terça-feira, 1 de maio de 2018

"Para quê refletir, se temos à mão as receitas e a cartilha da OCDE?"

David Justino, sociólogo, ex-Ministro da Educação e ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, escreveu um artigo para o jornal Público que saiu hoje, dia 1 de Maio, no qual, tal como António Teodoro (ver aqui) demonstra a forte ingerência da Organização para o Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nas políticas e medidas que cabe aos Estados determinar.

Abdicando dessa determinação abdicam da uma parte substancial da sua soberania. Um país democrático tem de cumprir o seu projecto educativo, e, portanto, em circunstância alguma pode submeter-se a programas pré-estabelecidos por entidades externas, no caso, globais, que nem sequer são vocacionadas para a educação. 


Pode atender a orientações de entidades dessa natureza e abrangência que trabalhem em prol da educação (a UNESCO, por exemplo) ponderando em liberdade e no exercício da sua autonomia, o que de facto, convém às das novas gerações, que herança lhes quer deixar.

Lamentavelmente, Portugal, à semelhança de países com um pensamento educativo débil, tem-se deixado enredar nas malhas da OCDE. No momento esta entidade dita, implementa e avalia as grandes áreas do nosso sistema de ensino. O Ministério da Educação acolhe, diligencia e legitima.

Voltando ao artigo de David Justino, intitulado "Neobenaventismo com selo OCDE", em relação a esta matéria específica, a determinado passo diz o seguinte:
"(...) orientação da ação pedagógica para a valorização das competências. Uma vez mais, adotou-se de forma acrítica a cartilha da OCDE atestada pela frequência inusitada com que o sr. Andreas Schleicher e os seus peritos passaram a visitar Portugal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória — aprovado por um mero despacho do secretário de Estado — e as novas orientações curriculares para os ensinos básico e secundário repunham, no fundamental, os princípios do Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais, lançados por Ana Benavente (2001), agora alargados ao ensino secundário. 
Toda a agenda da OCDE foi incorporada nesta mistura entre as visões românticas da educação e as teorias do capital humano orientadas para as respostas educativas às supostas necessidades do mercado. 
A letra e o espírito da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) que era a última réstia de uma visão humanista e personalista da educação foram também pervertidas, não obstante as declarações de fidelidade e intransigência para a sua revisão (...) 
Para quê refletir, se temos à mão as receitas e a cartilha da OCDE? Mesmo de órgãos que deveriam ser independentes e críticos das políticas educativas se ouve o apelo do mercado, quando se defende que a escola não está a ensinar o que a economia precisa, confinando a instituição escolar à produção de mão-de-obra para o mercado de trabalho e rompendo com o desejável equilíbrio entre desenvolvimento pessoal, formação cívica e profissional. 
Surpreendentemente, todas estas alterações foram desencadeadas no final de um ano letivo para se aplicarem de imediato no seguinte. Durante o período de exames e férias lançaram-se os instrumentos fundamentais e lançou-se o desafio às escolas para concretizarem o projeto de gestão flexível do curriculum. 
Como princípio, a devolução do poder às escolas para uma melhor gestão do curriculum, nada tenho a opor. O problema reside na forma como, sem informação nem formação, se lançam professores e escolas numa reforma curricular que deveria ser concebida, planeada e lançada com pelo menos um ano de antecedência. 
Sem qualquer avaliação do que se fez e do que se faz, anuncia-se agora uma nova vaga de normativos, programas e orientações curriculares para serem lançados nos próximos três meses e aplicados no próximo ano letivo, de forma generalizada, a todas as escolas do ensino básico e secundário de todo o país. 
Que avaliação foi feita da experiência em curso? Que ações foram desenvolvidas para conferir à reforma a indispensável sustentabilidade que vá além dos ciclos político-eleitorais? Houve algum esforço de consensualização com as restantes forças partidárias, de forma a garantir a continuidade das alterações? 
As respostas a estas questões são invariavelmente negativas. Tudo é feito de supetão, sem diagnóstico, nem avaliação rigorosa e honesta dos problemas, sem espírito de compromisso, nem planeamento atempado das mudanças que se pretendem introduzir, como atrás afirmámos, sem informação, nem formação. 
Não estranhem que no futuro qualquer outro governo de cor diferente e à semelhança de governos anteriores proceda da mesma forma e retome a sanha reversiva. Tal como agora, os efeitos recairão em cima dos professores e dos alunos, das escolas e dos seus diretores, só porque não conseguiram cumprir a visão iluminada de quem nos desgoverna. 
O que se está a fazer no atual Ministério da Educação não se limita a reverter as políticas do anterior Governo, o seu alcance vai muito para além dele. É um regresso aos últimos anos do século passado e primeiros do atual (...) o indiferentismo perante a submissão à cartilha da OCDE e à evidente instabilidade que se lança sobre as escolas e os contextos de aprendizagem."

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