domingo, 19 de fevereiro de 2012

"Acordo ortographico"

Post na sequência do texto Oposição à nova ortografia no Brasil;

No semanário Sol de 17 de Fevereiro, página 3, José António Saraiva assinou um texto que tem por título Acordo ortographico, do qual aqui transcrevemos algumas passagens, pelo interesse que tem neste retomar da discussão sobre a pertinência do Acordo Ortográfico, em grande medida desencadeado pelo poeta Vasco Graça Moura.
"Quando o Acordo Ortográfico foi assinado, em 1990, numa cerimónia no Palácio da Ajuda, o jornalista Francisco Bélard escreveu uma notícia com muita graça na qual utilizava um grande número de palavras que iriam mudar a ortografia.
A ideia era brilhante e o resultado expressivo: a notícia causava enorme estranheza, revelando-se mesmo de muito difícil leitura. Quem a lesse não precisava de mais nada para, naquele preciso momento, se tornar um adversário acérrimo do Acordo Ortográfico (...)
A onda era essa - e convenci-me de que o meu pai (autor de uma História da Literatura Portuguesa) também teria a mesma atitude (...) Foi, pois, com a maior surpresa que (...) o ouvi dizer:
- A oposição ao Acordo Ortográfico é um enorme disparate. O nosso grande património é termos uma língua comum com o Brasil, com Angola, com Moçambique... Tudo o que pudermos fazer para aproximarmos a grafia uns dos outros é decisivo para nós. Perante isso, não tem qualquer interesse discutir chinesices, como a escrita desta e daquela palavra.Esta posição, assumida com a maior convicção, mudou o meu modo de olhar para o Acordo (...).
É óbvio que não entrarei em discussões técnicas com Vasco Graça Moura ou qualquer outro especialista. Eles saberão certamente muito mais do que eu. Só que a questão essencial não é essa.
O essencial não é discutir o resultado - é admitir que são úteis todos os esforços que se façam no sentido de os países onde a língua oficial é o português aproximarem as grafias. E são especialmente importantes para nós, portugueses. Portugal tem 10 milhões de habitantes - mas o Brasil tem 200 milhões. Só por arrogância ou por capricho se pode defender que devemos ficar ad aeternum agarrados às nossas regras. O nosso papel deverá ser mesmo o oposto: levar os países que ainda não adoptaram o Acordo, a fazê-lo rapidamente.
O que vale aqui é o princípio. É termos permanentemente na cabeça a ideia de que todos ganham se em Portugal, no Brasil, em Angola, em Moçambique, em São Tomé, em Cabo Verde, na Guiné e em Timor se escrever do mesmo modo.
Alegar razões de 'consciência' para rejeitar o Acordo é simplesmente ridículo: a ortografia não envolve princípios nem valores (...). A escrita é uma convenção - e mexe essencialmente com o hábito. Por isso a resistência à mudança é sobretudo um problema de conservadorismo (...)
A verdade é que, quando falamos em defender a 'língua de Camões', esquecemo-nos de que o poeta assinava Luiz de Camoens."
José António Saraiva

8 comentários:

  1. A Helena Damião permitir-me-á que discorde de si quanto à sua ideia de que a ortografia mexe essencialmente com o hábito. Há muitas mais questões envolvidas. O hábito é uma delas, é certo, e não totalmente desprovido de importância, mas é apenas uma. Não podemos desvalorizar o facto de a ortografia ser também um fio de condução entre o passado e o presente dos homens e das palavras, por exemplo.
    Depois, creio qua a maioria das pessoas trata o assunto do AO de forma algo leviana, abordando-o apenas pela rama, e esquecendo que é assunto que merece uma atenção mais aprofundada.
    Duas tomadas de posição:
    1) Qualquer pessoa de bom senso é favorável a um Acordo Ortográfico. Há muito que as fronteiras da nossa língua transcenderam a nossa territorialidade europeia e norte-atlântica, e a razão da sua (subaproveitada, refira-se) importância a nível mundial tem precisamente a ver com esta disseminação e multi-territorialidade.
    2) Qualquer pessoa de bom senso é contra ESTE Acordo Ortográfico. Razões científicas há mais que muitas (não une a ortografia, introduz homofonias desnecessárias, etc.), mas uma se sobrepõe a todas: não faz sentido que se dê primazia à fonética sobre a grafia, principalmente quando nos referimos a uma ocupação territorial e cultural tão diversa. As pronúncias são diferentes, e essa adaptação da grafia à fonética acaba por reflectir a pronúncia de um eixo bastante restrito (neste caso, o eixo Lisboa/São Paulo), acabando essa grafia por condicionar as demais (inúmeras) pronúncias do espaço lusófono.
    Um acordo de base etimológica tem a vantagem de, permitindo que cada um mantenha a sua pronúncia própria, consagrar a inteligibilidade da expressão ortográfica. E esta nem é uma prática incomum ou inovadora: as línguas inglesa, francesa ou alemã, por exemplo, fazem uso dela.

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  2. José Batista da Ascenção19 de fevereiro de 2012 às 19:56

    Por dever de obediência profissional

    comecei a escrever segundo o "acordo

    (de quem com quem?...) ortográfico",

    e quanto mais o uso mais me desagrada.

    Tal como está não lhe vejo vantagens.

    Especialmente para africanos, timorenses ou

    portugueses. E mesmo para os brasileiros.

    De tal forma que acabo de preencher o impresso

    de contestação para que seja revogado. Conto

    enviá-lo pelo correio amanhã.

    Concordo com a opinião de Tiago de Brito Penedo.

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  3. Realmente não entendo a necessidade de tal acordo e de tal aproximação das grafias de todos os países de língua oficial portuguesa.

    O inglês, que é a língua que é, tem grafias diferentes nos EUA e Inglaterra e não sei se também na Austrália. Nunca os vi preocupados com qualquer acordo.

    Para além disso, lembro-me muitíssimo bem de um artigo de António José Saraiva a defender esta ideia que o filho retoma aqui. E um dos argumentos, dada a ignorância AJS desta língua, era a superioridade do inglês por se escrever da mesma maneira em todo o lado.

    Não tardou muito que Miguel Esteves Cardoso, na época um acérrimo lutador contra o Acordo mas que agora parece se ter esquecido, o zurzisse e escrevesse um longo artigo com todas as diferenças do inglês de Inglaterra e EUA.

    Há contudo aqui algo que ainda ninguém aflorou: não sei até que ponto esta coisa do AO não é também uma guerrinha entre universidades, nomeadamente entre Faculdade de Letras de Lisboa e a de Coimbra. Relembro que nos anos 90 uma boa parte das personalidades que estavam contra o acordo eram discípulos do Prof. Rebelo Gonçalves (da FLUL) que tantos anticorpos tinha em Coimbra.

    Em relação a este último ponto, estou apenas a especular sobre as minhas memórias da polémica nos anos 90, nada mais. Não sei se corresponde à realidade.

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  4. António José Saraiva tinha razão. Esqueceu-se foi de dizer ao filho que o acordo já fora feito. Em 45, com a «chinesice» de o Brasil ter feito «o enorme disparate» de se lhe opor.
    Eis a lição do pai.

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  5. É preciso ter bem claro o contexto revolucionário em que isto surge, ouçam uma opinião bem esclarecida, o filósofo Olavo de Carvalho:
    Entropia no Português do Brasil

    Nova Reforma Ortográfica

    A estratégia de dissolução das soberanias nacionais

    Muito mais pode ser encontrado neste filósofo no You Tube.

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  6. Perdão, o (des)acordo começou em 1911 quando a República Portuguesa decidiu legislar como se a escrita da língua portuguesa fosse uma prerrogativa do Estado Português e os outros mais cem milhões de falantes do português da altura apenas tivessem de "nos" seguir. Até aí discutia-se a "ortographia" (como acontece em outros países), mas ainda não havia Estado a dizer que "orgúlho" ou "syntáxe" não tinham de ter acento gráfico, mas que "synthese" tinha de ter; ou a dizer que não se podia escrever "chimica", "chiméra", "chlorêto", "chlorydrato", "chlorophylla", "collarinho", "collégio", "collecção", "communicar", "communísta", "phantásma", "pharmácia", "pharyngite", "rhapsódia" "rhetórica", etc. (Fonte: Novo Diccionário Portuguez: Linguistico, scientifico, bibliopgraphico, historico, geographico, biographico, mythologico, etc., compilado por Francisco de Almeida. Lisboa, 1891.) A reforma estatal foi só há cem anos; a língua portuguesa fala-se há cerca de mil, embora andasse pelo menos uns dois ou três séculos sem ser escrita, e cinco sem "gramáticas")

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