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segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Gregor Mendel - Há quem chame pai a outro mas a Genética Moderna não pode fazê-lo


Novo post convidado de Alexandra Nobre, professora de Biologia da Universidade do Minho:

“Os meus estudos científicos têm-me proporcionado grande satisfação e estou convencido de que não vai demorar muito, até que todo o mundo reconheça os resultados do meu trabalho”
(Gregor Mendel)


26 de Fevereiro de 2012 – Noticiário da hora do almoço – “Dez por cento da população mundial (há até mesmo quem refira 30%) chama pai a quem não o é na verdade e, em Portugal, os institutos públicos fazem cinco testes de paternidade por dia.”

Um problema que vem de longe. De sempre diria eu… E para sempre há-de continuar já que, por mais que neguem, a nossa espécie é promíscua, nada a fazer. Bem, a não ser os tais testes de paternidade. E como o seu a seu dono, devemos pegar o “touro pelos cornos”, isto é, fazer uso da genética e encontrar o pai, que isto de andar a chamar pai a outro não é simpático. Nem desejável. E juntando as palavras pai e genética, esbarro em pensamento no pai da Genética Moderna, (Johann) Gregor Mendel de seu nome.

Johann Mendel (Gregor só depois de frade) nasceu a 22 de Julho de 1822, em Heizendorf, Morávia, filho do meio (eram três) de um casal de camponeses sem grandes recursos, único rapaz ainda por cima, que desde cedo se viu impelido a trabalhar para alimentar o seu interesse pelas ciências naturais. Era uma pena! Queria estudar, dava provas de talento e inteligência, os pais auxiliavam no que podiam e Mendel fazia o que podia para ajudar. Desde logo como jardineiro e apicultor na quinta onde vivia e já na família há mais de 130 anos. Em 1840 entra no Instituto de Filosofia da Universidade de Olomouc para, em dois anos (acabaram por ser três porque adoeceu), estudar Matemática, Física, Ética, Filosofia e… Pedagogia. Queria ser professor. Chegou mesmo a leccionar numa escola local como professor substituto de Física. Sentia-se bem, levava jeito entre os alunos, mas não passou no exame que o qualificava para exercer a profissão. Não fosse a sua linda irmã mais nova Theresia a ceder parte do dote, talvez por, além de um grande coração, ter também outros dotes que tal permitiam, e os seus estudos teriam ficado pelo caminho.

Em 1843, com 21 anos, enceta o trilho para frade no mosteiro Agostiniano de Brno por influência do seu professor e amigo Friedrich Franz - “his only chance of realizing his intellectual ambitions”, o que lhe permitiu estudar teologia, filosofia e ciências naturais à medida da sua bolsa. Muito parca, convenhamos. Uns anos mais tarde, com o apoio do abade Napp, segue para Universidade de Viena, onde, mais uma vez, tem enorme sucesso nos estudos (agora Física, Química e Biologia) e, mais uma vez também, torna a chumbar no exame de qualificação. O destino tem desígnios... Não fosse o nervoso miudinho que dele se apoderava nestes momentos cruciais em que era perscrutado por trás dos doutos óculos dos ilustres examinadores e nunca teria ido parar os jardins do mosteiro onde realizou as suas famosas experiências. Uns jardins com dois hectares. Dois campos de futebol só para ele onde “meteu golos” com ervilhas! E com abelhas também, embora muito menos gratificantes já que as rainhas têm comportamentos de acasalamento muito menos controláveis que as redondas sementinhas.

Há séculos que os agricultores cruzavam animais e plantas de modo empírico com vista a favorecer certos caracteres desejáveis. Os naturalistas de meados do século XIX defendiam que tudo na Natureza tinha uma explicação científica. Acreditava-se que as características estavam armazenados em partículas no corpo dos progenitores e que eram misturadas na descendência. Mas como? Mendel demonstrou em ervilheiras que a passagem de certos caracteres à descendência seguia padrões determinados a que deu o nome de Leis da hereditariedade (Leis de Mendel). Os seus resultados/proporções eram de tal modo “bons de mais para ser verdade” que Mendel chegou a ser acusado de desonestidade e de forjar valores que melhor se adaptassem ao modelo que defendia. E não era para menos! Senão vejamos. Mendel, que nunca teve sorte com os bilhetes de lotaria que frequentemente comprava, foi um sortudo sem tamanho na escolha dos caracteres das ervilhas/ervilheiras com que estudou a hereditariedade e estabeleceu as suas leis. Analisou sete características contrastantes (forma e cor da semente, forma e cor da vagem, posição da flor, tamanho do caule e cor do tegumento da semente) tendo concluído que eram herdadas independentemente (2.ª Lei de Mendel - Lei da segregação independente dos caracteres). Na verdade, isto só foi possível porque, sorte das sortes, as características eram codificadas por sete genes localizados em outros tantos cromossomas independentes (há aqui uma pequenina nuance mas sem qualquer efeito prático e não vale a pena complicar). Perante tanta característica seleccionável numa ervilheira, digam-me lá se isto não foi uma fortuna sem tamanho. E mais! Sabendo nós, mas não ele, que as ervilhas têm sete pares de cromossomas, então, entre tiro no escuro, golpe de mestre, iluminação divina ou conjuntura astral, não sei bem o que lhe chamar.

Em 1865 apresenta as suas experiências de hibridação com plantas na Sociedade de História Natural de Brno onde recebeu pouco mais do que umas palmadinhas nas costas e algumas linhas envergonhadas na imprensa local. Homem de fé, não esmorece e, no ano seguinte, publica as suas convicções no artigo científico Versuch ueber Pflanzenhybriden (em inglês, Experiments on Plant Hybridization), hoje um artigo seminal da ciência, mas nem o esforço de enviar cópias a cientistas espalhados pelos quatro cantos Europa fez com que o seu trabalho subisse a palco. Talvez o grande problema estivesse no brilhantismo de Mendel e no obscurantismo da restante comunidade científica. Quem o mandou responder a perguntas que só mais tarde vieram a ser feitas? Nos 35 anos seguintes este artigo foi vagamente citado por botânicos interessados na hibridação de plantas e só ao virar do século é que as suas ideias/teorias, redescobertas em simultâneo e independentemente por três cientistas (de Vries, Correns e Tschermak), vieram a fundar a Genética Moderna e a alcançar o lugar que lhes era devido.

Em 1968 é eleito vice presidente da Sociedade de Ciência Natural e também abade do mosteiro, posição esta que ocupa até à sua morte como um ilustre desconhecido a 6 de Janeiro de 1884, ele, sem dúvida um dos grandes nomes das ciências biológicas do século XIX que só postumamente ganhou fama. Aliás, durante a sua vida, Mendel foi muito mais reconhecido pelos seus dotes de meteorologista do que propriamente no campo do melhoramento de plantas. Durante mais de 27 anos fez o registo diário da velocidade e direcção do vento, precipitação, entre outras variáveis, registos ainda hoje preservados no Instituto Hidrometeorológico de Brno. Já a mesma sorte não tiveram os seus papéis e cadernos de apontamentos, queimados após a sua morte pelo novo abade. Parece que enquanto governou o mosteiro foi sobrecarregado com inúmeros problemas administrativos, entre eles uma disputa com o governo civil quanto à aplicação de impostos especiais às instituições religiosas, disputa esta da qual não interessava deixar rasto. Raio dos impostos! Tanta informação que nos teria dado tanto jeito...

Temos de Mendel uma ideia romântica construída de jardins, flores e ervilhinhas, uma ideia pincelada a verde e amarelo e sentida com texturas lisa e rugosa. Mas temos que admitir que estamos errados. Esmiuçar 29 000 plantas em sete anos, de tesoura numa mão, pincel na outra e lupa sabe-se lá onde, num clima com temperatura média entre os -5 ºC e os 20 ºC, tem muito pouco de romântico. Mendel era um “guerreiro”, um experimentador meticuloso e um visionário. Vaticinou “os meus estudos científicos têm-me proporcionado grande satisfação e estou convencido de que não vai demorar muito, até que todo o mundo reconheça os resultados do meu trabalho”. Sem dúvida! O que são 35 anos perante todo o mundo e para todo o sempre?

Alexandra Nobre

13 comentários:

  1. "a nossa espécie é promíscua, "Não percebo bem o que está aqui a fazer a palavra promíscua nem entendo o que significa neste contexto. A ideia será pregar moral (uma moral um tanto primária, diga-se).

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  2. Caro Anónimo, a palavra promíscua (gramaticalmente usada no texto como um adjectivo) está ali a fazer exactamente o que deve, ou seja, a qualificar/caracterizar a espécie humana. Se elencarmos os tipos de acasalamento animal (e não precisamos de ir a nenhum tratado exaustivo de Antropobiologia, fiquemo-nos pela Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Animal_sexual_behaviour) facilmente constatamos que a promiscuidade, muito comum entre os primatas, é um deles. E o que é que significa promiscuidade? Assim, em poucas palavras, que a espécie vive em grupos sociais compostos por diversos machos e fêmeas e que cada um deles, independentemente do sexo, pode copular com vários elementos do sexo oposto. Parece-me claro! Eu revejo-me nesta espécie. O caro Anónimo não? Aliás, não me chocou nada quando ouvi isso do meu Professor de Antropologia Biológica nos tempos idos da FCUL.

    A confusão do caro Anónimo é que se esqueceu que muitas das nossas palavras são ambíguas, isto é, que têm vários significados. Basta-nos ir a qualquer dicionário (mais uma vez, sem grande pretensão, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa serve).
    Promíscuo
    1. Misturado sem ordem (notando-se na confusão mais de mau que de bom).
    2. Que viola o que é considerado moral.
    3. Que tem vários parceiros sexuais.
    4. [Gramática] Que tem apenas um género e designa animais cujo sexo masculino e feminino pode ser determinado através das palavras macho ou fêmea. = EPICENO1.

    Está explicado. Eu usei a palavra com o significado 3 (o tem pode ser potencial – entram aqui outros factores que não vem ao caso discutir), o caro Anónimo entendeu-a com o significado dois. Eu não fiz nenhum juízo de moral, o caro Anónimo fez logo um julgamento de valor.

    E já que falámos em moral/moralidade e possa haver alguém chocado com o que está a ler, devo dizer que nem tudo está perdido. Parece que vamos no “bom”caminho o que quer que isso queira dizer... Um grupo de cientistas, fundamentado em registo fóssil, afirma que “Early humans were more competitive and promiscuous than people today, research shows.”
    http://www.telegraph.co.uk/science/science-news/8104826/Early-humans-more-promiscuous.html
    Fique bem
    Alexandra

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    1. Minha senhora,

      Mas tendo em linha de conta o caso que nos apresenta não deveria ser a 2?

      Isto entendido pelo homem, afinal é a ele que a situação directamente diz respeito.

      E digo-lhe ainda, caso não o saiba, estudos científicos há hoje para todos os gostos. Tenha isso como uma certeza.

      É só pedir...

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  3. Ó Alexandra, muito obrigado pelo seu esclarecimento. Agora percebo, a palavra é utilizada com um significado técnico enquanto que na linguagem corrente é difícil esquecer a vertente moral. Eu nunca estudei Antropologia e, portanto, o significado corrente foi o que me surgiu. E isso contraria o meu gosto pela promiscuidade. Muito obrigado pela sua atenção, não é comum entre as pessoas que escrevem em blogues.
    Anónimo.

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    1. Presumo que seja o primeiro anónimo desta lista...
      Nada a agradecer. Entendo que devemos ser responsáveis por todos os actos que praticamos e o acto de escrever não é excepção. Mais. Quando o que escrevemos suscita dúvidas então será nossa obrigação esclarecê-las. Uma obrigação que pessoalmente, talvez por deformação profissional, vejo com prazer.

      Só um pequenino reparo. "...portanto, o significado corrente foi o que me surgiu...." O significado corrente da palavra promíscuo não é um, mas sim aqueles quatro que elenquei ali em cima. É isso que podemos inferir ao consultar um dicionário de Língua Portuguesa.
      Alexandra

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    2. Desculpe. Agora é que eu tenho sérias dúvidas que a senhora tenha realmente percebido.
      Não se trata aqui de um nome técnico. Trata-se sim de uma tentativa de tornar a depravação como sinónimo de liberdade sexual. Mas para isso não nos basta os morangos com açúcar, e outros géneros... chamar a ciência para isso é que não.

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    3. Pois, caro Anónimo... Tem razão. Não percebi.
      Não percebo inclusivé, agora a entrada em cena da palavra depravação.
      (aparte
      Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
      depravação s. f.
      Corrupção; perversão; degeneração mórbida.)

      Quanto aos morangos com açúcar, adoro. Mas prefiro sem.
      Especialmente se forem "Fragaria vesca"
      Ou será que também não percebi isto...

      Alexandra Nobre

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    4. Começo por lhe pedir desculpa. Quando disse a senhora não percebeu, estava a referia-me à pessoa anónima, que por ter no seu comentário utilizado a frase “E isso contraria o meu gosto pela promiscuidade.”, conclui, pela sensibilidade, tratar-se de alguém do sexo feminino, o que não é correcto. (e não percebeu, porque julgo que ela ficou refém da palavra nome técnico; mais do que na ideia)

      Não poucas vezes assistimos a grandes tentativas de absolvição na justiça de crimes que se cometem utilizando os argumentos científicos, num verdadeiro atropelo da ciência.

      Agora o que lhe tenho a dizer quanto à palavra depravação que uso, deve-se apenas ao facto de que haverá sempre quem queira justificar atitudes imorais com argumentos científicos.

      Espero não ter magoado a Professora e Cientista, Alexandra Nobre.

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    5. Um aditamento ao comentário: refiro a “sensibilidade” que leva a pessoa anónima a descrever um sentimento próprio, talvez por isso mais indicativa do sexo feminino.

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    6. Ao reler o meu 1º comentário verifiquei que a palavra "tentativa" que utilizo é inoportuna, pois não reflecte o meu pensamento e aquilo que pretendia dizer e que depois explico; pode ser até considerada ofensiva, reconheço.

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  4. Anónimo é um nome bonito! E em certas circunstâncias dá um jeito enorme!

    Anónimo Miguel
    BI 7766715

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  5. Sinceramente, a iniciativa de Alexandra Nobre é corajosa, e poucos ousam estabelecerem a mediação em assunto tão delicado, e necessário de compreensão. Porém, no primeiro momento a promiscuidade não é uma regra da espécie, e por segundo equivaler os gêneros é um risco com relação a autonomia dos sexos M. e F. com ênfase apenas na reprodução, sendo que para, e tão somente das diferenças a que caibam interesse e individualidade das circunstâncias e costumes, desenvolve o pressuposto de quão refém e sensível este, dito social, constrange.
    E em nome da defesa cuja ofensa a qualquer juízo de moralidade, sim, porque o social objetiva a monogamia, a parceria, o companheirismo ou seja, está para a cumplicidade sexual, e de tal forma a aventura evolutiva da espécie que necessariamente a civilidade e alteridade, faça saber que por vezes, alguns especulam a noção de que: tudo pode, tudo deve, enquanto pode, enquanto deve, e diga-se por não ser o caso da colega Alexandra que trás a pauta os dados da pesquisa.
    Mas, com relação ao esclarecedor e para tanto a lascívia não domina, é recessiva e afirmo, que está na contramão do bem querer ao próximo, por um factor muito simples, o Educativo do qual a humanidade em resposta é vitoriosa. Aliás, creio que a grande maioria não educa os filhos com base em números de desvio comportamental. Entretanto é do dever consciente de cada humano, em não compactuar com o que degenera, enquanto a escolha pela afetividade, seja pela família o bem comum e de elevada comunhão de valores. Afinal é tudo Ciência, e a genética de Mendel por sua vez, colabora por ensinar a vencer os desafios como aprendizado.

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  6. Gostava de perceber o que a Cláudia diz mas devo confessar que não percebi nada.

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