quinta-feira, 9 de setembro de 2021

FRANCISCO GUIMARÃES E A SUA “SELECÇÃO NACIONAL”


Meu artigo no jornal I de hoje:

Francisco Guimarães é um jovem treinador de futebol (tem só 24 anos!), que é também comentador desportivo na Sport TV e estudante de Artes e Humanidades na Universidade de Lisboa. Tendo praticado o «desporto-rei» preferiu, lucidamente, ser treinador, ao reconhecer que não tinha talento suficiente como jogador. A carreira de Francisco Guimarães ainda é muito curta, mas, aos 15 anos, tornou-se o treinador mais novo do país, e depois disso adquiriu experiência internacional ao treinar a equipa do Delhi United, na Índia.

Como ele acha e bem que a vida pode ser enriquecida com lições do desporto, lembrou-se de escrever um livro em que “convocava” uma equipa de 23 figuras públicas, repartidas entre guarda-redes, defesas, médios e avançados, em que elas falassem não tanto de desporto, mas mais da vida em geral, embora sempre na óptica da sua experiência profissional e pessoal. O livro acaba de sair com a chancela da Casa das Letras, do grupo Leya. Intitula-se Convocatória. Conversas para ir a Jogo, e tem uma reflexão final do general António Ramalho Eanes, recolhida pelo autor. O livro tem, antes da introdução de Francisco Guimarães, dois prefácios de dois jovens, o primeiro do jogador de futebol formado nas escolas do Sporting Francisco Geraldes (26 anos), que está no Estoril e que ficou muito conhecido por uma fotografia em que aparece no banco dos suplentes a ler o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (ele próprio é autor de um livro de poesia, Cito Longe Tarde, saído este ano na Cultura Editora, com prefácio de Pilar del Rio, viúva de Saramago). E o segundo do escritor Afonso Reis Cabral (31 anos), que publicou o seu primeiro livro de poesia aos 15 anos, e que ganhou o Prémio Leya em 2014 com o livro O Meu Irmão e o Prémio Literário José Saramago em 2019 com o livro Pão de Açúcar (Dom Quixote, 2018). O escritor, que é trisneto de Eça de Queiroz, confessa no seu prefácio que não sabe nada de futebol.

Francisco Guimarães explica na Introdução a ideia do livro, que tem a sua originalidade. Como se lembrou de fazer a sua «selecção nacional» e quais são as qualidades dos jogadores escolhidos: «Temos avançados que se atiram de cabeça para a vida, temos médios que pensam em cada detalhe, temos defesas que sabem coordenar a equipa e que não têm medo de disputar qualquer lance e temos guarda-redes que não querem sofrer golos e que, quando sofrem (porque a vida tem destas coisas), se levantam de imediato. São todos da mesma equipa, mas cada um tem uma táctica diferente para responder ao desejo do seu coração, desejo esse que pertence a todos, desejo esse que parte da singularidade de cada elemento para a totalidade de um grupo unido e coeso.»

E, mais abaixo: «Este é um livro que, apesar de não ter directamente a ver com o futebol, parte dele para conhecer o mundo. Ainda que em quase nenhuma conversa, excepto com os convidados que habitam esse meio (…). Através do ideal de jogo torna-se possível vislumbrar beleza, justiça, liberdade, pensamento, integridade, o sentido do outro, o valor das regras, etc. No fundo, tudo aquilo que acontece na vida esta presente num jogo de futebol.»

Quem são os convidados de Mister Francisco Guimarães, formando assim a sua «selecção nacional»? Ele escolheu 23 «jogadores», como é costume para a selecção de futebol, mas buscou um equilíbrio de proveniências.

Para guarda-redes, foram escolhidos César Mourão (humorista), Mafalda Ribeiro (escritora e oradora, portadora de deficiência física congénita) e este escriba (físico). Para a defesa foram chamados Albano Jerónimo (actor), Laurinda Alves (jornalista e professora de Comunicação), Fernando Santos (treinador de futebol e seleccionador nacional), Leonor Beleza (jurista e presidente da Fundação Champalimaud), Miguel Araújo (músico), Bernardo Silva (jogador de futebol), Maria João Leitão (médica neonatologista) e o Padre Pedro Quintela (fundador da Associação Vale de Acór, na margem Sul do Tejo). Na linha média, alinham Miguel Sousa Tavares (jornalista e escritor), Pedro Abrunhosa (músico), Carlos Moedas (político), Samuel Úria (músico), Rui Vieira Nery (musicólogo), Isabel Almeida e Brito (educadora e reitora do Colégio de São Tomás, em Lisboa) e Manuel Aires Mateus (arquitecto). Finalmente, para avançados foram convocados José Mourinho (treinador de futebol), Fernando Guedes (empresário e CEO da Sogrape), Miguel Oliveira (motociclista), Afonso Cruz (escritor) e José Avillez (chef de cozinha).

Constituiu para mim uma surpresa ter sido considerado uma das opções para a baliza. De facto, em jovem joguei a guarda-redes, mas apenas no desporto escolar, e sem grande êxito (até porque comecei a usar óculos para corrigir a miopia). O Francisco veio a Coimbra entrevistar-me. Correu tudo muito bem: juntou, num formato que é o dele, parte daquilo que eu disse com aquilo que ele queria dizer. O que eu disse ficou em itálico e o que ele quis dizer ficou em letra normal. Gosto de ajudar os jovens que me procuram para os seus projectos. Não vou aqui dizer mais nada sobre a minha contribuição porque ninguém é bom juiz em causa própria. Só digo que, se ele usou do mesmo procedimento com os outros entrevistados, então todos os depoimentos foram recolhidos com a maior correcção e simpatia.

Não podendo falar de todos, opto por falar, respigando excertos, dos convocados ligados ao futebol. Não são muitos: tirando o futebolista prefaciador, são só três: dois treinadores e um futebolista, todos eles no activo e muito bem sucedidos.

Fernando Santos (63 anos), começou por ser jogador (defesa, como nesta convocatória) do Estoril e no Marítimo. Completou, quando era jogador, uma licenciatura no Instituto Superior de Engenharia do Politécnico de Lisboa. Tendo sido um jogador modesto, brilhou depois como treinador: treinou o Estoril, o Estrela da Amadora, o Porto (onde ganhou o quinto campeonato seguido, razão por que ficou conhecido como o «engenheiro do penta»). Depois andou entre a Grécia e Portugal, tendo treinado entre nós o Sporting e o Benfica (foi o primeiro técnico português a treinar os «três grandes»). Está à frente da selecção nacional desde 2013, tendo ganho o Campeonato da Europa em 2016 e a Liga das Nações em 2019. Conheci-o pessoalmente no programa da RTP «Prós e Contras», emitido de Fátima por ocasião da visita do papa Francisco ao santuário. Fernando Santos é uma pessoa muito religiosa, conforme se pode ver na entrevista que deu ao Francisco Guimarães. A sua táctica neste livro é «Tornar alguém melhor». Essa táctica é ilustrada com uma história passada com o Jorge Andrade, defesa central do Porto e da selecção: «O Jorge Andrade, um dia, entrou na minha cabina preocupado porque ia ter um exame de matemática. ”em problema, eu dou-te explicações, mas não vais deixar de treinar.” Todos os meus jogadores sabem que podem contar com a certeza da relação humana.»

O único jogador de futebol convocado pelo Francisco para este livro foi Bernardo Silva, que é apenas um pouco mais velho (27 anos). Começou a sua carreira no Benfica, mas depois deu o salto para fora, primeiro para o Mónaco e depois para o Manchester City. Frequentou uma escola de língua inglesa em Lisboa, o que lhe permite falar inglês na perfeição. É um jogador criativo e elegante no meio-campo, embora no livro esteja colocado na defesa. Disse ele ao Francisco: «Eu adoro jogar futebol, é o que mais gosto de fazer. Mas no dia em que deixar de encontrar uma razão maior aqui, não me derrotarei e parto para outra coisa que a vida me proporcione. Vou à minha vida procurar o que me faz mais feliz.» Mas ainda falta muito para ele deixar o futebol: na terça-feira marcou um golo extraordinário, pela selecção das quinas, ao Azerbaijão.

Nos avançados figura José Mourinho (58 anos), the special one. Teve, como Fernando Santos, uma carreira modesta como futebolista. Mas fez o curso de professor de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa. E, como treinador, revelou-se um predestinado. Aprendeu com Bobby Robson, de quem foi adjunto no Sporting, no Porto e no Barcelona. Depois de curtas passagens pelo Benfica e pelo União de Leiria, ganhou em 2004 a Liga dos Campeões da Europa à frente do Porto. Depois treinou o Chelsea, o Inter (ganhando a sua segunda Champions), o Real Madrid, o Manchester United, o Tottenham e a Roma. Foi considerado o melhor treinador do mundo em várias ocasiões. E foi distinguido com o título de doutor honoris causa pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Sobre as bases académicas disse ao Francisco: «(…) uma base académica, por muito básica que seja, ajuda a pensar, a perceber, a sistematizar. Antes e depois do jogo, há um enorme espaço aberto a essa sistematização e interpretação, que vêm muito do lado académico.» A sua vida é de dedicação plena à profissão: «Tenho 975 jogos oficiais como treinador principal, comecei a fazer contas dos 90 minutos desses 975 jogos, mais o tempo adicional de cada jogo, e meti as mãos à cabeça…! Os minutos de treino que estavam por trás disso, os minutos que estive de pé junto à linha lateral ou com o cu sentado no banco…! É uma história de amor!»

Tal como faz com os outros entrevistados, o Francisco intercala as palavras de Mourinho com palavras suas, bem escritas No capítulo dedicado ao special one cita ou refere, entre outros, Séneca, Fábio Máximo, Lev Tolstói, Charles Darwin, o papa Bento XVI, Martin Scorsese e António Damásio. O resultado é um livro bastante inspirador.

 


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