terça-feira, 23 de junho de 2015

EDUCAÇÃO, O "REGRESSO" DO QUE NUNCA SAIU DE LÁ

Artigo de Guilherme Valente no último Expresso (texto integral)

"Sou um homem com sorte. Quando cometo algum erro, há sempre alguém que mo aponta", Confúcio

«É de pequenino que se torce o destino», Carlos Fiolhais

O Secretário-Geral do PS admite acabar com os exames nacionais para os alunos mais novos. Embora o programa eleitoral não seja claro sobre isso – haja alguma esperança, portanto -, afirmou na TSF que «não é uma boa solução a antecipação de exames para idades tão precoces» e que as retenções «têm um custo enorme». «Tal como um raio x não cura um doente, também um exame não faz a aprendizagem dos alunos», disse.

António Costa não tem razão. Os exames fazem aprender. E fazem ensinar, que é, aliás, o que aqueles que mandaram na educação durante 40 anos não querem que aconteça na escola. Como bem viu uma grande figura do PS, Sottomayor Cardia.

E a metáfora que AC usou não faz sentido, porque os raios X salvam mesmo muitas vidas, são decisivos para a descoberta da doença, cada vez mais determinantes para a cura, portanto.

Quanto ao "custo enorme dos exames", não é custo nenhum. É um investimento. Custo enorme é o que o País anda a pagar desde há anos por não ter havido exames a sério. Muito particularmente logo no final do primeiro ciclo. Abandono escolar subsequente, alunos que se arrastam sem completar o Secundário, percentagem dramática dos que não entram e desistem no Superior. Apesar do facilitismo que também aí tem crescido. Ou seja, ignorância, iletrismo, alheamento cívico, desqualificação profissional. Que AC, seguramente, não quer que continuem a verificar-se.

O exame no final do primeiro ciclo não é nada precoce. É pedagógica e cognitivamente essencial. Um sinal a dizer aos miúdos ao que vêm. AC também o realizou e parece não lhe ter feito mal. E sem tomar calmantes, porque teve os pais que teve.

Os exames são um treino de empenho e responsabilidade. Que entre nós até deve ser realizado com maior frequência. Um desafio motivador, aceite pelas crianças com naturalidade e gosto. Desde que os "cientistas" da educação, o ministério, a escola e os paisinhos não lhes cultivem a preguiça, a irresponsabilidade e a insegurança.

Os avanços mais recentes das ciências cognitivas mostram que uma exigência suficientemente forte no início do percurso escolar é benéfica para a criança. A aquisição precoce de certos automatismos, no português como na matemática, permite libertar o cérebro para outras aprendizagens, sublinha um reputado especialista de ciências cognitivas, Stanislas Dehaene. E é antes dos dois primeiros anos do Básico que podem e devem ser adquiridos.

São idades em que se manifesta um grande gosto e uma surpreendente facilidade em aprender.

Pois se até o nosso border collie pede que lhe ensinemos coisas e manifesta satisfação quando aprende...

AC deve, pois, ouvir os investigadores das ciências cognitivas. Não deve seguir a indigente ignorância e a pura insensatez que lhe servem os "cientistas" da educação.

Mas ainda este ministro não foi para casa - triste por não ter aproveitado tão bem como devia a oportunidade que lhe caiu do céu - e já parece vislumbrar-se a anulação das medidas que na direcção certa conseguiu concretizar. Nalguns casos tímidas e tardias, dói-me ter de o reconhecer, mas, mesmo assim, persistentes, e no caso dos exames logo com resultados à vista.

Parece, pois, configurar-se o regresso do pedagogismo, com um poder de novo sem freio. Em detrimento da prioridade do saber e da transmissão, que Nuno Crato teve o mérito de ser o primeiro governante a querer assumidamente praticar. Regresso das ideias velhas que durante mais de trinta anos promoveram a ignorância e a indisciplina, inviabilizando a escola, infantilizando os alunos e desvalorizando os professores, anulando a sua tarefa inestimável.

Regresso? Os ministros vão passando, mas os oráculos obscurantistas da "educação" continuam a ser os mesmos, o seu domínio manteve-se. Um jugo que o País irá pagar sempre mais caro.

Guilherme Valente

7 comentários:

  1. Meu Caro Dr. Guilherme Valente: Subscrevo inteiramente a sua análise. Para facilitismo já basta a "licenciatura" de Miguel Relvas que, pelo vito, se encontra em banho-maria à espera de uma ocasião para ser sancionada (reconhedida) depois de ter sido sancionada (sofrido sanções) pelo Ministro Nuno Crato.

    Razão assistiu ao falecido e notável catedrático de Coimbra, Aníbal Pinto de Castro, quando em cerimónia pública alertou os seus pares: "Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados" ("Diário de Coimbra", 27/11/2005). Longe estaria ele, ao que penso, em advir o que se viria passar com certas universidades privadas.

    Bem haja, prezado Dr. Guilherme Valente, pela sua luta sem quartel contra um ensino de descarado facilitismo.

    Cumprimentos amigos.

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    1. Errata: Na 2.ª linha do 1º §, onde escrevi "pelo vito", corrijo para "pelo visto".

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  2. Inacreditável artigo...
    Costa diz (com TODA a razão) que «as *retenções* têm um custo enorme». O que escreve Guilherme Valente? «Quanto ao custo enorme dos *exames*, não é custo nenhum». UAU! Este homem é um génio! Consegue distorcer o que Costa diz para fazer valer o seu ponto de vista sobre uma outra coisa que NÃO É O QUE SE ESTAVA A FALAR!
    «Os exames fazem aprender»? Errado: os exames fazem decorar - não é a mesma coisa, nem de perto nem de longe.
    Mas não sei o que é mais perturbante, se o artigo em si se o facto de estar publicado aqui - num blogue que sigo com atenção e respeito - o que de algo forma parece sugerir que o autor (do blogue) concorda com o autor (do artigo).
    Finalmente: Sotto Mayor Cardia? Caro Guilherme Valente, se quer citar excelentes ministros da Educação, pode ir buscar alguém como Roberto Carneiro ou Marçal Grilo – ambos, por sinal, contra os exames enquanto ferramenta de aprendizagem.
    E já agora, Sr. Rui Baptista, não confunda exames com rigor e a sua ausência com "facilitismo". Para distorção dos factos e incompreensão da realidade já estamos servidos por aqui...

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    1. E já agora, nada melhor que as provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos. E já agora, o retorno às Novas Oportunidades. E já agora sobre o que eu penso sobre os exames, de há muito, é possível que venha a transcrever um post sobre esta temática publicado no DRN.



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    2. "os exames fazem decorar - não é a mesma coisa, nem de perto nem de longe." Esta enganado. Decorar e aprender não é a mesma coisa mas andam próximas. Se nada decorar, nada aprende. Se decorar aprende algo e pode "ruminar" sobre o que decorou. Se nada decorar é como um computador sem software, não sai nada. Sem memória nem teríamos consciência da nossa identidade.

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  3. Decorar não é meio caminho andado, é três quartos de caminho andado para aprender.

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  4. Mais uma vez este senhor mente descaradamente ao dizer que "no caso dos exames logo com resultados à vista" Exceto este ano em que parece que os exames estão a ser mais fáceis, ou não fosse ano de eleições (até o ministro desce ao facilitismo), os resultados dos exames têm estado em muitos casos a descer. E dizer que o estudo para os exames é benéfico, não lembra à maioria dos países bem colocados nos estudos internacionais. Quantos exames há na Finlândia ou em Singapura? E mesmo em Espanha, França ou na Alemanha? Muito poucos. A ideologia cega as pessoas.

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