terça-feira, 25 de junho de 2013

PSEUDOCIÊNCIA HOJE

Está, desde ontem, com grande destaque no sítio Ciência Hoje um texto acerca de intolerâncias alimentares. Não é uma notícia (não cruza fontes, não tem actualidade, não é objectiva) e também não está claramente identificado como opinião. Considerando que a autora, Paula Henriques, “especialista em nutrição” e responsável de uma clínica que oferece o serviço que é o tema do artigo, somos levados a concluir que é publicidade. Um verdadeiro “product placement” no meio dos artigos do Ciência Hoje.

O texto apregoa os benefícios de um inovador teste (a inovação tem costas largas) que alegadamente permite detectar intolerâncias alimentares. Esta detecção é feita através da colocação de dois eléctrodos nas pontas dos dedos e é designada por biorressonância:
“Esta é uma inovadora técnica através de bioressonância. São enviados estímulos ao cérebro através de dois meridianos ou terminais nervosos situados na ponta de dois dedos e na consequente quantificação da energia de cada alimento, também chamada de frequência vibracional. A análise é repetida da mesma forma, até serem “visitados” os 32 grupos de diagnóstico que englobam os 520 alimentos testados.”
Não há outra maneira de o dizer: isto não significa absolutamente nada. A energia de cada alimento é a contida nas suas ligações químicas, ou seja nos electrões que ligam os vários átomos entre si. É a quebra dessas ligações químicas e a transferência dos respectivos electrões para o oxigénio que permite às células obterem energia para os seus processos. Mas nada disto tem alguma coisa a ver com intolerâncias alimentares. Um electrão é um electrão! Quanto à frequência vibracional também não é para aqui chamada. É verdade que as moléculas podem vibrar se forem sujeitas a radiação de uma determinada frequência. Por exemplo, a molécula de dióxido de carbono vibra quando é irradiada com raios infra-vermelhos de uma determinada frequência. E isso permite quantificar o dióxido de carbono na atmosfera. É até verdade que poderíamos identificar, através de espectroscopia de infra-vermelhos, alguns tipos de alimentos, como por exemplo o álcool ou o vinagre. Agora, frequência vibracional de alimentos, medida na ponta dos dedos, que vai ao cérebro através de meridianos (o que é isso?) não significa absolutamente nada. É simplesmente jargão científico usado para fazer parecer ciência uma coisa que nada tem de científico. Mas, para nos convencer mesmo que a coisa é mesmo séria, até nem falta um gráfico com os resultados de um “teste”:


Como é que sabemos que isto nada tem de científico? Quais são as características da ciência? A ciência assenta nas provas. E quando há provas, demonstrações de que um determinado método de diagnóstico é valido, elas são publicadas em revistas científicas. Outros grupos de investigação podem repetir as experiências e confirmar ou não os resultados obtidos. Tudo isto pode ter falhas, mas se são encontrados erros, corrigem-se. Só depois deste processo é que podemos ter confiança num determinado método de diagnóstico. Que provas a autora do texto do Ciência Hoje apresenta em abono da validação do teste? Artigos científicos publicados de demonstração da validade do método, que se possam encontrar em bases de dados da literatura médica, como o PubMed? Nenhuns. O que apresenta em vez disso? O habitual da pseudociência: argumentos de autoridade.

O primeiro argumento de autoridade é a identificação da própria autora como “especialista em nutrição”. É natural que em determinados contextos as pessoas se apresentem com a sua designação profissional. Como, “olá, eu sou o João e sou pescador”. Já “olá, eu sou o João e sou especialista em pesca” é mais suspeito, já que a designação “especialista” contem em si uma força de autoridade que vai muito para além da mera identificação de actividade profissional ou área de formação. Outra designação deste tipo, muito na moda, é “guru”. Mas estas denominações de autoridade não bastam para validar cientificamente o que se diz. Aliás, não só não bastam como são absolutamente irrelevantes.

A ciência não assenta em figuras de autoridade. Assenta em provas. É uma marca da falsa ciência evocar figuras de autoridade, tais como cientistas da NASA, especialistas ou gurus, em vez de provas. Neste caso, tal como em muitos outros, a figura de autoridade é reforçada pela utilização de linguagem com uma aparente sofisticação científica que, como já vimos, não significa nada. Mas o que seria desta aparente sofisticação científica sem um bonito gráfico? Fazer um gráfico é fácil. Eu por exemplo, apliquei a técnica de biorresonância à detecção de aldrabices pseudo-científicas. Um resultado típico de banha da cobra segue em baixo:
À volta disto, das figuras de autoridade e de linguagem aparentemente científica, podem-se formar grandes comunidades de pessoas que agem como se isto tudo fizesse sentido, o que também serve de argumento de autoridade. Podem-se organizar conferências, encontros, formações, passar certificados e ganhar dinheiro à volta do sexo dos anjos. Nunca faltam testemunhos de clientes satisfeitos e de pessoas a quem a descoberta desta nova coisa mudou a vida. Só que testemunhos, por si só, de nada adiantam. Do ponto de vista científico, para demonstrar a validade de um tratamento ou de um método de diagnóstico, é necessário realizar experiências em condições controladas e que elas sejam confirmadas por grupos independentes. Sem isto, podemos ter o circo que se quiser, que não torna o tratamento ou método de diagnóstico válido.

Infelizmente os testes para detectarem intolerâncias alimentares são um pouco mais complicados do que dois eléctrodos na ponta dos dedos. Normalmente são necessárias análises do sangue para detectar a presença de quantidades anormais de determinadas imunoglobulinas ou testes genéticos para estudar os genes relacionados com intolerâncias alimentares habituais. 

No final do texto, é apresentada uma ligação para uma clínica que comercializa o teste de biorressonância, de cuja equipa a autora faz parte. Se dúvidas havia de que se trata de um texto publicitário, ficam esclarecidas.

Segundo o seu estatuto editorial o “CIÊNCIA HOJE é uma publicação on-line que visa oferecer uma informação completa sobre toda a actividade científica desenvolvida em Portugal e no estrangeiro. Pretende ser um meio de contribuir para a cultura científica nacional, divulgando a investigação de qualidade que se produz no País.”

Este texto não faz nada disso. Promove a ignorância e o obscurantismo e não há nenhum principio de pluralidade jornalística que o justifique. Aliás, do ponto vista jornalístico também falha em toda a linha. Publicar um texto publicitário não identificado como tal é um péssimo principio.

****
NOTA: Entretanto o texto do Ciência Hoje que é aqui referenciado deixou de estar disponível. Seria óptimo que isso significasse que irá haver um melhor critério científico e jornalístico em futuras publicações do Ciência Hoje. As justificações delirantes acerca da bioressonancia podem ser encontradas em muitos outros sítios, como aqui ou aqui.

17 comentários:

  1. David:
    Tens toda a razão em denunciar essa ciência da treta. Fiquei pasmado. Eu abandonei em tempos um "conselho científico" do "Ciência Hoje" porque, tendo chamado a atenção para a divulgação de pseudo-ciência (como a astrologia), o director insistia que o que publicava era ciência. Este caso é dos mais grosseiros que já vi e traduz uma total perda de credibilidade do "pasquim" electrónico em causa. Não percebo bem o que lá estão a fazer dois subdirectores que são cientistas. E temo que haja dinheiros públicos envolvidos nesta bambochata publicitária.
    Abraço
    Carlos Fiolhais

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  2. Deixei de ler o CH a partir do momento em que promoveram como verídico o caso de um indiano que afirmava viver exclusivamente da luz do Sol, uma vigarice muito frequente na Índia e nos circuitos New Age. Mas tarde creio que também deram tempo de antena a "investigadores" cristãos que descobriram a Arca de Noé na Turquia, descobriram quer dizer, redescobriram, porque a caça aos gambuzinos abre todos os anos. Para alguns colaboradores do CH tudo é ciência desde que seja um factóide "fenomenal" e que chame leitores. É uma pena que com isso o nome de outros colaboradores seja também arrastado para a lama. Com um artigo de autopromoção a esta treta pegada o CH está apenas a manter a linha editorial a que nos tem acostumado.

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  3. David,
    mais uma vez impecável a denunciar a pseudo-ciência. Sítios como esses, que se proclamam de "ciência" deixam-me intrigado e apreensivo, porque é visitado pelo público em geral e pelos alunos em particular.
    Se já começamos a informar mal, daqui a uns anos teremos outras concepções alternativas na cabeça dos adultos devido a esta desinformação.
    Porque não falam com os cientistas antes de escreverem o artigo?
    Isso é que não entendo...
    Abraço,
    José Gonçalves

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  4. Eh pá, esses gajos já fizeram um artigo sobre um trabalho meu..Estou lixado, vou ser gozado à grande :)

    Bom artigo, David! Excelente a parte da figura de autoridade !



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  5. Aí está, mais um mito desmascarado!

    Dá um jeitasso que os grandes (enormes) Paladinos da Ciência permaneçam vigilantes e alerta e sempre aguerridos contra a pseudociência (e partilhem a sua imensa sabedoria com o mais comum dos paspalhos sobre as mais recentes e disfarçadas heresias e outras vilanias que tolham os caminhos dos ingénuos incautos).

    as pérolas que se encontram no Rerum Natura

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  6. Já não é a primeira ocasião em que o CH cai neste erro.
    Recordo-me de um outro "artigo", publicado há não muito tempo, que fazia publicidade a uma "inovadora" técnica de implante mamário...dessa vez não era escrito por quem a vendia, mas o dono da única clínica que prestava esse serviço era o único entrevistado e fonte de dados da notícia.
    Pois resulta que a técnica é potencialmente perigosa e está até proibida noutros países europeus...

    Nunca me esquecerei da expressão "mais que clinicamente comprovada"...a senhora que escreveu o texto devia achar que "clinicamente comprovado" é sinónimo de "usado nas clínicas".

    Humor à parte, preocupa-me que tal projecto receba fundos públicos para fazer tão mau serviço à sociedade e à cultura científica.

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  7. Excelente artigo a desmontar de forma clara, de leitura muito simples, mais uma vigarice como o Ciência Hoje tem por mau hábito, mau jornalismo, e ausência de revisão pelo seu adormecido Conselho Científico publicar.

    Sabe-se que este tipo de trapaceiros de feira enganam ainda assim algumas pessoas, mas a vasta maioria que sabe ler Português consegue entender as várias aldrabices usadas.

    O CH tornou-se, de facto, num folheto digital de péssima qualidade, sem qualquer respeito pelos leitores ou pela divulgação das Ciências.

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  8. O texto referido acima já não se encontra disponível no site Ciência Hoje.

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  9. Parabéns David. Na altura alertei o CH, via comentário, e fui insultada.

    Ana

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  10. * em vez de "na altura" leia-se "a certa altura". Por acaso foi no texto do "indiano com o 3o olho fotossintético"...

    É pena q haja uma misturada enorme entre ciência e pseudociência/charlatanice/publicidade. É pena q os critérios jornalisticos se prendam com a quantidade e não com a qualidade ou veracidade - importa captar publico e se o publico gosta de tretas, bora dar-lhes tretas.

    A ciência e os cientistas q nele são referidos acabam por ficar a perder por estarem no mesmo local que tamanha parvoíce.

    Ana

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  11. Vi na internet um site oferecendo biorressonâncias em formato mp3, chamado isotronix, sera que funciona?

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    Bom-dia,
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  14. Para mim o empréstimo entre particular nunca existiu. Mas à força
    de entender falar de certos prestamistas que pareciam-me sérios sobre
    fóruns e blogs a minha escolha dirigiu-se para Pancras Pedrino do qual muito
    falam e após ter-o contactado, saí a cabeça elevada porque tem-me
    atribuído sem preocupações os fundos que sou-lhe pedida. aconselho-os
    fazer a boa escolha para não cair sobre as foices do nítido. Obrigado à todos
    os que testemunham de ele; é uma referência. pode sem temor
    contactá-lo sobre o seu e mail:franciscapedrino@gmail.com

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  15. INCRÍVEL MAS VERDADEIRO
    Sou enfermeira de profissão e após ter-se divorciado com o meu marido solicitei empréstimos junto numerosos de bancos para refazer-me mas rejeitaram-me e decidi encontrar um prestamista específico que poderia fazer-me este empréstimo. Infelizmente para mim, aquando da minha investigação, caí sobre vigaristas que se faziam passar para prestamistas que prometem-me de mim transferem a soma a que queria emprestar (25.000 euros) e enganaram-me qualquer que tinha. Estava sobre o ponto de cometer-me suicídio quando, vi o nosso testemunho de casamento tenho que tivesse falado da minha situação e que mim tem aconselhar um prestamista Específico que pôde fazer-me este empréstimo para mim sair de esta impasse financeiro na qual encontrava-me. Não havia porque procurava este empréstimo desde mais de 2 anos e em 72 Horas, mim pude obter este empréstimo com este Sr. ele concedo empréstimo em todos os domínios. Aconselhar-vos -ia que contactasse-o. É o que salvou-me. Eis o seu endereço enviar por correio eletrónico: roberto.erbetta01@gmail.com

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  16. As ofertas de empréstimo entre particulares existem realmente… que que esteja ou independentemente dos vossos problemas, é um homem de negócios ou uma mulher. Tem necessidade de fundos para começar a vossa limpa empresa ou outro, tem um projeto pelo qual procurava financiamentos; É vista infelizmente recusados dos créditos junto dos bancos para causas diversas. São específicos, honestos e de boa moralidade. Dispõe de um rendimento que pode permitir-vos ocorrer às vossas mensalidades; As mais preocupações sou um particular religioso que dispõe de um capital, mim desejo pôr à vossa disposição sob a forma de empréstimo reembolsável sobre uma duração máxima de 40 anos à uma taxa que vai de 2% de acordo com a soma pedida e a duração de reembolso. Não hesitar mais um só um momento porque não será desilusionada. Se estiver realmente na necessidade, quer escrever-me por email, por whatsapp, ou chamar-me diretamente para fazer o vosso pedido.

    Contacte
    whatsapp: +33 6 44 68 96 12
    Chame telefónico: +33 7 55 23 65 70
    Enviar por correio eletrónico: rolandgidarini@gmail.com

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