sexta-feira, 28 de maio de 2021

ALVARO DO CARVALHAL ENTRE FICÇÃO E REALIDADE


Meu artigo no I de ontem:

Há estudantes que sobressaem por obras realizadas antes de acabar o curso. Na técnica, há, por exemplo, o caso de Bartolomeu de Gusmão, estudante de Cânones na Universidade de Coimbra, nascido em 1685, em Santos, no Brasil, que, em 1709, aos 24 anos, solicitou ao rei D. João V uma “petição de privilégio” para desenvolver e desfrutar de um “instrumento para se andar pelo ar”: foi a “Passarola”, de que fala José Saramago no Memorial do Convento. Nas letras, há, por exemplo, o caso do estudante de Direito da mesma Universidade Álvaro do Carvalhal, nascido em Argeliz, Valpaços, em 1844, e que morreu em Coimbra em 1868, aos 24 anos, após ter publicado alguns contos em revistas, que um colega e amigo traria a lume postumamente, no mesmo ano de 1868, sob o singelo título de Contos. 

Se Gusmão é muito conhecido, o mesmo já não se passa com Carvalhal. Contudo, a sua fama tem vindo a crescer. Trago aqui o seu nome por ter acabado de reler o seu único livro, com o título moderno de Os Canibais e Outros Contos inserto na nova colecção “Clássicos Portugueses” da Livros do Brasil. O design da capa é muito semelhante ao da conhecidíssima colecção “Obras de Eça de Queiroz”. Em vez das letras garrafais  “EQ”, a capa do livro ostenta em grande as letras “AC”. A colecção “Clássicos Portugueses”, com grandes livros a preços muito acessíveis, foi lançada em 2019, com o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Na mesma colecção, encontram-se também edições recentes de Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis, e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. Portanto, Carvalhal surge, editorialmente, equiparado a Eça, Camilo, Dinis e Garrett. Já não era sem tempo!

Comparemos as datas de publicações desses clássicos. O original dos Contos de Carvalhal, com um estudo biográfico de José Simões Dias, um obscuro literato oitocentista, saiu em 1868 (repito), na Imprensa da Universidade de Coimbra. Por coincidência, Uma Família Inglesa foi publicada no mesmo ano. Viagens na Minha Terra e Amor de Perdição tinham saído, respectivamente, em 1846 e 1862. E a primeira obra publicada de Eça, O Crime do Padre Amaro, surgiria apenas em 1875. Carvalhal situa-se, portanto, cronologicamente no vértice entre o romantismo e o realismo, entre ficção e realidade. Talvez por ser autor de obra única, a história da literatura deixou-o meio esquecido, arrumado nos lados do fantástico, do horror, do grotesco, lugares que não são muito frequentados em Portugal. Os Contos de Carvalhal, entrelaçando de forma única ficção e realidade, são bastante estranhos, mas sobreviveram ao tempo.

O estudante Carvalhal estava no sítio certo à hora certa. Morava em Coimbra no tempo da “Questão Coimbrã”, ou “Questão do Bom Senso e Bom Gosto”, em que a geração de 70, portadora do realismo e naturalismo, polemizou contra o gosto vigente. O jovem Carvalhal escreveu palavras violentas contra Manuel Pinheiro Chagas, cujo Poema da Mocidade tinha sido elogiado por António Feliciano de Castilho de uma forma que desagradou a Antero de Quental. Tudo isto se passou no ano de 1865, tendo a polémica continuado no ano seguinte. Em 1865 Carvalhal tinha 21 anos, Eça 20 e Antero 23. Do outro lado estavam o também jovem Pinheiro Chagas, com 23 anos, e o bem mais idoso Feliciano de Castilho, 65 anos, Um pouco fora da questão estavam Júlio Dinis, com 26 anos, e Camilo, com 40 anos.

Álvaro do Carvalhal morreu de um aneurisma, após doença causada por este. Não teve, portanto, tempo para ter biografia. Filho de um abastado proprietário rural de origem açoriana, fez o liceu em Braga, onde publicou o seu drama O Castigo da Vingança (uma imatura história de faca e alguidar). Fiquei a saber pela bem informada introdução a Os Canibais e outros Contos do ensaísta italiano Gianluca Miragaia, especialista em literatura portuguesa dos séculos XIX e XX,  que Carvalhal teve um filho, ainda estudante do liceu em Braga, a quem a mãe deu o nome do pai, mas que este nunca conheceu (esse filho teve na sua prole uma senhora licenciada em Germânicas em Coimbra que foi colega e amiga de Vergílio Ferreira). O estudante de leis deixou colaboração esparsa em alguns periódicos, entre a qual um texto na Gazeta de Portugal em 1867 intitulado “Folhetim” que pode ser considerado uma introdução aos seus Contos e que só recentemente foi descoberto (é uma mais-valia da nova edição a inclusão desse texto). Os Contos foram republicados no Porto em 1876 e depois houve um longo hiato antes de reaparecerem nas livrarias. Só em 1978 a saudosa editora Arcádia, na sua colecção “Meia-noite”, os publicou, com o título 6 Contos Frenéticos, com introdução (na forma de dicionário), notas e fixação de textos de Manuel João Gomes, tradutor e crítico literário. Conservo da adolescência essa edição da Arcádia, com  gravuras tão curiosas quanto macabras. Manuel João Gomes faz aí uma sábia e original análise dos contos de Carvalhal: segundo ele,  não são contos fantásticos, com excepção de “Os Canibais”, por nunca ultrapassarem a linha, nem sempre nítida, que separa o natural do sobrenatural, mas sim “frenéticos”. O crítico fala de influências de William Shakespeare, nítidas na teatralidade dos diálogos, e de Voltaire, claras no erotismo que aparece aqui e ali.  E, entre os autores mais próximos de Carvalhal, de Anne Radcliffe de E. T. A. Hoffmann e de Edgar Alan Poe, um autor que Quental traduziu. Desenha um paralelismo com o francês Conde de Lautréamont, o autor dos Contos do Maldoror (1869). que não só é seu contemporâneo como também morre aos 24  anos (faz óbvia diferença Lautréamont estar em Paris e não em Coimbra). Minoriza a eventual influência dos contos de Carvalhal em Fialho de Almeida, que Óscar Lopes e António José Saraiva assinalam na sua famosa História da Literatura Portuguesa. Enfatiza o efeito de distanciamento, uma técnica aproveitada no século XX por Bertold Brecht:  Carvalhal usa a ironia e o humor para se manter à margem do seu texto.

A edição da Livros do Brasil segue a ordem original e não a ordem cronológica da escrita dos textos como a edição da Arcádia. Os seis contos são “A Febre do Jogo”, “J. Moreno”, “Honra Antiga”, “A Vestal!”, “O Punhal de Rosaura” e, para fechar com chave de ouro,  “Os Canibais”. Sem querer revelar muito, sempre digo que a “Febre do Jogo” trata de um jogador que, por engano, mata  o pai; “J. Moreno” trata de um namorador que acaba por fazer um pacto com Satanás; “Honra antiga” é um conto à moda camiliana onde uma defesa da honra é manchada por sangue; “A Vestal!” é um conjunto de histórias erótico-pornográficas nas quais a mulher surge como  um “anjo do mal”; “O punhal de Rosaura” é uma história onírica de dois amantes; e “Os Canibais” é uma história sobrenatural em que, no final, há mesmo alguém que come alguém.  Outras edições dos Contos saíram na Relógio d’Água (1990) e na Assírio & Alvim (2004), esta com posfácio de Gianluca Miraglia e, portanto, semelhante à edição da Livros do Brasil.  Quem quiser ler uma análise pormenorizada do livro encontrará facilmente na Net em PDF o ensaio O Fantástico nos Contos de Álvaro de Carvalhal (1992), de Maria do Nascimento Oliveira, saído na colecção “Biblioteca Breve” do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.

O conto “Os Canibais” ficou famoso pela adaptação cinematográfica que dele fez Manoel de Oliveira num filme de 1988, baseado numa ópera com libreto e música de João Paes, onde entraram Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira e Diogo Dória. Esse conto foi publicado pela Rolim (1984), com prefácio de Manuel João Gomes, pela Colares Editora (2002) e pela Alma Azul (2004). 

Fica para os leitores o prazer da leitura, esperando que apreciem um certo barroquismo de linguagem (Carvalhal domina a língua com mestria). A visão que modernamente temos de Carvalhal contrasta com aquela que nos foi legada pelo seu primeiro editor. Os Contos não são tanto alucinações de uma mente enferma, à espera da morte, mas sim criações de um escritor  muito lúcido, com uma grande bagagem cultural, que domina a técnica narrativa e  que gosta de se divertir, divertindo também o leitor. Escreveu Gianluca Miraglia na Intridução: “Graças ao valioso contributo de novos estudiosos (…) a imagem de Carvalhal vai libertando-se dos antiquados estereótipos e a crítica mais avisada reconhece na sua ficção uma das experiências narrativas mais notáveis e estimulantes do Romantismo português.” 

Por último, nada melhor do que deixar um excerto para que quem o não conheça se aperceba do estilo de Carvalhal. Do conto “A Febre do  Jogo”, escolhi este diálogo de dois personagens sobre o Inferno: 

“ – O Inferno é uma pífia imaginação. Tem a sua existência no mundo das quimeras. Porém…

- Bem sei. Há momentos em que, sem crítica, se aceita qualquer descarnado absurdo. Deverás de convir todavia que atravessar a montanha ao sopro temeroso da tempestade, por entre crebras faíscas e trovões mugidores, vale pelo menos tanto como atravessar os fumegantes domínios de Satã, como quer que a padraria os pinta. Ora, ainda bem, que aqui estou, salvo melhor juízo, em corpo e alma.”

Este é apenas um exemplo da proximidade entre a imaginação (no caso, o Inferno imaginado) e a realidade (no caso, o Inferno real de uma noite de tempestade) que torna a escrita de Álvaro do Carvalhal tão sedutora. O autor joga na ambivalência entre ficção e realidade, deixando-nos por vezes perplexos entre uma e outra. A realidade é, por vezes, mais estranha que a ficção.


2 comentários:

  1. Só uma nota adicional ao belamente informativo e justiceiro artigo que o Professor Carlos Fiolhais dedicou ao escritor Álvaro Carvalhal. Na importante antologia "Os Melhores Contos Portugueses" - 1ª série, incluída na prestigiosa colecção "As Antologias Universais", que João Gaspar Simões dirigiu e coordenou, para a Portugália Editora (volume vindo a luz em meados dos anos quarenta do século passado) incluía-se um conto de Álvaro do Carvalhal. Esta chamada de atenção para o esquecido escritor precede, portanto, a bela colectânea organizada pelo operoso Manuel João Gomes.
    Eugénio Lisboa

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