quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A POLÉMICA E RAZÕES COM E SEM RAZÃO

Breve Introdução: Faz quase meio século que, em Lourenço Marques, tive um polémica com uma revista local, "TEMPO", que se recusou publicar a minha resposta a um texto polémico por si despoletado

Como "ultima ratio", publiquei, a expensas minhas, 1.000 exemplares do livro "Sem contemporizar", cuja edição se esgotou em poucas semanas.

Na 1.ª página desse meu livro, em posição de destaque, transcrevi este pensamento de Raúl Proença ( um dos fundadores da "Revista  Seara Nova), que transcrevo na íntegra:

"Chama-se liberdade de imprensa o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens, de influir na opinião do país. O problema não está, evidentemente, em impedir a liberdade desses homens, mas em pôr a imprensa ao alcance de todos, de maneira que os argentários não continuem a possuir o monopólio da opinião" (in "Seara Nova", 1928). 

Porque tenho um conceito de  polémica que desejo partilhada com os meus leitores, encontro razão para transcrever este meu "post", saído neste blogue, em  16/11/209:

"Razão teve Johann Wolfgang von Goethe quando disse: “Qualquer ideia proferida desperta outra ideia contrária”. Julgo residir aqui a semente deitada à terra da polémica nem sempre bem sucedida quando, em húmus de teimosia, não é “possível discutir com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos”, em citação de Karl Popper.

Sei, por experiência de vida, que a polémica nem sempre é um campo de peleja de bons costumes e discussões bem intencionadas, na qual o manejo destro e elegante do florete da palavra deve substituir os golpes violentos e desajeitados da espada, que chegou a ser a arma de séculos passados para sustentar argumentos em que a força da razão deixava cair o lábaro aos pés da razão da força. 

Dois vultos maiores da nossa literatura, Antero de Quental e Ramalho Ortigão, foram protagonistas desse tipo de disputa, na “Questão Coimbrã”. A própria definição de polémica, “herdada da arte da guerra” (Vitorino Nemésio), nos diz da belicosidade que lhe está subjacente: “Polémico (a) adj. (do grego ‘polémicos’, belicoso, derivado de ‘polemos’, guerra)” – António de Morais Silva, Dicionário da Língua Portuguesa.

 Mas, para que não paire a sombra pesada de eu mais não ter feito que tornar-me refém de um hábito que, quase diria, me está na massa do sangue, confesso, com o “segredo” de uma confissão pública, que mais não fiz do que ser eu próprio no perfil que de mim traço (embora saiba do perigo em ser, em simultâneo, observador e observado), como aprendiz dessa difícil arte. E por que o fiz e o faço ainda? Porque entendo pessoalmente que o refúgio na tibieza do nosso silêncio, em conceito colhido e adaptado de Sophia de Mello Breyner, “equivale a deixar crer que se não julga e que nada se deseja e, em certos casos, isso equivale, com efeito, a não se desejar coisa alguma” .

Em observância a Fialho de Almeida - “a luta é legítima; eu não respeito as suas ideias, respeito-o a si” -, na polémica fui entusiasta na argumentação, firme nas convicções, retumbante no grito de revolta que levei à planície calma dos indiferentes ou ao palácio ardiloso dos poderosos sem, jamais, esquecer no adversário a pessoa a respeitar. Discuti ideias, contradisse opiniões, mas nunca procurei desabonos desnecessários nos homens que entendi falhos ou diminuídos de razão. Mas porque vivi em época madrasta da vigência da censura (e mesmo hoje numa liberdade de expressão condicionada pelo medo da ameaça de processos judiciais ainda que a razão nos faça companhia), quando defendi acalorados pontos de vista em letra impressa, sofri ameaças, veladas ou à luz do descaro público. Outras vezes, pedi a exoneração de cargos por me não curvar à vontade de vizires ou, à boa maneira camiliana, por “não respeitar os tolos”.

Merecedor de benevolência pública, me entendo! Mesmo quando cruzei ferros, empunhando na mão a pena (e, recentemente, o teclado do computador mesmo sem a preocupação em ser moderno por esta "ser a única coisa que não podemos evitar," segundo Salvador Dali) em desatino de que me penitencio numa idade em que não deve ser desculpado o moço ardor por causas que nos arrebatam em despropositado entusiasmo. Quis sempre caminhar na vida com o arrimo que busquei, quantas vezes, em esforçada e vã busca daquilo que eu tinha como verdade. Hoje, órfão da utopia de a ter como minha, desapossado de certezas, reverencio Ortega Y Gasset quando ele nos diz que “a verdade, do ponto de vista da verdadeira cultura, não é o mais importante de decidir; cultura é, frente ao dogma, discussão permanente”.

António Gedeão, perante a teimosia dos que só veem aquilo que querem ver, ainda que chamados à realidade por um humilde e dedicado Sancho Pança, legou-nos estes versos de difícil subtracção para as nossas teimosas maneiras e conveniências de torcermos as questões: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes”. Hoje, e cada vez mais, interiorizo em mim a razão que assiste ao axioma de que “quem feio ama bonito lhe parece”, bem presente em D. Quixote ao transmutar uma feiosa Aldonsa numa formosa Dulcineia. E, se a ilusão do sentido da visão nos pode enganar, mais nos pode enganar o sentimento de termos razão mesmo quando não a temos. Mas só muito raramente a vaidade tem a humildade em o reconhecer!"(fim de citação).


4 comentários:

  1. Fiquei convencido!
    Quando quiser rir com gosto venho ler os seus artigos.
    Permita-me apenas um reparo:
    Com tanta e despropositada citação, ainda acaba por se citar a si próprio,
    ainda que nada tenha para ser citado.

    Vaidade? Humildade?
    Pois sim...

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    1. Um brevíssimo comentário, apenas para lhe agradecer a crítica literária ("pro bono"?)que fez a este meu post. Tanta honra, até me fez vir aos olhos lágrimas de gratidão. Bem haja!

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  2. A realidade é expansiva, mágica, embrionária...abrange tudo o que existe, razão, inteligência, conhecimento (aqui poderemos dizer que o que existiu e deixou de existir, conquanto seja conhecido, faz parte da realidade do conhecimento), linguagem, valores, comportamentos (a realidade dos comportamentos, que é imensa, é efémera, porque tem uma existência, a maior parte das vezes, instantânea, ficando dela, quando muito, a memória ou o registo fotográfico ou de vídeo, ou de relato...) o que se teve e já não se tem, ou se perdeu e o que se busca, caso exista ou venha a existir...enfim, a realidade do 1º segundo de tempo a seguir ao "big bang" não era nada daquilo que foi no tempo dos dinossauros, nem daquilo que foi no século XX, ou que é hoje.
    Com este apontamento estou a ter um comportamento, a usar a razão e a linguagem e o conhecimento e estou a ampliar, a criar realidade.
    Se, eventualmente, eu não tiver razão no que digo, nem por isso deixo de estar a criar realidade.
    A realidade do conhecimento, baseada no uso da razão, está de tal modo ligada e intrincada com a realidade material e os comportamentos que, ao falarmos de sujeito de conhecimento e objecto de conhecimento, muitas vezes, estamos a falar da precedência da acção relativamente ao pensamento ou deste relativamente àquela.
    A razão está para a experiência assim com esta está para aquela? Ter razão é o quê? E não ter razão? Quem tem razão?
    Conheci um indivíduo que tinha razão, mas não tinha mais nada. E era acusado disso, de só ter razão...e fome. Conheci outros que tinham tudo, o que existia e o que viria a existir, mas não tinham razão. E também eram acusados disso.
    A religião, muitas vezes, promoveu a razão da justiça e da solidariedade e do amor...Mas as suas premissas eram falsas.
    A ciência da natureza descreve-a, verifica as causas e efeitos, quantifica-os, explica-os até ao ponto de dizer "isto é assim, porque acontece" ou, na geometria, "porque matematicamente é assim", pensemos no teorema de Pitágoras, mas não está a fazer mais do que constatar um facto.
    Mas também podemos ter razão porque constatamos factos que são comportamentos, condutas, de pessoas que têm ou não têm razão.
    E podemos ter razão, porque constatamos factos que são comportamentos, condutas, de pessoas, os quais não dependem de ter ou não ter razão.
    Ter razão não é tudo e pode ser muito pouco, ou nada.
    Nem tudo depende da razão. E nem todas as razões são boas.
    Ser rico, saudável e feliz pode ser uma razão melhor para viver do que ser pobre, doente e infeliz.

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    1. Claro que, em minha opinião, embora saiba que as opiniões valem o que valem - numa sociedade materialista em que o ter se sobrepõe ao ser . "ser rico, saudável e feliz pode ser (ou será mesmo) uma razão melhor para viver d que ser pobre e infeliz. O seu comentário obriga-me a uma reflexão demorada e intencional por ser eu um "amante", aquele que ama, da Filosofia. No meu tempo de aluno do antigo 7º. ano do ensino liceal (correspondente ao actual 12.º ano) embora tenha seguido a Secção de Ciências e não de Letras (antes antes do aparecimento das alíneas) a minha disciplina preferida foi Filosofia e não Matemática ou Física por exemplo. Sobre esta matéria vou escrevendo textos com as limitações inerentes, mas com grande paixão. Possivelmente, em breve, reproduzirei aqui, no DRN, um desses textos pedindo a sua benevolência para a sua leitura.

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