quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

FILHOS DO CÉU


O título “Filhos do Céu”, com um tom algo religioso, é um diálogo sobre a nossa actual visão do cosmos entre um sociólogo e filósofo francês bem conhecido, Edgan Morin (nascido em Paris em 1921, na foto), e um astrofísico também francês, que merecia ser mais bem conhecido, Michel Cassé. A conversa entre os dois teve lugar aos microfones da rádio France Culture antes de ter passado a livro no prelo da Editora Odille Jacob.

Em língua portuguesa esta obra saiu como um número redondo (250) da colecção “Epistemologia e Sociedade” do Instituto Piaget, que tantas e por vezes tão boas edições nos tem proporcionado (já me tenho interrogado como é possível a uma editora de cunho universitário publicar tal profusão de títulos). Saúda-se a longevidade dessa colecção. Edgar Morin, que é membro honorário do Instituto Piaget do qual recebeu em 2002 o prémio “Poética do Pensar”, tem vários livros publicados na mesma colecção, que se somam a outros livros que tem noutras editoras, como “O Método”, em vários tomos, que saiu na Europa-América. Morin, muito atento aos desenvolvimentos da ciência contemporânea, tem sido arauto do chamado pensamento da complexidade, sobre o qual tive ocasião de me pronunciar, num encontro ao vivo com Morin promovido nos anos 80 em Coimbra pela Associação de Professores de Filosofia (ver capítulo do meu livro “Universo, Computadores e Tudo o Resto”, Gradiva, 1994).

Por seu lado, Michel Cassé, investigador no Comissariado de Energia Atómica francês e no Instituto de Astrofísica de Paris, não é de modo nenhum um novato na edição. Em português tem, além do presente livro, um outro na referida colecção do Instituto Piaget (“Genealogia da Matéria”, 2000 ) e um livro, mais para jovens, na editora Arte Plural (“A Pequena Estrela”, com Élisabeth Vangioni-Flam, 2003). Mas em França tem mais obras. Saiu há pouco tempo em francês outro original com um título original “Lambde. Cosmologie dite à Rimbaud” (Editora Jean Paul Bayol, 2007). O seu notável poder de comunicação – nomeadamente a sua capacidade de criação de metáforas de base científica – tem justificado a sua frequente aparição pública nos media e em conferências.

O prefácio do livro é de Morin e o posfácio de Cassé. Confirma-se, no fim da agradável leitura, a ideia de que a astrofísica moderna é a fonte de muitas questões filosóficas, ficando umas respondidas (tanto quanto a ciência as pode responder) e aguardando outras ainda por resposta (as questões da matéria e da energia escura mostram que se esperam novos desenvolvimentos, oxalá venham em breve). O encontro entre Morin e Cassé é uma reunião da filosofia e da física, com um tom que, em vez de religioso, é marcadamente poético. Os dois pensadores procuram ler os dados mais recentes da astronomia e cosmologia – o “Big Bang”, os buracos negros, a matéria e a energia escuras, etc. – ligando esses dados ao que têm sido e são inquietações mais profundas do ser humano - o ser e o nada, o princípio e o fim do mundo, o belo e o feio, o bom e o mau, o humano e o inumano. As frases mais lapidares são de Cassé, valendo a pena seleccionar algumas para que o leitor desta recensão se aperceba melhor do estilo do livro (ver "post" seguinte). A sua linguagem é um pouco semelhante à de Hubert Reeves, outro astrofísico de língua francesa também ele um poeta do espaço, que acaba de publicar na Gradiva “Crónicas dos Átomos e das Galáxias”, um volume que curiosamente também resultou de intervenções feitas aos microfones da France Culture.

Morin também deixa algumas afirmações muito interessantes, nomeadamente quando faz uma citação sobre o modo como um astrofísico vê um copo de vinho. Vê lá moléculas de água, com hidrogénio do “Big Bang” primordial, e com oxigénio, que foi feito numa estrela que explodiu. Ou ainda quando refere, um pouco como Sagan fez no final de “Cosmos” (Gradiva, a versão ilustrada é de 2001), que o homem é o meio que o cosmos engendrou para ganhar consciência de si próprio. É como se o homem fosse um membro do Universo, que a certa altura adquirisse um olho e um cérebro para olhar e pensar o Universo. Somos filhos do céu. E o céu conhece-se a si próprio através dos seus filhos.

Apesar de uma ou outra afirmação mais pós-moderna e dúbia (o pós-modernismo nota-se principalmente quando se procura transmitir uma multiplicidade de sentidos, alguns dos quais se chocam entre si, com prejuízo da necessária clareza), este é um livro que não hesito em recomendar. Sobretudo para aquelas pessoas com formação literária ou artística que pretendem estar a par do que há de novo nos céus. Mas também para aquelas pessoas com formação científica, que gostam das linguagens da filosofia e da poesia, que podem com evidente vantagem ser usadas a propósito de objectos e conceitos científicos. Os filhos do céu podem, afinal, conhecê-lo de várias maneiras!

- Edgar Morin e Michel Cassé, “Filhos do Céu. Entre Vazio, Luz e Matéria”, Instituto Piaget, 2007.

3 comentários:

  1. Prof. Carlos Fiolhais

    Há muito tempo que não embirro consigo. Estive quase, quase, naquele post sobre os subsídios, perdão, a cultura em Coimbra, mas resolvi passar adiante dado que vivo em Lisboa. Mas hoje não posso deixar passar esta afronta.

    Considero muito grave, e lavro o meu protesto como aprendiz de filósofo, que desvalorize a filosofia e a coloque ao nível da linguagem e da poesia.

    A filosofia é muito mais do que isso, Prof, Carlos Fiolhais. Causa-nos um frémito interno, angustia-nos, coloca-nos perante os grandes dilemas da nossa existência. Não é uma "linguagem", porque podemos falar sem pensar, não é poesia, porque filosofia é o pensamento arrítmico, é a nobre arte de pensar.

    Deve-se falar sempre com muito respeito da filosofia, Professor.

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  2. Octávio Augusto Contatore15 de março de 2009 às 12:31

    Ouvi falar deste livro e tive o prazer de ler mais arespeito dele aqui. Quero comentar, que a linguagem poética complementa a filosófica e lhe restitui algo que a razão a tem surrupiado e que se constitui de outras formas de empreendimento humano de descobrir o mundo, que não a ciência. Não é só pela via do intelecto que se apreende a realidade e principalmente lhe é dado significado.

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