terça-feira, 25 de março de 2014

MAIS UMA CAMPANHA DO GOVERNO CONTRA A CIÊNCIA EM PORTUGAL

Mais uma arma de arremesso da vergonhosa da campanha deste governo contra a ciência, para alimentar a narrativa desonesta de que está tudo mal com a ciência em Portugal e de que é preciso acabar com ela. A Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, que não sabe quantificar a fuga de cérebros, produziu um relatório comparativo sobre o impacto da ciência em Portugal e na Europa, sem ter em conta as diferenças de financiamento nos vários países.

De acordo com esse relatório, estaríamos na cauda da Europa no que diz respeito ao impacto da ciência produzida em Portugal, avaliada pelo número de citações médio por artigo científico, que em Portugal é de 5,58 citações por artigo, na UE15 é s 6,29 e na Dinamarca de 8,49.


Gráfico: DGEEC

Como muito bem nota a jornalista Ana Gerschenfeld no PÚBLICO, o investimento na ciência entre Portugal e o da média da UE15 são ainda mais díspares do que o impacto das publicações. No nosso país o investimento na ciência é de 275,9€ por habitante, ao passo que a média da UE15 é de 610€ por habitante. Mais baixo só mesmo na Grécia, que investe na ciência apenas 126€ por habitante.






Dados Eurostat de 2011, excepto Luxemburgo (dados de 2010), valores ajustados em relação à paridade do poder de compra 

Se considerarmos o que custa, por habitante, o impacto médio de cada citação por artigo científico, verificamos que somos dos países em que o impacto sai mais barato: 49,44€ por habitante, praticamente metade da média da UE15. Nós conseguimos que os nossos artigos tenham impacto por pouco dinheiro!




Dados Eurostat e DGEEC

Se fizermos o exercício teórico, de considerar que todos os países manteriam o mesmo impacto na ciência por cada euro investido por habitante, e consideramos que o investimento por habitante para todos os países é igual ao investimento médio da UE15, então este seria o impacto médio (medido em número de citações) de cada artigo publicado:

Dados Eurostat e DGEEC

Ou seja, se Portugal investisse por habitante em ciência o que investem em média os países da UE15, e presumindo que os nossos custos para atingir um determinado impacto se manteriam, seriamos catapultados para um impacto de mais 12 citações por artigo. Curiosamente a Alemanha, obteria um impacto inferior ao da média da UE15, se investisse apenas o que investem em média os países da UE15. Ou seja, o impacto da ciência alemã sai caro! Admito que isto é uma extrapolação grosseira e simplista. Mas não tão grosseira e simplista que não permita concluir que os nossos cientistas produzem um dos impactos científicos mais  low cost da Europa.

O impacto da nossa investigação fica aquém da média europeia por vários motivos. Um, é porque começámos a investir tarde na ciência (apenas há duas décadas) e há um desfasamento entre o momento do investimento e os resultados. Apesar do desinvestimento actual na ciência, estamos agora a colher os frutos dos investimentos feitos nas últimas décadas (por isso, temos investigadores que conseguem ganhar vários milhões em concursos internacionais). Por outro lado, e apesar dos progressos notáveis das últimas décadas, ainda não investimos na ciência tanto como a média dos países da UE.

É necessário continuar a investir na ciência e aumentar, se possível, esse investimento. Os países não investem na ciência porque são ricos. São ricos porque investem na ciência.

Adenda em 27 de Março de 2014: Se dúvidas havia que este relatório é uma arma de arremesso político, elas ficam esclarecidas com as recentes declarações de Nuno Crato:

"Citando o relatório sobre o impacto da produção científica relativo ao ano passado, Nuno Crato disse que os artigos portugueses produzidos entre 2008 e 2012 «têm ainda um impacto inferior à média da União Europeia a 15» em quinze das 22 áreas analisadas."

É preciso, por isso, investir mais na ciência e não menos. Faltou a conclusão.

4 comentários:

  1. Caro David Marçal:
    Mais ou menos o mesmo se pode dizer da Educação.
    Depois de desbravar o caminho e de começar a ter alguns resultados, apesar do enorme atraso que tínhamos, há que fazer marcha a ré a todo o vapor.
    Precisamos é de formar canalizadores, sapateiros, magarefes, eletricistas e pedreiros.
    E de preferência a começarem a treinar bem cedo as suas «vocações» precoces.
    Não há almoços grátis, como se diz na conhecida frase: afinal, tão assanhada luta contra o eduquês por parte de tantos «seminaristas, padres, bispos e cardeais», comandados pelo conhecido Papa anti-eduquês, tinham que produzir efeitos.

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  2. A ver se entendo, o impacto de cada paper é mau porque nós investimos pouco em cada paper? Então devíamos investir mais noutros cientistas, é isso? Como investimos pouco saíram-nos estes baratuchos se fossemos ricos, contratávamos outros cientistas que produzem papers com mais qualidade e tínhamos mais citações.

    A sério? Deixa-me fazer uma pergunta que deve haver mais gente interessada em saber: Estão a confiar o sucesso da luta neste tipo de notícia e neste tipo de análise de dados, ou têm mais qualquer coisa na manga?

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  3. Uma coisa que não concordo com o estudo é (eles) terem usado o número médio de citações.

    Sabemos hoje que a distribuição de citações segue uma lei de potências. Isto significa que o valor médio está a ser dominado por meia dúzia de artigos com elevadissimo número de citações, e portanto na prática estamos a medir o número de citações em artigos altamente citados pelo número total de artigos publicados, e a comparar esses valores.

    Teria sido mais justo terem usado a mediana, por exemplo.

    Fora isso, sim, concordo com a vossa comparação do preço / citação.

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  4. Concordo com a análise do David Marçal e o comentário do Jorge Leitão. Os dados completos, incluindo os números de artigos totais publicados e citados e não citados, a evolução histórica e a comparação com o resto do mundo e ainda com UE-27 estão no relatório anterior (http://www.dgeec.mec.pt/np4/344.html). A evolução histórica mostra que isto esta questão é uma corrida na qual, quando nós melhoramos, os outros também o fazem. Mas isso não é razão para desistir e desinvestir, até porque como mostra o David Marçal, em Portugal fazemos claramente muito melhor que a média para o mesmo dinheiro gasto.

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