quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DAVID ARRASA A PSEUDOCIÊNCIA

Artigo da jornalista Raquel Lito, publicado hoje na Sábado, acerca do meu novo livro "Pseudociência", que transcrevo.


Cuidado com os génios com síndrome de Galileu. Atenção às agulhas de acupunctura: são ineficazes. As interrogações de quem já tomou medicamentos homeopáticos - e ficou na mesma.  

Por Raquel Lito  

Houve um alegado génio, de origem iraniana, Fereydoon Batmanghelidj, que entre 1979 e 1982 se gabou de ter curado 600 companheiros de prisão com água. Mais outro candidato ao título de génio, desta vez britânico, Andrew Wakefield fez uma curiosa associação em 1998: a vacina tríplice (contra o sarampo, papeira e rubéola) poderia causar autismo.  

São dois casos fraudulentos apontados por David Marçal, de 37 anos, doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa, que até faz o diagnóstico: sofrem de "síndrome do novo Galileu". Apresentam-se como figuras de autoridade, com uma ideia inédita, usando linguagem científica, na tentativa de se colarem à ciência. Num patamar abaixo, refere uma médica "chica-esperta" que, em 2002, anunciou algo bombástico: exames de mamografia por satélite a mulheres de São Bartolomeu de Messines.  

Tudo isto entra no mesmo saco: pseudociência, o termo com que o autor intitula o seu novo livro, da colecção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos e que é apresentado esta sexta-feira, dia 31, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.  

Overdose de placebos  

"Num nível erudito, a pseudociência manifesta-se através de cientistas que realizam deliberadamente erros. Noutro extremo ficam os curandeiros, que usam um grande comboio de títulos honoríficos", diz o autor à SÁBADO. Exemplifica com o professor Karamba, "Grande e Poderoso Médium Africano".  

Os partidários das medicinas tradicionais e alternativas provavelmente não vão gostar de ler o que se segue. Feito o aviso, o cientista analisa, na página 25 do ensaio, os medicamentos homeopáticos. "Não são bebidos aos litros, mas em gotinhas, que podem ser escorridas para cima de umas bolinhas de açúcar [comprimidos]". Sim, são placebos que dão a ilusão de melhoras, de forma transitória "porque somos alvo de atenção médica."  

A prová-lo, o próprio, juntamente com Carlos Fiolhais (professor catedrático da Universidade de Coimbra), tomou uma caixa de um medicamento deste tipo contra a gripe, diante de 30 pessoas, em Novembro de 2012. "Foi uma overdose homeopática", conta, mas sem efeito. Ficaram na mesma.  

Sobre a acupunctura (estimulação de pontos específicos do corpo com agulhas), David Marçal também é céptico. Primeiro, porque tem um efeito insignificante e apenas em algumas condições clínicas, como a dor. Ou não tem efeito nenhum, além do placebo - quando comparado com tratamentos simulados, "em que se espetam agulhas em sítios não indicados para a condição clínica."  
Depois, porque a organização internacional Cochrane Collaboration concluiu que os ensaios clínicos para tratar insónias, dores menstruais e no pescoço eram inconclusivos e pouco rigorosos.  

4 comentários:

  1. O Marçal "transcreve com a devida vénia" (!!) uma entrevista feita a Marçal sobre um livro do Marçal.

    O Marçal em pouco mais de uma semana publicou aqui três entradas sobre o livro de Marçal (e não publicou nada mais).

    E o mais interessante aqui nem sequer é isto. É que o livro do Marçal não vem acrescentar uma linha um assunto que é mais velho que a Sé de Braga e sobre o qual existem centenas de livros. Uns excelentes, outros mais ou menos e outros como o do Marçal, que é uma espécie de enchido de lugares comuns. Ou seja, o Marçal faz exactamente o mesmo à epistemologia que um astrólogo faz à ciência. Procede exactamente da mesma forma. É curioso.

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    1. Entretanto, desapareceu sorrateiramente a vénia que o Marçal fazia à entrevista ao Marçal. Não lamento que o Marçal não tenha reconhecido o erro; lamento que o resto não tenha tido o mesmo destino da tal auto-vénia.

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  2. "...a pseudociência manifesta-se através de cientistas que realizam deliberadamente erros"

    Não, neste caso chama-se fraude científica (com dolo). Um contabilista que comete erros deliberadamente não manifesta pseudocontabilidade; pratica uma fraude. O João Vale e Azevedo não foi condenado por manifestar pseudodireito, mas por praticar fraudes.

    Tanta confusão que vai nessa cabeça.

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  3. Porra que é ... ou candidato a génio!!! Outra vez o Andrew Wakefield, já vi que não se informou novamente... misturar tudo o que se refere neste artigo e no mínimo, meter tudo no mesmo saco ou então é deliberada má fé.

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