afinal,
    Apesar deste evidente progrewsso resolvemos todos os problemas?
    Nem pensar.
    Devemos estar contentes com o que conseguimos?
    Nem pensar.
    Não houve problemas graves de funcionamento?
    Houve.
    Distorções, disfunções e algumas ideias exóticas?
    Houve, mas quando é que não existiram problemas, distorções, disfunções e algumas ideias exóticas?
    Quem, como o senhor G. Valente, que com muita facilidade apelida os outros de ignorantes e teima em ignorar estes factos comprováveis, não sei o que lhe chamar.
    Mas não me atrevo a avançar com o adjectivo adequado, pois agora o senhor G. Valente ameaça todos os que não abracem a sua narrativa fantasiosa do «eduquês« com os tribunais.
    E eu sempre fui muito reverente para com a autoridade, especialmente a Justiça.

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  2. Vou tentar explicar, então, o que não terá sido claro para o comentador.

    Não foi o eduquês que levou para a escola finalmente todas as crianças. Foram o capitães do 25 de Abril. O que o eduquês fez foi frustrar o que essa oportunidade poderia trazer aos alunos e ao País. E é aqui que está o problema: o que foi feito nos últimos 30 anos...e o que não deveria ter sido feito, e o que poderia ter sido realizado. Essa diferença é terrível! Apenas duas ou três referências:

    Na verdade o eduquês estupidificou. Estupidificou quanto lhe foi possível, quanto o progresso, espontâneo, digamos, que o próprio tempo em que vivemos impõe, lho permitiu. Não fez avançar, mas, pelo contrário, retardou, impediu que se avançasse como se poderia ter avançado. O que está bem à vista na nossa realidade, política, económica, social, cultural, moral. É ver todos os indicadores.

    Poderia parar aqui, mas concretizo um pouco mais:

    Ensinou-se a ler mal, cada vez temos menos bons leitores. Qualquer professor universitário sabe que mesmo os alunos que chegam à universidade, regra geral, são deficientes na leitura e não têm hábitos de leitura, logo, pensam mal e não sabem expôr o pensamento. No período do eduques puro e duro 30% das crianças terminavam o ensino básico sem saberem ler. Foi assim durante anos.

    Esta situação, revelada por vários outros indicadores, determina as consequências terríveis que seguramente compreende. Porque a leitura é um instrumento determinante.

    O eduquês, a escola má ou mesmo inútil do eduquês, atirou para fora dela, para a miséria e a exclusão, inúmeras crianças e jovens, como os números aterradores do abandono escolar foram indicando (pena que o Prof. António Nóvoa não tenha valorizado isso no seu estudo). Apenas uma parte dos estudantes (não me ocorre agora a percentagem, mas penso ser de apenas um terço) concluiu o ensino obrigatório (apesar do facilitismo e dos exames a fingir), e dos que entraram na universidade apenas um terço concluiu os cursos (mais uma vez apesar do facilitismo, que, também, naturalmente, foi sendo adoptado em muitos cursos universitários.)

    O eduquês não permitiu, na verdade, que recuperássemos o nosso atraso relativo na comparação com os países desenvolvidos, impedindo que, finalmente, Portugal tivesse vencido a sua dependência, como fizeram outros países, partindo, duma situação pior do que era a nossa antes do 25 de Abril.

    O eduquês, impedindo o que poderia ter sido realizado, não instruiu, não cultivou, não promoveu o pensamento crítico, a responsabilidade, a autonomia. Pelo contrário, infantilizou, desresponsabilizou, não permitindo, assim, a formação da consciência moral, do espírito cívico, da autonomia, da criatividade, do espírito empreendedor, etc.

    A violência sempre crescente é de tudo isso ua manifestação dramática. Isto é, não ensinou a pensar e, por isso, não se aprendeu a sentir.

    Que tipo de cidadãos formou, enfim, o eduquês? Um estudo divulgado na edição do Público do passado dia 16, começa responder a esta minha pergunta, sugiro que o veja.

    Guilherme Valente

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  3. Senhor Guilherme Valente:
    Fique lá com a Taça do Eduquês.
    Eu para mim não a quero.
    Só se pode discutir com quem o quer fazer, esse é um princípio básico em todas as situações da vida.
    Como senhor não quer discutir com ninguém, antes impor a sua visão mirabolante da realidade, que fazer?
    Pior: agora nos triibunais se alguém ousar contrariá-lo, chamando-lhe o que o senhor lhe chama.
    Desde o 25 de Abril, entre os vários aspectos que hoje, a quase 40 anos de distância, podemos claramente identificar como negativos, um deles é a degradação do conceito (e da aplicação prática) de autoridade.
    Por reflexo condicionado contra o trauma da irracional imposição da autoridade autoritária (passe a redundância) do Estado Novo, contestou-se toda a autoridade, mesmo a democrática, nas ruas, nas empresas, nas instituições, até no Parlamento. E tudo em directo, acessível ao universo dos portugueses e à distância de um click no botão da rádio ou da televisão, à hora das refeições, hoje todo o dia.
    Insultou-se os 1.os Ministros, os Ministros, o Presidente da República, toda a gente.
    E o senhor vem dizer que a culpa do desrespeito dos alunos pelos professores e pela autoridade em geral é do eduquês.
    Não abuse da nossa inteligência.
    Tenha pena de nós.

    P. S. Disse: «Vou tentar explicar, então, o que não terá sido claro para o comentador.»
    Para mim o seu pensamento é claro (nunca tive dúvidas sobre o que o senhor anda a escrever há 30 anos, contra toda a evidência, considerando os resultados globais, como é evidente, não ignoro os problemas reais), isto é, uma fantasia.
    Admoeste o Prof. Carlos Fiolhais pelo que disse no Prós e Contras, o Dr. Luís Portela, o Prof. António Coutinho, o Prof. Sobrinho Simões, enfim, todos os que conhecem a realidade, vivem com as pessoas (não vivem fechados em 4 paredes cheias de livros em Campo de Ourique), os quais enaltecem a qualidade dos «filhos da geração eduquesa» que dão cartas no estrangeiro. O fruto das 4 centenas de milhar de universitários (em 2010/11) contra os 25 mil nos «seus bons tempos», em 1965, quando só alguns podiam ser chamados «Dr.» Esse é outro dos seus problemas.
    Ao contrário da geração bem formada antes do eduquês, que ia trabalhar nas minas de carvão da Bélgica ou na beterraba da França, esses sim, esses sabiam Literatura e tratavam os clássicos por tu.
    Admoeste também Angela Merkl e o Governo da Noruega, entre outros, que estão a contratar ignorantes aos milhares.
    Costuma dizer-se que a ideologia cega. E as ideias pré-concebidas de matriz ideológica, fundamentalistas, cegam completamente.
    O senhor não tem a noção do ridículo?



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