sábado, 27 de fevereiro de 2010

PELA CAUSA DA POESIA


Texto recebido da Editora Alma Azul:

A Poesia tem um lugar reduzido nas Livrarias. O seu espaço é cada vez mais consequente com a sua comercialização. Pouca diversidade e reduzidas vendas. E, no entanto, a quantidade de pessoas que quer editar versos é assombrosa. Parece que em Portugal se substitui a leitura de poesia pela escrita de versos.

E faz sentido. Só quem nunca leu Giánnis Ritsos, Paul Celan ou Herberto Helder, para só dar três exemplos, é que pode cair na ilusão de que a Poesia está ao alcance de qualquer um. Que ter jeito para rimas e metáforas é meio caminho para a fama e o Olimpo.

As palavras têm outra casca
lá mais para dentro como as amêndoas
e a paciência.


escreve Giánnis Ritsos, que só descobrimos através da incansável tarefa da leitura e da releitura da Poesia.

A Poesia é, pois, um exercício de leitura difícil mas compensador. Acreditem. Neste século XXI em que julgamos tudo perdido, há pelo menos algo que continua inalterado no valor, na riqueza e no conhecimento do homem e do que o rodeia: a Poesia.

Se sempre - desde a sua fundação - a Poesia foi uma causa da Alma Azul, hoje, pela força das circunstâncias, é a sua principal Causa.

Contra a mediocridade e contra o desalento é altura de regressar à Casa da Poesia, lugar onde - como um dia escreveu Sophia de Mello Breyner - ontem como hoje, (ainda) existe o Esplendor da Linguagem (ler em www.alma-azul.pt)

Elsa Ligeiro

4 comentários:

  1. É por este modo... que se ganha a causa da poesia? JCN

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  2. (... continução)

    Excertos do prólogo de F. D. Ramalho Ortigão ao livro "As Primaveras" de Casimiro de Abreu (5ª edição, 1925; LELO & IRMÃO, Ltd. - Editores):

    "Para ser poeta é preciso ter fé em alguma coisa, disse Garrett, e então consignou em breve termo o aphorismo porque deviam principar todas as artes poeticas.
    Antes de lêr Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux, antes de perguntar á intelligencia se ella póde com o alimento que ha de enrijal-a, antes de a ungir para a lucta com os ungentos da immortalidade, cumpre interrogar o coração, porque é lá que deve existir o principal elemento que constitui os poetas. Revela acreditar seja em que fôr: no heroismo como Homero, na patria como Camões, na gloria como Tasso, na religião como Milton, na duvida como Biron, na liberdade como Hugo, na familia como Lamartine; na vida ou na eternidade: Horacio ou Dante, a realidade ou a visão. Mas cumpre acreditar de dentro e do intimo com uma convicção entranhada e profunda, d'essas que instam, pungem, abalam, decidem, e quando chegam a revelar-se não se traduzem pela palavra, antes pelo grito. Não é placidez oratoria compassando a dicção, aparando o metro, sopesando a figura, joeirando o vocabulo; é o impeto, é o arrobo, é a audacia, palpitando no labio, fuzilando nos olhos, latejando nas fontes. A creacção intellectual póde em tal conjunctura não ser rigorosamente metrica, mas poetica ha de ser por força. E antes isso: antes a poesia sem o verso do que o verso sem a poesia; antes verdadeiro poeta pelo coração do que eximio versejador pela cabeça.
    Casimiro de Abreu, auctor d'este bello livro das Primaveras, que eu acabo de fechar, suscitando-me as refexões que deixo escriptas, é d'ellas o melhor exemplo. Desconhece os segredos da linguagem com que se confeita a pobreza do espirito, não estudou em alheios moldes a forma em que tem que vasar-se a inspiração, não aprendeu a mechanica da palavra nem o contraponto da versificação. Não é um genio desenvolvido nem um grande litterato; é uma grande alma e um grande infeliz. Não verseja, poeta; não canta, suspira, lamenta-se, chora. Diz-nos singelamente o que sente, dá-nos em cada verso um sorriso ou uma lagrima, em cada strophe um pedaço da sua alma, e sem o querer, sem o pensar, talvez, offerece-nos no seu livro das Primaveras, mera colecção de poesias fugitivas, o completo romance d'um coração, um poema inteiro, cujo heroe é o auctor.
    ...
    Se Casimiro d'Abreu alliasse uma educação litteraria á pura sensibilidade da sua alma, á elevação do seu espirito, á clareza do seu criterio, e ao pendor da sua indole profundamente melancholica e scismadora, abalanço-me a dizer que o seu nome seria hoje o do mais perfeito poeta que tem botado a moderna geração litteraria em Portugal e no Brazil.
    Casimiro d'Abreu tem vinte annos! e o seu livro exhala de todas as folhas o perfume suavissimo d'esse madrugar da existencia tão esplendido sempre de luz e de harmonia, d'enthusiasmo e d'amor...
    Oh! dá que eu saude a tua memoria, meu divino rapaz, que tiveste a coragem de o ser, e de tal te prezares n'este seculo em que se finge a duvida, o desalento, e a descrença aos dezoito annos! n'este seculo em que não ha convivas ao alegre banquete da mocidade, porque os imberbes tomam o seu café e palitam os dentes em jejum! n'este seculo em que o espirito impotente tomou por moda descórar os beiços e pintar pés de gallinha ao canto dos olhos!...
    Bem hajas tu, que foste verdadeiramente poeta no meio dos sensaborôes, porque verdadeiramente foste sincero entre os presumidos!"

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  3. A principio este post até parecia interessante.

    Mas ao ler isto:
    "Só quem nunca leu Giánnis Ritsos, Paul Celan ou Herberto Helder, para só dar três exemplos, é que pode cair na ilusão de que a Poesia está ao alcance de qualquer um."
    e isto:
    "... só descobrimos através da incansável tarefa da leitura e da releitura da Poesia."

    Fico a pensar que estão a tomar uma posição demasido extrema na defesa da causa da poesia, ou então este post é mais pela causa da VENDA da poesia do que pela poesia em si.

    Fico triste por ver esta mensagem vir de uma editora, e por o Rerum Natura a ter publicado.

    Por isso, aqui deixo para os "presumidos" senhores da Alma Azul, para o Rerum Natura (que publicou este post) e sobretudo para os leitores deste post, uns excertos do texto que conheço que melhor explica a natureza da poesia.

    (continua ...)

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  4. Na minha opinião o motivo deste post está bem explicito. O objectivo é ler e comprar poesia. Falar sobre ela e valorizá-la.
    Por isso não interessa se a pessoa é poeta, vive apenas da poesia ou é um vendedor de livraria.
    O que interessa é apenas valorizar e compreendê-la. Isso é que é importante.

    Cumprimentos

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