domingo, 27 de Janeiro de 2008

Viver eticamente sem Deus

Richard Norman, professor de Filosofia na Universidade de Kent, autor do livro On Humanism, e membro da Associação Humanista Britânica, é entrevistado por David Edmons e Nigel Warburton e responde a perguntas como "Será possível viver uma vida ética sem religião?" e "O que é o humanismo?" A entrevista é em áudio e em inglês. Aqui.

5 comentários:

  1. 1. A entrevista do Prof. Richard Norman é muito interessante e exprime de forma sintética alguns aspectos da atitude dos Humanistas para com a religião em geral. Gostaria de exprimir a minha discordância em relação a algumas ideias expressas e também a minha concordância em relação a outras.

    2. Em primeiro lugar, estou de acordo em que qualquer pessoa pode viver uma vida moralmente recta apenas com base na razão humana. Os valores éticos estão profundamente enraizados na natureza humana, afirma o Prof. Norman. Estou completamente de acordo. Mas ele crê que quem tem uma religião tem que obedecer aos preceitos morais com ela relacionados não porque estão de acordo com a razão, mas porque foram impostos por alguma divindade. Tal, porém, não está de acordo com os factos. Não é difícil encontrar pessoas que tendo umas uma fé religiosa, e outras uma atitude agnóstica ou ateia, se orientam pelos mesmos princípios éticos. Para ser concreto, basta pensar em questões relacionadas com o início e o fim da vida, também referidas na entrevista. Não é a religião que separa os grupos dos que se opõem ao aborto ou à eutanásia, por exemplo. É um facto. Isto mostra que o que está de acordo com a razão ou contra ela é uma questão complexa e que não se resolve sempre facilmente com o recurso à autoridade de uma divindade ou de um livro sagrado. Embora muitas pessoas pensem o contrário, os crentes não estão dispensados da tarefa de justificarem racionalmente a sua moralidade. Também é verdade que muitas pessoas desconhecem que foi sempre posição da Igreja Católica, por exemplo, a afirmação de que cada pessoa é responsável antes de mais perante a sua consciência. Ninguém pode ser obrigado a agir contra a sua consciência. Mas agir em consciência oferece as mesmas dificuldades da acção racional atrás referidas.

    3. O Prof. Norman considera que a crença numa divindade e nos valores éticos associados a uma religião pertence ao domínio do irracional. Esta posição deriva logicamente do pressuposto, já referido, de que para quem tem uma fé religiosa as normas éticas são impostas por obrigação e não pela razão. Mas eu não estou de acordo com este pressuposto. Se estivesse, já há muito tempo teria abandonado a minha fé.

    4. Tem a existência humana uma finalidade? È possível viver eternamente? Não terão os Humanistas pouco a oferecer nestes aspectos, perguntaram ao Prof. Norman.. Ele respondeu que prefere empenhar-se seriamente nesta vida sentindo-se plenamente responsável por ela, do que aceitar que estamos neste mundo para servir os interesses de algum ser superior. Colocada a questão desta forma, parece que o único modo de pensar a relação dos seres humanos com Deus é a de a entender como uma submissão cega a um desígnio que a divindade lhe impõe sem que se saiba muito bem porquê. A minha compreensão pessoal da relação que tenho com Deus não é esta. Se assim fosse, já há muito que teria deixado de acreditar. A relação de Deus com a Humanidade só vale a pena se ela permitir que cada ser humano se desenvolva plenamente e tenha a possibilidade de realizar as suas mais profundas aspirações, entre as quais está a da eternidade. Isto não dispensa de forma nenhuma os crentes de se empenharem plena e responsavelmente nesta vida, só porque crêem que terão outra. A responsabilidade dos crentes nesta vida deverá ser pelo menos a mesma dos não crentes. Pensar o contrário é apresentar uma caricatura da religião, pelo menos do cristianismo.

    5. Finalmente, gostei de ouvir o Prof. Norman afirmar que não coloca do mesmo lado as pessoas que em nome de uma religião se fazem explodir matando outras pessoas, as que sustentam teses contra a ciência, e as que, em nome da sua fé, vivem uma vida de rectidão moral e de dedicação aos outros. Creio que esta distinção é fundamental se se pretende conduzir algum iálogo, e até mesmo algum entendimento e colaboração recíprocos, entre crentes e não crentes. O Prof. Norman reconhece que as tradições religiosas e as pessoas religiosas têm valores que não contradizem o Humanismo, antes pelo contrário, estão na mesma linha. Com esta posição faz sentido o diálogo entre crentes e ateus ou agnósticos. Aliás, na mesma linha se pronunciou E. Wilson no seu recente livro A Criação, no qual afirma que crentes e não crentes devem colaborar para a defesa do planeta. Implicitamente, o Prof. Norman distanciou-se da posição extremista de autores como Richard Dawkins.

    6. Agradeço a quem colocou o post no De Rerum Natura e que me proporcionou assim a possibilidade de ouvir esta entrevista. Embora discorde de muito do que nela se diz, considero-a uma lufada de ar fresco neste blog.

    Muito obrigado.

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  2. Tanto crentes como não crentes podem viver uma vida ética.

    Tanto crentes como não crentes podem errar em grande.

    Não sei qual é a novidade disto.

    Mesmo os defensores do direito natural sempre sustentaram a existência de princípios normativos racionais comuns a todos os povos, independentemente da cultura ou da religião.

    Todos os dias vemos pessoas sem fé a portarem-se melhor do que as pessoas que têm fé.

    No entanto, todos sabemos que ninguém é perfeito.

    Ninguém pode dizer que nunca errou de alguma forma, por pensamento, palavra, acção ou omissão.

    Por outro lado, a Bíblia nunca escondeu as imperfeições dos mais crentes.

    Vejamos o Velho Testamento

    Adão e Eva, com o paraíso a seus pés, ouviram mais a criatura do que o Criador.

    Caim matou Abel.

    Noé, pouco depois do dilúvio, é visto embriagado e nu pelo seu filho Can, que o desrespeitou.

    Abraão é apresentado como tendo mentido duas vezes acerca da sua mulher Sara apenas para salvar a pele, além de ter tido relações sexuais com a sua escrava Agar para ter um herdeiro.

    Jacó é apresentado como tendo enganado o seu irmão Isaú e o seu pai Isaque para obter a benção da primogenitura.

    Os filhos de Jacob, dos quais vêm as tribos de Israel, portaram-se indecentemente com José, um dos filhos de Raquel.

    David é apresentado como tendo adulterado e matado o marido da mulher com quem adulterou.

    Absalão, o filho de David, é apresentado como tendo tentado destronar o pai e mantido relações sexuais publicamente com as suas concubinas, para humilhar David.

    Salomão, outro filho de David, é apresentado como tendo corrompido a religião judaica através do seus múltiplos casamentos com mulheres estrangeiras.

    E no Novo Testamento?

    Os apóstolos são repreendidos por disputarem entre si a primazia.

    Pedro é apresentado como tendo negado Jesus três vezes.

    Paulo é apresentado como cúmplice na morte de Estevão.

    Pedro e Paulo são apresentados como tendo severas discussões em matéria de teologia.

    A igreja de Corinto é censurada por Paulo por causa da sua imoralidade.

    etc, etc.

    A Bíblia não é um livro de propaganda. Ela é um livro de Verdade.

    A Bíblia não está interessada em propaganda acerca do povo judeu, do cristianismo, ou dos "herois da fé".

    O único Santo no Velho Testamento é Deus.

    O único santo no Novo Testamento é Jesus Cristo.

    Quanto a nós, crentes e não crentes, a Bíblia é clara: todos somos pecadores e separados da glória de Deus.

    Mas a dádiva gratuíta de Deus é a salvação por Jesus Cristo nosso Senhor.

    Através da sua morte Jesus Cristo, Deus connosco, pagou para sempre o preço dos nossos pecados.

    Através da sua ressurreição, Ele garante-nos vida eterna, esperança eterna e amor eterno.

    Jesus Cristo, Deus encarnado, pode nos dar tudo o que necessitamos (v.g. vida, dignidade, valor, amor, perdão, esperança) para toda a eternidade.

    Quem rejeita Jesus Cristo diz adeus a tudo isso.

    Apesar de tudo, sem Deus não existe um padrão objectivo e vinculativo de moralidade.

    Como dizia Fyodor Dostoiewsky,

    "se Deus não existe, tudo é permitido".

    Que assim é, tem sido aceite por muitos crentes e muitos ateus, entre os quais Sartre, Camus, Russell, Dawkins, etc.

    Se a moralidade evoluiu aleatoriamente, que moralidade é essa?

    O que é que ela tem de inerentemente vinculativo?

    Porque é que ela nos vincula?

    Que obediência deve um acidente cósmico a outro acidente cósmico?

    Existe efectivamente um padrão objectivo e vinculativo de moralidade, definido por um Deus 100% justo e 100% amoroso.

    Jesus levou sobre si 100% da justiça de Deus, para nós podermos beneficiar em 100% do amor de Deus.

    A boa notícia da Bíblia não é que os crentes não pecam. É que o amor de Deus é muito maior do que os nossos pecados.

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  3. Há muitas pessoas sem religião que batem aos pontos e por K.O. a maioría dos crentes. O Bem independe frequentemente das crenças de cada um. É o valor de cada um que conta, e não o "emblema" que ostente.
    Não é caso dos ateus que fanaticamente passam a vida a violentar as crenças alheias. Como o não é dos fanáticos religiosos que se deliciam a imaginar os não crentes no espeto eterno.

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  4. Muito bom ver esse tipo de discussao.
    você já conhece www.semreligiao.com.br ?

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  5. Acho que viver apenas da ética natural, é muito pouco conhecimento para a vasta amplitude do mundo. Para mim, por enquanto, crer em Deus e viver sem religião(teoria) é como crer sem saber se vai errar, sendo a religião a "regra" ética de deus, seja o deus da religião ou do bigbang.

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