domingo, 25 de abril de 2010

Aquele...

De Sophia de Mello Breyner Andresen, um poema dedicado ao seu (e de muitos) herói da Revolução de Abril: Salgueiro Maia.
.
"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse."
.
Poema que fecha o Prefácio de Mário Soares ao livro Salgueiro Maia: Um homem da liberdade, da autoria de António de Sousa Duarte e publicado em 1999 pela editora Âncora (páginas 10 e 11). Publicação original no livro Musa, da editora Caminho.

22 comentários:

  1. Celebrar a data que marca o início do actual regime, no estado vergonhoso em que o mesmo se encontra é no mínimo ridículo. É desperdiçar mais dinheiro, é afundar mais o país até ao nível dos nossos amigos gregos...

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  2. Caro Doutora Helena Damião:

    Pode dizer-me o livro de Sophia de onde poema...?!?

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  3. Caro leitor Fernando Martins
    Agradeço a sua pergunta, reconhecendo o erro de não ter identificado o livro de onde tirei o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen. Não tendo encontrando o documento onde foi publicado originalmente (nem sei se o foi), reproduzi-o do "Prefácio" que Mário Soares escreveu para o livro "Salgueiro Maia: Um homem da liberdade", da autoria de António de Sousa Duarte (páginas 10 e 11).

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  4. O mesmo Salgueiro Maia que faleceu de cancro e o estado democrático recusou uma pensão de subsistência à sua viúva?

    Viva ao 25 de Abril!

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  5. O poema SALGUEIRO MAIA foi publicado no livro "Musa", cuja 3ª edição (da Caminho) é de 1994. Ignoro a data da 1ª edição.

    Já agora: os versos "Aquele que amou os outros e por isso/Não colaborou com a sua ignorância ou vício" também se poderiam dizer de Sócrates (o filósofo grego!) e de qualquer outra pessoa interessada na verdade e no conhecimento - filósofos, cientistas, artistas, etc. O que não diminui Salgueiro Maia. Pelo contrário, creio.

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  6. Caro Doutora Helena Damião:

    Não é erro nenhum, eu é que sou muito curioso e quando há um Mestre que nos (me) pode ensinar, aproveito sempre...

    PS - o blog Geopedrados roubou-lhe o post e agora vou ter de actualizar...

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  7. Caro leitor Carlos Pires,
    Agradecendo a sua informação acerca da publicação do poema em causa, tomo a liberdade de a usar para completar a referência bibliográfica.

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  8. Caro Anónimo das 14h20
    Sim, é o mesmo Salgueiro Maia que faleceu de cancro e a quem o estado democrático não tratou da melhor maneira. Sobre o seu carácter e a dificuldade que o país tem tido de o reconhecer, Mário Soares, escreveu no "Prefácio" do livro que acima identifiquei: "Tive por Salgueiro Maia o maior respeito, a mais alta admiração e estima. Antes e depois de ser Presidente da República, apontei-o aos portugueses como um dos homens a quem a nossa liberdade mais deve, um límpido símbolo da Revolução (...) Sei que morreu amargurado, considerando-se injustiçado...". Como se sabe, foi o seu valor foi reconhecido ao mais alto nível postumamente, no ano de 2009. A homenagem que, na altura, se lhe prestou foi considerada por António Sousa Duarte, que o biografou, "justa" mas "envergonhada, tímida e sem chama, "discreta e muito fugaz". Mas como escreveu Mário Soares na continuação do dito "Prefácio", "a melhor maneira de honrarmos a sua memória é continuarmos a construit o País de liberdade e solidariedade (...) que ele sonhou para todos os portugueses"

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  9. Acaso, será isto... poesia?!... JCN

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  10. Respigo da Biografia de Salgueiro Maia,na Wickipedia:
    --- --- ---
    "Madrugada de 25 de Abril de 74, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém:

    "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"

    Todos os 240 homens que ouviram estas palavras, ditas da forma serena mas firme, tão característica de Salgueiro Maia, formaram de imediato à sua frente. Depois seguiram para Lisboa e marcharam sobre a ditadura."
    --- --- ---
    Afinal continuamos no "Estado a que chegámos".

    E ainda, da mesma fonte:

    "Recusou, ao longo dos anos, ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil de Santarém e pertencer à casa Militar da Presidência da República."

    Palavras ? Para quê ? Um homem define-se a si mesmo.

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  11. E que tem isto... a ver com a poesia? JCN

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  12. Tem tudo a ver com a poesia. Ou acha que não pode haver poesia na forma de viver?

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  13. Meu caro senhor: pode e deve haver poesia em tudo; só que nem tudo... é poesia! Está ao seu alcance? JCN

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  14. Caro JCN

    Até há poesia na morte.
    Lembra-se desta de Fernando Vieira ?


    A poesia não é tão rara
    como parece.
    Na mais ínfima das coisas
    A poesia acontece.

    Aconteceu poesia
    quando,nos teus olhos
    cor do céu,
    vi um pedaço de céu
    que me cabia...

    Aconteceu poesia,
    quando as tuas mãos,
    numa carícia vaga,
    moldaram no meu rosto
    o ar de angústia,
    que o tempo não apaga.

    Aconteceu poesia,
    quando nos teus olhos,
    cor do céu,
    vi um pedaço de céu,
    que me fugia.

    Até mesmo no dia
    em que morreste,mãe,
    aconteceu poesia!

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  15. Caro JCN

    Agora veja estas quadras de um sentenciado no Porto, em 1829, a morrer na Praça Nova:

    Adeus, Maria, eu vou morrer
    QUADRAS (1)

    Leu-se alfim minha Sentença,
    Sou votado a padecer:
    Vai do Algoz a mão ferir-me,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Já da morte o frio gelo
    Minhas veias vai correr,
    Já sinto da morte o sopro,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Em teu rosto amargurado
    Meu fado me cumpre ler;
    Vou libar a fel da morte,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Seu cálice me oferece a Parca;
    Nele pego, e o vou beber;
    Nossos gostos se acabaram...
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Como rápido se escoa
    Da minha vida o prazer!
    Vou deixar, perder teus mimos,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Já a meus olhos aberta
    Vejo a campa... eu vou descer...
    Vou deixar de ver teus olhos,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Este corpo que abraçaste,
    Que já foi teu prazer,
    Vai tornar-se em pó, em terra,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Meus delírios se acabaram,
    Foi fantasma o meu prazer!
    Sonhos foram teus agrados,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Minha Márcia, o pulso meu, Sinto apressado bater...
    São os avisos da morte,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Vive, ó bela, e sobre a campa
    Doce pranto ver verter:
    Vem molhar as cinzas minhas,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Quando sobre a negra escada
    Vires meu corpo tremer,
    Dá desconto à natureza,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Márcia bela, eu subo ao cepo,
    Sem crimes, delitos ter;
    O meu dever me assassina,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Vem dos meus lábios o beijo
    Derradeiro receber:
    Vem do teu bem despedir-te,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Já sinto sobre os meus olhos
    Sombrio véu estender,
    É o véu da fria morte,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Adeus, Márcia, a campa se abre,
    Para sempre eu vou descer,
    Para sempre vou deixar-te,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    (1)Para condescendermos com os desejos de um de nossos assinantes, que não temos a honra de conhecer, transcrevemos estas quadras que ele teve a bondade de nos remeter para inserirmos no nosso Jornal, e muito lhe agradecemos o seu obséquio.

    (In "O Recreio, Jornal das famílias", Tomo III, n.º, Fev. 1937)

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  16. O joão boaventura errou

    Esta quadra, já foi corrigida por quem a leu

    Minha Márcia, o pulso meu, Sinto apressado bater...
    São os avisos da morte,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    Porque é assim:

    Minha Márcia, o pulso meu,
    Sinto apressado bater...
    São os avisos da morte,
    Adeus, Maria, eu vou morrer.

    O erro maior é a data do Jornal.
    Deve ler-se 1837.
    É o mal da proximidade do 9 com o 8, e do 8 com o 9.

    As minhas desculpas

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  17. Afinal, meu caro João Boaventura, que entende vossemecê concretamente por poesia?!.... THAT IS THE QUESTION. O resto... são cantigas de arroz pardo, como gostava de dizer o grande Aquilino, o mesmo que, ao meu jeito, chamo de banalidades. JCN

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  18. Caro JCN

    Tem razão, e está ao lado de Habermas que, numa Conferência sobre a "legitimidade" abordada pelo conferencista, no termo dela perguntou:

    "O Sr. falou de legitimidade, mas é preciso saber do que é que fala quando fala de legitimidade..."

    Assim o caro JCN me põe na penitente posição de ter que explicar o que é a poesia quando falo em poesia para que toda a gente saiba do que é que se fala quando se fala em poesia.

    Eu, penitente, confesso que não sei. Apenas sei que algumas me tocam na alma, como algumas músicas, alguns quadros, alguns livros.

    Também prefiro que não me digam o que é a poesia, para que o meu apreço por algumas não se perca.

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  19. Permita, meu caro João Boaventura, que lhe dedique este meu despretencioso poema... sobre o que entendo por poesia:

    POESIA... QUE É?

    Poesia é liberdade, amor, é tudo
    o que do chão levanta o ser humano,
    poesia, se de todo não me engano,
    é mais questão de engenho que de estudo.

    Poesia é dor, é sentimento, é luz
    que vivifica a opaca natureza
    e da matéria vil, que se despreza,
    extrai o diamante que reluz.

    Poesia é condição de santidade
    que só conhece, em termos de expressão,
    a linguagem pura da verdade.

    Que Deus me deixe, até ao fim da vida,
    curtir e albergar no coração
    o dom da Poesia... assim sentida!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  20. Correcção completa da fonte das quadras "Adeus, Maria, eu vou morrer".

    (In "O Recreio, Jornal das famílias", Tomo III, n.º 2, Fev. 1837)

    Caro JCN

    Agradeço o belíssimo soneto. Mas, dado o auto-reconhecimento de incapacidade para produzir poesia, apresento-lhe esta que também me tocou:

    Fui nova, mas fui triste; só eu sei
    como passou por mim a mocidade!
    Cantar era o dever da minha idade.
    Devia ter cantado, e não cantei!

    Fui bela. Fui amada. E desprezei...
    Não quis beber o filtro da ansiedade.
    Amar era o destino, a claridade...
    De via ter amado, e não amei!

    Ai de mim! Nem saudades, nem desejos;
    nem cinzas mortas, nem calor de beijos...
    - Eu nada soube, nada quis prender!

    E que me resta? Uma amargura infinda:
    ver que é, para morrer, tão cedo ainda,
    e que é tão tarde já para morrer!

    (Virgínia Vitorino)

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  21. Um cheirinho... a Florbela! JCN

    P.S. - Permita-me chamar-lhe a atenção para a última palavra do poema: não é "morrer", mas "viver". Desculpe! JCN

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  22. Caro JCN

    Não tem que pedir desculpa.

    Eu é que agradeço a correcção, pelo que, para que a poesia não seja transgredida, e para que o seu sentido não se perca, obrigo-me a repetir o segundo terceto:

    E que me resta? Uma amargura infinda:
    ver que é, para morrer, tão cedo ainda,
    e que é tão tarde já para viver!

    Agora faz sentido.
    Estou arrependido
    Do erro cometido.
    E fica decidido
    Não fica esquecido
    Obrigado ao amigo.

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