domingo, 26 de fevereiro de 2012

"OU"

A história da educação ocidental deixa-nos perceber que o ensino, seja qual for o momento em que o consideremos, é uma actividade polémica, pelo facto de se rodear de controvérsias, que ciclicamente são retomadas: as que na contemporaneidade nos ocupam já se encontravam bem delineadas na Antiguidade, percorreram as Idades Média e Moderna, atravessaram a Pós-modernidade. O futuro, seja ele qual for, não as eliminará.

Concentrando-nos no presente, e considerando que a educação escolar diz respeito a todos, tais controvérsias convocam as mais variadas sensibilidades (políticas, sociais, económicas, filosóficas, epistemológicas, axiológicas, religiosas, científicas, ideológicas, artísticas, pedagógicas, profissionais, etc.). O que acontece é que no seio dessas sensibilidades convocam-se argumentos que, em geral, formam antinomias: o ensino deve ser isto OU deve ser aquilo? Se for isto NÃO PODE ser aquilo.

A partícula "OU" tem-se revelado bastante eficaz para apartar “uns” e “outros”, para extremar e, mesmo, antagonizar, as posições. Por isso, quando o ensino reclama um consenso, a tarefa de debate e apuramento de ideias fortes para o conduzir torna-se muito difícil, para não dizer, impossível. Isto acontece com grande nitidez a partir de um certo patamar. Explico-me.

Todos, ou muitos, estarão de acordo que as crianças e os jovens devem ir à escola (deixemos os adultos de fora).

Os desacordos começam a emergir quando perguntamos: Para que é que devem ir à escola? As respostas, cada uma delas afirmativa quanto baste, são variadas: Para se prepararem para a vida; Para serem cidadãos responsáveis; Para desenvolverem a auto-estima e o auto-conceito; Para adquirirem conhecimentos; Para aprenderem um ofício; Para descobrirem o seu próprio conhecimento; Para aprenderem a aprender…

Os desacordos continuam quando passamos para outra pergunta: Qual deve ser o objecto de aprendizagem? O mesmo quanto às respostas: Conhecimentos; Competências; E, a serem conhecimentos, os que se revelem úteis; De modo algum: os mais eruditos; Os conhecimentos locais e regionais emprimeiro plano; Não, porquanto os de pendor universal são fundamentais; E, a serem competências, as que permitem resolver problemas do quotidiano e criar; De maneira alguma, pois as que estão implicadas na memorização e no raciocínio lógico têm prioridade…

Os desacordos persistem quando perguntamos: Como é que os sujeitos devem aprender: As metodologias devem ser “activas” sob o ponto de vista da acção do aluno; Devem ser “significativas” sob o ponto de vista pessoal e social; Devem ser reprodutivas; Devem ser de aplicação; Devem ser inovadoras; Devem ser “tradicionais”; Devem ser diversificadas; Devem ser individuais; Devem ser colaborativas…

O mesmo para a avaliação, para os recursos, para a organização do espaço, para a distribuição do tempo, para tudo…

Estas consideração são a propósito da discussão pública do Despacho n.º 17169/2011, de 12 de Dezembro, que propõe uma revisão curricular. Essa discussão decorreu até finais de Janeiro de 2012 e recebeu 1628 contributos dos mais variados parceiros educativos.

A sua análise revela, com grande clareza, essas tais antinomias, sinal de que persistimos no OU.

Como sociedade, teríamos muito a ganhar se, para discutirmos a essência e os desígnios da educação, nos informássemos um pouco mais, na esperança de que a informação permita superar pelo menos alguns aspectos que nos dividem para nos concentramos naquilo que nos une.

Para tanto, e à medida que ia analisando os referidos contributos, ocorreu-me um título: Teoria da Educação: Concepção antinómica de educação, da autoria de José Maria Quintana Cabanas. Com grande acuidade este professor da Universidade Nacional de Ensino a Distância (Madrid) sistematiza e debate as ideias que temos sistematicamente separado com a tal partícula OU.

6 comentários:

  1. Subecrevo completamente o conteúdo da entrada da Professora Helena Damião. Infelizmente a discusão sobre educação tem estado demasiado centrada em antinomias tão redutoras quanto estéreis. Uma dessa antinomias é a do "eduquês" versus uma educação de exigência (o que quer que sejam uma coisa e outra).
    PJ

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  2. Ele já ensina "à distância"... está tudo dito!

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  3. De acordo. Saber do que se fala.
    Não conheço o livro, vou à procura.
    Deixo o link para a minha opinião, publicada há algum tempo já no meu blogue: http://sucosuquinhosucodinho.blogspot.com/2012/01/sobre-proposta-de-reorganizacao-dos.html

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  4. José Batista da Ascenção26 de fevereiro de 2012 às 23:39

    Peço desculpa.

    Há no texto aspetos que me parecem pouco claros.

    Desde logo, a partícula "ou" não tem necessariamente

    que antagonizar nada nem ninguém. O fundo da questão

    anda mais, a meu ver, no conjunto de interesses que

    se move à volta da "educação". Com o estado a impor

    autoritariamente a condenação à ignorância de muitas

    crianças, sob o pretexto de exigir um ensino igual

    para todas, uma grande mentira, quando sempre se

    selecionaram alunos, turmas, professores e até salas

    de aula... Ou seja: o estado serve os interesses

    daqueles que nele ocupam as posições de poder.

    Gostaria que alguém me explicasse onde está a

    antinomia, por exemplo, entre "competências que

    permitem resolver problemas do quotidiano e criar

    [e] as que estão implicadas na memorização e no

    raciocínio lógico…". Então a memorização e o

    raciocínio lógico não estão na base da resolução

    de quaisquer problemas ou meras situações do

    quotidiano?

    Outro exemplo: Qualquer sujeito, para aprender

    não tem que ter um papel activo, mesmo que seja

    (apenas?...) ouvir com atenção? Ou ler concentrado?

    Ou dialogar disciplinadamente? Ou trabalhar

    aplicadamente? Há nisto alguma necessidade de

    antinomia? Ou há antes diversificação?

    Ou variação? Ou eventual acumulação? Ou hetrodoxia?

    Ou? Ou...

    Ou não haverá antes o encarniçamento daqueles que

    têm fundos interesses de que não querem abdicar,

    mesmo prejudicando sistematica e continuamente

    uma infinidade de crianças?

    Por que motivos não se há-de (há de) permitir aos

    cidadãos que o queiram, e disso assumam a

    responsabilidade, que definam o tipo de escola

    que pretendem para os seus filhos?

    Por que há-de (há de) existir um corpo de teóricos

    que não são capazes de pegar numa turma de alunos

    com problemas e mostrar como se faz, insistir em

    fazer dos professores escravos, ainda por cima

    culpando-os dos fracassos que eles não podem evitar?,

    ao mesmo tempo que se condenam tantas crianças à

    mais bárbara e inumana ignorância?

    E é aqui que entra o exército do "eduquês", a impor e

    defender a ditadura da ignorância. Em favor de

    interesses acerrimamente instalados.

    Sem antinomias, nem anomias. Facundo e fecundo.

    E façanhudo também.

    E aqui eu não abdico de seguir outro caminho.

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  5. José Batista da Ascenção27 de fevereiro de 2012 às 08:49

    Meus olhos! Minhas mãos!

    Ficou-me ali em cima (pelo menos...) uma "hetrodoxia".

    Juro que não é uma forma do verbo "hetrodoxar".

    Outros erros "não nos vi". Mas pode haver.

    Desculpas, da minha parte.

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  6. Bravo, José da Ascensão!

    Curto e certeiro.

    Juro que adoraria ver todos este teóricos da treta à frente de uma turma e no quotidiano de uma escola básica OU secundária.

    Cagar sentenças ex cathedra sem nunca ter posto os pés numa escola senão para fazer estudos, estatísticas e experiências é muito fácil.

    A educação não precisa de mais teorias nem teóricos que mais não fazem que tentar por todos os meios defender a sua capelinha e dar-se ares de grande importância científica.

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