quinta-feira, 29 de maio de 2014

Livros com química: a história das histórias de vampiros


As histórias de vampiros como as conhecemos actualmente, assim como o Frankenstein devem muito a um encontro que ocorreu em Junho de 1816, na Villa Diodati, junto ao lago de Genebra.

Lord Byron, acompanhado pelo seu médico, John Polidori, veio encontrar-se com Percy Shelly, e a sua companheira Mary Godwin (mais tarde Mary Shelly) e Claire Clairmant, meia irmã de Mary Godwin e amante de Lord Byron. Lord Byron, o mais velho, tinha 28 anos, Mary Shelley e Claire Clairmont tinham 18 anos, Percy Shelly tinha 23 e John Polidori 20 anos. Segundo contam, numa noite de tempestade, resolveram, por proposta de Lord Byron, escrever e contar histórias fantásticas que envolvessem fantasmas ou entidades sobrenaturais. Duas dessas histórias, Frankenstein e O Vampiro, pela forma como tratam as tensões entre a sociedade e a ciência e entre a natureza e o sobrenatural, revelaram-se marcantes para a história da literatura e da sociedade (embora nem sempre tal facto seja devidamente reconhecido).

Na altura, Mary Shelly tinha um bebé, William, com cerca de seis meses, o qual nascera em Janeiro de 1816, após um parto prematuro e traumático, no início de 1815. Claire Clairmont estava grávida de Byron. Também a esposa que Percy Shelley abandonou para viajar para a Suiça com Mary Godwin, Harriet, estava, por essa altura, grávida, acabando por se suicidar por afogamento em Dezembro de 1816.

Independentemente de considerações morais, as gravidezes sucessivas e muitas vezes indesejadas, assim como as suas complicações, eram condições normais na época. Foi preciso esperar quase 150 anos para que a pílula contraceptiva, uma invenção em parte acidental da química, viesse permitir que a generalidade das pessoas pudesse fazer escolhas mais conscientes sobre a maternidade.

Também as doenças e febres, frequentemente mortais, eram comuns na época. A filha de Byron e Claire, Allegra, morreu com cinco anos, provavelmente de tifo. O filho de Mary e Percy Shelly, William, morreu de malária com três anos. A melhoria das condições de higiene e alimentação, o tratamento das águas e dos esgotos, os insecticidas que ajudaram a eliminar os mosquitos causadores da malária, as vacinas e os medicamentos modernos vieram, sem qualquer dúvida, acabar com muito do sofrimento físico das pessoas que viveram no passado. E isso nada tem que ver com a possibilidade dessas pessoas poderem ser mais menos felizes do que actualmente.

O que era certo é que as pessoas viviam até ao princípio do século XX em média muito menos do que actualmente e podiam morrer de doenças e acidentes que hoje, graças em boa parte à química, são tratáveis e evitáveis, incluindo algumas algumas de natureza mental como as depressões.

John Polidori sofria de problemas nervosos devido a uma queda e parece ter-se suicidado em 1821 com ácido cianídrico. Shelley sofria possivelmente de paranóia e depressão e morreu afogado em 1822 em circunstâncias nunca esclarecidas. Lord Byron procurou juntar-se aos gregos na sua luta pela independência e acabou por morrer com febres que se seguiram a um constipação tratada com um método já na época anacrónico: uma sangria. Mary Shelley viveu até aos 53, tendo morrido provavelmente com um tumor cerebral. A estatística melhora um pouco com Claire que, não tendo deixado obra tão visível, viveu até aos oitenta anos.

A partir da história que contou na Villa Diodati, Mary Shelley escreveu Frankenstein, ou o Prometeu moderno, editado inicialmente em 1818 e reformulado em 1831. Com base na história que contou Lord Byron, John Polidori publicou em 1819, com a autoria atribuída a Lord Byron, aparentemente por acidente, O Vampiro. Lord Byron, que não gostou da confusão, publicou a sua versão expurgada das partes vampirescas também em 1819 como anexo ao poema Mazeppa, com o título de Fragmento de um texto. A história de Percy Shelley foi esquecida e a história de Polidori, que tinha, segundo Mary Shelley conta na introdução do Frankenstein, problemas de coerência, acabou também por ser publicada em 1819, sendo na sua introdução esclarecida a questão da autoria e circunstâncias de publicação de O Vampiro.

Contrariamente a uma opinião corrente actual, julgo que o aparecimento das histórias de vampiros no século XIX não é tanto uma manifestação da nostalgia de um tempo em que o sobrenatural dominava em relação a um tempo em que a ciência vai ocupando o lugar da magia, mas antes uma manifestação da perplexidade gerada e da tensão nunca resolvida, que a partir do início do século XIX se tornou mais forte, entre as promessas da ciência, tecnologia e medicina e as manifestações do inexplicável. De facto, em livros como O Vampiro, de 1841, de Aleksei Tolstoi (escritor russo com o mesmo apelido de Liev Tolstoi), Carmilla, de 1872, de Le Fanu, ou mesmo no Drácula de de Bram Stoker, encontra-se muitas vezes a perplexidade perante as doenças, febres e fraquezas inexplicáveis, ainda à luz da ciência e medicina.

Há também implicações políticas nas histórias de vampiros do século XIX. Estes são a encarnação do mal, representados, em geral, por aristocratas lânguidos e egoístas. E, embora transportem algum erotismo e fascínio retomado nos vampiros do século XXI, são em geral seres intrinsecamente maus e causadores de desgraça que é necessário eliminar, encontrando as suas tumbas ou caixões e destruí-los usando estacas e decapitando-os.

O caso particular do vampiro feminino que é Carmilla, é nesse ponto, mais próximo dos actuais no seu erotismo latente, sendo relacionável com o poema Christabel de 1797 e 1800 (só publicado em 1816) de Coleridge que também retrata uma relação ambígua e de fascínio entre duas mulheres.

Mas, se o Vampiro de Polidori (e Byron) recriam o género de aristocrata mau e imortal que se alimenta de sangue, é com Drácula de Bram Stoker que esta personagem se cristaliza no lugar-comum do ser sobrenatural que não pode sofrer o efeito da luz e que tem pavor de alho e de cruzes, coisas que as obras de autores anteriores pouco valorizavam ou sobre as quais ironizavam.

Sendo um ser fantástico e sobrenatural, a explicação científica do vampiro não é necessária para o efeito da narrativa. No entanto, a partir de meados do século XX a inconsistência desse aspecto das histórias, além da natural procura de explicações para tudo o que nos rodeia, levou alguns autores, embora em pequeno número, a criarem narrativas mais próximas da ficção científica.

Em Eu sou a lenda, de 1954, de Richard Matheson, os vampiros surgem de uma infecção por uma bactéria que os coloniza e lhes controla o corpo. Essa bactéria precisa de sangue para sobreviver, não suporta o contacto com o ar e a luz e consegue selar as aberturas causadas por balas. Mas quando entra em contacto com o ar (por exemplo com uma estaca ou corte profundo) ou com a luz entra em grande actividade e leva o humano que colonizou à destruição. Por isso as estacas e a luz do sol destroem os vampiros. E, descobre-se mais tarde, que o medo do alho e das cruzes não passa de um atavismo associado às memórias alienadas dos humanos controlados. Entretanto, lentamente os seres humanos habituam-se à infecção e criam uma sociedade diferente na qual os últimos humanos são indesejáveis: a lenda é o último humano, um ser diferente da normalidade.


Brian Stableford, em O Império do Medo de 1988 procurou outra forma de apresentar a fantasia do mito vampiro, dando-lhe verosimilhança científica e histórica. Neste livro, fantasia-se uma história alternativa em que uma aristocracia de vampiros imortais domina a terra. Estes não têm problemas com a luz, mas o aumento do seu número é muito limitado, embora continuem a precisar de sangue, mas apenas em pequenas quantidades. Com o desenrolar da história, que vai de 1623 e 1983, percebe-se que se trata de uma doença benigna causada por um germe (mais tarde identificado como um vírus) que repara danos celulares e retarda os processos de envelhecimento celular. O sangue, modernamente substituído por comprimidos, é necessário porque alguns neurotransmissores importantes deixam de ser produzidos no corpo transformado que entra em hibernação na sua falta.

É de notar que foi em tempos apontada uma doença rara, a porfíria, como estando na possível origem do mito do vampiro. Nesta doença há acumulação de porfirinas no corpo do doente devido à produção deficiente de hemoglobina. Essas porfirinas são fotossensíveis, o que levaria os doentes a evitar a luz. Trata-se obviamente de uma hipótese muito pouco verosímil, mas mesmo assim interessante. Por outro lado, a ecologia dos vampiros clássicos, baseada no aparecimento de um vampiro por cada humano mordido, levaria à extinção da humanidade em pouco tempo de forma exponencial. Assim, como ainda há humanos, pode concluir-se que não podem existir vampiros na sua forma clássica. No entanto este argumento é muito fraco, dado que na maior parte da literatura do género, tornar-se vampiro é muito difícil: mas fácil é ser morto!

Mais recentemente, apareceu na literatura o vampiro atormentado e falador que quer explicar-se, por exemplo, em a Entrevista com o Vampiro, de 1976, de Anne Rice. Nesta narrativa, continua a ser o vampiro clássico em todas as suas ideossincrasias que se manifesta, excepto na questão do alho e das cruzes, mas a sua psicologia, e a química que lhe está associada, tornou-se mais complexa. Anne Rice não procura encontrar um explicação científica plausível para este vampiro, mas não deixa de ser interessante alguns elementos da história que evocam a química, e.g., a fábrica de índigo que era a sua quinta em Nova Orleães, no tempo em que este corante era obtido do índigo cultivado e tratado por escravos (este composto é agora obtido de forma sintética).

O vampiro jovem e cavalheiro da literatura mais recente, cujo sucesso se deve em boa parte à atracção erótica e romântica não é, na minha opinião, tão interessante como os vampiros que o precederam. Mas não se pode dizer de forma leviana que os vampiros são sempre personagens estereotipadas e que não revelam, nas narrativas fantásticas que os envolvem, relações complexas com a ciência e a sociedade.

1 comentário:

  1. Os únicos vampiros que temo são os da canção do Zeca, bem reais e que andam cheios de basófia e bem alimentados por todo o lugar. Desconhecia a história destes, que me parecem no entanto mais inofensivos, em primeiro lugar por serem do domínio fantástico e em segundo porque, ainda que o não fossem, dão-nos cerca de 12 horas de descanso, (se habitem nos círculos polares ou imediações já será outra coisa). E nem sei como podem originar paixões românticas seres que que dormem num caixão e nem se podem mexer (nunca vi nenhum caixão de duas pessoas, por exemplo, teremos medo que os mortos conversem e resolvam voltar? mania de enterrar um a um) e estão ansiosos por morderem o pescoço de qualquer que se ponha a jeito. Além disso, quando se riem, têm os incisivos/caninos muito inestéticos (pronto, podem ser de recolher como os canivetes de ponta e mola). Há uma coisa boa: pode ser que se morra imediatamente de susto, antes da perfuração.

    Gostei do artigo. As coisas que aprendi sobre lorde Byron e amigos. Os desencontros e a morte são tão humanos.

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