domingo, 20 de maio de 2012

Há mais bife para além da alcatra


Novo texto de António Mouzinho sobre a sobrevivência do "eduquês" no Mistério da Educação e Ciência, esclarecendo não apenas os professores mas também para o grande público:

Quem não é professor e abordou o texto «Avaliação: funções e práticas 4 — os riscos (sem limite de palavras) ou 'The Rump Steak Strikes Back'» (19 de Maio), poderá ter ficado perplexo: ao que vem tudo isto?

Na verdade, o respeitável Leitor, civil, merece a seguinte explicação:
Em 2010-11 o ministério da Educação, através do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), promoveu uma ação de formação de professores classificadores de exames. Pretendeu informar, com profundidade, quanto aos critérios de classificação dos exames nacionais, uma bolsa nacional de professores classificadores, promovendo a uniformização da atuação, e a justiça do processo.
Os professores consideraram o trabalho interessante, e útil. Foi uma tarefa com caráter prático, bem montada, esclarecedora, facilitadora do trabalho de ver e classificar provas de exame.
Anunciava-se uma 2.ª volta este ano, não presencial. Faz todo o sentido, porque permanentes retoques e aperfeiçoamentos nas Informações de Exame divulgadas no site de GAVE a isso obrigam.
O modelo seria o do e-learning, desta vez. Enfim… é mais barato: sim, senhor.
Ora o que nos esperava em 2012?
Uma armadilha!
Em pleno final de ano letivo, com os professores assoberbados de trabalho, uma ementa de festa de aldeia, com não sei quantos pratos.
Eu discrimino as tarefas (agora não se diz assim: agora diz-se elenco; eu evito a expressão porque faz-me dores nas costas, como quando alanco):
1.    Introdução
2.    Funções da avaliação
3.    O erro na aprendizagem (discussão do risco para professores e alunos da não definição e da não partilha de citérios de avaliação)
4.    Critérios de avaliação
5.    Práticas de avaliação formativa
Intervenção do professor:
Planificação da avaliação
Feedback oral e escrito
Intervenção do aluno:
Coavaliação
Autoavaliação
6.    Classificação de respostas a itens de exame
7.    Avaliação e encerramento da ação
Ora, deste banquete, o que dizer? Várias coisas:
1.º—                      que todos estes assuntos merecem a atenção de professores, são pertinentes, são controversos, merecem reflexão;
2.º—                      que nenhum destes assuntos tem algo, diretamente, a ver com a próxima classificação dos exames nacionais;
3.º—                      que os professores classificadores que aceitaram fazer parte da bolsa nacional o fizeram por puro sentido de serviço público, tendo admitido que não teriam, por isso, qualquer remuneração adicional (ao contrário do que aconteceu num passado mais recente, e noutros menos recentes);
4.º—                      que a altura, em finais de maio, não é — de todo — para estar a limpar este tipo de espingardas: está tudo fulo nas escolas com a intromissão, à beira do final do ano letivo, de generalidades que, apresentadas com outro caráter — que não a obrigatoriedade do quadro de uma ação de formação — levariam a um coro de «não, muito obrigado», «não pode ser», «tenha paciência», ou «volte noutro dia» (melhor dizendo: ano);
5.º—                      que a forma como os pratos são apresentados é digna do mais velho eduquês: construtivismo puro e duro, mal disfarçado aqui e acolá com uns bigodes da R. João das Regras e um chapéu de palha; textozinhos de apoio à Estado Novo de mistura com o eminente Piaget, ensopado nas águas do oceano Atlântico, num texto importado do Brasil; o palavreado meio confuso do costume, arrogante e sem contraditório (contraditório que até poderia ser em Francês, se quisessem: bastaria trocar o suíço Piaget pelo cientista Stanislas Dehaene, com imensa vantagem); as «ciências» da educação sem a neurociência ou a ciência cognitiva; enfim: o paleio de sanzala de gente que sabe muito mais do que aquilo que percebe, fala para o comum dos mortais de cima para baixo, e não admite grandes discussões sem partir a loiça toda, sem anatemizar: que não avalia, na prática, o outro, como diz, em teoria, que ele deve ser avaliado;
6.º—                      que os professores estão a aturar todo este fartote para chegarem à tarefa do ponto 6., a classificação de respostas a itens de exame: é para isso que lá estão, e o resto faz-se em apneia, não vá a carreira ser prejudicada por qualquer coisinha (lamente-se, e entenda-se…);
7.º—                      que a tarefa 5, que remete para 14 de setembro, pressupõe duas coisas, como consta daquele rol que pode ser visto acima: deve ter 1000 a 1500 palavras (o presente texto já conta 690 palavras, e apenas espirrei de alergia!), e deve ser sustentada por uma extensa bibliografia (ahrrrgh!) apresentada no início da ação.
Note-se que tarefas anteriores tinham apresentações bem mais caricatas: pedia-se, na tarefa 2, um comentário (!) de 150 a 200 palavras; na tarefa 3, um texto até 400 palavras. Afinal, o banquete de aldeia anunciado era uma sandes no parque de campismo. Os professores ficaram apoquentados com a exiguidade do espaço? Nã, senhores: ficaram contentes: perceberam que praticamente não teriam de meditar em coisa nenhuma; estavam a ser importunados, mas o caso, em termos de relatórios, não era sombrio, porque os próprios formadores, ao fazerem este tipo de guiões, não estavam a levar nada disto a sério. A reflexão não era para refletir, era para ser despachada!
Quando for grande já não quero ser quero ser arquiteto: quero ser construtivista. Não preciso de falar de modo a que me entendam, e resisto a toda e qualquer tentativa de contestação.
O professor Nuno Crato que se cuide: os ministérios sombra andam aí: They Live!
Respeito, méne!
António Mouzinho

8 comentários:

  1. Exmo Senhor Ministro da Educação:
    Sou Maria da Graça Martins, professora de Matemática da Esc Sec Emídio Navarro de Viseu, onde já tive o gosto e prazer de o convidar e de consigo estar algumas vezes.
    Tenho, desde que o 12º ano existe, corrigido, anualmente, provas de exame: duas excepções apenas, a meu pedido: nos anos em que os meus filhos fizeram exame de matemática do 12º ano. De resto, quer esteja ou não a leccionar aquele ano , tenho sido sempre chamada para as correcções e algumas vezes recursos ( como aconteceu no ano passado).
    No ano lectivo anterior, sem qualquer consulta vi-me com um “contrato” com o ME para corrigir provas por 4 anos. Mas para tal o ME deu-nos uma formação de fraca memória.
    Este ano também fui informada, que teria de efectuar uma Formação. Tive esperança que desta vez fosse mesmo FORMAÇÃO. O que implicaria aprender algo! Ou melhorar!
    Estou em plena formação forçada!
    E o desencanto ( manda a boa educação e bom senso que utilize este termo) está a tender para mais infinito. Um organismo que pertence ao Ministério que Vª Exª coordena / dirige a obrigar os professores a comentar / concordar com textos de duvidoso valor científico. Não fosse ousadia da minha parte, convidá-lo-ia a dar uma vista de olhos por tais textos: o construtivismo no seu melhor! E é o GAVE que o faz! Terei que concluir que todas as conversas que tive o prazer de ter com Vª Exª , ainda quando não ocupava este cargo, todas as intervenções públicas, tanto na TV como em encontros e congressos, todos os textos e livros que escreveu, muito pelo que lutou, estão agora a ser passados para trás das costas e aí vêm, com grande força os teóricos da pedagogia e os ideólogos do “eduques”.
    Sinto-me indignada e não sei se terei coragem/paciência/ disponibilidade mental para prosseguir com tal “Formação”.
    Mas não sou a única! No blog Rerum Natura aparecem dois textos sobre esta mesma formação: nos dias 19 e 20 de Maio.
    Parto do princípio que o sr ministro nunca lerá este meu email. Escrevo-o, no entanto, na esperança de que, quem o ler, alguém do seu gabinete, tenho uns minutos para averiguar toda esta situação que, de certa forma, coloca até o sr Ministro numa posição bastante embaraçosa – como conciliar o que até aqui tem defendido e até lutado, com as teorias que do seu Ministério estão a ser emanadas?
    Atenciosamente,
    Maria da Graça Martins

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  2. Só uma pequena nota: o email que transcrevi no comentário anterior foi enviado ontem para o gabinete do sr Ministro às 16: 37 horas.
    Devia ter logo feito essa referência.
    Maria da Graça

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  3. concordo inteiramente com o texto. lamento só hoje ter tomado conhecimento do mesmo.Tb fui "obrigado" a levar com esse arrazoado de banalidades.
    vítor amado

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  4. Gostaria de partilhar a avaliação (os comentários que fiz a esta dita formação, mas antes gostaria de referir que o GAVE comunicou que, afinal, a bibliografia indicada (incluindo os documentos que sobre os quais tanto se refletiu), afinal não eram os mais adequados nem estavam atualizados.
    "“Do que mais gostou”
    Agradou-me, sem dúvida, a possibilidade de partilhar experiências e reflexões, não relativas aos tópicos da formação, sobejamente conhecidos pelos formandos, mas a discussão que à volta deles se verificou.
    Os "fóruns" foram enormemente dinamizados por alguns formandos que problematizaram, lançaram questões para reflexão e discussão, muitas vezes, anteciparam a síntese que, posteriormente, era apresentada.
    A apresentação de uma sistematização da tarefa, sem que ainda tivesse acabado o tempo para a resolver, o que fez parecer que o documento já estava previamente elaborado, não correspondendo, por isso, a uma verdadeira sistematização das reflexões produzidas. Se era para ser deste modo, apresentassem à cabeça a sistematização e ficaríamos felizes."

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  5. “Do que menos gostou”
    A pouca intervenção da formadora nos "fóruns", limitando-se a ser uma mera espetadora do que se desenvolvia (possivelmente eram estas as ordens que tinha e cumpriu-as) foi um aspeto que me trouxe alguma perplexidade.
    Indubitavelmente, foi-me muito desagradável o momento em que a ação decorreu, sem respeito pelo ritmo e pela quantidade de trabalho de um professor no final do ano letivo- no final de maio, as turmas dos cursos tecnológicos terminam as aulas, as aulas dos anos com exame estão a terminar, portanto, há um conjunto imenso de aspetos que têm de ser finalizados, sistematizados, mesmo em termos de avaliação. Aliás, o desrespeito pelo professor já aconteceu na formação anterior.
    Por outro lado, nunca percebi por que razão somos submetidos a uma formação sobre um tema que nada tem a ver com a classificação de exames (aliás, este aspeto foi o menos trabalhado, porque se andou às voltas com teorias pedagógico-didáticas não consensuais).
    Também não entendi a necessidade de haver um 2º ano de formação (estaremos nós a fazer cadeiras curriculares para nos ser atribuído o grau de mestre em ciências da educação, quem sabe mesmo se o doutoramento?)

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  6. Também sou professora, de Matemática, e estou a fazer a formação para correctores de exames nacionais, para a qual fui convocada.
    Também não percebo porque temos agora que reflectir sobre os diferentes tipos e as diferentes funções da avaliação, nem qual a relação tão próxima destes assuntos com a classificação de exames.
    Sou classificadora de exames há muitos anos, fui supervisora desde o início, voluntariamente,e também já vi recursos várias vezes.
    Ainda me lembro da primeira acção de formação que fiz no GAVE, aquando da introdução da supervisão, onde aprendi realmente alguma coisa e não tive que ler textos,sem relevância directa para a formação em causa, para não dizer pior.
    Se aprender alguma coisa nesta acção será por troca de impressões sobre casos concretos de correcção com os colegas, trocas estas que são vantajosas para todos e que a existência de um forum específico para isso facilita muito.
    Quando vi o que me esperava este ano, só pensei, e acho que não estou sozinha nesta opinião, que o GAVE já não é o que era.

    Filomena Joana

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  7. Depois, continuarei a publicar... Para o prato ser servido frio...

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  8. Caros leitores
    Não tenho a certeza de ter publicado todos os comentários. Se faltar algum, peço muita desculpa e solicito novo envio, caso seja possível.
    Cordialmente,
    Maria Helena Damião

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