sexta-feira, 7 de maio de 2021

SAFO POR EUGÉNIO


Minha recensão no Inevitável de ontem:

Estamos num tempo, em que para compensar uma injustiça histórica, estão a ser lembradas, nalguns casos mesmo descobertas, notáveis contribuições das mulheres para a cultura. Por exemplo na música, a alemã Hildergarda Bingen (1098-1179), monja, mística e compositora, foi homenageada há poucos anos quando o seu nome foi dado a uma cratera lunar.  Na pintura,a italiana Artemisia Gentileschi (1593-1656) teve uma grande exposição na National Gallery de Londres. Na ciência, a naturalista e artista alemã Maria Sibylla Merian (1647-1717), que trabalhou na América do Sul,  foi há poucos anos homenageada na sua terra natal, Frankfurt am Main, com o nome de um centro de investigação em biodiversidade.

Na poesia a autoria feminina consegue ir muito mais atrás no tempo. A autora mais antiga foi Enheduanna (2285-2250 a.C), uma princesa, sacerdotisa e poetisa  suméria. Porém, a autora mais conhecida da Antiguidade é, sem dúvida, Safo de Lesbos (c. 630 – c. 570 a.C.), que escreveu poesia lírica, isto é, poesia para ser cantada ao som da lira, que embora só parcialmente e de modo muito fragmentado, chegou até aos nossos dias.  Acaba de sair na Assírio & Alvim o livro “Poemas e Fragmentos” de Safo, que essencialmente encerra toda a sua obra conhecida. Foi seu tradutor o grande poeta português Eugénio de Andrade (1923-2005), cuja obra completa “Poesia e Prosa (1940-1986)”, em três volumes, foi publicada em 1987 pelo Círculo de Leitores. Apaixonado pela escrita de Safo, resolveu, como explica na Introdução (“Amada voz, rouxinol”) traduzi-la, apesar de não saber grego: valeu-se de traduções em inglês, francês, espanhol e italiano, que lista na bibliografia. E valeu-se  acima de tudo da sua enorme sensibilidade poética para além do seu imenso domínio da língua de Camões. Além da obra de Safo, Eugénio traduziu a poesia do espanhol Garcia Lorca e o grego Yiannis Ritsos, para além das cartas em francês da freira de Beja, Mariana Alcoforado, que, sendo prosa, não deixam de ter um tom poético,

A edição original do livro agora saído veio a lume na editora Limitar do Porto em 1974. Mas, dada a procura, tem, havido outras edições. A que tenho em mãos, com bela capa, capa dura e bom papel, é a reimpressão da segunda edição, de 1982, também na Limiar (saiu em 1995, portanto, ainda em vida do tradutor). uma quinta edição, do prelo da Fundação Eugénio de Andrade. Escreve Eugénio na sua Introdução: “Não é a primeira vez que o afirmo: esta mulher é uma das minhas fascinações mais antigas. Não admira, portanto, que aolongo da vida tenha ido coleccionando traduções da sua obra. E um dia não resisto: meti-me também eu a traduzi-la. A traduzi-la é uma maneira de falar. O que aí está, dada a minha ignorância do grego, foi-me dado a saber por outros olhos (…) foram duas ou três semanas febris, como de criação pessoal se tratasse, e nunca um outro trabalho me deu prazer semelhante.” Conclui assim a sua introdução: “Tenho esperança que o perfume a violetas das tranças de Safo não esteja de todo ausente destes versos.” Não está, de todo.

Sabe-se muito pouco sobre Safo. Segundo um epigrama atribuído a Platão ela foi a décima das musas (tradicionalmente eram só nove). A sua vida está envolta em mistério e lenda. A  sua obra perdeu-se quase por completo. Safo foi uma poetisa prolixa: terá escrito cerca de 10 000 linhas de poesia, mas só 650 sobreviveram De facto só há dois poemas que chegaram até nós na íntegra: “Ode a Afrodite”, que nos foi transmitido por Dionísio de Halicarnasso, o poema que abre o livro da Assírio & Alvim, e “Titónio”, que não está incluído pois só foram descobertos no Egipto já neste século papiros que permitiram completá-lo. É uma pena que o tempo, esse “grande destruidor”, tenha corroído o seu testemunho poético. Contudo, a sua fama ficou: se Homero, personagem inexistente, era “o poeta”, Safo era “a poetisa”. Pouco se sabendo da sua vida, o facto mais notável é ter dirigido uma escola para raparigas, em Mitilene, na sua ilha de Lesbos, a terceira maior ilha grega, onde se aprendia não só poesia e filosofia como música e dança. Na Antiguidade grega a educação era só para homens (os Jogos Olímpicos também eram só para homens). As “companheiras” de Safo vinham de todo o lado da Grécia para aprenderem com ela. Há varias reminiscências dessa companhia feminina nos fragmentos, que Eugénio dedicadamente traduziu.

É  curioso verificar as diferenças entre as versões eugenianas  e  as  versões da grande classicista da Universidade de Coimbra Maria Helena Rocha Pereira, que talvez seja mais fiel ao original, mas que talvez não será tão fiel às musas. Eugénio informa-nos que a sábia gostou das suas traduções, embora tenha feito alguns reparos. Mas vejamos alguns fragmentos de Safo  segundo a pena de Eugénio. Uns falam apenas do grupo de mulheres em festas ou celebrações:

“(…) Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças/ de oiro voluptuosamente entorna/ o caro vinho e a alegria.”

  “Com os pés ligeiros, assim dançavam/ noutro tempo as raparigas de Creta/
à roda do altar; frescas eram/ e frágeis as flores de relva que pisavam”.

“Cheia brilha a lua, e as raparigas/ de pé como a vida de um altar…”

“Para alegria das minhas companheiras/ quero cantar agora uma canção.”

Mas outros vão um pouco mais longe no que diz respeito à proximidade entre as mulheres:

“Ah, pudesses tu dormir/ no peito da mais terna amiga” (talvez o poema mais homoerótico) .

 “Pudesse esta noite durar/ não uma mas duas noites inteiras…”

“… abrasas-me…” (o poema mais curto)

“ ‘Virgindade, virgindade, para onde vais?’/  ‘A ti não voltarei, não voltarei jamais.’ ”

“De novo me torturas e quebras os membros, Eros, doce-amarga indomável serpente.”

 “Eros me afecta o coração – assim nos montes / o vento sacode os carvalhos” (escolhido para a contracapa do livro).

“Desejo e ardo.”

“… Na noite, em vigília, cantam as raparigas, cantam a tua amada, de violetas tingida”

 “… pegai na lira,/ cantai um seio de violetas.”

O nome lésbica vem da ilha de Lesbos e está associado a Safo (talvez também a palavra “safado”). Mas, de facto, não bá a certeza de que Safo tenha sido lésbica. Como se vê, os poemas não são sexualmente explícitos, mas apenas sugestivos. Segundo os relatos da Antiguidade, Safo seria uma mulher heterossexual, a quem é atribuída alguma licenciosidade. Teria tido um filho. Há quem a considere amante de Alceu de Mitilene, (c. 630 -  c. 580 a. C., portanto seu conterrâneo e contemporâneo). Por vezes as obras dos dois estão reunidas, como    na  tradução que fez o poeta Albano Martins para a Imprensa Naciona l- Casa da Moeda,  na colecção “O essencial”, “Alceu e Safo” (1986), que se pode descarregar gratuitamente do site daquela editora. Só no período helenístico é que a suspeita de ligações eróticas de Safo a  mulheres se começou a adensar. Na Idade Média a poetisa foi quase esquecida, embora Bocaccio lhe tenha feito referência. No romantismo, o inglês Alfred Tennyson foi influenciado por ela, em especial pela “Ode a Afrodite”. Mas foi no final do século XIX, no período dito decadentista, que Safo passou a ser considerada lésbica. Um dos autores que o fez foi o francês Charles  Baudelaire (1821 - 1867, portanto nascido há 200 anos). Hoje Safo entrou na cultura popular,  sendo uma figura de referência dos movimentos LGBT. Mas a controvérsia continua, entre os especialistas, sobre a sua sexualidade.

Há um livro curioso de um autor português pouco conhecido, Visconde de Vila Moura (1877-1935), de seu nome completo Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho,  publicado em Lisboa na Livraria Ferreira, em 1912, que se intitula “Nova Safo”. Há duas edições mais recentes, uma com o subtítulo “Tragédia estranha” com apresentação de Aníbal Fernandes e publicada pela Sistema Solar em 2017. E outra uma edição apenas em forma de livro electrónico (INDEX e-books), disponível na Amazon.  A personagem principal é Maria Peregrina, uma minhota rica que vai estudar para Londres, onde descobre o amor sensual. Na introdução, a professora norte-americana de Literatura Portuguesa Ana M. Koblucka diz que é  “a primeira e, de longe, a mais ambiciosa obra literária de Vila Moura (...) uma obra literária quase esquecida, considerada como o único romance decadente da literatura portuguesa (…) que merece ser resgatada do esquecimento por uma grande variedade de razões, não sendo uma das menores, a figura inédita (e única, mesmo no século seguinte da literatura lusófona) da sua protagonista, uma lésbica intelectualmente e sexualmente assertiva e uma poetisa genial.” O Visconde de Vila Moura  teve  uma vida política durante a monarquia, mas abandonou-a com a implantação da República, para se dedicar por inteiro à vida literária: pertenceu à Renascença Portuguesa, embora pouco tenha a ver com este movimento. Como não podia deixar de ser as suas referências à homossexualidade originaram polémica na época.

Termino com um dos poemas que mais gosto do livro: “No ramo alto, alta no ramo/ mais alto, a maçã/ vermelha/ ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la."

 

 

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