sexta-feira, 28 de março de 2014

"O Colapso da Escola" visto por uma aluna universitária

A propósito do meu artigo no "Público", "O Colapso da Escola" recebi de uma leitora esta mensagem, que, dado o seu inegável interesse,  transcrevo, com a devida autorização da autora, estudante universitária:

O meu nome é Cláudia, tenho 23 anos e cresci numa aldeia no Distrito de Leiria. No meu primeiro ciclo só havia 7 crianças além de mim, e eu era a única filha de pais não-emigrantes. Durante o meu primeiro ciclo cresci com os meus avós, esses sim, foram emigrantes, e não me tentaram dar tudo. Tentaram apenas que eu aprendesse a ser gente, como é costume dizer-se naquelas terras. Sempre tive o que precisei e soube não pedir, porque tive a consciência dos custos, não só monetários, daquilo a que chamamos Vida. Naquela altura os miúdos eram, na sua maioria, exageradamente mimados. Mas muito menos que hoje em dia.

Quando fui para o segundo ciclo ingressei numa escola católica, pertencente à Diocese Leiria-Fátima, um Colégio privado, aberto a todos os alunos, sem propinas. Sem dúvida a melhor escola da zona, tanto em termos de pessoal docente, como de resultados a nível distrital e nacional e também em termos de segurança. Estive na, considerada na altura, pior turma da escola, os melhores alunos, os mais mal comportados. Para cachopos, tínhamos um nível de arrogância ligeiramente alto, que é pólvora uma vez combinada com a intempestividade marcante dos adolescentes. Hoje em dia, os professores que nos rotularam na altura, consideram-nos "uns anjos". Porque hoje em dia, um aluno de 6º Ano, manda-os ir dar uma volta ao bilhar grande, com um M ou F maiúsculo e um aluno de 9º diz ter falta de força de vontade para estudar, porque, reclama, secundário é obrigatório, mas vai ter de ir para o exército porque senão não tem trabalho. E o pobre coitado ainda ouviu dizer que nem assim.

Houve professores a serem criticados pelos pais das crianças porque deviam dar educação aos meninos na escola. Eu pensava que eles deviam fornecer ferramentas de ensino e aprendizagem, e que os pais é que deviam dar educação.

Há uns anos vi um miúdo a ser arrastado pelo chão num hipermercado. Chorava desalmadamente, a gritar o quão queria o boneco "Action Man", agarrado ao tornozelo da mãe. Entretanto fartou-se, viu que não valia o esforço. Depois, numa loja de produtos eléctricos e electrónicos, assisti a algo, penso eu, preocupante. Um adolescente a chorar e gritar com os pais que queria um "Ipod". O filho vestido com roupas de marca, os pais vestidos pobremente. O filho com um telemóvel topo de gama, os pais a comprar o aquecedor mais barato da loja. Acabaram por fazer um crédito na loja, e o mimalhas foi para casa todo contente.

Actualmente estudo no Ensino Superior na Universidade do Minho, Campus de Braga e posso assegurar-lhe, que já não é só nas escolas básicas e secundárias que tal acontece. Tanto nas salas de aula como nos anfiteatros, nos laboratórios e salas de informática dos mais variados cursos, é possível verificar-se a falta de respeito e indisciplina constante. Qualquer professor, considerado, talvez, menos carismático, consegue ser rapidamente ignorado e trocado por alguma conversa sobre um jogo ou mexerico qualquer. Qualquer aluno pode experimentar levantar a voz e responder sem respeito ou educação, porque muitas vezes a pessoa que apresenta a matéria não se sabe impor; e não se sabe impor porque gosta mais de alunos de mestrado ou doutoramento. Sim, ouvi isso na universidade e, para mim, é compreensível - não porque estão mais crescidos logo têm mais maturidade, mas porque muitos já trabalharam, ou dão o couro para conseguir uma bolsa e então sabem o que é penar para terem o que querem e aí sim ganham maturidade - porque quem sai da licenciatura nem idade para saber cuidar dos filhos tem.

Não sei. Especulo. Penso que a culpa não é só da crise, porque ainda não saímos da crise desde O Magnânimo, mas vai-se vivendo. Penso que a culpa é da crise de valores implantada deliberadamente na sociedade actual, e não só da crise financeira. Penso que os pais querem dar tudo, mas não sabem onde parar. Penso que, realmente há muitas crianças expostas a ambientes degradante, mas que é imoral escolher a quem dar a mão. São crianças, merecem ajuda, educação, comida e amor. São crianças, merecem ser crianças e não expostas aos ambiente sexuais e sexistas constantes, tão promovidos pelos media. São crianças, e os adultos não fazem ideia do que fazer.

Grata, Cláudia

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