terça-feira, 4 de março de 2014

“ARROZ DE ENGUIA”

Arroz de coelho em casa de meus pais sempre se chamou “arroz da enguia”.

Isto porque, contava o meu pai: Uma ocasião, era ele rapaz de escola, entrou-lhe, quintal adentro, vindo da casa ao lado, um belo coelho que, de pronto, se anichou num canto, o que tornou fácil e imediata a sua captura.

Viúva e com três rapazes, menores, num tempo em que as mulheres da cidade só tinham habilitações para os trabalhos domésticos, esta minha avó, hábil nos trabalhos de agulha e linhas, vivia com muitas dificuldades, em franco contraste com o desafogo dos vizinhos do lado, gente rica, soberba e distante.

A mãe do meu pai deve ter feito umas reflexões sumárias em torno de temas de ordem social, como desigualdades, justiça e outros afins, e, tomada que foi a sua decisão, olhou em volta, certificando-se da inexistência de terceiros, pegou no bicho, levou-o para dentro de casa e deu-lhe aquele esticão entre pernas e orelhas que nesses tempos toda a gente sabia dar, pois não havia supermercados nem talhos que nos poupassem daquela desagradável operação.

De seguida - contava o meu pai, sorrindo de uma memória antiga - esfolou-o. Não lhe guardou a pele que, como era regra, se punha a secar ao ar, virada do avesso e com sal, até que a levasse o peleiro ou o «ferro-velho», dando por ela umas migalhas que se não deviam nem podiam desperdiçar.

Nesse dia, excepcionalmente, a minha avó abdicou desse pequeno rendimento. Já lhe bastava o ganho, e não era pouco, da parte comestível. Assim, e por razões evidentes, enterrou-a bem fundo num canteiro, o mesmo fazendo às vísceras e à cabeça do animal.

Perder aquela cabeça – lembrava, ainda, o meu pai - foi o que mais lhe custou nesta operação de acautelamento que o bom senso ditava; e ela que gostava tanto daquela carne agarrada aos ossos e dos miolos, que comia no fim, depois de a abrir ao meio com a faca da cozinha. Mas paciência, não se podia ter tudo. Assim, era mais seguro! Esquartejou-o aos pedacinhos, que lavou bem lavados, e fez o refogado. Pô-lo ao lume e escolheu e lavou o arroz...

Quando à tardinha, cheios de fome, os filhos entraram correndo, vindos da escola e das brincadeiras da rua e perguntaram à mãe o que era a comida para o jantar, a minha avó Mariana, sem trejeito que a denunciasse, levantou os olhos azuis da costura e, de agulha na mão, a espetá-la no peito da blusa, num gesto tradicional de quem interrompe o trabalho, respondeu apenas: – Arroz de enguia!

A. Galopim de Carvalho

4 comentários:

Just me disse...

A avó Mariana era uma portuguesa de gema:) mas o golpe que nem toda a gente dava - apesar de saber como - na minha terra era um golpe seco por detrás da cabeça, meio Karaté.

Tá na laethanta saoire thart-Cruáil an tsaoil disse...

fracturar a espinal medula do bicho é fácil

já o papá num sabia matar coelhos à cachaporrada era burguês só apanhava coelho manso que fugia da coelheira do vizinho

era tã pobrezinha que só tinha 3 filhos e não quinou nenhum

uma sorte

ora 1931 - 25 anos 1907 o que dá aí uma avó de 1887 ou cousa que a valha

joão grave....na taberna das tortas a viúva e as filhas faziam mais que qualquer dos salões para artistas e burgueses .....que enxameavam a provincia como monumentos a vícios vários

eram tão pobrezinhos disse...

qu'inté iam à escola
nos idos de 1913 ou 14 um luxo,,,,

3 Filhos era bué disse...

JARDIM DA EUROPA - HÁ QUEM NASÇA NO JARDIM E HÁ QUEM LHE SIRVA DE ADUBO - AGOSTINHO DE CAMPOS 1919
que idade tem? trinta e cinco, senhor -E quantos filhos ?
catorze
14 filhos! Mas se eu lhe der uma ajudante (linha férrea do sul-sueste)
em dez anos serão outros tantos meninos
É uma desgraça para você e para êles com os míseros dezoito vinténs do seu
salário!
Não pobre mulher (dizia o ministro do fomento) do que você precisa é de mais
comboios
-engano, meu senhor ...replicou imediatamente
Enquanto não puder dormir descançada com alguma coisa me hei-de entreter

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...