quinta-feira, 15 de outubro de 2020

ELUCUBRAÇÕES NUM PAÍS FUTEBOLIZADO




Breve nota introdutória: Publiquei este "post", aqui no "DRN", no passado dia 05.Abril.2020, que transcrevo com ligeiríssimas alterações:

"Num país, no extremo mais ocidental da Europa, antes da pandemia do "coronavírus” que mudou por completo o “modus vivendi” da população do mundo, os jornais desportivos (e o próprio jornalismo generalista) dedicavam numerosas páginas ao chamado desporto-rei liderando a venda de jornais de todos os  géneros.
Num país em que as “coisas do espírito” são escravizadas pelo ser e endeusadas pelo ter seria bem vinda uma brisa de esperança que arejasse certas mentalidades  subjugadas e enquistadas a  revistas da chamada socialite  sobre questões de transferências faraónicas de futebolistas, de seus casarões luxuosos, de seus bólides topo de gama, de suas namoradas (qual delas a mais bela entre as belas!). etc., etc.
Num país em época de defeso forçado sem “sine die” marcado para o seu término, e em que, ainda sobrevive uma matéria arrogante que diz a um espírito submisso: “Aqui estou, arreda-te para o lado!”   
Num país em que o pensamento reflexivo da Filosofia se debate na escuridão e a ignorância se ilumina com archotes.  
Num país herdeiro de uma época de decadência desportiva romana, sem sequer ter conhecido o apogeu de uma educação helénica integral. 
Num país estupidamente futebolizado em que, porventura, corro risco de todo o apóstata de ser havido como um renegado, por estas minhas elucubrações, ao correr da pena, contra um clubismo exagerado e o ódio entre as claques, apoiando-me na máxima latina “ridendo castigat mores”, faço apelo final ao dito jocoso, de que o homem pode mudar de mulher, de partido, de clube isso é que não jamais em tempo algum. 
Neste “statu quo” virado do avesso é pretendida razão inqualificável para as disciplinas de Humanidades serem parentes pobres dos currículos escolares centrados num mundo cientificado que se encontra, apesar do seu inegável avanço, tolhido de pés e mãos, tal como há milénios atrás, incapaz de combater um vírus que atacou a Humanidade ceifando milhões de vidas. 

Daqui, retiro razão, em momentos de reflexão gerados por me encontrar em clausura entre quatro paredes, qual monge tibetano, para a reprodução de um meu artigo de opinião crítico sobre a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário (Diário de Coimbra, 13/02/2006). Trancrevo-o: 
“Vai para um ano, publiquei neste jornal (13/02/2006) um artigo de opinião em que criticava veementemente a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário. Duas notícias de jornal trouxeram para os media esta temática: Primeira: Um artigo do professor universitário de que ressalto: «Se a filosofia deixar de ensinar nas escolas, a comunidade científica no seu todo fica mais pobre» (Diogo Pires Aurélio, Jornal de Notícias, 19/12/2006). Segunda: Algumas empresas norte-americanas decidiram recrutar para os conselhos de administração quadros com formação superior em filosofia” (Mário Bettencourt Resendes, Diário de Notícias, 04/01/2007). 
Na Grécia Antiga, através da máxima “primum vivere deinde philosophari”, zombavam dos que só sabiam filosofar não sendo capazes de ganhar meios de subsistência. Em nosso tempo, assiste-se à guerrilha institucional entre gigantes do conhecimento científico e luminares de saberes humanísticos. 

Como escreveu Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, festejado autor da bem documentada obra “Da História das Ciências à História do Pensamento” (Pensamento - Editores Livreiros, Lisboa 1988), em meados de 60 do século das luzes, docentes da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências de Paris, preveniam, “ex cathedra”, a família e os interessados que a passagem por um estágio na classe de filosofia representava para os futuros médicos “uma deplorável perda de tempo e de inteligência”.

Em testemunho, ainda, de Georges Gusdorf, um jornalista da radiodifusão foi então perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Com lúcida maturidade cultural, foi-lhe por eles respondido que lhes parecia, pelo menos, impensada.

Ainda segundo este mesmo autor, “os estudantes tinham cem por cento de razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo que existe entre os potentados universitários como no homem da rua”.
Ora, este descabido ataque à própria matriz de todas as ciências é tanto mais insólito porquanto nomes maiores da Ciência contemporânea se têm distinguido no deambular de uma Sabedoria sem fronteiras, v.g. Bertrand Russel e Albert Einstein. Razão de sobra para Georges Gusdorf sentenciar: “O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização ou antes, desorganização do ensino a todos os níveis. Esta desorganização com espaldar no sistema educativo português, em que as reformas curriculares se sucedem em vertiginoso carrossel, tem conduzido à desvalorização da Filosofia e, “ipso facto”, ao desprezo por um importante legado da antiga civilização grega: a do Homem que se questionar e ao mundo que o rodeia, tornando-se, simultaneamente, num processo de realização ética. Desta forma, pondo em causa o generoso papel do conhecimento filosófico como personagem de um processo cultural que abriria espaçosas fronteiras à Ciência hodierna”.
Regressando ao filósofo acima citado, Platão, encontro numa das sua máximas o conselho judicioso, diria mesmo profético: 
“Não espere por uma crise para descobrir o que é realmente importante na sua vida”!

5 comentários:

  1. Estou profundamente focado na área de conhecimento das ciências humanas, sociais e económicas e não me distraio de as referenciar às ciências físicas e biológicas. A filosofia é a razão a laborar no conhecimento da realidade, do que existe, qualquer que seja a forma, incluindo o próprio conhecimento e ela própria, como realidade que é, ainda que não seja material. A filosofia é a razão que descobrimos e buscamos na identificação do domínio do conhecimento com o domínio da realidade (a realidade de cada um nunca será mais ampla do que a que conhece), que nos permite explorar e descobrir e reconhecer a realidade e comunicar representações significativas de factos, e sentenciar como tais (verdadeiros) e emitir juízos de não neutralidade ética, moral, estética, emotiva, sensorial, sobre os mesmos, sem deixar de os explicar, de se explicar, de os justificar e de se justificar. A filosofia é a razão à prova, ou exercida sobre constrangimentos (nem a experiência deve ser um constrangimento para a razão, na medida em que o valor, validade, verdade a extrair da experiência dependem da razão, incluindo a experiência da razão; é a razão que valida a experiência e não esta que valida aquela) e sem as limitações do método científico, designadamente, de objectividade, neutralidade e imparcialidade. A filosofia não é neutra, porque a razão não é neutra. A ciência é neutra porque o método científico é etica e esteticamente neutro.
    A propósito de razão e ter razão, que o tema é inesgotável e fascinante, há inúmeras situações na vida em que ter razão não é algo que tenha ou deva ser outorgado por quem quer que seja.
    Para o filósofo, por exemplo, ter razão não significa ser neutro e objectivo e imparcial relativamente a questões de análise e conhecimento da realidade humana.
    Esse pode ser o condicionalismo do método científico. A ciência perante o holocausto, por ex., age e fala do mesmo modo que age e fala perante a descoberta dos antibióticos ou das vacinas, ou do funcionamento da bomba atómica. O filósofo não. O poeta, o literato, escritor humanista, não.
    E menos ainda os humanos directamente envolvidos e atingidos pelos desastres.
    Há situações em que até um burro, ou uma galinha, ou uma mosca, têm razão.
    E isto não é uma ironia acerca do ser e do ter.
    Há formas de ter que abonam sobre o ser.
    Porque a razão não é neutra.
    A ciência, o método científico, são eticamente neutros, imparciais, objectivos, mas a razão não.
    Há situações em que nós não precisamos de ciência, nem de pensar, para termos razão.
    Quando nos lixam, ou quando tentam lixar-nos, e nem precisamos de exemplificar com actos de guerra, temos razão para muita coisa. O inimigo nunca tem razão.
    Se tivéssemos de ficar à espera da sentença do supremo tribunal para podermos dizer ou fazer o que que quer que fosse, nem precisávamos de existir.
    Mas existem dificuldades em distinguir filosofia de ciência de literatura de poesia e de razão.

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    1. Obrigado pelo seu comentário que apela a uma reflexão numa época de irreflexão.

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  2. "A ciência é neutra porque o método científico é etica e esteticamente neutro."
    "A ciência perante o holocausto, por ex., age e fala do mesmo modo que age e fala perante a descoberta dos antibióticos ou das vacinas, ou do funcionamento da bomba atómica."
    O budismo também faz isso – “dança com judeus e nazis porque uns vêm dos outros”.

    A neutralidade é um colapso, um vazio cheio de todos, no concreto, inoperante. Uma tela branca sem moldura onde tudo é possível.
    Os descafeinados podem tornar-se intragáveis na pureza da sua água suja.

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    1. A neutralidade da ciência não é um ponto fraco nem um defeito ou uma insuficiência da ciência, bem pelo contrário, é uma condição sem a qual o conhecimento ficaria comprometido, quanto à credibilidade e objectividade. Aliás, quando se trata de ciência física dos objectos materiais, a neutralidade não será um problema de maior, porque a determinação e estabelecimento dos factos não dependem muito da neutralidade dos juízos. O problema coloca-se principalmente nas ciências humanas, sociais e económicas, na medida em que aí os factos são actos humanos ou uma sucessão desses actos. Aqui, a neutralidade da ciência pode ser mais difícil de conseguir e o próprio estabelecimento dos factos pode não ser possível. E, sem factos apurados, provados, incontroversos e incontrovertíveis, não pode haver juízo de valor, seja ético, jurídico, moral, estético, económico, que mereça concordância e aceitação.
      A maior parte da história assentou, e ainda assenta, num conjunto de ficções religiosas, crenças, idolatrias, mentiras reiteradas pelos poderes e pelas ideologias de domínio social que, à míngua de investigação e de conhecimento científico, eram impostas por autoridade como factuais e assim cultivadas e admitidas, sob advertência severa de que não poderiam ser postas em causa.
      Assim se prova que se pode viver e construir impérios com base em ficções e mentiras. Mas eu acredito que é preferível viver com base na verdade e, melhor até, sem construir impérios sobre cadáveres de escravos.

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