terça-feira, 27 de maio de 2014

Egas Moniz, o nosso único Nobel em ciências

Excerto ligeiramente adaptado do meu livro História da Ciência em Portugal (Arranha Céus).

No século XX, o cientista português mais conhecido internacionalmente foi  António Egas Moniz, o nosso único prémio Nobel em Ciência: recebeu o Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949, pelos seus trabalhos relativos à lobotomia préfrontal, em conjunto com o suíço Walter Rudolf Hess (alguns partidários do Estado Novo chamaramlhe jocosamente “o meio prémio Nobel”...).

Egas Moniz nasceu em Avanca, perto de Aveiro, no sítio onde hoje pode ser visitada a Casa Museu Egas Moniz. É curiosa a história da iniciação de Egas Moniz na técnica de raios X. Corria o ano de 1896 e era ele ainda estudante de Medicina em Coimbra quando teve a oportunidade de colaborar com o seu professor de Física, Henrique Teixeira Bastos, na reprodução das experiências de raios X, passados dois escassos meses da descoberta daqueles raios por Wilhelm Roentgen em Wuerzburg, na Alemanha. Escreveu ele muitos anos mais tarde sobre as suas experiências com os raios X:

“O facto era conhecido, mesmo no vivo, pois nenhuma descoberta teve até hoje aplicação mais rápida e imediata que a de Roentgen. Em Coimbra, porém, não se tinha feito e lembrome da alegria que tal acontecimento determinou na minha vida.”

Após ter concluído no ano de 1899 o curso de Medicina, começou por ser professor na Universidade em Coimbra. Doutorouse também naquela instituição em 1901 a tese A Vida Sexual – Fisiologia, editada em livro, que foi considerado muito avançado para a época, a tal ponto que, nos anos do Estado Novo, só era vendido mediante receita médica. Tendo sido aprovado num concurso em Coimbra para professor catedrático em 1910, mudou-se no ano seguinte para a Universidade de Lisboa, quando aí abriu a Faculdade de Medicina. A razão, pelo menos em parte, foi a sua intensa actividade política, que realizava melhor em Lisboa. Durante a 1.ª República foi embaixador em Madrid em 1917 e Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1918. Esteve presente no armistício de Versalhes em representação de Portugal. Mas, quando terminou a 1.ª República, abandonou a vida política para se dedicar em pleno à ciência.

Usando precisamente os raios X com os quais contactou na juventude, Moniz foi o autor da técnica da angiografia cerebral, que se servia da marcação de vasos sanguíneos para diagnosticar doenças do cérebro. Mas, apesar deste feito ser já merecedor do Nobel, seria outra  inovação que lhe valeria o prémio da Academia Sueca. Num congresso de Neurologia em Londres em 1935 Moniz ouviu um relato de experiências de cirurgia mental em símios, que lhes modificavam o comportamento, diminuindolhes a perigosidade. E logo pensou em aplicar essa técnica em doentes psicóticos graves. O Nobel foilhe atribuído precisamente pela sua “descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses”. A técnica, que consistia na ablação de parte do cérebro em doentes mentais, tornouse bastante popular (um médico norteamericano, Walter Freeman, foi o “campeão” das lobotomias, tendo realizado milhares delas), mas está hoje banida. A atribuição do Nobel ainda é, por isso, objecto de polémica nalguns círculos. Mas o certo é que não se pode ver o passado apenas com os olhos do presente. Entre os lobotomizados famosos em Portugal estiveram o escritor Raul Proença e Teresa Caetano, a mulher do primeiroministro Marcello Caetano. Na sua prática clínica Egas Moniz foi procurado por celebridades literárias actuais, embora não na época, como os poetas Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Há até uma história curiosa sobre o primeiro: quando Sá Carneiro lhe descreveu um problema de separação corpomente, o médico referiu-lhe um poema glosando esse tema, que tinha lido na Orfeu:

As mesas do Café endoideceram feitas ar
Caiume agora um braço... olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do ViceRei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda
E a minha ânsia é um trapézio escangalhado...).

Resposta lesta de Sá Carneiro:

– Mas esse poema é meu!

Tal como o seu colega médico Miguel Bombarda, Egas Moniz foi alvejado a tiro por um doente mental, mas conseguiu escapar aos graves ferimentos. Moniz foi o autor de várias obras científica e obras autobiográficas, como A Minha Casa, sobre a sua infância e juventude, e Confidências de um Investigador Científico, sobre a sua fulgurante carreira científica. Recebeu, além do Nobel, numerosas distinções nacionais e internacionais. O nosso Nobel deixou escola na Faculdade de Medicina de Lisboa, uma circunstância que não é normal em Portugal: a chamada escola de Angiografia de Lisboa. À cabeça dela esteve”, Pedro de Almeida Lima, o seu principal colaborador, pode mesmo dizerse em sentido literal “o seu braço direito, uma vez que Moniz sofria de gota, bem visível nas mãos, pelo que não podia operar. Mas também estiveram Reynaldo dos Santos e o seu filho João Cid dos Santos, entre outros (este não foi de algum modo o único caso de pai e filhos médicos, mas Egas Moniz não teve filhos). O médico, activo no Porto, Mário Corino de Andrade, que descobriu a “doença dos pezinhos”, também passou pelo laboratório de Egas Moniz.

2 comentários:

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