quinta-feira, 13 de maio de 2021

A LÍNGUA PORTUGUESA (CONTINUAÇÃO)

 Segunda parte do artigo de Eugénio Lisboa sobre a língua portuguesa: 

Em entrada anterior, neste blog, publicámos uma breve antologia de testemunhos/homenagem à língua portuguesa, precedidos de algumas considerações sobre a riqueza dela e modos de a usar.  Hoje juntamos mais algumas homenagens, em verso e em prosa.

 

AFONSO LOPES VIEIRA

(1878 – 1946) 

A LÍNGUA PORTUGUESA

 

Ó Portuguesa língua, quando um dia

Floresceste nos rústicos cantares,

Quem te diria que por sobre os mares,

Com tua alma o teu génio cresceria!

 

Soou na Terra a tua melodia

E pelo orbe criou nações e lares;

Com teu ritmo de impulsos e vagares

Foste laço de povos e harmonia.

 

DAVID MOURÃO-FERREIRA

(1927 – 1996) 

EXCERTO DO LIVRO

Magia, Palavra, Corpo1993 

Faça-se todo o possível – mesmo o possível impossível – para que os povos de língua portuguesa leiam cada vez mais os autores de língua portuguesa qualquer que seja a nacionalidade a que pertençam: angolanos, brasileiros, caboverdianos, portugueses, santomenses, sem prejuízo, aliás, do estimulante conhecimento de autores de outras línguas, e pouco a pouco virá a verificar-se a crescente e saborosa mestiçagem do idioma que de Portugal “banzou”, não para “xingar” os demais povos nem para com eles “cutucar”, mas para que a todos servisse de vivo instrumento de fraterna aproximação.

 

ALBERTO DE LACERDA

(1928 – 2007)

A LÍNGUA PORTUGUESA 

Esta língua que eu amo

Com seu bárbaro lanho

Seu mel

Seu helénico sal

E azeitona

Esta limpidez

Que se nimba

De surda

Quanta vez

Esta maravilha

Assassinadíssima

Por quase todos que a falam

Este requebro

Esta ânfora

Cantante

Esta máscula espada

Graciosíssima

Capaz de brandir os caminhos todos

De todos os ares

De todas as danças

Esta voz

Esta língua

Soberba

Capaz de todas as cores

Todos os riscos

De expressão

(E ganha sempre a partida)

Esta língua portuguesa

Capaz de tudo

Como uma mulher realmente

Apaixonada

Esta língua

É minha Índia constante

Minha núpcia ininterrupta

Meu amor para sempre

Minha libertinagem

Minha eterna

Virgindade

  

EUGÉNIO LISBOA

(1930 -     ) 

OUTRO SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

 

Com a língua portuguesa me caso,

com ela vivo quando é preciso;

a língua portuguesa não tem prazo

e veste-se de luxo e conciso.

 

Vive de tristeza e de alegria,

sossega, como sabe, os aflitos

e sabe matizar a euforia,

apaziguando, suave, os altos gritos!

 

Enfeita-se com cores e buzinas,

desperta, com clamores bem sentidos

e com ares de grande dançarina,

 

aqueles que andando adormecidos

acordam àquele toque de alerta:

a língua é clamor e é oferta!

  

TERESA RITA LOPES

(1937 -     ) 

A LÍNGUA É UMA PÁTRIA 

- é dito de Junqueiro e de Pessoa

mil vezes repetido

mas não sei se sentido.

Foi sobretudo no exílio que saboreei

 

essa verdade amarga e doce.

Quando o chão do meu país me faltava

debaixo dos pés,

errava sonâmbula dia e noite

agarrada às palavras

- meu colo minha respiração meu sustento.

Hoje orgulho-me de partilhar a pátria pobre

que somos

com miríades de irmãos constelando os céus

de todos os continentes.

A riqueza maior que ter podemos

não está em cofres, bancos ou acções

mas na música da nossa língua, ecoando

por milhões e milhões de gargantas.

 

Assim damos por concluída esta modesta mas sentida homenagem à língua de Camões e Vieira.

 

Eugénio Lisboa

 

4 comentários:

  1. Poemas RIQUISSIMOS sobre o bem falar português sem dúvida alguma.
    Fascinou o meu ego tão salutar leitura.
    .
    Abraço de amizade poética
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. De vez em quando, e ultimamente cada vez mais, entre afazeres e actividades, dou comigo a tomar sentido, pela primeira vez, em que a minha língua me fala mais a mim, desde criança, do que eu a ela, e só muito tarde comecei a reparar quão carregada de cultura, de significados e de sentidos, a minha fala e escrita e leitura andava.
    Passei a perceber que a língua, só por si, nos dá a filosofia e a ciência, até das perguntas e das respostas nunca antes feitas. Comecei a ver, numa acepção muito especial de sentir, que, além dos sentidos do sistema sensorial, visão, audição, sensações corporais, paladar, olfacto, temos outros sentidos mais internos, que trabalham no silêncio e no escuro, com que sentimos dores, alegrias, entusiasmos e tristezas, paixão, saudade, amor e ódio, etc., e passamos a vida a dar sentido, aos sentimentos, ao que sentimos e ao que pensamos, porque pensamos o que sentimos, mas também sentimos, muitas vezes o que pensamos.
    E quando me ponho a pensar e a falar das minhas descobertas, e sentir em todos os sentidos é uma delas, é com a sensação, senão com a certeza, de que quando se fala ou escreve sobre algo, já estava tudo na língua.

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  3. Só uma correção: Afonso Lopes Vieira nasceu em 1878 (século XIX) e não em 1978 como está neste post.

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