terça-feira, 20 de maio de 2014

Porta Nova (Évora), anos 40 (2)

A primeira parte do texto pode ser encontrada aqui.

            Porta Nova, em começos do século XX, antes da implantação da República.
Pirolito
…E a minha liberdade era a Porta Nova e tudo o que ali se fazia. Era o Café Camões, com bilhares no primeiro andar e esplanada sob a arcada onde, no Verão, podia beber um pirolito refrescado num alguidar com pedras de gelo de uma barra que, a mando de um dos empregados, o “Passarinho”, ia buscar ao Fomento Eborense, um grande armazém de mercearias com “máquina” de fazer gelo. Envolta a barra em serradura e por folhas do “Diário de Notícias”, para que não derretesse, e suspensa por um cordel, era assim, a correr, que percorria a curta distância a vencer.

Propriedade do senhor Simões, o “Olho de Boga”, no dizer alarve da rapaziada, este Café estava ao serviço de uma clientela exclusivamente masculina das classes média e média-alta e, de entre ela, importantes figuras públicas de relevo na vida civil e militar da cidade e muitos lavradores, entre os quais alguns terratenentes, como então se dizia (agrários ou latifundiários, como passou a dizer-se), de grande influência local, inclusivamente, na administração. Uns mais urbanizados no modo de estar, de falar e de vestir, outros mais campaniços, ali compravam ou vendiam toda a cortiça de um montado, a azeitona de um olival, uma manada de éguas ou uma vara de porcos. Entre duas cervejas, combinavam o seguro de uma seara, alugavam uma debulhadora ou uma porção de hectares de terra para cultivar ou criar gado.

Ao lado, no sentido da Rua Ancha (actual rua João de Deus), a “taberna da desgraça”, no dizer da minha mãe, aberta de manhãzinha cedo até à noite cerrada, era frequentada por homens de condição modesta. Espaçosa e mal iluminada, era, sobretudo aos Sábados, ao fim do dia, que se enchia de trabalhadores do campo que vinham à cidade fazer o “avio” para a semana e ali deixavam parte da magra féria, bebendo e cantando para, como alguns diziam, “esquecer a puta da vida”.

Era lá que, de garrafa na mão, ia comprar, uma vez por outra, o vinho ou o vinagre e, nas vésperas de Carnaval, a aguardente para a massa das filhoses e dos pasteis de grão. Paredes meias, a farmácia do Rebocho, um distinto senhor de longas barbas muito brancas, era um mundo de encantos, a começar pelo Tejo, o grande e pachorrento perdigueiro, que eu montava fazendo dele cavalo e de mim cavaleiro. Ficava ali, que tempos, a ver as sanguessugas, sem cabeça nem rabo, encolhendo e esticando, dentro de um grande pote de vidro, cheio de água, bem à vista dos fregueses. Numa secretária, atrás do balcão, o velho boticário virava do avesso os envelopes das cartas recebidas, para os reutilizar.

No laboratório interior, o filho, o senhor Fernando, homem de meia idade, passava grande parte do tempo a manipular hóstias, “papelinhos” de criogenina, pacotinhos de bicarbonato de sódio, de sulfatos, e outros de sais, supositórios à base de manteiga de cacau, enxúndias, pomadas e mais pomadas, xaropes, loções e infusões, segundo as prescrições dos médicos e outras de sua própria experiência. Nos dias de folga, ele e o Tejo eram caçadores. Muito antes das aulas práticas de química que, mais tarde, frequentaria no Liceu, aprendi com ele o nome e a utilidade de alguns dos produtos e dos utensílios comuns à sua profissão e à minha obrigação como aluno de liceu.

À entrada da Rua do Salvador ficava a oficina do meu tio Manuel Almaça. Aqui, além dele, como mestre, trabalhavam, durante todo o ano, um oficial a fazer obra nova em atanado, destinada a uma clientela de homens e mulheres do campo, e um outro só para os concertos, uma solução de tempos difíceis, em que gáspeas, rodelas, tombas, viras, biqueiras, tacões e cardas iam prolongando a vida de botas e sapatos. Este irmão da minha mãe, um artista na arte de trabalhar o cabedal, não tinha aprendiz. Brincando, brincando, aprendi com ele a fazer muito do que ali se fazia e ajudei no que podia a troco de uns magros tostões que ele me dava aos sábados, já noite, depois de engraxar e entregar, sempre a correr, os arranjos em casa dos fregueses. Guardei, desta minha aprendizagem, o som do martelo a bater o couro molhado no grande calhau rolado de quartzito e, sobretudo, os cheiros da água de amolecer a sola, da cola de contacto e o da “massa de sapateiro” que se usava como cola e se fazia em casa, ao lume, com farinha, água e vinagre.

Outro dos meus motivos de interesse na Porta Nova era a venda de hortaliças da minha tia Rosalina, irmã da minha avó materna. Como as mulheres da sua geração, não andara na escola, mas tinha artes de escrita muito dela para lidar com fornecedores, nas quantidades e nos preços, e para garatujar, no livro dos fiados, as dificuldades de muitos dos seus fregueses. Com manufactura de queijo de ovelha no interior da casa, era mãe de três filhas, todas mulheres sem homem, uma solteira, uma viúva e uma divorciada, hábeis neste trabalho todos os anos repetido no tempo dos cordeirinhos. «Faz-se assim», explicava-me uma das primas no dia em que, depois de lavar as mãos muito bem lavadas, tive permissão de me sentar à francela.

A francela é uma espécie de bancada inclinada com rebordo à volta, terminando
numa bica, através da qual se escoa o soro que escorre dos queijos acabados de fazer.

«Fazes uma concha com esta mão que agarra o cincho, assim». E mostrava como se fazia. «Depois», continuava, «vais enchendo a forma com a outra mão, até fazer cogulo. Agora com as duas mãos cruzadas, vais apertando devagarinho e rodando. Deixas escorrer o soro entre os dedos, assim». E mostrava, novamente.

«Para fazer bons queijos tem de se ter mãos frias e magras como as minhas». Acrescentava a prima solteira, magra como um junco. Um neto desta minha tia-avó, dez anos mais velho do que eu, de nome Antunes da Silva (1921-1997), na fotografia abaixo, tornou-se escritor e os livros que escreveu em prosa e em verso reflectem bem a paisagem alentejana e a vida tantas vezes heroica das suas gentes. De vez em quando “ia dentro”. A polícia política vinha buscá-lo e nunca se sabia quando o libertavam.

Duas portas mais acima, o talho do primo Aníbal só vendia carne de peru, mioleiras, fressuras, mão de vaca, dobrada, pezinhos de borrego e outras miudezas. Os talhos da minha infância não serviam frango, galinha ou coelho. Quem quisesse consumi-los, tinha de os comprar vivos e matá-los em casa. «Não podes dizer coitadinho senão o bicho nunca mais morre». Advertia a minha mãe, enquanto matava o coelho, suspenso pelas patas traseiras, com fortes pancadas atrás das orelhas ou, de faca na mão, sangrava a galinha, imobilizada de patas e asas, sob as suas chinelas. Divorciado de uma das filhas da Tia Rosalina, o primo Aníbal, meu parente por afinidade, era ajudado pela mãe, que com ele vivia, uma velha de quem eu não gostava, fria e estranha, sem expressão no rosto, que me metia medo. Nunca lhe vi um sorriso nem lhe ouvi a voz e isso ajudou a minha imaginação de criança a ver nela o que a coitada, seguramente, não era.

 No primeiro andar, sobre o talho deste meu primo estava o consultório do Dr. Mendonça, especialista em doenças pulmonares, com equipamento de Raios X, indicado num painel fixado na sacada, e onde, num tempo em que não havia qualquer apoio social, um infeliz ia “tirar uma chapa” a troco de um dinheirão. Um belo dia, brincando ao agarra (à apanhada, como se diz em Lisboa) no largo, deixei as marcas das mãos sujas de terra na bela e brilhante pintura do seu Chevrolet, coisa rara e de luxo ali estacionada. O importante clínico não gostou do que viu e quase que me ia arrancando a orelha com o prolongado torcegão que lhe deu. «O cabrão há-de pagá-las». Jurei de mim para mim, numa linguagem condizente com a desproporção do castigo. E pagou. No dia seguinte, com um bocado de sola que fui buscar à oficina do meu tio Manuel, a servir de espátula, besuntei com excremento de cão a parte de dentro do manípulo da porta do automóvel que ele teria de abrir quando, findas as consultas, regressasse a casa. Satisfiz assim o meu desejo de vingança, imaginando-o de mãos sujas e malcheirosas.

Bem cheirosa era a drogaria do Lameira, na esquina com a Travessa de Santo André, onde havia de tudo, dos perfumes e sabonetes ao enxofre e ao sulfato para tratar as vinhas, às ferragens, ferramentas e materiais de construção diversos. Era lá que eu ia comprar, a mandado do meu tio, o sal de azedas, os preguinhos e as cardas, as fivelas e ilhoses de diversos feitios e calibres, as caixas da graxa, as colas de contacto, as ceras de encerar as linhas de coser solas e as ceras de brunir viras e tacões. Mais do que as drogas, eram sobretudo as ferramentas, novinhas em folha, expostas numa das duas montras, que me prendiam. Traziam-me à memória o mestre Roberto e o cheiro da madeira.

Paredes meias com o Café Camões, do lado direito, a pequena mercearia do José Romão ficou-me na memória pelo saco de ervilhanas (amendoins), entre outros, bem abertos, colocados à entrada das duas portas. Na boca deste saco estava sempre uma rede de arame ostensivamente ligada a um fio de electricidade, fazendo-nos crer que, se ousássemos meter os dedos para, abusivamente, nos servirmos, corríamos o risco de apanhar um valente choque. «Podes tirar sem medo». Disse-me, um dia, o filho do merceeiro. «É tudo a fingir. A outra ponta do fio está ali, caída no chão, atrás da porta».

A. Galopim de Carvalho

1 comentário:

  1. São tão bonitos estes textos de tempos que não conheci. Conheço a Porta Nova e a Travessa de Santo André. Porém, os estabelecimentos eram já outros

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