quarta-feira, 15 de setembro de 2021

IN MEMORIAM RUI BAPTISTA (1931-2021)

Rui Baptista com um dos seus netos (aqui)

O nosso companheiro de há muito anos deste blogue, Rui Baptista, de seu nome completo Rui Vasco Júlio Pereira da Silva Baptista, faleceu no passado dia 13 de Setembro de 2021, com a bela idade de 90 anos. 

Deixou de escrever no blogue devido a problemas de saúde há alguns meses e agora que partiu estamos com saudades da sua escrita clara e da sua opinião desassombrada. Podia-se concordar ou não com as suas posições, mas não só as expressava num português de lei, como as defendia com toda a sua convicção. Respondia a todos os comentários, mesmo aqueles que lhe eram desfavoráveis e que eram, por vezes, feitos num tom desagradável. Para todos tinha “fair play”, uma expressão do desporto, actividade que cultivou e defendeu. Mas os seus temas não eram se limitavam ao desporto, ele interessava-se pela qualidade da escola e também, mais em geral, pela qualidade dos serviços públicos, em particular os de saúde (incluindo a reabilitação física). A constituição de uma Ordem dos Professores foi uma das suas causas durante largos anos, tendo como advogado dela escrito numerosos artigos. 

Nascido em Luanda, Angola, em 19 de Maio de 1931, Angola, estabeleceu-se nos anos 50 em Lourenço Marques (hoje Maputo), a capital de Moçambique. Passou aí 18 anos da sua vida, nascendo naquela colónia os seus seis filhos. Foi professor de Educação Física na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque: inúmeros alunos guardam dele gratas recordações (e o Rui tinha muito orgulho nisso). Veio para Portugal dois dias antes da independência moçambicana não como “retornado” (pois era de Angola), mas como “refugiado”, como ele gostava de dizer. 

Foi professor de Educação Física na Escola José Falcão em Coimbra e na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, a mais recente das faculdades da antiga universidade, e do Instituto Superior de Educação Física da Universidade do Porto. Reformou-se aos 70 anos, com mais de 40 de serviço público.

Como atleta de halterofilismo no Clube Ferroviário de Lourenço Marques, foi campeão de Moçambique de levantamentos culturistas no seu escalão (médio) e treinador dessa modalidade, assim como de ginástica e de saltos no tapete (a equipa do Ferroviário foi campeã distrital). No seu tempo de juventude e meia-idade tinha um físico bem musculado, que ficou registado em fotografias que ele mostrava. Foi, em Moçambique, dirigente ou representante desportivo em várias modalidades, como o halterofilismo, a natação e o voleibol.

Pertenceu à secção de Ciências da Sociedade de Estudos de Moçambique, onde dirigiu a biblioteca e proferiu várias conferências, prática que continuou em Portugal. Além da leitura, sempre teve vários interesses culturais, que alimentavam a bagagem que apoiava a sua escrita, Escreveu não só nosso blogue (muitas foram as vezes que nos telefonava pedindo, sempre delicadamente, para resolver qualquer problema gráfico, dado não dominar todos os “truques” informáticos) como noutros, nomeadamente o Bigslam.pt, sobre temas desportivos ligados a Moçambique, mas também em vários jornais, nacionais e regionais, designadamente o Público, o Correio da Manhã, o Jornal Novo e o Diário de Coimbra (para não falar já do Notícias de Lourenço Marques e da Tribuna de Lourenço Marques). 

Terão sido mais de mil os seus artigos publicados na imprensa ao longo da sua vida. Escrevia com facilidade, socorrendo-se sempre de forma oportuna de uma vasta selecção de citações, que a sua prodigiosa memória guardava. Em Moçambique publico os livros Os pesos e halteres, a função cardiopulmonar e o Dr. Cooper (1973), em que polemizava com o Doutor Kenneth Cooper, médico da NASA, sobre os benefícios daquela modalidade, e Sem contemporizar: a razão de um longo silênciao ou a minha resposta à revista Tempo e ao Sr. Rui Cartaxana. Em Portugal publicou Do Caos à Ordem dos Professores (2004) e O Leito de Procusta: Crónicas sobre o sistema educativo (2005), saído do prelo do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados.

Foram as questões do ensino que nos aproximaram e que nos levaram a convidá-lo para o blogue, convite que ele logo aceitou, passando a ser um dos nossos. De vez em quando ele perguntava se achávamos bem afixar isto ou aquilo. Nós respondíamos que o nosso blogue era absolutamente livre: ele que pusesse o que muito bem entendesse. Assinava por baixo e quem não estivesse de acordo tinha o direito de se manifestar, como de resto acontecia amiúde.

Foi ele que trouxe para o blogue o grande escritor (ensaísta e poeta) Eugénio Lisboa, que ele conheceu em Moçambique, um ano mais velho do que ele, e que nos tem ultimamente honrado com a sua produção literária e comentarística.

O De Rerum Natura, um blogue criado há mais de 13 anos que se centra na Ciência, Educação e Cultura, mas que vai muito além disso, conforme a vontade dos autores que para ele contribuem, ficou mais pobre com a morte de Rui Baptista, que era, além do mais, um homem generoso e bom. 
 
As nossas sentidas condolências à família. 
 
Que descanse em paz!
Carlos Fiolhais e Helena Damião

7 comentários:

  1. Que grande saudade me deixa já o Professor Rui Baptista.
    Para mim foi um Amigo.
    No Professor Rui Baptista percebia-se o seu fascínio pelas grandes inteligencias.
    Admirava o Professor Carlos Fiolhais, e várias vezes o demonstrou aqui.
    Lamentou não ter o conhecimento profundo da vida e obras dos Professores Bento de Jesus Caraça e José Sebastião e Silva, - pelo proveito que delas retiraria - o que não o impediu de publicar aqui post's a estes ilustres Professores.
    Não tinha o sentimento, que hoje campeia, de Inveja nos sucessos de outros, esse sentimento não cabia na sua personalidade. Substituí-a com naturalidade por este sentimento, genuíno e nobre, o de Admiração.
    O De Rerum Natura ficou muito mais pobre.
    Que descanse em paz!

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  2. Publicou ainda "DO CAOS À ORDEM DOS PROFESSORES" em Janeiro de 2004 que abre com uma frase de Sophia de Mello Breyner: "Depois do 25 de Abril tenho-me sentido tentada a escrever uma peça que se chamaria "Auto dos Oportunistas", mas que é impossível de escrever porque há sempre mais um acto."

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  3. Pessoa educada, este Dr. Rui Batista, que lutou tenazmente pela qualificação dos professores. Durante anos, de muitas formas e em muitos sítios reagiu e lutou contra os que ajudaram à desqualificação dos professores tornando alguns sindicatos em frentes políticas. Ele nunca se deixou iludir e nunca desistiu. A classe dos professores devia estar-lhe grata. Daqui lhe presto a minha singela e sentida homenagem

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  4. Querido Pai!!! Eu, meus irmãos e Mãe agradecemos a notícia em sua memória. Sentimos um orgulho enorme na Pessoa que foi e nos valores que nos transmitiu. Estará sempre vivo em nós.

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  5. O Avô Rui Vasco com o seu neto Rui Afonso na Figueira da Foz! Que fotografia bonita! Agradeço os amáveis elogios ao meu Querido e Adorado Pai.

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