sábado, 29 de março de 2014

O LIVRO "O LEITO DE PROCUSTO", A REVISTA KAPA E A DIREITA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA


Por vir referenciado o meu livro “O leito de Procusto: Crónicas Sobre o Sistema Educativo” (Outubro /2005),  num dos primeiros números da Revista Kapa, julgo de interesse explicar a razão da minha escolha deste título reportando-me a excertos da referida obra:

“Em nome de uma pretensa democracia, que anula toda e qualquer diferença e posterga todo e qualquer valor, procedeu-se a uma igualização de indivíduos totalmente diferentes na sua formação académica. No caso dos professores, isto foi conseguido através do ‘Leito de Procusto’, (uma cama de ferro onde o salteador da Àtica atenazava as suas vítimas) havido, em sugestiva alegoria, como toda a regra odiosamente mesquinha ou tirânica.

Ergo, que melhor pia baptismal e nome mais apropriado para titular este livro? Consequentemente, os responsáveis pelas normas estatutárias de uma mesquinha e tirânica carreira docente devem assumir a responsabilidade do mal-estar por parte dos professores habilitados com uma licenciatura universitária serem metidos  no mesmo fato ‘prêt-a- porter’ com  educadores de infância e  professores dos dois primeiros ciclos do ensino básico, de posse de diplomas do ensino politécnico ou nem isso.

Ainda que só em mero raciocínio ‘ab absurdo’. Que diria o leitor no caso de serem incluídos no referido Estatuto da Carreira Docente professores universitários com o mesmo estatuto remunerativo dos professores do 1.º ciclo do básico, por exemplo? Ridículo, não é? Mas não tanto como isso, se tomarmos em linha de conta, sem qualquer espécie de ‘parti pris’ ou desprimor pelos esforçados cabouqueiros do ensino das primeiras letras e,  muito menos, pelos que ascendem à cátedra ‘com sangue, suor e lágrima, que o ‘décalage’ entre determinada matéria  ensinada na universidade e ministrada no ensino secundário é bem menor que a diferença entre o bê-á-bá,   transmitido por um professor do 1.º ciclo do básico,, e a filosofia de Kant, ministrada no ensino secundário.”

Reporto-me, agora, a matéria insita na supracitada Revista Kapa,  transcrita no blog Malomil (!7/01/2014), passando eu a citar parte do  texto que serviu de base à intervenção oral de António Araújo, no Colóquio com o título “O estado das direitas na democracia portuguesa” (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Fevereiro de 2012). Assim:

“Em paralelo, num domínio mais profundo, o dos valores, das representações e das crenças sociais, começa a fazer-se um «ajuste de contas» com os pretensos excessos do PREC. A pedagogia, porque recebe o influxo de alguma obsessão da parentalidade e da preocupação colectiva com as «gerações que estamos a formar», é um dos barómetros mais precisos destas tendências sociais algo larvares ou subterrâneas. Em 1997, Maria Filomena Mónica publica Os Filhos de Rousseau (38). Gabriel Mithá Ribeiro dará à estampa A Pedagogia da Avestruz em 2003. Mais tarde, em 2006, Nuno Crato irá atacar o «eduquês» e a pedagogia romântica. Santana Castilho lançara em 1999 o Manifesto para a Educação em Portugal, Rui Baptista publicará em 2005 o livro O Leito de Procusto: Crónicas sobre o Sistema Educativo e, nesse mesmo ano, David Justino publica No Silêncio somos todos Iguais. A editora Gradiva, de Guilherme Valente (ele próprio, autor de uma obra recente intitulada Os Anos Devastadores do Eduquês, 2012), que publicou os títulos de Nuno Crato e David Justino, deu um importante contributo para um repensar crítico da Educação que ia, de alguma forma, num sentido «correctivo» dos excessos do PREC. É a David Justino que, enquanto Ministro da Educação (2002-2004), se deve a publicitação dos rankings dos estabelecimentos de ensino, os quais geraram polémica em alguns sectores docentes, que os consideraram «elitistas», mas foram acompanhados obsessivamente pelos pais e encarregados de educação, por vezes de forma acrítica, passional e imediatista.”

Em minha opinião, no âmbito do sistema educativo nacional, pasto farto de interesses políticos, os excessos do PREC tiveram o apoio incondicional de um sindicalismo fortemente conotado com o PC, perante a frouxa atitude de uns tantos titulares da 5 de Outubro, em negociações em que foram utilizados o murros em cima da mesa, o silêncio dos mudos ou a linguagem dos tartamudos. Ou seja, diversos ministros da Educação, desses conturbados tempos (e não só!), transigiram com as prepotências de um sindicalismo que proletarizou os docentes e guerreou, a ferro e fogo, a criação de uma Ordem dos Professores (com a ajuda do Partido Socialista e a inoperância do PSD) com o argumento, transcrito de textos da Fenprof, que fazia recair sobre os professores o anátema de não se preocuparem verdadeiramente com questões éticas. Escrevia este central sindical: “O campo de intervenção de uma Ordem restringe-se ao plano das questões ética e deontológicas que não são, para já, questões centrais das preocupações dos professores”.

E era aí, ainda acrescentado, como  se a Fenprof estivesse para isso mandatada, este suculento naco de prosa: “Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaços de análise e discussão das questões da ética e deontologia da profissão”.Argumento paupérrimo, de intervenção em seara alheia com foice desastrosa, que em nada contrapõe o acervo numeroso de textos meus em defesa de uma Ordem dos Professores, v.g., o livro “Do caos à Ordem dos Professores: Crónicas sobre O Sistema Educativo" (Janeiro/2004), artigos de jornal e posts que conheceram a luz do dia neste blogue.

Como se explica, portanto, o facto da Fenprof afirmar, de forma abusiva e generalizada, que os professores não se preocupam, em devido tempo, com questões éticas chamando a si própria essa importante função moralizadora, através de comícios e manifestações ruidosas, às portas das escolas, por vezes, com a presença dos respectivos alunos. Acções que de ética nada possuem por serem pautadas, por vezes, por um comportamento nada digno de aplauso porque, segundo António Nóvoa (1987), “o exercício de uma profissão faz apelos a normas e comportamentos éticos que orientem a prática profissional e as relações tanto entre os próprios práticos como entre estes e os outros actores sociais”? Esta, a questão!

2 comentários:

  1. Um "post" para explicar o título de um livro do próprio autor recorrendo a citações da própria obra, citações essas que, afinal, são de outros. Tudo tomado de empréstimo; nada pensado por si. Tão pobre, tão podre...

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  2. Excluindo a sua respectiva e desatenta interpretação do meu texto, começo por lhe agradecer a leitura pormenorizada, ao que suponho, do meu post , “tão pobre, tão pobre”, em citação minha de palavras suas, que, embora não colhidas, ”ipsis verbis”, do meu texto lhes encontro semelhança com o que escrevi no meu post, acerca da prosa da Fenprof: “Argumento paupérrimo de intervenção em seara alheia com foice desastrosa”!

    Quanto à parte final do meu texto (três derradeiros parágrafos), confesso ter sido pouco pródigo por das 370 palavras nela contidas só me ter referido à Fenprof em 49 palavras citadas (nem meia centena, portanto! ) No mínimo indesculpável para quem mais merecia e não foi devidamente contemplada! “Mea culpa”!

    Acredito que lhe possa ter criado engulhos a citação do meu livro num trabalho de natureza sociológica sobre “A cultura de direita em Portugal” com apresentação de obras de autores que se debruçaram sobre o caos do sistema educativo durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC) em que o sindicalismo da Esquerda, pouco-a-pouco, conseguiu um Estatuto da Carreira Docente que não encontra paralelo noutros países por, qual “Leito de Procusto”, se terem cortado as pernas aos professores mais habilitados e esticado as pernas aos (para utilizar um eufemismo!) aos menos habilitados.

    Foi por este facto, e não, apenas, o receio de não ser do conhecimento geral o significado do título do meu livro ,que transcrevi parte da respectiva introdução, da minha lavra e inteira responsabilidade. Só me faltava, portanto, de ser acusado de plágio da minha própria prosa.

    “Last but not least”, em todo o meu texto citei de, António Nóvoa, que volto a citar por reforçar o papel de comportamentos éticos no exercício da profissão : “O exercício de uma profissão faz apelos a normas e comportamentos éticos que orientem a prática profissional e as relações tanto entre os próprios práticos como entre estes e o outros actores sociais”.

    Com o pedido de desculpas, obrigo-me a transcrever (novamente e intencionalmente) esta doutrina da Fenprof: “Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaços de análise e discussão das questões da ética e deontologia da profissão”.

    Ora, esse espaço tem sido ocupado pelas ordens profissionais, em representação de profissões de interesse público, ao abrigo do próprio Direito Administrativo “com o fim de, por devolução de deveres de do Estado, regular e disciplinar o exercício da respectiva actividade profissional”. Em tempo , o próprio Marçal Grilo, então ministro da Educação , defendia: “A estratégia de Marçal Grilo passa por colocar as ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico” (“Semanário”, Julho/97). Quase dezassete anos são passados, e os professores são tidos como uma espécie de escravos ao serviço dos filhos dos senhores de Roma ou mesmo párias relativamente a brâmanes de outras profissões, de idêntica ou até menor habilitação académica, inscritas em ordens como a dos médicos ou advogados, por exemplo. Ou seja, parafraseando “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”, aos sindicatos o que é dos sindicatos, às ordens profissionais o que é das ordens profissionais! Termino, agradecendo-lhe a oportunidade que me deu em tornar a falar sobre uma Ordem dos Professores que tanto parece desagradar à Fenprof!

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