sábado, 28 de janeiro de 2012

“In memoriam” de Aristides de Sousa Mendes


Ontem, “Dia do Holocausto”, uma efeméride a não esquecer pelo mundo civilizado e, como tal, para ficar gravada na memória da actual e vindouras gerações de Portugueses, em herança de uma história trágica sobre a bestialidade nazi, foi publicado no Público um artigo de opinião de Maria do Carmo Vieira, uma distinta professora do ensino secundário, autora de extensa e valiosa obra publicada por uma estrénua e corajosa lutadora para que o ensino da Língua Pátria não deslustre páginas deobras de autores com Camões, Eça, Pessoa, e tantos outros, que, não poucas vezes, têm, com revolta sua, minha boa Amiga, caído no limbo dos programas escolares.

Transcrevendo o referido artigo e o respectivo título, associo-me, com muito gosto, a esta sua causa em reabilitação do nome de Aristides de Sousa Mendes e da reconstrução da Casa do Passal, onde este cônsul nacional viveu os últimos anos de uma vida amargurada e de extrema carência económica de uma numerosa e sacrificada família:

«É preciso salvar a Casa do Passal

“Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível”. (Aristides de Sousa Mendes)

Hoje em dia, providencia-se o culto do esquecimento e o que não pode deixar de ser lembrado despacha-se, muitas vezes, com um discurso evocativo, adequado à efeméride, em que o elogio superlativo abunda, no desfile rápido de palavras, concluindo-se o festejo com a encenação de uma «romaria» ao lugar de memória, caso exista.

De inúmeras promessas vãs e de muitos discursos se tem alimentado a decadência da "Casa do Passal" de Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato, e o certo é que os anos vão passando,o tempo vai esculpindo a destruição, perante o olhar de todos, e continuamos, de certo modo passivos,a ouvir falar e elogiar, e um dia destes a casa ruirá e lamentaremos o sucedido, acusando-nos mutuamente.

Já houve quem viesse de longe, consternado pelo abandono desta Casa, cuja história atravessando fronteiras se tornou pertença de toda a Humanidade, e se entregasse generosamente ao trabalho de limpeza e de reparação do telhado, tendo interrompido provisoriamente o evoluir da degradação do Passal. Aconteceu em 2004, com João Crisóstomo (emigrante nos EUA) e António Rodrigues, os quais,juntamente com outras pessoas, empresas locais e o Centro Social Prof.ª Elisa Barros Silva, testemunharam, como escreveu João Crisóstomo,«a cena dantesca e apavorante de barrotes ameaçadores, dependurados do telhado ao rés-do-chão, de camadas de terra, de telhas partidas, caliça, pedras,tijolos e dejectos de animais cobrindo o chão, onde se encontravam dispersas várias cartas, umas de Aristides de Sousa Mendes dirigidas a sua esposa Angelina, outras escritas entre os próprios filhos, a par de outros documentos que, neste caos de imundície, foram salvos e entregues ao Dr. Luís Fidalgo», que presidia ao Centro acima referido, e que posteriormente entregou essa documentação à Fundação Aristides de Sousa Mendes
.
Num gesto também solidário com esta causa, o GECoRPA-Grémiodo Património promoveu e custeou «a realização e aprovação dos projectos das intervenções urgentes – cobertura provisória e trabalhos de consolidação provisória – necessários para evitar a derrocada do edifício». E foi ainda o seu presidente, Eng. Vítor Cóias que, numa imagem assaz sugestiva, me referiu há dias que a Casa do Passal é como alguém que se encontra gravemente doente e cuja cura exige uma primeira intervenção que estabilize minimamente o organismo. Nesse sentido, considera de uma irresponsabilidade imperdoável o «protelar das obras provisórias, urgentemente necessárias», acrescentando ainda que «o custod os trabalhos é da ordem dos 150 mil euros, verba pouco relevante quando comparada com o custo da intervenção definitiva, que orçará em cerca de 2 a 3milhões de euros». Com efeito, «uma intervenção definitiva é precedida por um conjunto de fases, a começar pela selecção de uma equipa tecnicamente competente para lançar e dirigir o processo, a definição de uma estratégia de valorização do monumento, a escolha de uma utilização financeiramente sustentável, a selecção de uma equipa projectista, envolvendo depois a elaboração de um projecto geral, a elaboração de projectos de especialidades, a mobilização dos necessários recursos financeiros, o lançamento do concurso, a selecção da empresa executante. Tudo isto consome tempo, um ou dois anos, o que não é compatível com o estado de derrocada iminente do edifício».É também certo que só com um trabalho de qualidade, tanto mais que se trata de um Património Nacional, conseguiremos juntar as verbas suficientes, essencialmente vindas do estrangeiro.

A bo anotícia que agora podemos divulgar começa assim: "A Sousa Mendes Foundation (SMF) está pronta a disponibilizar meios para participar financeiramente em parceria com a Fundação Aristides de Sousa Mendes, proprietária da Casa do Passal, e com a Câmara Municipal de Carregal do Sal, na restauração da antiga casa que não só albergou a família Sousa Mendes como alojou refugiados que procuravam a sua liberdade. O conselho de administração da SMF é composto por netos de Aristides de Sousa Mendes, refugiados, filhos e netos de refugiados salvos pelo Cônsul e por apoiantes da causa, que, unidos, acreditam que acções valem mais que palavras.

Os Estados Unidos estão ligados à história de Aristides de Sousa Mendes: foi Cônsul Geral de Portugal em San Francisco, Califórnia, entre 1921 e 1924; os seus nono e décimo filhos, Carlos e Sebastião, lá nasceram e depois vieram a alistar-se no exército norte-americano durante a II Guerra Mundial; sem apoio em Portugal, para lá emigraram os seus filhos Carlos, Sebastião, Joana, Teresinha, José, e João Paulo. Foi também através das acções dos seus filhos e outros apoiantes residentes nos EUA que o Cônsul injustiçado foi reconhecido pelo Estado de Israel em 1966 como 'Justo entre as Nações' e finalmente pelas entidades portuguesas em 1987. Uma grande parte dos refugiados salvos pelo Cônsul português emigraram para os EUA e muitos só agora estão a ter conhecimento do homem que lhes salvou a vida. Recentemente, a SMF lançou um projecto da criação de uma base de dados para identificar os detentores de vistos atribuídos por Sousa Mendes." (Miguel Valle Ávila, Presidente da SMF).

A 5 de Novembro de 2011, publicou este jornal o texto «Em defesa da Casa do Passal», subscrito por um grupo significativo de pessoas, a que se juntaram posteriormente os nomes de Anselmo Borges, José Gil, Hélia Correia, Esther Mucznik e João Mário Mascarenhas. Agora que somos testemunhas de que o Major Álvaro de Sousa Mendes,presidente da Sociedade Anónima que detém a Casa do Passal e que é pertença da Fundação ASM, autoriza o início das obras, a que se junta a Câmara Municipal de Carregal do Sal, cujo Presidente e Vice-Presidente têm vindo a defender esta causa, e que a verba necessária está garantida, não se criem mais razões para adiar as obras preparatórias dos trabalhos de recuperação, que impedirão a Casa de ruir.

Se o cônsul Aristides de Sousa Mendes tivesse adiado a sua consciência não teria sido punido nem humilhado, a sua família não teria sido obrigada a dispersar-se, ter-se-ia interrompido a vida de milhares de pessoas que receberam o seu visto, e cujos descendentes estão entre nós, e eu não teria escrito este texto».

Maria do Carmo Vieira

Na fotografia: Ruínas da Casa do Passal.

6 comentários:

  1. A casa do Passal devia ser
    para o povo judaico um santuário
    mantido a expensas do seu próprio erário,
    mais não fazendo do que o seu dever!

    JCN

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  2. Caro Professor: Por vezes, as coisas mais simples escapam-nos. E as mais justas, também.

    Embora correndo o risco de falar sem procuração (sujeitando-me ,como tal, a ser havido como intrometido). julgo que a hipótese por si aventada caro Professor, colhe aceitação, mormente, entre Maria do Carmo Vieira e Esther Muczike, esta com colaboração extensa no "Público" em defesa da causa judaica.

    Embora sabendo que a recuperação da Casa do Passal se encontra em marcha, seria uma forma de acelerar essa recuperação, "in memorian" do cônsul Aristides de Sousa Mendes e conhecimento de gerações actuais e vindouras para que não caia no esquecimento que Portugal, como país não beligerante, contra ventos e marés do poder político da época do Estado Novo, talvez para não ser vítima da retaliação germânica, teve um papel de grande humanismo não seguido, terminada a II Guerra Mundial, pelos ingleses que tentaram impedir que barcos carregados de crianças, mulheres e homens demandassem Israel.

    Injustiça seria, todavia, esquecer o papel de Portugal como ponto de passagem de famílias judias que procuravam terras de acolhimento, tendo algumas delas ficado em nossas fronteiras, sendo recebidas com toda a simpatia e lhaneza de trato da gente lusitana.

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  3. Caro Dr. Rui Batista, em tempos escrevi e largamente circulou:

    ARISTIDES DE SOUSA MENDES

    Fechado o Consulado de Bordéus
    por ordem dimanada de Lisboa,
    o Dr. Sousa Mendes em pessoa
    chamou a si... a sorte dos judeus.

    Em mangas de camisa, na estação,
    sentado em secretária improvisada
    com um carimbo e tinta de almofada
    deixou falar a voz do coração!

    Arriscando o porvir e a própria vida,
    com o seu "Visto" em cada passaporte
    deu-lhes acesso à terra prometida.

    Que belo gesto! Que soberbo porte!
    Deus lhe conceda a paga merecida,
    pois trinta mil ou mais salvou da morte!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  4. Maria do Carmo Vieira30 de janeiro de 2012 às 20:48

    A Casa do Passal pretende ser, como sede da Fundação Aristides de Sousa Mendes, um local de afirmação dos Direitos do Homem e de Memória do acto de Sousa Mendes, o qual ao conceder os vistos que salvaram milhares de pessoas se absteve de perguntar a sua nacionalidade ou religião, atendendo exclusivamente à «aflição indescritível» que viviam. É ele próprio que na carta de 10 de Agosto de 1940, escrita em sua defesa,e dirigida ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, explicita que entre os fugitivos se encontravam «austríacos, checos e polacos», «numerosos belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses e até ingleses», sendo «muitos deles judeus». Todos queriam escapar aos «campos de concentração alemães» e era seu «objectivo salvar toda a gente».
    Quanto ao custo das obras e da manutenção da Casa do Passal, as verbas provirão (independentemente da nacionalidade)de todos os que admiram Aristides de Sousa Mendes e partilham dos seus ideais humanistas, infelizmente muito esquecidos nos tempos difíceis que vivemos.

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  5. Cara Senhora: não desvirtuemos a realidade! Todas essas pessoas de vária nacionalidade (austríacos, checos, polacos, belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses e até ingleses ou mesmo alemães) corriam o risco de malhar com os ossos nos campos de concentração simplesmente por serem... judeus (circuncidados). Tena presente que, nessa altura, os eram apátridas: tinham a nacionalidade do estado em cujo território residiam. Acaso não seria Salazar um judeu... português?! Respeitosamente JCN

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  6. Corrijo: "os judeus eram apátridas", em vez de "os eram apátridas". Igualmente corrijo a gralha "tena" por "tenha". Distracções! JCN

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