quinta-feira, 23 de setembro de 2021

NAOMI ORESKES E A CONFIANÇA NA CIÊNCIA


Meu artigo no I de hoje:

A norte-americana Naomi Oreskes (n. 1958), com formação inicial na área da Geologia no Imperial College de Londres e na Universidade de Stanford, é professora de História da Ciência na Universidade de Harvard, em Boston. Tem trabalhado na história das ciências ambientais e climáticas, na política de ciência, nas relações entre ciência e religião e em questões de género. É autora de sete livros e de mais de 150 artigos científicos. O seu livro que suscitou mais atenção – alimentando mesmo um vivo debate – foi Merchants of Doubt (Bloomsbury, 2010), escrito em colaboração com Erik Conway, historiador da NASA, que incide sobre o negacionismo das alterações climáticas. O seu livro mais recente é Science on a Mission. American Oceanography from the Cold War to the Climate Change (University of Chicago Press, 2021), sobre a relação entre cientistas e militares no domínico da oceanografia. Merchants of Doubt, traduzido em nove línguas (ainda não em português), serviu de base a um documentário com o mesmo título que foi distribuído pela Sony Pictures. Na edição mais recente, teve um prefácio de Al Gore, o ex-vice presidente dos Estados Unidos e destacado ambientalista (autor do filme e livro Uma Verdade Inconveniente).

Naomi Oreskes ganhou proeminência quando, num artigo publicado na revista Science em 2004 mostrou, analisando milhares de artigos, que havia um maciço consenso na comunidade científica sobre as alterações climáticas e a sua origem, tema que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas tem vindo a rever em sucessivos relatórios. A contribuição das Ciências Físico-Químicas para o próximo relatório (o sexto), divulgada em Agosto passado, é particularmente alarmante, ao dizer que o limiar de aquecimento de 1,5 ºC, indicado no Acordo de Paris de 2015, vai ser transposto. Existem, de facto, alterações climáticas globais devidas ao aumento do efeito estufa, causado pelas emissões de dióxido de carbono e de outros gases resultantes da actividade humana. Oreskes apontou o dedo às petrolíferas que negavam as provas, tal como no passado as tabaqueiras tinham negado a relação entre fumo do tabaco e o cancro do pulmão. Entidades com um óbvio conflito de interesse nunca são independentes a analisar assuntos que lhes dizem respeito.

Oreskes tem escrito para destacados órgãos da imprensa como o New York Times e o Washington Post. Escreveu a introdução a uma edição norte-americana da encíclica Laudato Si’ do papa Francisco sobre mudanças climáticas e desigualdades sociais, publicada no mesmo ano do Acordo de Paris. E é colunista regular da revista Scientific American.

Acaba de sair na colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, com o n.º 236, a edição portuguesa do livro de Naomi Oreskes Porque Confiar na Ciência? (original: Princeton University Press, 2019). A obra contém as Tanner Lectures que a autora proferiu na Universidade de Princeton em 2016. Tem uma introdução de Stephen Macedo, professor de Ciências Políticas em Princeton, e um conjunto de quatro textos de reflexão crítica de vários autores suscitada pelas palestras de Oreskes. No final, a autora responde a todos, num esforço de síntese, actualizando num posfácio alguns dos seus argumentos. A tradução, muito competente, é de Maria de Fátima Carmo e eu próprio fiz a revisão científica, que foi de pouca monta até porque o livro não está escrito numa linguagem especializada: pode ser lido por um leigo em ciência. A obra encerra com numerosas notas e uma extensa bibliografia.

Vivemos num mundo em que, apesar dos impressionantes sucessos da ciência, há quem desconfie dela. Quer nas alterações climáticas quer na questão mais recente do Covid-19 são múltiplas as manifestações dos chamados negacionistas, que recusam acreditar nas provas científicas. O astrofísico e comunicador de ciência norte-americano Carl Sagan foi peremptório quando, no seu livro O Mundo Infestado de Demónios. A Ciência como uma Luz na Escuridão (Gradiva, 1998), escreveu: «Criámos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a protecção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criámos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém, mais cedo ou mais tarde, essa mistura inflamável de ignorância e poder vai-nos explodir na cara.»

A mistura inflamável já nos explodiu na cara com Donald Trump, que negava as alterações climáticas (e, baseado nas suas convicções infundadas, retirou o seu país do Acordo de Paris) e alimentou posições também negacionistas sobre a actual pandemia. A sociedade estaria perdida se recusasse quer a ciência das alterações climáticas quer  a ciência das vacinas. Hoje estamos confrontados com questões de vida ou de morte e a morte pode ganhar se a ciência for derrotada.

Naomi Oreskes esteve ligada a Portugal, no ano passado, no Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que apoiou a edição deste livro. Falou nesse âmbito com o bioquímico e comunicador de ciência David Marçal. E vai estar de novo em ligação com o nosso país na apresentação do livro que será no dia  14 de Outubro em Oeiras.

Oreskes começa o livro desta maneira: «Muitas pessoas estão confundidas quanto aos riscos envolvidos na vacinação, às causas das alterações climáticas, o que fazer para permanecer saudável e outras matérias que estão dentro do domínio da ciência. Os imunologistas dizem-nos que as vacinas são geralmente seguras para a maioria das pessoas, já protegeram milhões de pessoas de doenças mortíferas ou que desfiguram, e não provocam autismo. Os físicos atmosféricos dizem-nos que a acumulação de gases com efeito de estufa na atmosfera está a aquecer o planeta e a causar a subida do nível dos mares e de fenómenos meteorológicos extremos. Os dentistas dizem-nos para usarmos fio dental. Mas como é que eles sabem estas coisas? E como sabemos nós que eles não estão errados? Todas estas afirmações são questionadas na imprensa popular e na Internet, por vezes por pessoas que se afirmam cientistas. Poderemos encontrar um caminho nestas afirmações contraditórias?»

 Mais adiante, acrescenta: «A ideia de que a ciência deveria ser a nossa fonte dominante de autoridade acerca de assuntos empíricos — acerca de questões de facto — prevaleceu nos países ocidentais desde o Iluminismo, mas já não pode ser aceite sem argumentação. Devemos confiar na ciência? Em caso afirmativo, porquê e em que medida? A existir, qual é a base certa da confiança na ciência? Trata-se de um problema académico, mas com graves consequências sociais. Se não conseguirmos responder à pergunta ) porque devemos confiar na ciência — ou mesmo se devemos sequer confiar nela —, então teremos poucas hipóteses de convencer os nossos concidadãos, e muito menos os nossos líderes políticos, de que devem vacinar os filhos, usar fio dental e agir no sentido de evitar as alterações climáticas.»

A conclusão final depois de ampla discussão em que apresenta a história, a sociologia e a política da ciência, é que devemos confiar na ciência, embora obviamente de um modo crítico. Escreve a autora: «Há muito que não sabemos, mas isso não é razão para não confiar na ciência quanto às coisas que sabemos. O argumento a favor da confiança na ciência não defende uma confiança cega e total. Defende uma confiança justificada, contra um cepticismo injustificado, nas descobertas dos cientistas nos seus domínios de especialização.»

Oreskes serve-se de exemplos elucidativos. Conta alguns casos em que alguns cientistas fizeram afirmações erradas: a chamada teoria da energia limitada, a rejeição da deriva dos continentes, a eugenia, o controlo hormonal da natalidade e a depressão (em que conta uma história pessoal) e o uso do fio dental. A ciência está longe de ser perfeita — aliás, nenhum empreendimento humano o é. A ciência, por vezes, erra. Mas ela própria tem mecanismos para emendar os erros. Este é um livro essencial para compreender o que é a ciência.

Porque devemos confiar na ciência? A discussão científica a respeito do funcionamento do mundo é eminentemente social: é feito por uma comunidade de especialistas. Ora, a ciência é robusta porque essa comunidade tem métodos para confirmar ou desmentir uma afirmação sobre o mundo. A ciência nunca é o que diz um só cientista ou sequer uma ou duas equipas de cientistas. A ciência é o que acaba por ser sedimentado (para usar uma metáfora da geologia) à medida que o tempo passa e as provas se vão acumulando. Pode ter havido no passado dúvidas sobre os factos fundamentais das alterações climáticas de origem antropogénica, mas hoje já não as há.

Num mundo profundamente influenciado pela ciência, mas onde ainda há tanta gente desconfiada da ciência (o problema em Portugal ainda não é muito grave, mas já surgiram casos que nos deviam preocupar) este é um livro que recomendo. Oreskes lembra-nos a necessidade dos valores que devem informar os cientistas – a ciência deve ser feita com consciência – e diz, convictamente, no final da sua intervenção inicial: «Se não agirmos à luz do nosso conhecimento científico e se ele estiver correcto, as pessoas sofrerão e o mundo ficará diminuído. As provas disso são avassaladoras.» Tem razão.

1 comentário:

  1. Quem tem acesso aos media, colabora nesta imbecilidade, quando coloca como alternativa "democratica" a opinião dum (por vezes imbecil) a uma informação cientifica. Com o Covid os capangas do poder e os lacaios da "informação" fizeram um mau serviço aos cidadãos, misturando ciencia com opiniões, por vezes de imbecis.

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