Começo a ter
dificuldade em destrinçar a esquerda e a direita em Portugal em que são tidos
como progressistas os que mentem em nome
do povo e fascistas os que falam em nome da verdade.
Numa análise digna de
registo, Maria José Morgado, procuradora-geral adjunta do Tribunal da Relação
de Lisboa, diz-nos que “no país
perdeu-se um bocado o sentido de ser de esquerda
ou de direita tendo fazer mais sentido ser honesto. Defender interesses
de transparência e integridade que às vezes não têm a ver ser de esquerda ou de
direita". E prossegue, "haver gente de esquerda que não tem princípios de integridade
e transparência e gente de direita que
tem”.
De forma aleatória,
sem fazer uma análise actualizada da acção dos diversos partidos políticos nos
diversos momentos da vida nacional, votantes há que se limitam a colocar uma
cruzinha no quadrado do respectivo
boletim de voto. Já é altura do cidadão, que Charles Dikens nos disse "ser o homem um animal de hábitos" que, em acrescento meu, cria raízes, fazer uma reflexão (toda a reflexão
deve libertar-se de paixões que a possam deturpar ) sobre esta notícia que pela sua extensão transcrevo
parcialmente (Lusa Jornal, 03/10/2020):
“Vitor Caldeira fez
vários pedidos de audiência a S. Bento, mas o primeiro-ministro não lhe
respondeu.
Assim, para além da
falta do princípio de civismo e de simples educação em responder a quem nos escreve, existe, passo a citar, o “desrespeito pelo presidente do Tribunal de
Contas e da própria instituição” e “falta de cortesia” para com o actual
titular do cargo, por este este ter exercido o cargo de “forma isenta e tecnicamente irrepreensível”
e, apesar disso, não ter sido
reconduzido, mas despedido com um simples telefonema de António Costa.
De facto, como o SOL, apurou, foi pelo telefone que o primeiro-ministro e líder do PS comunicou ao presidente
do Tribunal de Contas que os socialistas não iriam avalisar ao seu nome
para novo mandato no Parlamento.
Como adianta a
referida notícia, “o que é certo é que o Tribunal de Contas arrancou este ano com
auditorias arrasadoras para o poder Central e Local que fizeram correr tinta. Com esta situação, o verniz
estalou entre a entidade liderada por Vitor Caldeira e o Governo.
O SOL apurou, igualmente, que Vítor Caldeira enviou
vários pedidos a S. Bento para ser recebido em audiência formal pelo
primeiro-ministro, mas nunca obteve resposta positiva, etc., etc."
Mas
tanto basta para ficarmos cientes de que a metodologia utilizada para esta
estranha situação ultrapassa os limites
do despedimento de qualquer funcionário público ou mesmo simples empregada doméstica que estão a coberto de serem postos na rua com um simples telefonema.
Como cereja em cima do bolo, em publicação
nas redes sociais, confirmada pelo polígrafo, ressalta o facto de
uma deselegância rancorosa de um "deputado do PS chamar mentecaptos a
juízes do Tribunal de Contas". Este deputado de sua graça, Ascenso Simões, julgará, arregaçando as mangas em atitude provocatória, dar lições de civismo que não cumpre minimamente?
E
é tanto mais estranho num país em que se distribuem condecorações e louvores a tantos medíocres que
curvam a cerviz aos seus superiores de quem esperam favores. Mas já nada me espanta,
outrossim, num país em que ao forte é permitido fazer o que quer e ao fraco exigido o que,
despoticamente, lhe mandam fazer. Como eu escrevi em tempos baseado na minha experiência de vida, quem faz o que
lhe manda o partido é progressista quem faz o que lhe manda a consciência é
reacionário!
Tendo em mente a previsão dos quatro cavaleiros do Apocalipse, anunciando a peste, a guerra, a fome e a morte, hoje encavalitadas na garupa do corona vírus com o freio nos dentes, não deverá este estado de coisas servir de motivo, “per se”, para que os votos não sejam depositados nas urnas como uma coisa que se cumpre levianamente? A perigosidade do mundo actual exige do acto democrático votar após uma reflexão demorada não já apenas de sobrevivência nacional, mas planetária!
Não
deixemos para amanhã o que deve se feito
hoje porque amanhã pode ser tarde. Como
dizia um dos nossos companheiros de café do meu tempo de rapaz, filho de um construtor civil de grandes
cabedais e escassos estudos e ele igualmente, que gostava de falar difícil perante uma assistência de estudante de
ensino superior avisando-os, ainda que na procura das coisas mais corriqueiras
a decidir que o tempo “ruge”!
Ou
seja, o tempo não “ruge”, mas urge, isso sim, em votar em plena consciência para evitar arrependimentos futuros cujos reflexos
incidem sobre o votante de cabeça ao vento levando-o a chorar, mais tarde, sobre o leite por por ele próprio derramado ainda que mesmo em poucas
gotas. Saiba ele assumir a sua responsabilidade não a atirando para cima das
costas dos outros!
2 comentários:
Parece acentuar-se a tendência para pensarmos em abstracto, em detrimento do pensamento das condições concretas da vida e isso pode esvaziar a linguagem, reduzindo-a a jogos inconsequentes de palavras, quando a carne dos interesses é, e não pode deixar de ser, determinante, tanto mais que o império da razão e o império dos valores se miram num espelho de juízos que nem todos conhecem, pelo menos para lá do egoísmo.
Qualquer pessoa normal está dotada da capacidade de fazer juízos de valor, estéticos, éticos, morais, com base numa educação, formação, que todos, de algum modo têm.
O mesmo não acontece com juízos de carácter científico, juízos de ciência, nem com juízos de verdadeiro falso. Estes requerem o domínio de algumas técnicas de pensamento reflexivo intencionalmente dirigido e controlado, que são menos espontâneas e, quanto mais deliberadas, melhor.
Se se pode viver à margem destas tarefas e destas preocupações “científicas”, já estas não deixam de estar no mercado dos valores, que é ou tende a ser “totalizante”, no sentido em que tudo, antes de mais, tem um valor.
Assim, o universo dos valores, inclui a própria razão e as leis da razão. Mas haverá alguma forma de primazia do valor relativamente à razão? Ou vice-versa? Haverá algo que o indivíduo (à luz da razão) julgue, ou deva julgar (são duas situações distintas) um valor, ainda que prejudicial, desvantajoso para si? Qual é, em suma, o critério da razão e o critério do valor? Razoável é o valor, ou o valor é o razoável? Qual tem sido a demanda dos humanos? A razão ou o valor? Mas o que é a razão senão juízo de valor? Haverá algo (de juízo científico) que seja contra o interesse humano?
Por ex., temos todas as razões para sermos bons? Ou para não sermos maus?
Há um problema quando se tem razão para ser mau.
E um problema maior quando se é mau.
Atualmente, parece-me que há mais pessoas empenhadas em coleccionar razões para serem más do que em procurar razões para o não serem. Já nem falo em procurarem razões para serem boas.
O espectro partidário das forças políticas, a meu ver, é um espectro de hordas que continuam a acreditar na posição dominante para disciplinar o “mercado de valores”.
Mas a democracia não pode estar sujeita a isto e tem de, ela própria, exigir o respeito intransigível da razão como critério dos valores.
Obrigado pelo seu comentário que me obrigou a momentos de reflexão que a corrida vertiginosa do tempo subalterniza. Esta é uma ocasião para que essa reflexão assuma o seu verdadeiro e exigente papel."Alea jacta est"!
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