domingo, 27 de maio de 2018

"LOW COST"



Meu artigo de opinião publicado no “Diário as Beiras”(24/05/2018):
- V. Ex ª tem boa memória, sr. Maia?-
Tenho uma razoável memória.
- Inapreciável bem de que goza!”
(Eça de Queiroz)
Para não ser acusado do crime de plágio, sinalizo o título do pedagógico do artigo titulado “Low Cost” (14/05/2018), da autoria do médico Diogo Cabrita (mais adiante se verá o motivo de eu evocar a sua profissão), em que ele critica a escrita abreviada das mensagens enviadas por telemóvel pelos jovens da geração actual escravizados ao império das novas tecnologias de comunicação.
Por meu lado, temo (embora salvaguardado um possível e catastrófico exagero)  que ao ser perguntado a jovens coisas comezinhas sermos surpreendidos pela resposta: -“Um momento vou ver ao Google!”. Havendo, como tal, necessidade de lhes implantar no cérebro unidades centrais de processamento que preencham o vazio dos respectivos crânios. A época dos cyborgs, mesmo que escondida atrás da porta, deve andar a espreitar a decadência do Saber actual responsável pelo alarme que o prestigiado académico da Universidade de Coimbra, Aníbal Pinto de  Castro, já falecido, lançou, em 2005: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados”.
Num tempo em que esforçados estudiosos do “Mecanismo da Mente”, tomando de empréstimo o título de uma notável obra de Colin Blakemore, valorizam o papel da memória (de triste memória por causa de marrões que decoravam páginas inteiras de manuais escolares sem as entenderem), registada em engramas do córtex cerebral, as Belas-Letras encontram na profissão médica terreno úbere de gente que escreve artigos de opinião de forma que sai da vulgaridade, talvez, por lidarem com o sofrimento humano em que “a doença amplia as dimensões internas do homem” (Charles Lamb).
Falando de escritores médicos. Para além de António Lobo Antunes, que abandonou a profissão de médico, sendo hoje romancista laureado com valiosos prémios literários, ocorrem-me à memória os nomes de Júlio Dinis, Fernando Namora, Abel Salazar (figura multifacetada de outras artes: pintura e escultura) e  Miguel Torga, colho exemplo diferenciado em João Lobo Antunes, professor catedrático de Neurologia, falecido em 2016, diletante com crónicas reunidas em livros em que em belíssimas páginas redigidas com humanismo, elegância e fino recorte literário perpassam a sua vivência profissional da doença e da finitude da vida humana. Por esse facto, dele me tornei leitor, quase diria, compulsivo.
A arte, ou simples exigência em bem escrever, embora dependente da influência dos genes (os irmãos António, João e Nuno Lobo Antunes, disso são exemplo) passa, indubitavelmente, pelo gosto da  leitura de grandes obras literárias, não lidas, en passant, em resumos para desenrascar provas de avaliação com  prosa espartilhada entre linhas previamente definidas. Isto já para não falar de questões respondidas com cruzes, em idos de 52 do século passado, que julgo cunhadas de novidade em Portugal, durante a minha frequência do Curso de Oficiais Milicianos da Arma de Infantaria. Cruzes que hoje, no meio escolar do básico ao universitário, servem para ocultar o cemitério da santa ignorância lançando o rabo do olho ao teste do colega do lado, ou em copianço com sinaléctica de dedos previamente combinada.
Para além da mudança dos tempos e das vontades, como sentenciou Camões, enraízam-se hoje hábitos na juventude escolar nem sempre pelas melhores razões. Por vezes, até, pelas piores razões!

8 comentários:

  1. Este artigo de opinião é muito pertinente e bem escrito, mas para quem o lê de alto a baixo torna-se algo maçudo. Para aligeirar um pouco as profundas reflexões filosófico-literárias de Rui Baptista, eu atrevo-me a avançar, desde já, com um anedota muito engraçada, que me contaram ontem:
    O Primeiro-Ministro do Governo da República Portuguesa, Doutor António Costa, disse, no domingo passado, em pleno Congresso do Partido Socialista, que vai arquitetar, ao longo dos próximos meses, um Projeto Nacional que visa apoiar, com políticas públicas, o repatriamento de todos os jovens, da geração mais bem preparada de sempre, que se viram obrigados a sair do país no período em que Portugal se viu apertado pelo garrote da Troica, do Passos Coelho e do Portas!
    Isto é de partir a rir!
    O Costa nem dinheiro tem para me pagar por inteiro uma mísera mudança de escalão, a que tenho direito há mais de 12 anos, eu que faço parte da geração que teve a segunda melhor preparação, imediatamente abaixo da mais bem preparada de sempre, quanto mais para garantir o regresso feliz dos nossos emigrantes, que se contam por milhões de pessoas!...
    Com esta proposta surpreendente, o Costa alçou-se a verdadeiro HOMEM DE ESTADO!

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  2. O mestre Dju-dschi era, segundo nos contam,
    De jeito calmo, suave e tão modesto
    Que evitava de todo a palavra e o ensinamento
    Pois a palavra é aparência
    E evitá-la era o seu grande intento.
    Quando alguns estudantes, monges e noviças
    O sentido do mundo, o bem supremo
    Com palavras belas e rasgos de iluminação
    Tentavam compreender, guardava ele silêncio,
    Receoso de cometer qualquer excesso.
    Quando junto dele tanto os vaidosos
    Como os sensatos indagavam
    Pelo sentido das velhas escrituras, do Buda,
    Da iluminação, do início e do fim do mundo,
    Guardava sempre o seu silêncio,
    Apenas erguia o dedo, apontava para cima.
    Este dedo calado, para cima apontado,
    Cada vez mais cordial, como a advertir,
    Louvava e punia, ensinava, falava
    Tão certeiro ao coração do mundo, da verdade,
    Até que a simples e lenta elevação do dedo
    Era já entendida, temida e respeitada.

    Hesse, Hermann: “Elogio da Velhice” (Tradução de Paulo Rêgo); págs. 145, 146; Difel; impressão e acabamento - Tipografia Guerra.
    (Prémio Nobel da Literatura – 4ª Edição)

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  3. Concedo sem nada me custar, agradecendo até, a sua chamada de atenção, de que o meu artigo seja "algo maçudo".

    Mas se como escreveu Buffon, "o estilo é o próprio homem", quem o escreveu (moi-même) é de uma geração em que se liam originais dos melhores escritores portugueses, sendo Eça, como já escrevi, várias vezes, meu escritor de mesinha de cabeceira.

    E seu companheiro de jornada, a Ramalhal figura, co-autor em “As Farpas” um estudo dos costumes da época, por mim lidas com devoção apesar dos XX volumes( corrijam-me o número, se errado) dessa obra em que nos deparamos, saídas das suas páginas em nossos dias, com personagens como, por exemplo, o conselheiro Acácio para povoarem a nossa sociedade de políticos que fiéis ao Partido, hoje, continuam a sentar-se “de cócoras em S. Bento” , em crítica mordaz queirosiana.

    E essa influência manifesta-se nos parágrafos extensos da minha escrita qual bota-de-elástico que se recusou em adaptar-se à escrita telegráfica de antigamente e se recusa, hoje, a seguir as abreviaturas das mensagens dos telemóveis, ainda bem mais lacónicas e difíceis de decifrar. Defeito da minha provecta idade? Quem sabe!

    Grato pela auto-crítica a que obrigou, ou mesmo simples desculpa de mau pagador, mas eu fiel a provérbios, como decerto já reparou, acredito que “burro velho não aprende línguas”!

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    1. Por favor, não se martirize mais!
      Quem alguma vez matou, com prazer, a fome de ler nos livros do grande Eça, como é patente no estilo de Vossa Excelência, carregado de uma ironia fina, bem temperada por uns laivos de amargura poética, merece a minha mais elevada consideração e estima!
      Desculpe, mas não me sai da cabeça o António Costa a dizer que, com ele, os nossos emigrantes só não regressam já todos a Portugal se não quiserem!!!
      Portugal é um país, ou é um manicómio?!

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  4. Portugal não é um planeta, é um planetóide.

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  5. Embora mais leitor de prosa do que de poesia (ainda que a poesia seja prosa escrita em sentido subjectivo), foi com grande gosto e recolhimento que li o seu comentário em que transcreve os versos “Elogio à Velhice” que vem bem a propósito numa altura em que temo estarem a avinhar-se épocas da Grécia Antiga em que os velhos e deficientes eram atirados por ravinas abaixo.

    Bem sei, que hoje esse processo é proposto de forma sofisticada como aquela que é discutida hoje na Assembleia da República em que se dirimem razões e desrazões numa altura em que, segundo Simone de Baeauvoir, “a velhice denuncia o fracasso da nossa civilização”, e em que, por seu turno, José Afonso (mais conhecido por Zeca Afonso), com a sensibilidade poética que orientou a sua vida de cidadão da cultura e homem político probo, nos legou esta maravilhosa quadra: ”A velhice não se enjeita/Como o lixo da calçada/País que os velhos enjeita/Não é país, não é nada”!

    Em contrapartida, julgo que na intenção de ganhar votos para as próxima eleições que se avizinham para ter maioria que lhe permita governar sem uma geringonça desconjuntada e a chiar por todos os cantos porque mal oleada, no último Congresso do Parido Socialista dedicou-se António Costa, todo ele, a promessas (haverá sinceridade nelas e realismo no seu cumprimento?) sobre a Juventude Portuguesa longamente aplaudidas por jovens que no futuro tomarão em sua mãos o leme dos destinos deste país onde a falta de emprego os levará a seguir a política como profissão bem remunerada e de longa duração até que reformas chorudas os recompensem, bem melhor que medalhas ou louvores , do serviço a uma pátria que mais do que serviram dela se serviram.

    Agradecendo o seu comentário, em minha possível culpa, concedo que o meu se tenha desviado ou mesmo oposto à intenção com que o escreveu, mas fi-lo, evocando o nosso António Vieira, “no uso da licença e da liberdade de quem não pede favor senão justiça”!

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  6. “Ser poeta é ser mais alto. É ser maior do que os homens...” lá dizia a F. Espanca.
    A velhice não denuncia o fracasso da civilização, denuncia o fracasso de estar vivo. A velhice enjeita o ser humano. É degradante, é exclusiva de almas, obriga o Homem a ajoelhar no mais profundo da sua inconsistência, prepara-o para a morte. O problema maior é não ter a quem reclamar as rugas, o amarrotamento, o botão despregado, a bainha descaída, a cor desbotada, o descosimento das costuras, o rasgão geral na orgânica do fato que comprámos novo. A velhice deita o Homem no lixo. Quem o salvará? Apenas e unicamente todos os velhos que, hoje, ainda são novos. Virtude é compreender antes... (Já o disse.) E não é um salvamento. É um acompanhamento até ao lixo. Merecemos que o façam com alguma pompa, dignidade e circunstância, o que não acontece porque o espelho que nos deram em toda a estúpida educação civilizacional é o de circo, deformado e apalhaçado, com reflexos de auto-engano (se não virmos o Velho, não o sentimos, nem o somos). Livremo-nos do Velho no sempre Novo do espelho. O triste é que para que o Velho seja melhor aceite pela juventude, acriança-se, apatetiza-se, fazendo lembrar o judeu que, em “A lista de Schindler”, dança, qual copo de bêbado, à frente de soldados alemães para que não o matem antes de morrer.

    Dei-me ao trabalho de assistir a todos as individuais votações dos nossos deputados sobre a eutanásia:
    . Concordo, desde que seja suicídio medicamente assistido, isto é, desde que seja o próprio doente a solicitá-la depois de comprovada a irreversibilidade da sua doença, o extremo sofrimento mesmo que tratada a dor severa e a total prostração numa cama no resto da vida, independentemente da idade.
    . Não concordo se revestida de caráter de homicídio, solicitada por outra pessoa que não o doente, mesmo que todas as condições acima descritas se verifiquem. Quem a pratica? Os médicos que concordem com a eutanásia, em livre opção de consciência e não por obrigação do legislador, cumprindo apenas a vontade do paciente, depois de devidamente comprovadas todas as condições de inumana sobrevivência na paciência esgotada do Paciente Inglês.
    Ninguém tem o direito a esta opção a não ser o doente, em plena consciência do seu ato. Não estando consciente, por questões físicas ou mentais, deverá prosseguir com a vida que tiver.

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    1. Agradeço o seu comentário e o sentimento que nele perpassa sobre a polémica da eutanásia. Como compreenderá, e compreendeu decerto, de que me tenho ocupado é de uma prestação de saúde por parte da ADSE que anda, qual borboleta encadeada em rodopio constante em atropelo a direitos dos familiares dos seus associados, Citando de cor o Marquês de Pombal, "cuidemos dos vivos e enterremos os mortos", aquando do Terramoto de Lisboa. De igual modo, entendo que se devam cuidar da saúde dos vivos para lhe dar uma dignidade que não desmereça a sua existência enquanto o problema inexorável da morte se não ponha, como agora se diz, fracturante para a sociedade portuguesa. A recente votação na Assembleia da República assim o demonstrou "quantum satis". Queira desculpar-me este comentário feito "à vol d'oiseau" desmerecedor do seu texto demonstrativo de uma opinião pessoal (?) que respeito como respeito a contrária, em nome da liberdade de expressão sempre louvável porque, como diz a "voz populi" da discussão nasce a luz. Ou devia brotar! Por vezes, da discussão, como ouvi dizer, no meu tempo de rapaz, nasce um olho negro. E é isso que devemos evitar quando se discute o problema da eutanásia!

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