sábado, 15 de março de 2014

Além disso, dá música!

Imagem retirada daqui
Só agora encontrei a notícia, mas ela é, tanto quanto percebi, de 2009.

Um dos nossos políticos mais enfáticos, a ocupar, de momento, um dos cargos de maior responsabilidade no país, teceu largados elogios a uma certa empresa portuguesa de espírito particularmente empreendedor, com conveniente ligação a uma universidade.

Alguém nessa empresa teve uma ideia literalmente brilhante, a que se acrescentou uma componente sonante: a postes de iluminação pública acresceu um sistema de video-vigilância com processamento de imagem e ligação directa à polícia. E (maravilha das maravilhas!) transmitem música.

Bom, a asneira poderia ter acabado aqui se a sociedade, em geral, tivesse dado sinais claros de que empresa, universidade e político haviam passado por um momento menos feliz, e tivesse questionado fortemente as suas declarações e intenções e/ou, então, rejeitasse os serviços propostos.

Mas, não aconteceu assim (e nem outra coisa seria de esperar):

1) a comunicação social deu várias notícias, escusando-se de colocar questões éticas, sociais e até legais. Encontrei uma excepção, da TSF, que inclui um apontamento de Clara Guerra, porta-voz da da Comissão Nacional de Protecção de Dados, que se pode ouvir aqui.

2) de imediato empresas e instituições públicas correram a apetrechar-se com esses postes (ver, por exemplo, aqui ou aqui).

Quatro anos depois da apresentação desta "fantástica" inovação, que entre outras vantagens, nas palavras do tal político, "dá bom ambiente", a sua disseminação nos espaços públicos deve ser muito alargada. Quando sair de casa, pense o leitor nela, a captar, silenciosa mas implacavelmente, os seus passos, nocturnos e... diurnos.

Maria Helena Damião

1 comentário:

  1. Quando saio de casa parto sempre do princípio de que estou ou posso estar a ser vigiado em todos os passos e que alguém pode estar a filmar-me, de qualquer lado. Até dentro de casa, não excluo a possibilidade de alguém, polícia, ou não, estar a espiar e a filmar as minhas janelas e a escutar, não apenas os telefones, mas também aquilo que dizemos dentro de paredes. Por exemplo, quando estou num quarto de hotel, ou entro numa casa de banho, ou num daqueles espaços que as lojas de vestuário têm para experimentar as peças, parto sempre do princípio de que pode haver um olho omnipresente, que eu não vejo mas que me vê. É detestável. Não chega a ser paranóico, porque sou suficientemente "insignificante" para terem interesse em darem-me cabo da vida.
    Mas já vi vantagens no controle, por parte da polícia. Por exemplo, muitos dos assaltos que ocorrem nas cidades, até a viaturas com pessoas dentro, que não chegam a ser denunciados pelos lesados, porque pensam que nada adianta, que não têm provas, nem conseguem identificar os assaltantes, são captados pelas câmaras o que permite que a polícia "conheça" as pessoas que andam por ali.

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