sexta-feira, 26 de julho de 2019

"A Religião dos Fracos"



Início do livro "A Religião dos Fracos", de Jean Birbaum, que acaba de sair na Gradiva


«O crente é o espelho do crente»

Uma vez que os dominantes precisam de ter a última palavra, os guerreiros da jihad não descuram as conclusões. No final das proclamações que fazem, introduzem aquilo a que os manuais de retórica chamam «cláusula», isto é, uma fórmula explosiva que conclui o discurso impressionando o auditório. Neste caso, o procedimento é tanto mais poderoso porque o orador pronuncia as suas derradeiras palavras: os mais célebres vídeos jihadistas exibem um homem que morre depois de ter matado. Aqueles que acaba de eliminar não eram dignos de existir, e ele próprio se prepara para conhecer o sacrifício absoluto. Desde logo, matar outro e matar‑se a si abre‑lhe o caminho de uma sobrevida, ou seja, uma vida mais elevada, mais real, mais intensa. Perante a câmara, o soldado do Califado reivindica o gesto. Está convencido de que as palavras que utiliza serão as palavras do fim: fim dos infiéis, fim da perversão, fim da História. E este fim coincide com um início radical, o advento do Reino divino.

Uma destas fórmulas definitivas marcou‑me particularmente. Uma simples frase pronunciada por Larossi Abballa, um jovem que apunhalou um casal de polícias, Jean‑Baptiste Salvaing e Jessica Schneider, em Magnanville, nos arredores de Paris, em 13 de Junho de 2016. O vídeo que Larossi Abballa publicou no Facebook imediatamente a seguir ao duplo assassínio foi gravado em casa das vítimas. Dura cerca de dez minutos. Junto dele, o cadáver de Jessica Schneider, mas também o filho dos dois polícias, com três anos. O assassino vira a câmara para a criança e indica: «Ainda não sei o que vou fazer com ele.» Trata‑se de um dos raros instantes de improviso da sequência. Quanto ao resto, Abballa lê um texto escrito previamente. Antes de chegarmos à cláusula da sua proclamação, é
preciso descrever o movimento de conjunto.

De cabeça rapada e longa barba, Larossi Abballa começa porfazer uma oração ritual, em árabe. Jura fidelidade ao Estado Islâmico e diz: «As minhas primeiras palavras são para a comunidade
muçulmana, para a Oumma al‑islamiya: que se passou contigo? Como chegaste a este ponto? Que castigo se abateu sobre ti? Antes, governavas o mundo; agora, vês‑te governada! Aplicavas as
leis de Alá na terra, e hoje aplicam‑te as leis do Taghout [o poder ilegítimo, que corresponde ao homem desnaturado]! Desviaste‑te do caminho de Alá e do seu profeta. Por isso, o castigo de Alá
abateu‑se sobre a tua nuca.» O conjunto deste palavrório desenvolve a mesma ideia, bastante vivaz no discurso jihadista: os muçulmanos dominavam, agora já não dominam. Se conheceram a decadência — afirma Larossi Abballa, entre tantos outros —, a razão é simples: desviaram‑se do combate ao serviço de Alá. Quem abandonar a jihad condena‑se ao aviltamento: entre o domínio e a humilhação, não há meio‑termo. Dirijo‑me aos muçulmanos de França, aqueles que Alá privilegiou ao conceder‑lhes a compreensão adequada dos textos: ataquem os infiéis como preferirem! Façam
tremer as almas deles e toda a França! Façam que Alá devolva a supremacia à sua religião.»

Restabelecer o islão na sua posição hegemónica, é esta a urgência, um objectivo para o qual é justo e bom sacrificar‑se. De repente, Larossi Abballa mostra um sorriso caloroso e uns olhos húmidos quando declara em tom fraternal: «Basta que nos lancemos, que morramos, e ver‑nos‑emos
no paraíso! [...] E, nesse momento, desaparecerão as preocupações, os problemas; restará apenas um prazer infinito.» No entanto, o semblante de Abballa não tarda a endurecer, para exortar os «irmãos» a assassinarem guardas prisionais, representantes eleitos da República, jornalistas e rappers, cujos nomes fornece numa lista. Pouco depois de ter fechado este parêntesis operacional, o jovem chega à conclusão. É o momento da cláusula para que convergia o conjunto da declaração. «Gostaria de concluir com estas palavras: o crente é o espelho do crente.»

Esta formulação foi retirada de um hádice, das palavras atribuídas ao profeta Maomé. Na tradição islâmica, foi objecto de abundantes comentários, os quais frequentemente a interpretaram como forma de sublinhar a responsabilidade e a sinceridade do muçulmano para com os outros muçulmanos: cada qual deve servir de espelho aos outros, devolver o reflexo tanto das suas qualidades quanto dos seus defeitos, tanto da sua fidelidade quanto da sua errância. No caso em apreço, esta formulação pode ser entendida de outra forma. Pronunciada por um jihadista que acaba de massacrar dois «infiéis» à frente do filho destes, dirigida aos franceses e à Europa como um gesto de desafio, ela poderia significar: «Vocês, que nunca levam as nossas palavras a sério, revejam‑se no meu discurso, pois a minha crença é o espelho das vossas crenças. Europeu, vê‑te em mim. Contempla a minha fé e vê aquilo em que acreditas.»

Este efeito de espelho era já central no meu livro anterior. Com Un silence religieux1, pretendi mostrar como a fé dos jihadistas nos revela — a nós, europeus secularizados — a nossa certeza de que a crença religiosa não é nada. Ou, então, nada de real, quando muito um ornamento que oculta as coisas sérias (políticas, económicas, sociais...), um arcaísmo destinado a ser dissipado pelo progresso. Mas o essencial, naquela altura, era quebrar o silêncio, o nosso silêncio exaltado quanto à religião, para finalmente ouvirmos o que diziam os jihadistas. Levar a sério o seu fervor sem o limitar a algo que não fosse ele próprio, apreender a visão do mundo que os move, sem continuar a fazer deles simples casos sociais ou lunáticos: tratava‑se de compreender o seu ímpeto, a imensa sedução que exercem por todo o mundo, o seu poder de atracção.

Nós, apesar de tudo?

Agora, a tarefa é outra. É preciso voltar o espelho e segurá‑lo com firmeza. Enfrentá‑lo, definitivamente. Contemplar a imagem maior que nos devolve, visto que exibe um nós, apesar de tudo. Nós, precisamente, que somos tão reticentes a dizer «nós», porque traçar um «nós» implica obrigatoriamente delimitar uma fronteira com «eles», sob pena de excluir, de discriminar. No entanto, o jihadista solicita‑nos. «Amamos a morte como vocês amam a vida», repete ele de geração em geração, de Osama bin Laden a Mohamed Merah. Ao dizer «vocês», ele arpoa um «nós» ao nosso corpo defensivo. Um «nós» de todas as origens e de todas as sensibilidades, que é preciso evitar enclausurar em limites arbitrários, mas cujos contornos é urgente deixar emergir formulando a pergunta: «O que preza este ‘nós’? Que prezamos nós?»

O presente ensaio gostaria de contribuir com alguns elementos de resposta. Para isso, por vezes teremos de ser drásticos. Quando assume como objectivo penetrar camadas e mais camadas de não‑ditos, a pluma vê‑se obrigada a ser firme. Capítulo após capítulo, estrato após estrato, ela atravessará episódios diversos, logo, implicações múltiplas (sociais, políticas, religiosas, culturais, sexuais...), de modo a descobrir a crença que o jihadismo nos obriga a olhar de frente. Esta crença, como veremos, coincide em parte com um conjunto de convicções tradicionalmente associadas àquilo que se chama «a esquerda». Porém, dado que em França, e frequentemente noutros países europeus, a esquerda gozou por muito tempo de uma «superioridade de prestígio», para usar a expressão de Raymond Aron, analisar estas evidências comuns equivale a explorar um espaçode doutrina que as extravasa largamente.

Conheço bem tal crença. Nasci no seio dela. Como foi já o caso no meu livro anterior, não julgarei a partir do exterior as certezas que gostaria de explorar aqui. São as minhas certezas, recebi‑as
como herança e por muito tempo aderi a elas sem reservas. Será o efeito da idade ou o calor dos acontecimentos? Seja como for, comecei a duvidar. Depois, após discussões entre amigos e debates públicos, percebi que não era o único. Concluí que chegara o momento de falar disso e, portanto, de questionar: que crença é esta que nos desarma? Dado que faz coincidir um estado de vulnerabilidade e um sentimento de omnipotência, chamar‑lhe‑ei Religião dos Fracos."

(...)

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