sexta-feira, 22 de março de 2019

O fim do liberalismo


Extracto da Introdução de "Por que está a falhar o liberalismo?" de Patrick J. Deneen, que acaba de sair na Gradiva:

Uma filosofia política concebida há 500 anos e implementada com o nascimento dos Estados Unidos há quase 250 anos propunha que a sociedade política poderia assentar numa base diferente. Concebia os seres humanos como indivíduos detentores de direitos que podiam criar e perseguir a sua própria versão da vida boa. As oportunidades de liberdade eram mais proporcionadas por um governo limitado dedicado à «garantia dos direitos», com um sistema económico de mercado livre que dava espaço para a iniciativa e a ambição pessoais. A legitimidade política assentava numa crença partilhada num «contrato social» original que até os recém-chegados podiam subscrever, continuamente ratificado por eleições livres e justas de representantes atentos. O governo limitado, mas eficaz, o Estado de direito, um poder judicial independente, funcionários públicos atentos e eleições livres e justas eram algumas das marcas distintivas desta ordem predominante e visivelmente bem-sucedida.

 Hoje, cerca de 70 por cento dos Americanos acreditam que o seu país está a mover-se na direcção errada, e metade do país pensa que os seus melhores dias já passaram. A maioria pensa que os seus filhos serão menos prósperos e terão menos oportunidades do que as gerações anteriores. Todas as instituições do governo mostram um declínio dos níveis de confiança pública dos cidadãos e o cinismo profundo em relação à política reflecte-se numa revolta em todos os pontos do espectro político contra as elites políticas e económicas. As eleições, outrora vistas como um processo bem orquestrado para conferir legitimidade à democracia liberal, são cada vez mais vistas como prova de um sistema profundamente viciado e corrupto. É para todos evidente que o sistema político está em ruptura e que o tecido social está esgarçado, em particular quando se alarga cada vez mais o fosso entre os ricos e os pobres abandonados, quando há uma divisão cada vez maior entre os fiéis e os seculares e persiste um desacordo profundo sobre o papel da América no mundo. Os americanos ricos continuam a viver em enclaves murados em cidades privilegiadas, enquanto cada vez mais cristãos comparam o nosso tempo ao do fim do Império Romano e ponderam uma retirada fundamental da sociedade americana geral para formas actualizadas de comunidades monásticas beneditinas. Os sinais dos tempos sugerem que há muita coisa que está errada na América. Um coro crescente de vozes até adverte que podemos estar a testemunhar o fim da República actual, com um regime ainda sem nome a ocupar o seu lugar.

Quase todas as promessas feitas pelos arquitectos e criadores do liberalismo foram quebradas. O Estado liberal expande-se e controla quase todos os aspectos da vida, enquanto os cidadãos vêem o governo como um poder distante e incontrolável, um governo que lhes aumenta o sentimento de impotência ao avançar irredutivelmente com o projecto de «globalização». Os únicos direitos que hoje parecem garantidos pertencem aos que têm riqueza e posição suficientes para os protegerem, e a sua autonomia — incluindo direitos de propriedade, o direito de voto e o seu controlo concomitante sobre as instituições representativas, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a segurança na própria residência — é cada vez mais comprometida pela intenção jurídica ou pelo facto consumado tecnológico. A economia favorece uma nova «meritocracia» que perpetua as suas vantagens pela sucessão geracional, reforçada por um sistema educativo que, inexoravelmente, separa os ganhadores dos perdedores. O fosso cada vez maior entre as alegações do liberalismo e a sua realidade lança mais dúvidas sobre essas alegações do que engendra confiança de que o fosso será estreitado.

 O liberalismo falhou — não por ter ficado aquém, mas porque foi fiel a si próprio. Falhou porque foi bem-sucedido. Quando o liberalismo se «tornou mais ele próprio», quando a sua lógica e as  suas contradições internas se tornaram mais evidentes, gerou patologias que são, em simultâneo, deformações das suas alegações e realizações da ideologia liberal. Uma filosofia política que foi lançada para promover maior igualdade, defender um tecido pluralista de diferentes culturas e crenças, proteger a dignidade humana e, obviamente, expandir a liberdade gera, na prática, uma desigualdade gigantesca, impõe a uniformidade e a homogeneidade, promove a degradação material e espiritual e compromete a liberdade. O seu sucesso pode ser avaliado pela realização do oposto daquilo que se acreditava que iria realizar. Em vez de vermos a catástrofe crescente como indício do nosso fracasso em estar à altura dos ideais do liberalismo, devemos ver claramente que as ruínas que produziu são os sinais do seu próprio sucesso. Tentar curar os males do liberalismo aplicando mais medidas liberais é o mesmo que deitar achas para a fogueira. Só aprofundará a nossa crise política, social, económica e moral.

 Este pode ser o momento para mais do que meros remendos institucionais. Se, na verdade, estiver a ocorrer algo de mais fundamental e transformativo do que «política normal», então não estamos apenas no meio de um realinhamento político, caracterizado pelo último estertor de uma velha classe trabalhadora branca e pela fúria de uma juventude afogada em dívidas. Podemos, ao invés, estar a testemunhar um fracasso sistémico crescente, devido à falência da sua filosofia política subjacente, do sistema político que, de uma forma geral, tomámos como garantido. O tecido das crenças que deram origem à experiência constitucional americana de quase 250 anos pode estar a chegar ao fim. Embora alguns dos Pais Fundadores acreditassem ter criado uma «nova ciência da política» que resistiria à tendência inevitável de todos os regimes para a decadência e morte eventual — chegando a comparar a ordem constitucional com um mecanismo de movimento perpétuo à prova da entropia, «uma máquina que se moveria por si mesma» —, deveríamos pensar se a América, em vez de estar nos primeiros tempos da sua vida eterna, não estará a aproximar-se do fim do ciclo natural de corrupção e declínio que limita o tempo de vida de todas as criações humanas. 2

Para os americanos modernos, esta filosofia política tem sido como água para os peixes: um ecossistema político englobante no qual nadavam, sem darem conta da sua existência. O liberalismo é a primeira das três grandes ideologias políticas do mundo moderno, e, com o fim do fascismo e do comunismo, é a única ideologia que ainda se pode dizer viável. Como ideologia, o liberalismo foi a primeira arquitectura política que propôs transformar todos os aspectos da vida para se conformar a um plano político preconcebido. Vivemos numa sociedade e num mundo cada vez mais refeitos à imagem de uma ideologia — os Estados Unidos foram a primeira nação fundada pela adesão explícita à filosofia liberal, cuja cidadania está quase totalmente modelada pelos seus compromissos e pela sua visão.

 No entanto, ao contrário dos regimes claramente autoritários que surgiram baseados nas ideologias do fascismo e do comunismo, o liberalismo é menos visivelmente ideológico e só de forma sub-reptícia refaz o mundo à sua imagem. Em comparação com as ideologias concorrentes, mais cruéis, o liberalismo é mais insidioso: como ideologia, finge-se neutral, não advoga preferências e nega qualquer intenção de moldar as vidas de quem está sob o seu domínio. Insinua-se apelando às liberdades fáceis, às diversões, às atracções da liberdade, do prazer e da riqueza. Faz-se invisível, como um sistema operativo de computador, que passa praticamente despercebido — até ir abaixo. O liberalismo é agora mais visível porque as suas deformações se tornaram demasiado óbvias para serem ignoradas. Como Sócrates nos diz em A República de Platão, a maioria dos seres humanos, quase em toda a parte, está numa caverna, julgando que vê a realidade. O elemento mais insidioso sobre a caverna em que nos encontramos é o facto de as suas paredes serem como os cenários dos filmes antigos, que sugerem vistas aparentemente infindáveis, sem obstáculos ou limites; deste modo, o nosso confinamento continua a ser invisível para nós.

 Das leis de ferro da política, poucas parecem mais inquebráveis do que a definitiva insustentabilidade da ideologia na política. A ideologia falha por duas razões: em primeiro lugar, porque se baseia em falsidades sobre a natureza humana e, por isso, só pode falhar; em segundo, porque, quando essas falsidades se tornam mais evidentes, aumenta o fosso entre aquilo que a ideologia diz e a experiência vivida dos seres humanos sob o seu domínio, até o regime perder a legitimidade. Ou impõe a conformidade a uma mentira que se esforça por defender, ou colapsa quando o desfasamento entre as afirmações e a realidade resulta numa perda total de crença por parte dos cidadãos. Com frequência, uma razão precede a outra.

 Assim, mesmo depois de o liberalismo ter penetrado em quase todas as nações do mundo, a sua visão de liberdade humana parece ser cada vez mais uma afronta do que uma promessa. Longe de celebrar a liberdade utópica no «fim da história» que parecia estar ao alcance após a queda da última ideologia concorrente em 1989, a humanidade fortemente moldada pelo liberalismo sofre hoje as misérias dos seus sucessos. De forma generalizada, vê-se apanhada numa armadilha que ela própria criou, presa no mesmo aparelho que, supostamente, lhe deveria dar uma liberdade pura e completa.

 Podemos ver isto hoje em especial em quatro áreas distintas, mas interligadas, da nossa vida comum: política e governo, economia, educação e ciência e tecnologia. Em cada um destes campos, o liberalismo transformou as instituições humanas em nome da expansão da liberdade e do aumento do nosso domínio e controlo sobre os nossos destinos. E, em cada caso, surgiu uma fúria generalizada e um descontentamento profundo da percepção cada vez maior de que os veículos da nossa libertação se transformaram em celas de ferro do nosso cativeiro.

(...)

Patrick J. Deneen

1 comentário:

  1. Este texto é de grande densidade e propicia reflexões vastas e divergentes. Em alguns aspectos é contraditório. Mas isso é praticamente inevitável, quando se intenta acoplar realidades e conceitos que se cruzam mas não se misturam. Com efeito, as ideologias e as crenças não podem ser culpadas de serem boas e más ao mesmo tempo. Se, por um lado, o liberalismo económico e, por outro, o liberalismo político, funcionaram em determinadas condições históricas e deixaram de funcionar noutras, deve-se lamentar a imprevidência humana em não ter corrigido as agulhas, em não ter percebido que o esquema era o mesmo mas os problemas eram outros.
    Os modelos político-económicos que levam à prosperidade, paradoxalmente, costumam ser os mesmos que precipitam nas crises, levando os mais ingénuos a perguntar por que razão se abandona um modelo que proporcionou tanto progresso.
    As condições alteram-se e isso altera tudo. Se o planeta Terra não sofresse as agressões e desequilíbrios que está a sofrer tão violentamente pela ação do homem focada numa exploração económica desenfreada e devastadora, o liberalismo continuaria a ser muito bom e todos poderíamos acalentar o sonho americano (em vez do pesadelo).
    O pragmatismo de um analfabeto de há cem anos já lhe permitia vaticinar e até antever os limites das realidades e perceber as aberrações a que pode conduzir a liberdade, seja política, seja económica. A liberdade enquanto condição não se reconhece muito no conceito de liberdade, nem este naquela, porque justamente, ela é algo físico, corpóreo, com consequências adjacentes, com externalidades negativas, é ativa, é um agente, é um sujeito que não quer ser objeto. Por exemplo: o que é a liberdade para uma pessoa destituída de poder? E o que é a liberdade para uma pessoa com poder? É igualmente liberdade?

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