Na China há uma ilha para gatos
provisoriamente desempregados,
isto é, sem casa que lhes dê bons tratos
e os torne bem mais abonados.
É uma linda ideia, esta da China
e não se trata duma chinesice!
Revela sensibilidade fina,
que não é coisa que se desperdice!
O asilo dos gatos não é triste:
eles têm espaço, jardins, casas
e andam sempre de cauda em riste.
Nessa ilha, ninguém os atanaza
e gozam de toda a liberdade,
vivendo felizes como um abade!
Eugénio Lisboa
sábado, 23 de março de 2024
UMA ILHA PARA GATOS
"TRABALHAM SEM DESCANSO E NÃO PEDEM AUMENTO"
Tem 24 anos, é madrilena, gosta de viajar, interessa-se por moda, é uma influencer digital e apresentadora do reality show "Sobreviventes”, valoriza a autenticidade, a empatia e a criatividade, e está preocupada com a sustentabilidade, a diversidade e a inclusão. Marca presença nas redes sociais e tem milhares de seguidores, frequenta eventos e dá entrevistas em que fala de si, da vida e do mundo. É classificável nessa nova categoria designada por "famosos". É uma "famosa"!
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| Imagem colhida aqui |
Num outro registo, a jornalista Natalia Ponjoan ajuda-nos a perceber o produto num artigo, publicado em Dezembro passado, com o significativo título:
La nueva industria de ‘influencers’ virtuales: celebridades que trabajan sin descanso y no piden un aumento. Agencias y grandes tecnológicas crean personalidades digitales con inteligencia artificial para explotar el mercado de la influencia y los famosos.
sexta-feira, 22 de março de 2024
REJEITAR O ÓDIO
"Os judeus de Israel, descendentes das vítimas de um apartheid
denominado ghetto, guetificam os palestinos.
Os judeus que foram
humilhados, desprezados, perseguidos,
humilham, desprezam e perseguem os
palestinianos.
Os judeus, que foram vítimas de uma ordem impiedosa,
impõem sua ordem impiedosa aos palestinianos.
Os judeus, vítimas da
desumanidade,
mostram uma terrível desumanidade."
Edgar Morin, Sami Naïre e Danièle Sallenave, 2002
A frase em epígrafe, que faz parte de um artigo, com mais de vinte anos, publicado no jornal Le Monde, valeu aos seus autores um processo judicial apresentado pela Associação Franco-Israelita, alegando potenciação de racismo. O
processo, que foi arquivado, desencadeou protestos de múltiplas entidades, incluindo algumas de origem judaica.
Dada a minha dificuldade de entender a língua italiana, para ler este último artigo socorri-me de uma tradução que se encontra online, de Luisa Rabolini, na qual fiz ligeiros cortes e adaptações para o português de Portugal.
"Os monstruosos massacres cometidos pelo Hamas contra os judeus israelitas em 7 de outubro causam-me profundo horror. Nada justifica esses ataques fanáticos, muito menos a questão do povo palestiniano, cuja justa causa é dissimulada por esses atos bárbaros. O terrorismo do Hamas ocultou e oculta para muitos o terror de um Estado que respondeu a esses impiedosos fanáticos de forma impiedosa contra dois milhões de habitantes de Gaza, causando já três mil mortes. E como Netanyahu anunciou, isso é apenas o começo.
O ódio não é novo. Mas agora está vindo de ambos os lados. Gera o delírio da culpa coletiva do povo inimigo, que conduz às piores crueldades e aos massacres, atingindo também mulheres, idosos e crianças.
A contextualização dos horrores de 7 de outubro, indispensável para qualquer entendimento, coloca-os, em primeiro lugar, na longa história do povo israelita, vítima milenar do antijudaísmo cristão, depois do antissemitismo racial que visava o seu extermínio, e cuja pátria israelita se viu por muito tempo ameaçada por Estados hostis. Israel não foi um oásis de refúgio, mas uma cidadela em guerra.
Essa história trágica criou a tragédia do povo palestiniano. Depois da Guerra da Independência de Israel (1948), o povo palestiniano foi parcialmente expulso de suas terras e acabou em campos de refugiados no Líbano, na Jordânia e na Cisjordânia, onde ainda está estacionado. Depois da Guerra dos Seis Dias de 1967, toda a Cisjordânia, chamada por Israel Judeia-Samaria, viu-se ocupada e colonizada não apenas por um Estado, mas ainda hoje por centenas de milhares de colonos israelitas.
A consequência do Holocausto, palavra que significa catástrofe, foi a Naqba, palavra palestina com o mesmo significado, que foi de facto a catástrofe da Palestina árabe. Assim como é necessário manter viva a memória dos milhões de vítimas do nazismo, também é necessário o respeito por essa memória que não pode justificar o domínio de Israel sobre o povo palestino, que é inocente em relação aos crimes de Auschwitz. A maldição de Auschwitz deve ser o privilégio que justifica toda repressão israelita?
A colonização da Cisjordânia, que começou precisamente no século da descolonização em África e na Ásia, assemelha-se em muitos aspectos àquelas em que as revoltas e as repressões multiplicaram sangrentos assassinatos de civis entre os opressores e os oprimidos. A diferença não é apenas no agravamento da colonização, mas também no conflito originário entre duas sacralizações antagónicas em relação a Jerusalém e à Palestina (...).
De facto, Israel mudou a condição judaica. A humilhação secular do judeu sem terra, submisso e medroso, deu lugar ao orgulho judaico pelas façanhas militares do povo judaico e pelos empreendimentos agrícolas dos kibutz. Os intelectuais judeus universalistas diminuíram a favor de intelectuais essencialmente sensíveis ao destino de Israel (...). A noção de "confissão israelita", uma pertença puramente religiosa, foi substituída pela noção de povo judeu (...). Esse apego radical, que deve ser compreendido, levou à justificação incondicional de todas as ações de Israel, incluindo a opressão dos palestinos. Os ocidentais, principalmente os europeus, sentindo-se culpados pelas devastações genocidas do antissemitismo, mostraram-se favoráveis à nação judaica.
Israel, filho do antissemitismo europeu e ocidental, tornou-se o posto avançado privilegiado da presença ocidental num perigoso mundo árabe. O recente pró-judaísmo (que reduziu, mas não eliminou o antigo antissemitismo) favorece Israel, enquanto ao mesmo tempo a existência de Israel despertou um imenso anti-judaísmo no mundo árabe-muçulmano (...). Israel obteve a independência graças à vitória sobre os estados árabes que tentavam aniquilá-lo pela raiz e desenvolveu uma força militar superior àquela dos estados vizinhos (...). Impôs-se um Israel imperioso, que ignora inúmeras resoluções da ONU para a criação de um Estado palestino. Houve um momento privilegiado em que Arafat e Rabin apertaram as mãos e foram assinados os acordos de Oslo, que previam os dois estados. Mas o assassinato de Rabin por um fanático judeu e o desaparecimento da esquerda israelita levaram ao domínio de uma congregação nacionalista-religiosa que visa a anexação de toda a Cisjordânia (...).
Nessas condições, é difícil ver a possibilidade de um Estado palestiniano com centenas de milhares de colonos israelitas que lhe são radicalmente hostis e é difícil imaginar que Israel retire seus assentamentos. As perspectivas são sombrias; a violência tende a intensificar-se de ambos os lados, com ataques indiscriminados e repressões em massa igualmente indiscriminadas. As verdades unilaterais triunfam, mascarando as verdades contrárias. Ódios e medos dominam os espíritos.
Não é impossível, mas é duvidoso, que uma ação conjunta das Nações Unidas e dos Estados Ocidentais e árabes possa levar a um resultado decisivo. Não é impossível que o conflito alastre, abrangendo e incendiando uma nação após outra. Há que se temer o pior.
Que pelo menos as nossas mentes possam resistir aos delírios. A nossa missão não é apenas rejeitar o ódio, mas fazer todo o possível para chegar a um início de compreensão mútua, não só entre Israel e Palestina, mas também entre os apoiantes (...) de ambos os povos, sem abandonar ao esquecimento uma causa justa."
quinta-feira, 21 de março de 2024
REFLEXÕES SOBRE A CONTRADIÇÃO
sermos ricos em contradições.
Nietzsche
“Se um homem nunca se contradiz, a razão deve estar no facto de ele virtualmente nunca dizer nada.”
“Em lógica formal, uma contradição é o sinal de uma derrota, mas, na evolução do conhecimento real, marca o primeiro passo no caminho da vitória.”
quarta-feira, 20 de março de 2024
MINHA ENTREVISTA AO CM SOBRE IA
ENTREVISTA QUE DEI A FERNANDA CACHÃO, JORNALISTA DO CM, SOBRE IA
Carlos Fiolhais, Março de 2024
1. FC- Durante a última semana, quantos sistemas de IA fizeram parte do seu quotidiano e em que circunstâncias?
CF- Quando quero usar o meu telemóvel ele reconhece-me graças a tecnologia de IA. Quando pesquiso no Google, é considerada a minha actividade prévia. Um sistema anti-SPAM afasta o correio desejado. Quando vejo o Facebook, a IA escolheu, por mim, a minha selecção de posts. O mesmo quando consulto a Amazon: eles antecipam aquilo que eu quero comprar. Fraudes em compras electrónicas são impedidas por IA. Chego melhor de um sítio a outro usando a IA. Sistemas de IA permitem traduções mais rápidas, assim como correcções ortográficas. E isto sem falar do ChatGPT, que uso pouco, mas que pode dar jeito para uma primeira pesquisa sobre qualquer tema. Portanto, a IA já está há muito nas nossas vidas.
2. FC- Quer explicar o que é um algoritmo e como é que ele impacta na IA?
CF- Um algoritmo é uma sequência de instruções para obter um determinado resultado. Não tem de ser num computador: por exemplo, uma receita de bacalhau à Gomes de Sá. Os programas de computadores são exemplos de algoritmos. A «aprendizagem automática» (machine learning) da IA usa algoritmos. A diferença entre os programas de IA e os tradicionais, é que os primeiros aprendem, isto é, mudam à medida que são usados. Os computadores estão nisso a imitar os seres humanos, embora de forma limitada. Para uma entrada, um certo algoritmo não dá sempre a mesma saída, porque é «plástico». Uma das questões discutidas hoje é a transparência dos algoritmos de IA. Alguns deles são «caixas negras», o que causa desconforto a muitos. Funcionam, mas ninguém sabe muito bem o que lá está dentro. À semelhança do que acontece no cérebro humano, assistimos a decisões automáticas sem conseguir indicar como foram geradas.
3. FC- Quando lê sobre a multiplicidade de
investidores, e sua proveniência, nas empresas de IA, como por exemplo a
OpenAI, o que pensa?
CM- As grandes empresas de IA são as cinco que dominam há anos o mundo informático e a economia mundial: a Microsoft, a Apple, a Amazon, a Alphabet (da Google), a Meta Platforms (do Facebook), todas elas no top 10 das maiores empresas. Há ainda, nesse top, a empresa de hardware NVIDIA, que começou por fazer placas para jogos e agora está lançada na AI com enormes lucros. A OpenAI é nova, está a subir muito, mas pertence em boa parte à Microsoft. Há poucas empresas europeias competitivas em IA e algumas delas funcionam com capital americano (por exemplo, a francesa Mistral). A China é uma outra história, pois tem empresas com domínio ou supervisão estatal. Na IA como noutras áreas há um confronto entre os EUA e a China. As referidas empresas ocidentais, todas elas sedeadas na costa oeste americana, são mais poderosas do que a maioria dos países. Por exemplo, só seis países têm PIB superior ao valor da Microsoft. Nesta era de capitalismo global, há óbvias questões de soberania: o poder deixou de residir apenas nos Estados. Ora estes podem ser democráticos, mas as grandes empresas não são. Têm por meta o maior lucro e não o bem comum. Os Estados, que devem defender o bem comum, estão a responder com atraso às inovações tecnológicas…
FC- Faz sentido criar regras para monitorizar sistemas de IA?
CF- A regulação não só faz sentido, como é essencial. São as próprias empresas que a pedem para poderem jogar dentro das regras. O Presidente Biden assinou em 2023 uma ordem executiva sobre a segurança da IA, protegendo a privacidade e os direitos dos cidadãos. A União Europeia criou uma regulação baseada no tipo de risco. A UNESCO também fez recomendações éticas para a IA. O Papa apelou a que a IA sirva as causas da fraternidade e da paz.
FC - Quais são as principais questões éticas e legais que se colocam
atualmente perante os sistemas de IA?
CF- A tecnologia avança muito mais depressa do que a ética e o direito. Estes vêem-se obrigadas a correr atrás das inovações, por vezes a correr «atrás do prejuízo». A Europa tomou como prioridade a regulação, que é indispensável, aqui como noutros lados. Temos de prestar mais atenção às questões morais e legais, para alinhar os interesses económicos com os valores humanos. Uma coisa é o que se pode fazer e outra, muito diferente, é o que devemos fazer. Temos de evitar os maus usos da IA, proibindo mesmo alguns deles. Entre os perigos está o da quebra de privacidade. Aí, somos cúmplices porque damos os nossos dados em troca de uma suposta gratuitidade. Mas, para mim, o maior perigo é a intoxicação maciça com falsas notícias na Internet, o que não só mina a democracia como pode provocar conflitos. O problema da regulação não é novo: quando foram inventados os carros tivemos de criar códigos para evitar o caos nas estradas. Como é sabido, apesar de todas as normas, de vez em quando há asneiras. Espero que com a IA não haja grandes asneiras. E, se as houver, teremos de aprender com elas. Deverá também haver uma preocupação com a democratização do acesso para que a desigualdade já gritante entre ricos e pobres não cresça.
FC- A IA é com certeza uma oportunidade de desenvolvimento nas mais variadas áreas. Como é que o país se deve posicionar?
CF- A área de IA está em franco progresso, com aplicações como o ChatGPT. As máquinas criam textos, imagens e sons, semelhantes aos das criações humanas. A fronteira entre o real e o virtual está a esbater-se. Há possibilidades enormes e também cuidados a ter. Nesta área, poderíamos mobilizar investigadores para um centro interdisciplinar nacional. Aí teriam lugar pessoas da matemática, da física e da engenharia, mas também das ciências sociais e humanas e das artes. Muitos cientistas estão de costas uns para os outros e há aqui uma possibilidade de trabalho conjunto.
FC - "A inteligência artificial depende de milhões de
microtrabalhadores pobres", disse, recentemente, ao Expresso o
sociólogo Antólio Casilli, que defende que a IA não destrói o emprego, mas
torna-o mais precário informal. Enquanto cientista como interpreta estes
impactos da IA?
CF- É difícil fazer previsões sobre o impacto da IA no emprego. Mas as grandes inovações sempre trouxeram mudanças nas profissões: umas acabaram e outras surgiram. No cômputo geral, não foi mau. Com as máquinas a vapor deixámos de ter necessidade da força animal ou humana. E as profissões passaram a exigir mais qualificações. Agora com a IA, tarefas repetitivas estão a ser feitas automaticamente, ainda que sejam de escritório. Ficarão as profissões mais criativas e que lidem mais com coisas humanas, como a alimentação ou a saúde. Talvez tenhamos menos tempo de trabalho, o que não é necessariamente mau. Casilli levanta um ponto relevante: há uma multidão de operadores humanos, mal pagos, que ajudam no treino de sistemas de IA: por exemplo, confirmam se uma imagem foi bem vista pela máquina. A economia é um domínio da política e, por isso, está para além da ciência e tecnologia.
FC- Na próxima década, quais são as áreas em que a IA deverá ter maior impacto?
CF- O impacto é transversal a várias áreas. Existe grandes potencial na saúde, como diagnósticos automáticos, descoberta de novos fármacos e apoio psicológico. Os serviços de justiça podem ser mais rápidos e mais baratos. A educação vai ser afectada, com os professores, sempre imprescindíveis, a adaptarem-se. Já há e vai haver mais carros com condução autónoma. Serviços como banca, seguros, energia e outros serviços públicos podem ser mais automatizados. Em contraste, as áreas menos afectadas serão aquelas que envolvam mais criatividade humana, como as artes e a diversão. As máquinas não são boas a fazer piadas…
FC- Como imagina a vida dos seus bisnetosCF- Haverá coisas que já começamos a ver hoje, como carros sem condutor, novos diagnósticos médicos e assistentes virtais, etc. A tecnologia continuará a evoluir rapidamente, mas o ser humano é mais lento. Aproveitemos essa lentidão a nosso favor, para fazermos boas escolhas. Os humanos devem fazer escolhas humanas.
FC- Se tivesse de aconselhar uma área profissional de futuro a um
adolescente, o que lhe diria?
OS IMPLANTES CEREBRAIS DE ELON MUSK
Recente entrevista que dei a Luís Francisco do Jornal de Negócios sobre os implantes cerebrais de Elon Musk:
LF- Como analisa o anúncio recente da implantação de um chip no cérebro de um paciente humano?CF- No meu entender, é mais um acto de propaganda de Elon Musk, o excêntrico empresário que tem o título de «homem mais rico do mundo». O indiscutível sucesso de alguns dos seus negócios, como a Tesla e a Space X criou-lhe uma fama, que ele usa, tentando reforçá-la, ao fazer anúncios não justificados. Ele já nos habituou a anúncios grandiosos mas fantasiosos como a colonização de Marte ou a construção de túneis para circulação ultrarápida de carros,
No caso da Neuralink o objectivo último é a implantação de dispositivos no cérebro humano que permitam controlo remoto sem fios. A telepatia no sentido normal de transmissão da mente não existe, mas a ideia dessa empresa é recolher um sinal do cérebro correspondente a uma decisão e transmiti-la, depois de conveniente processamento, por «bluetooth» para um computador. Podia ser uma maneira de tetraplégicos poderem poderem exercer alguma acção. Esta ideia não é nova e até já teve algum êxito- por exemplo , o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que trabalha nos EUA, abriu o Mundial de Futebol de 2014 com um chuto dado por um paraplégico, que foi bastante discutido, dada a publicidade que o próprio procurou. O anúncio recente de Musk não permite, porém, saber o que foi feito de novo: não existe nenhum artigo científico com resultados. Só se sabe que, recebida autorização de autoridades reguladoras, a Neurolink iniciou ensaios em humanos: foi colocado um implante cerebral a uma pessoa com deficiência física profunda e ela estaria bem. E teria conseguido operar num computador sem usar um rato.
Não se sabe praticamente mais nada: que tipo de sinal é recolhido, por exemplo, no cérebro. Aparentemente existem minúsculos eléctrodos que recolhem actividade eléctrica de grupos de neurónios, mas o problema consiste em conseguir relacionar esse sinal com a vontade do indivíduo. Fala-se no uso de técnicas de inteligência artificial (sabe-se que Musk ajudou a fundar a Open AI, do Chat GPT, para criar uma empresa rival, que ainda não produziu nada de muito visível).
A Neurolink tem tido grandes problemas de gestão: por exemplo do grupo de cientistas líderes iniciais já não resta quase nenhum. E há também fortes críticas da opinião pública: por exemplo, defensores dos animais colocaram processos por mau tratamento de porcos e macacos que serviram de cobaias antes dos humanos.
É preciso neste caso saber se estão a ser respeitadas normas éticas - os reguladores deviam ser exigentes - e saber se são usados os mecanismos normais na ciência para apurar a consistência e a novidade. Ninguém sabe o que há de novo ali, O que há certamente é o reforço da fama de Musk. Ele já fez tantas afirmações anti-científicas (por exemplo, no caso da Covid-19) que não dou muito crédito ao que ele diz.
LF- Considera que, de alguma maneira, poderemos estar perante uma daquelas zonas cinzentas em que a ciência e a tecnologia podem colidir com a ética?CF- Sim, claro que estamos numa dessas zonas cinzentas. Experiências biomédicas com humanos estão regulamentadas e é preciso saber se as normas estão a ser respeitadas: se há consentimento informado, se há princípio da precaução (serão os riscos maiores do que os eventuais benefícios?), etc. A ciência e a tecnologia têm de ser feitas em obediência a princípios éticos, que estão naturalmente para além da ciência. A ciência tem de se fazer com consciência e não penso que o «homem mais rico do mundo» seja um bom exemplo do uso da consciência. O modo como ele tem gerido os seus negócios (como mostra a recente aquisição do Twitter, agora X) não abona muito em seu favor. Autoritário e ganancioso, não parece ser uma pessoa em quem se possa confiar. Bem pelo contrário: parece ser capaz das maiores surpresas na sua ânsia de lucro e de fama (as duas coisas vão juntas!). Este tipo de experiências, se oferecem a possibilidade de benefícios para pessoas com graves deficiências, despertam também fantasmas sobre a relação entre os seres humanos e as máquinas.
Trata-se, com a implantação do «chip» no cérebro, de extrair informação automaticamente para melhorar a qualidade de vida de deficientes profundos. Mas o espectro é-nos trazido pela ficção científica: e se a informação for mal usada, permitindo conhecer o «eu» da pessoa em causa?; e se um «chip» puder funcionar para colocar sinais no cérebro, em vez de o extrair?; e se a separação entre os seres humanos e as máquinas for diluída? O respeito pela nossa
Humanidade - o integral respeito por valores humanos como o da individualidade e da liberdade - se não está já em causa agora pode bem vir a estar em causa. E devemos ter todos os cuidados e mais alguns com alguns «admiráveis mundos novos» que nos querem vender. As cautelas nunca fizeram mal, mas a falta de cautela já fez muito mal.
terça-feira, 19 de março de 2024
A RÚSSIA
Fiodor Tiutchev
Eugénio Lisboa
segunda-feira, 18 de março de 2024
MORREU O NUNO
Morreu o Nuno Júdice, coitado,
prematuramente, o que é injusto.
Com aquele seu ar desactivado,
de tímido e esquivo mangusto,
não era pessoa de grandes falas,
antes se recolhia ao silêncio,
deixando, sem muito custo, as galas
e brilhos, a quem fosse mais propêncio.
Os versos que deixa terão destino,
quase de certeza, muito incerto,
como acontece, no desatino,
de um futuro sempre encoberto.
Sublinhe-se a passagem de um poeta,
que foi, aqui, efémero cometa.
Eugénio Lisboa
SOBRE A NECESSIDADE DA UTOPIA
O entrevistador pergunta ao jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano "Ainda existe espaço para a utopia no mundo de hoje?"
sexta-feira, 15 de março de 2024
Como Bola Colorida. A Terra, Património da Humanidade
A Terra tem sido palco de um rol de acontecimentos, não raro surpreendentes: arrefecimento a partir de uma massa ígnea inicial, impacto com outro astro para originar a Lua, quedas de meteoroides, formação dos oceanos, surgimento dos primeiros organismos, início da fotossíntese e oxigenação da atmosfera, proliferação da vida com a «invenção» do sexo, extinções maciças por razões em parte misteriosas, movimentos de placas tectónicas e outros, sismos e vulcões, idades do gelo, e, nos nossos tempos, as transformações de responsabilidade humana que alguns julgam merecer um novo período geológico: o Antropoceno. Se hoje sabemos algumas coisas sobre estes fenómenos foi graças aos esforços de homens e mulheres cujos nomes vêm referidos neste livro.
Se com José Mariano Gago a ciência entrou nas nossas casas, é preciso que ela entre mais e que fique bem instalada. Galopim de Carvalho é um exemplo inspirador de como é possível, com vista a tal desiderato, fazer bem-sucedida divulgação de ciência, num país em que largos sectores são avessos à ciência. São mutilíssimos livros como este que descrevem em linguagem simples o chão que pisamos, o seu início e as suas metamorfoses, as suas riquezas e misérias, os seus encantos e mistérios.
Coimbra, 15 de Dezembro de 2023
terça-feira, 12 de março de 2024
CONSIDERAÇÕES SOBRE O RESULTADO DAS ELEIÇÕES
Que, ao fim de oito anos de desgaste governamental do PS, com tudo quanto de negativo aconteceu, o PSD só tenha conseguido um número de deputados igual ao do PS, mostra a fragilidade do futuro governo e a relativa pouca fé dos eleitores no partido de Montenegro. Isto convocaria, a meu ver, um atitude de adultos da parte tanto do PSD como do PS: esquecerem-se de lutas partidárias e entenderem-se naquelas áreas essenciais ao bem estar do país. Se o não fizerem o descrédito nesta democracia aumentará e o ovo da serpente dará mais filhos.
Eis, em resumo muito resumido, o que penso da situação em que estamos.
Eugénio Lisboa
À ATENÇÃO DOS PROFESSORES DE GEOLOGIA E DEMAIS INTERESSADOS
É esta comunicação, quase diária, aqui iniciada há uns oito anos com os meus leitores, hoje em número que ultrapassa os 35 000, que me encorajam a cumprir como "voluntário à distância", este que encaro como um dever de cidadania.
Em cumprimento do que penso ser um dever cívico de todo aquele que teve o privilégio de estudar a nível superior, pretendo, sobretudo, por esta via, aproximar-me dos professores e professoras que ensinam geologia nas nossas escolas, proporcionando-lhes informação científica actualizada, em estreita ligação a uma componente cultural indispensável a quem tem a nobre missão de ministrar conhecimentos e, ao mesmo tempo, formar cidadãos.
Igualmente em cumprimento do atrás citado dever cívico, procuro, também chegar ao público, em geral (divulgar é espalhar conhecimento entre o vulgo), qualquer que seja a sua posição no tecido sociocultural, facultando-lhe conhecimentos que não tiveram oportunidade de adquirir, aprofundar os que possuem e relembrar os que o tempo apagou ou distorceu.
Com a ressalva de raras excepções, o défice de cultura geológica (e não só) caracteriza a sociedade portuguesa a todos os níveis, dos governantes aos mais humildes cidadãos, dos industriais e comerciantes aos militares e funcionários públicos, dos artistas de todas as artes aos jornalistas, agentes de cultura, “opinion makers” e outros intelectuais, dos juristas e economistas aos jogadores de futebol.
Escrever neste domínio tem sido, pois, uma acção complementar das muitas palestras, lições ou, melhor dizendo, conversas que sempre fiz e que hoje ainda vou fazendo, mais espaçadamente, nas nossas escolas, dos jardins de infância às universidades, em Museus, Centros de Ciência, Bibliotecas Municipais e outras instituições, por todo o País. Acrescente-se que, por frutuosa experiência, em tempo de pandemia, estas conversas continuam, agora, a partir de casa, frente ao computador, utilizando a chamada via zoom.
Numa linguagem figurada, diria que, ao tornar público o que escrevo, seja divulgação, crónica, ficção, ensaio ou opinião, estou a abrir, a todos, a “biblioteca” onde guardo, praticamente intacto e bem catalogado o que estudei e tudo o que a experiência e a vida me ensinaram. Neste tudo, gosto de lembrar os meus difíceis tempos de escola e as minhas sempre interessadamente vividas experiências como aprendiz de muitas artes, numa sociedade ainda muito pouco industrializada e marcadamente artesanal, que foi a da minha infância e primeira adolescência na cidade de Évora. Neste tudo cabem, ainda, já mais crescidinho, as minhas incursões no mundo rural alentejano, sempre curioso na observação e, muitas vezes, experimentação nas múltiplas fainas e onde, no convívio como os camponeses fui, pela primeira vez, confrontado com o drama das desigualdades sociais.
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| Na imagem, a discordância angular da Praia do Telheiro, Vila do Bispo. |
segunda-feira, 11 de março de 2024
A EDUCAÇÃO, BEM COMUM, DIREITO INDIVIDUAL OU SERVIÇO PÚBLICO?
O livro é assim apresentado:
Abordam-se os fundamentos teóricos do debate contemporâneo sobre a educação como "bem público" e "bem comum". Para tanto analisam-se estes dois conceitos e a sua relação com a condição da educação como “direito” e “serviço” num contexto de privatização e mercantilismo crescentes. Reivindica-se a educação como um "bem público e comum", afirmando-se as escolas como as instituições que mais capacidades têm para assegurar direitos e oportunidades para todos.
Deixo, ainda, nota do índice que, por certo, despertará o interesse de alguns leitores:
Presentación. Bianca Thoilliez Ruano, Jesús Manso Ayuso.
1. Lo común como fundamento de una noción de bien compartida: implicaciones educativas. Miriam Prieto Egido, Alberto Sánchez Rojo.
2. Enfoque pedagógico de lo político vs. enfoque político de lo pedagógico Fernando Gil Cantero
3. Bien común y radicalidad educativa. El disenso y la pluralidad educativa como formas de articular la educación pública. David Reyero.
4. El entramado ético-político del proyecto de la educación pública desde las aportaciones de Taylor. Tania Alonso Sainz
5. La educación ensimismada. Por qué una pedagogía orientada a la felicidad y la diversidad privatiza los bienes escolares. Bianca Thoilliez Ruano.
6. La escuela libre no directiva: ni pública ni comunitaria. Ana Irene Pérez Rueda
7. La educación escolar como razón de mercado. Mapeando las racionalidades de gobierno de la escuela pública. Mariano Narodowski, Maria Delfina Campetella.
8. La Nueva Gestión de lo Público en las políticas educativas españolas: desafíos en las definiciones de lo público y lo privado. Marta Moreno Hidalgo, Jesús Manso Ayuso
Epílogo: La escuela, un bien público y común, Esther Díaz Romanillos
Maria Helena Damião
"Novo Liber Amicorum Mário Frota"
Novo Liber Amicorum Mário Frota - Sempre a Causa dos Direitos dos Consumidores, da autoria
de Susana Oliveira e Rui Ataíde, com edição da Almedina, saído em 2023, é como o próprio nome revela, uma homenagem, uma nova homenagem, ao precioso trabalho do Professor Mário Frota no Direito do Consumo.
Consta na nota prévia o seguinte:
"Volvida uma década sobre o primeiro Liber Amicorum Mário Frota, chegou o momento de os amigos, colegas, pupilos, admiradores, colaboradores e seguidores prestarem nova homenagem ao eterno menino de Namibe que ao longo de mais de oito décadas de vida se tornou num dos maiores vultos do Direito do Consumo intra e extra muros. Apresentamos, pois, o Novo Liber Amicorum Mário Frota, porque, como sói dizer, citando Sócrates (leia-se), o filósofo: “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”.
domingo, 10 de março de 2024
MENSAGEM AOS NOSSOS LEITORES
Estimados Leitores do De Rerum Natura.
Recordamos uma passagem do Manifesto
deste blogue (que poderão ler na margem direita do ecrã):
O blog, que partilha o título com o poema de Lucrécio, fala de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza. Parte da realidade do mundo (...) para discutir o empreendimento humano da descoberta do mundo (...) e as profundas implicações que essa descoberta tem para a nossa vida no mundo.
E também o pedido que fazemos quanto aos comentários:
1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.
Quando diversas pessoas pensam sobre as coisas do mundo encontram, muitas vezes, divergências, erros, falhas, equívocos, contradições, enfim... falta de acordo. Isso é fundamental para o evoluir do pensamento, daí que os blogues, por agilizarem a discussão sobre as coisas do mundo, tenham ganhado a importância que se lhes reconhece.
De nada adianta, neste propósito, a divulgação de textos ou comentários anónimos, que não passam de "bocas" capazes de tocar a ofensa pessoal. Nada justifica, num espaço público, a ofensa pessoal.
Assim, pedimos aos Leitores a melhor atenção para esta linha editorial, a qual, devemos dizer, tem sido, por regra, respeitada nos muitos anos que já tem o De Rerum Natura. As excepções (é de excepções que se trata) não podem, pelas razões que explicámos, ser acolhidas.
Muito obrigada
A equipa do De Rerum Natura
FOME DE SAÚDE
Cesáreo era um homem doente
e a doença isola uma pessoa.
Sentia-se anormal e impotente
e o cheiro da doença destoa!
Sonhava com saúde e cheiro bom,
que lhe dessem força e energia.
Queria a vida certa, como um dom,
que lhe trouxesse de novo a alegria!
Por isso, um dia, num verso imortal,
querendo a saúde, para madrinha,
disse que, aromática e normal,
era a mulher que mais lhe convinha.
Não a quis formosa ou sensual,
mas, tão só, aromática e normal.
Eugénio Lisboa
Nem todos os meios são legítimos, mesmo quando as intenções são as melhores
A visita que hoje fiz ao blogue Escola Portuguesa, deixou-me perceber a “existência” de uma tal “maria esperança portugal”, candidata virtual e fictícia (não real) da Federação Nacional da Educação às eleições que se aproximam. Recuperei, a partir desta fonte, informação sobre tal candidatura, anunciada em Dezembro passado (ver aqui, aqui, aqui e aqui) e vi o vídeo que a apresentava e do qual transcrevo o seguinte:
"Como novidade e iniciativa arrojada e criativa, resolvemos até às eleições legislativas ter alguém que dê visibilidade às nossas propostas, àquilo que é uma acção em favor da educação. Esse alguém tem um nome, chama-se “maria esperança portugal”. É uma candidata virtual e fictícia que apresenta uma candidatura também ela virtual e fictícia. É alguém criado através dos meios de inteligência artificial.
Imagem recortada daqui
É “maria” porque é um nome tipicamente português; é uma mulher, porque 80% dos trabalhadores do sector da educação são mulheres, é “maria” também porque é um nome terminado em “ia”, portanto, inteligência artificial; e é alguém que pretendemos que nos traga esperança, e, por isso mesmo, tem como apelido “esperança portugal” (...). Acreditamos que ao longo dos próximos dias vai ser muito útil, vai contribuir muito, através das suas propostas e acções para que a educação possa ser trazida para o debate (…).
A “maria esperança portugal”, à semelhança de qualquer candidato tem um site, materiais de campanha, cartazes, [etc.] espalhados pelo país, vai ter pendões e faixas colocados estrategicamente nas escolas porque é esse o seu espaço de intervenção, irá também realizar através dos diversos sindicatos da FNE reuniões com os trabalhadores que esses sindicatos representam (...). Queremos deixar bem claro que a “maria esperança portugal” não é nenhuma brincadeira, é sim um compromisso com a educação"
Aqui, o apresentador da candidatura dá a palavra à “candidata”, que não vai além de um limitado e muito comum conjunto de vacuidades associadas à educação, das quais o apresentador faz eco. Com um meio tecnológico tão avançado, esperar-se-ia ouvir algo diferente, algo nunca ouvido. Ainda assim, o Secretário-Geral da Internacional da Educação, disse, numa gravação em vídeo:
"(...) estou entusiasmado por apoiar “maria esperança portugal” para “aumentar a consciencialização” acerca dos problemas relativos à educação em Portugal, as aspirações e exigências dos educadores, praticamente ausentes da campanha eleitoral. Ressalta a forma criativa como tal é apresentado."
E não passou deste assinalar de problemas. Numa última tentativa para encontrar alguma "inovação" no modo de os apresentar e discutir, abro este link, que é uma "entrevista" à dita "candidata" feita por uma entidade tão virtual e fictícia como ela. Nada de novo: tudo já dito e repetido centenas, milhares de vezes, em praticamente todas as circunstâncias, por praticamente toda a gente. Declarações em catadupa e atadas, umas à outras, com um nó cego, que me deixam sempre numa posição desconcertante: sim... pois... claro... ainda que... Declarações que não estão certas nem erradas, com as quais não é possível concordar nem discordar...
Deixei para o final a minha interpretação, nada favorável, acerca desta "forma criativa" de chamar a atenção para a "importância da educação":
- substituir-se um professor real, um professor-pessoa (como já se diz), por um simulacro de professor é retirar-lhe pertinência no debate em causa;
- esconder-se quem fala sob o disfarce de uma imagem maquinal, é dizer que a imagem veicula aquilo para que foi programada;
- falta valor às palavras da imagem, falta sempre valor às palavras que não são assumidas por quem as quer dizer.
Nem todos os meios são legítimos, mesmo quando as intenções são as melhores - e, no caso, julgo que são. Sinceramente, faço votos para que esta iniciativa não se instale no debate sobre a educação escolar pública, que tão necessário se percebe ser.
Maria Helena Damião
sábado, 9 de março de 2024
Literatura e formação humana
Um dos aspetos que mais aflige na educação da juventude de hoje é a ausência de leitura – de boa leitura. Já não falo do amor dos livros que nunca chegarão a ter mas, pior do que isso, do desinteresse pelas grandes obras se não forem iniciados nelas nem criarem a apetência e a exigência necessárias. O que a médio e longo prazo é dramático porque a dimensão humana e a sua complexidade, profundidade, sensibilidade, enfim, o melhor que a natureza humana tem passa-lhes ao lado deixando-as pessoas mais pobres, mais superficiais e mais indefesas contra todos os agentes deformadores e alienantes que não parecem diminuir, antes pelo contrário.
Sem darem por isso estão a deitar fora a imensa riqueza que a cultura humana foi acumulando ao longo de milénios. Mas não só, também não usufruem o prazer que dá a leitura de uma grande obra. Acresce, e era sobre isto que incidia o artigo do Prof. Eugénio Lisboa, sempre literariamente muito rico, há obras que nos tocam de tal maneira que nos transformam, nos engrandecem, nos fazem subir patamares na compreensão do mundo e de nós mesmos e que, só por nós, nunca seríamos capazes de subir. Um bom romance pode ser muito mais formativo que muitos tratados, e fazer de um jovem, às vezes ainda estouvado e irrefletido, um ser maduro, consciente e mais centrado em relação ao mundo, aos problemas e às pessoas que o cercam; além de muito mais inteligente.
Penso que no atual ensino do Português há uma debilidade muito grande ao nível da formação e da capacidade de usufruição literárias. É provavelmente o maior problema de tudo isto. E se o aluno não tiver em casa – e geralmente não tem - quem possa compensar essa deficiência literária fica para toda a vida sem o gosto de ler e sem a consciência do que está a perder.
E o problema tende a agravar-se, não só pela falsa noção de modernidade e de capacidade com que as novas tecnologias enganam pais e filhos, mas também porque os professores mais jovens correm o perigo de já virem a sofrer do mesmo, incapazes, portanto, de criar nos alunos o gosto de ler, porque eles próprios não o têm e nem sequer têm consciência da falta que isso lhes faz.
Ao contrário do que possa pensar-se o problema podia resolver-se com uma certa facilidade. Bastava que a formação dos professores de português desse mais atenção à formação do gosto literário, à criação de exigências estéticas e passasse a avaliar os professores em função disso. Se a formação exigisse competências nesse domínio específico e criasse formas de avaliação que especificamente as avaliassem, em pouco tempo as coisas começavam a melhorar. Seria um contributo multiplicador para a formação dos jovens, a todos os níveis, mas não me parece que haja, na esfera política, quem compreenda isto.
João Boavida
quarta-feira, 6 de março de 2024
TER OU NÃO TER LIDO UM LIVRO
Por Eugénio Lisboa
Quando tinha os meus catorze ou quinze anos, li um livro que, para sempre, me marcou. Penso, às vezes, poder dizer que a minha vida teria sido diferente, se nunca tivesse lido esse livro: LE ROUGE ET LE NOIR, de Stendhal, numa magnífica tradução de José Marinho.
Tudo nele me fascinou: desde a criação da personagem de Madame de Rênal e toda uma paisagem de personagens de uma sociedade francesa pintada com mão de mestre, até ao estilo bem descascado, ágil, contundente, herdeiro feliz de Voltaire. E uma bela história de amor, de grande beleza trágica. Stendhal tinha horror às gorduras de muita prosa então em vigor e, para dar à sua veloz pontaria, naturalidade e sobriedade, forçava-se, todas as manhãs, a ler o Código Civil.
O livro “apanhou-me” totalmente e fez, para sempre, cair a caspa que sujava a prosa que eu, por essa altura, escrevia para a gaveta. De alguma literatura gótica, eu saltava, bruscamente, para aquela pena bem afiada. A morte de Madame Rênal, uma das cenas mais sublimes de qualquer literatura, ocupa literalmente uma linha de texto, desprezando qualquer ênfase. Stendhal era um mestre para ficar, embora ignorado no seu tempo, excepto para os olhos perspicazes de Balzac.
Outro livro que muito me marcou, quase pela mesma altura, foi o romance de Sienckiewicz, QUO VADIS? Num estilo sem pathos, quase neutro, nada “interveniente”, o romancista polaco pinta-nos magistralmente as grandezas e misérias do império romano.
Uma história de amor serve de fio condutor a um desvelar de loucura e crueldade, de uma dimensão nunca vista. Os inesquecíveis diálogos entre Nero e Petrónio, em que este arrisca a vida, manipulando magistralmente o imperador, deixam marca perpétua no leitor empolgado. A morte de Petrónio é um cúmulo de beleza discreta e um anúncio de um fim de mundo. Neste romance, que se lê com sofreguidão, o adolescente leitor depara-se, pela primeira vez, com a condição humana nos seus limites de crueldade, mas também de desenfastiada elegância. Não é possível ficar imune a esta tempestade que varreu o mundo.
Outro livro, de entre os vários que me fazem pensar que eu não seria o mesmo se os não tivesse lido, está a novela de Tolstoi, A MORTE DE IVAN ILITCH. Num texto de não muitas páginas, o grande ficcionista russo mergulha intrepidamente os seus instrumentos de sondagem, num dos momentos mais dilacerantes da vida humana: aquele em que o remorso por uma vida mal vivida se alia à aproximação da morte, que vai lentamente debilitando um corpo indefeso. Numa cena que é o cúmulo da observação e da arte de escrever, Tolstoi descreve-nos o pobre juiz, devorado por um cancro, abraçado ao mujik que lhe trata da higiene, como se desejando que a forte energia que dele dimana se lhe comunicasse por osmose: literalmente, um filho nos braços da mãe, que o aleita e lhe dá segurança. Esta novela de Tolstoi, apesar da sua pequena dimensão, não desmerece, na minha opinião, das grandes construções romanescas que lhe deram fama.
Há livros que admiramos, mas há outros que nos transformam profundamente. Estes três não foram os únicos que me deixaram dedada profunda. Há outros, não muitos, de que falarei noutro dia, se para isso me sentir inclinado.
Eugénio Lisboa
VITA BREVIS
A vida é uma fracção de segundo,
num universo que não dá por ela.
Quando se nasce, está-se moribundo,
se usarmos, da galáxia, a tabela.
Nascemos, crescemos e descobrimos,
e, no fim deste arco ascendente,
após termos enfrentado abismos,
fica rápido curso descendente.
A vida humana é só um momento,
bem cheio de barulho e de fúria,
como, em fim de colossal portento,
viu Macbeth, reduzido à penúria.
Vive-se (pouco) e logo se morre,
num universo que mal se percorre.
Eugénio Lisboa
A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)
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